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Processo judicial, processo de escrita, processo psicanalítico

É no processo judicial que está localizado hoje o ponto de mágoa que causa o mal-estar, isto é, o real. Ponto de mágoa que como significante se reproduz na forma de um sintoma, uma articulação dolorida de gozo, que articula os interesses do imaginário jurídico. É um gozo fálico, sádico, fetichizado, da ordem do penal, tratado na esfera do crime.

O imaginário jurídico encontra seu significado na articulação da cadeia de significantes que produz um sentido para sua existência. O processo é a sua representação simbólica. No processo, imaginariamente, todos os significantes fariam sentido, não haveria significante vazio, os mal-entendidos não existiriam. O documento pactuado deve ser,

47 SHAKESPEARE, W. O Mercador de Veneza. ATO III, Cena I. Disponível em: <http:// www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000094.pdf>. Acesso em: 9 dez 2008.

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necessariamente, abrangente de todas as possibilidades. Se a possibilidade que surge inesperada, não catalogada, provocar mal-entendido, ela é excluída, é lhe negada validação. O simbólico dá forma ao imaginário e a instituição se estabelece, se reconhece, faz semblante.

O que acontece é que o outro não se reconhece no processo como o judeu. No processo não há nada que possa fazer semblante, que representa a fala do outro, a nomeação do outro. Não há significantes nestes outros, no contrato, no acordo, na sentença, neste aparato simbólico que o imaginário jurídico utiliza para validar os atos de quem os constitui: a doce juventude de Veneza. Para o judeu, os atos desprovidos de sentido acabam constituindo-o, nomeando-o como aquele miserável e desprezível usurário. O que faz sentido é a punição, não é a argumentação. Shakespeare dá voz a Shylock, mas a justiça de Veneza não. Por quê? Porque a decisão foi tomada por um duque católico, em favor de um comerciante cristão, defendido por uma nobre proprietária. Os interesses que se articulam para exercer o poder no período em que a peça trata estão aí representados. O palco da legalidade, o judiciário, é o palco da interpretação. Nele o processo tramita. Nele o simbólico se realiza e o imaginário ganha sentido, tem “impressão de verdade”.

Quando em Camus o sentimento de estrangeiridade torna-se significante dominante, o processo é algo do estranho, do não entendido, para o personagem. A partir do momento em que ele se torna interessado processual, sua vida nunca mais fará sentido, nada mais terá significado. O processo passa a ser, para ele, o espaço da desarticulação de sentidos, o império do não entendido.

O sujeito é um estranho kafkaniano, onde a resposta de todas as perguntas é não. Na impossibilidade de qualquer articulação de sentidos, o registro do imaginário jurídico deixa de ser simbolizado para o personagem. Nestes dois casos com tanta precisão narrados, a literatura oferece ao direito um campo de apoio, propõe uma parceria, oferece um método de interpretação, da escuta, de fala, que de alguma maneira poderia ser contraposto ao modelo chamado dogmático do imaginário jurídico moderno, construído desde as cenas do tribunal veneziano.

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inFluÊncia dos deuses na aÇão humana:

a desoBediÊncia de ulisses

introdução

A narrativa de Homero, na edição clássica que serve de base a este estudo,48 é não linear, ou seja, os fatos não seguem uma ordem cronológica,

como geralmente se verifica nas edições populares ou simplificadas da

Odisséia.

A Odisséia narra as viagens e aventuras de Ulisses em duas etapas: a primeira compreende os acontecimentos que, em nove episódios sucessivos, afastam o herói de casa, forçado pelas dificuldades criadas pelo deus Poseidon. A segunda consta de mais nove episódios, que descrevem sua volta ao lar sob a proteção da deusa Atena.49

A ação se inicia dez anos depois da Guerra de Troia, em que Ulisses lutara ao lado dos gregos. A ordem da narrativa é inversa: tem início pelo desfecho, a assembleia dos deuses, em que Zeus decide a volta de Ulisses ao lar.

O poema estrutura-se em quatro partes: na primeira (cantos I a IV), intitulada “Assembleia dos deuses”, Atena vai a Ítaca animar Telêmaco, filho de Ulisses, na luta contra os pretendentes à mão de Penélope, sua mãe, que decide enviá-lo a Pilos e a Esparta em busca do pai. O herói porém

48 HOMERO. Odisséia. Trad. Manuel Odorico Mendes. Edição Antônio Medina Rodrigues. 3. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: 2000. – (Texto & Arte; 5).

49 Os nomes dos deuses são utilizados indistintamente de sua origem grega ou romana. Assim, o deus do mar é ao mesmo tempo Poseidon e Netuno. A regra vale para as demais divindades. Ver: KURY, Mário da Gama. Dicionário de mitologia grega e romana. 7. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

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encontra-se na ilha de Ogígia, prisioneiro da deusa Calipso, a imortal filha de Atlas.

Na segunda parte, “Nova assembleia dos deuses”, Calipso liberta Ulisses, por ordem de Zeus, que atendeu aos pedidos de Atena e enviou Hermes com a missão de comunicar a ordem. Livre do jugo de Calipso, que durou sete anos, Ulisses constrói uma jangada e parte, mas uma tempestade desencadeada por Poseidon lança-o na ilha dos feácios (canto V), onde é descoberto por Nausícaa, filha do rei Alcínoo.

Na terceira parte, “Narração de Ulisses” (cantos IX a XII), o herói passa a contar a Alcínoo as aventuras que viveu desde a saída de Troia: sua estada no país dos Cíconos, dos Lotófagos e dos Ciclopes; a luta com o ciclope Polifemo; o episódio na ilha de Éolo, rei dos ventos; o encontro com a feiticeira Circe, que transforma os companheiros em porcos.

Na quarta parte, “Viagem de retorno”, o herói volta à Ítaca, reconduzido pelos feácios (canto XIII). Apesar do disfarce de mendigo, dado por Atena, Ulisses é reconhecido pelo filho, Telêmaco, e por sua fiel ama Euricléia.

Por fim, dos cantos XIV a XXIV, Homero narra o processo de recuperação do trono de Ítaca, com a vingança de Ulisses. Hermes arrasta as almas dos pretendentes mortos ao hades e Atena faz com que os mortais se reconciliem.