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Processo de Morrer e Processo de Luto

2. DIMENSÕES RELEVANTES DOS CUIDADOS PALIATIVOS

2.4. Processo de Morrer e Processo de Luto

A vida e a morte andam de mãos dadas e marcam ambas presença no nosso dia-a-dia. À medida que avançamos pelas diversas etapas do ciclo de vida, aproximamo-nos do incontornável destino que é a morte. Ver, cheirar, ouvir, pensar, tocar a morte é um dos desafios inerentes à prática de Cuidados Paliativos.

Se a vida ensina muitas coisas, a morte certamente também o faz, quanto mais não seja porque a morte faz parte da vida, uma vez que é uma das suas etapas. Muito do que hoje se sabe aprendeu-se com e na morte.

A morte deve ser vivida com naturalidade, em presença amiga, para que o doente possa ter alguém que esteja com ele quando morrer. E esse alguém pode ser o enfermeiro, esse enfermeiro que em tempos antes lhe deu banho, massajou-lhe as costas, conversou com ele, que esteve com ele.

A morte não pode ser vista só como uma experiência negativa que acontece na vida de cada um. A experiência da morte é algo que cada pessoa irá passar, seja a de um

familiar, de um amigo ou mesmo de um desconhecido. Pelo facto de passar por essa experiência, cada pessoa poderá compreender de uma forma mais realista o que lhe irá acontecer quando chegar a sua vez.

Saunders, cit. por Pessini e Bertachini (2008) diz-nos que

logo ficou claro que cada morte era tão única como a vida que a precedeu e que toda a experiencia daquela vida estava refletida no momento do morrer. Isso levou-nos ao conceito de dor total, que foi apresentada como um complexo de elementos físicos, emocionais, sociais e espirituais. Toda essa experiencia para o paciente inclui ansiedade, depressão e medo; preocupações com a família que passará pelo luto e frequentemente a necessidade de encontrar algum sentido na situação, uma realidade mais profunda em que confiar. Isso tornou-se a tónica de ensino e escritos sobre assuntos tais como a natureza, o cuidado da dor terminal e a família como uma unidade de cuidados.

Perante uma “perda significativa, de uma pessoa ou até de um objeto estimado, surge um processo necessário e fundamental para que o vazio deixado, com o tempo, possa voltar a ser preenchido. Esse processo é denominado de luto e consiste numa adaptação à perda, envolvendo uma série de tarefas ou fases para que tal aconteça” (Melo, 2008, p.13). Tendo em conta este pressuposto, luto e perda são partes integrantes da vida. A dificuldade em encarar o fim de vida, como parte da existência é o que faz do luto uma experiência tão assustadora e angustiante.

Luto é uma palavra que vem do latim “Luctus” e significa morte, perda, dor e mágoa. Este é um processo característico que se desenvolve sempre que se sofre uma perda significativa, contudo é um processo de transição. Ao fazer o seu luto, a pessoa adapta- se à perda e ao significado que essa perda tem na sua vida. Como tal, trata-se de um conjunto de sentimentos que necessitam de algum tempo para serem resolvidos e que não devem ser apressados. De acordo com Twycross (2001, p.63), “o luto não é apenas emocional, é também uma experiência física, intelectual, social e espiritual. O luto afeta os sentimentos, os pensamentos e o comportamento”. O luto é a experiência mais universal e ao mesmo tempo mais desorganizadora e assustadora que vive o ser humano, sendo um processo pelo qual todos acabamos por passar.

Para Freud (1915/1979, p.275), “O luto é uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém”. Embora a morte de um ente querido constitua um motivo primordial para a ocorrência do luto, essa não é a única fonte, já que outros fatos da vida o poderão provocar.

Barbosa (2006) define luto como uma reação característica a uma perda significativa, que se processa habitualmente por fases. A perda pode ser real ou simbólica: a primeira reporta-se a uma pessoa, animal ou objeto querido; a segunda refere-se a um ideal, a uma expectativa ou a uma potencialidade.

Assim, a perda pode estar relacionada com: um objeto, como por exemplo, ter um carro roubado ou um objeto de estima estragado; com a constatação da impossibilidade de atingir um objetivo traçado; à perda da juventude ou de um ente querido (por distância geográfica, por rotura de relações ou por morte). A dificuldade de tolerar a ausência do que foi perdido é comum a todos estes tipos de perda. Contudo, a perda por morte é a mais difícil, pois esta remete para o sentimento de impossibilidade de reverter o que se perdeu.

Sendo assim, o processo de luto começa no momento em que se tem consciência da perda, ou seja, desde que se confirma um diagnóstico com prognóstico de evolução desfavorável. Apesar do luto ser um mecanismo comum a todas as pessoas, cada um tem a sua forma de o realizar, variando o processo de ser humano para ser humano e ao longo do tempo.

