PROCESSO POLÍTICO NA ARGENTINA NOS ANOS 1930 E 1940
Neste capítulo pretende-se analisar a conjuntura político-social da Argentina, entre os anos 30 e 40 do século XX, quando a política trabalhista passou a figurar na agenda política. A centralidade da política trabalhista nesse período tornou-a tema de grande importância na historiografia sobre os golpes político-militares de 1930 e 1943 no país.
Em 1930, encerrou-se na Argentina, através de um golpe político-militar liderado pelo General José Felix Uriburu, o ciclo dos governos radicais iniciado com a eleição de Hipólito Yrigoyen para a presidência da Repúbica, em 1916.27 Essa foi a primeira vez, desde 1860, que um presidente eleito foi deposto, inaugurando-se o processo de ‘fazer e desfazer’ governos pelos militares. Entre 1930 e 1973, apenas dois presidentes eleitos cumpriram integralmente seus mandatos, o General Agustin P. Justo, que governou entre 1932 e 1938, e o General Juan Domingo Perón, que completou seu primeiro governo em 1952 e teve seu segundo mandato interrompido pela Revolução Libertadora de setembro de 1955 (ver MORENO, 1994).
Antecedentes da Revolução de 1930
Nas eleições de 1916, foi aplicada pela primeira vez a Lei Sáenz Peña, criada na Reforma Eleitoral de 1912, que estendeu o direito de voto a todos os homens maiores de 18 anos.28 Durante o governo do Presidente Roque Sáenz Peña (1910-1914), os setores mais progressistas das classes dominantes, entre eles o próprio presidente, deram-se conta de que a sobrevivência do sistema liberal só seria assegurada através de mudanças de caráter político e social. Essas implicavam a ampliação dos princípios do liberalismo, envolvendo, entre outras medidas, a incorporação das massas no sistema político.
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Hipólito Yrigoyen foi candidato às eleições pela Unión Cívica Radical, partido criado na década de 1880 em protesto contra o controle político e as práticas corruptas da oligarquia; os reformadores, dirigidos por Leandro N. Alem e Aristóteles del Valle, demandaram a garantia de liberdades públicas, o sufrágio honesto e a não-intervenção do governo nas eleições.
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Durante o governo de Roque Sáenz Peña, foi dada prioridade máxima à elaboração de uma reforma eleitoral. A lei estabeleceu o voto obrigatório e secreto para todos os homens maiores de 18 anos. Não estendeu o direito do voto aos estrangeiros.
Para os conservadores, o confronto com um novo tipo de eleitor foi o aspecto de incerteza da Lei 8.871 (Sáenz Peña). A consequência imediata dessa abertura política foi a eleição de Hipólito Yrigoyen, líder da Unión Cívica Radical, partido que mais lutou pela reforma do sistema eleitoral. Esse resultado afetou diretamente os conservadores, que tiveram sua representação reduzida no Congresso Nacional e nos governos provinciais (ver SMITH, 1974, p. 26). Como a Lei não permitia que estrangeiros não-naturalizados votassem e esses compunham a maior parte da classe trabalhadora, a reforma eleitoral tendeu a beneficiar mais a classe média do que a classe operária. Ainda assim, a eleição de um radical foi uma clara demonstração de insatisfação da população com o tipo de política praticada no país até então. De acordo com