O luto compreende fases e reações próprias, que a pessoa precisa experimentar para resolvê-lo de forma saudável. Há vários fatores de risco que influenciam na vivência e no resultado do luto. Embora a perda seja parte integrante da condição humana, a maioria das pessoas não são capazes de conviver com estas situações levando, por vezes, a lutos complicados e patológicos.

A situação de fase final de vida obriga os doentes a enfrentarem novas situações e implica adaptações sucessivas. A pessoa apresenta uma crise de vida significativa no seu equilíbrio pessoal, conduzindo a alterações no relacionamento social e familiar. Perante este contexto, poder-se-á dizer que a atenção ao luto em Cuidados Paliativos é elementar e deve ser prestada: antes da morte, durante o processo de agonia e deve prolongar-se, se necessário, depois da morte. Este apoio ao luto deve ter como alvo o doente e a família.

No nosso quotidiano ainda pensamos e falamos muito pouco acerca da morte e das perdas que sofremos, porque é um assunto tão angustiante que provoca medo relativamente de como será a nossa própria morte e dos nossos familiares. Como tal, este assunto ainda é considerado pela nossa sociedade um tema tabu. Talvez por isso, seja tão difícil aprender a lidar com o luto (como nos faz sentir, o que devemos fazer, o

que é normal acontecer e de o aceitar), pois atualmente estas perdas acontecem geralmente mais tarde nas nossas vidas.

O que torna o luto difícil de ser ultrapassado é o facto de ser um fenómeno universal e individual. Por conseguinte, este depende das perceções de cada pessoa ou família, do que se perdeu e do que a perda significa num determinado momento. De acordo com Pereira (2008, p.110) “esta situação é vivida de forma individual e depende do nível de desenvolvimento de cada um, da sua personalidade e das suas características pessoais, experiências anteriores, da condição física e psíquica, da cultura, das crenças e da adaptabilidade às situações”.

O processo de luto é algo inerente ao ser humano, pois cada um de nós tem histórias para contar sobre perdas de pessoas queridas, laços desfeitos, amores perdidos, mortes repentinas, mas a forma como as pessoas reagem às perdas é que é diferente. Sendo assim, achamos pertinente conhecer e desenvolver a nossa história pessoal para conseguirmos ajudar o outro.

Salienta-se ainda que a pessoa que experiencia o luto passa por algumas fases tal como refere Pacheco (2014):

Choque - fase caracterizada por uma espécie de paralisia da emotividade. A pessoa experiencia um momento trágico e fica como que paralisada; por momentos, o mundo abate-se à sua volta, podendo ocorrer reações de desespero, negação da perda, raiva, ansiedade e crises emocionais como o embotamento afetivo e o entorpecimento. São típicas as frases: “Não pode ser, não acredito”;

Negação - a pessoa não acredita na perda do seu familiar, agarrando-se à ideia de que o mesmo não morreu. Num primeiro momento tenta esquecer ou não pensar sobre o assunto. Posteriormente, focaliza as suas energias na tentativa da recuperação da pessoa perdida, ou na busca de um culpado para a situação, ou ainda na substituição de quem partiu por outra pessoa, deixando para trás a sua atividade profissional;

Desorganização - é a fase da dor emocional, onde o choro, a tristeza, o desgosto, a depressão, a anedonia, a disforia têm lugar de destaque. Surgem ainda queixas a nível somático, tendo especial relevo as cefaleias, os problemas digestivos, a dispneia, os suspiros, a boca seca, a visão desfocada, as palpitações, as dores musculares, o nó na garganta, o aperto no peito, as doenças infeciosas, a fadiga e a falta de energia. É também característica a dificuldade de concentração, resultando num défice da cognição e da memória de curto prazo. Em consequência, surge uma conduta alterada, com rutura da atividade de rotina, isolamento, solidão, culpabilidade/remorso, irritabilidade e

protesto. O fim de todo este quadro ocorre quando a pessoa deixa de negar todo o ocorrido e encara a realidade;

Reorganização - é a fase do reconhecimento da morte do ente querido e do ajustamento à realidade da sua perda. A pessoa começa a encarar o futuro em vez de se concentrar apenas no passado, desenvolvendo novos relacionamentos, atitudes positivas e voltando ao trabalho. Aceita viver com o vazio da perda que acabou de experienciar, conseguindo falar sobre as suas emoções sem descontrolo. Tem consciência que o luto não significa esquecer a pessoa querida mas sim uma nova forma de manter a ligação com ela. No final, consegue olhar para trás e aceitar tudo o que passou, conseguindo retirar aprendizagens com a experiência do luto.

Em suma, ao longo da nossa existência somos confrontados com pequenos e grandes lutos, através dos quais a pessoa se dá conta da sua finitude. O sentido dado à vida é repensado, as relações são refeitas a partir de uma avaliação de seu significado, o “eu” é transformado. Nada mais é como costumava ser. Como tal, há vida no luto, há esperança de transformação, de recomeço.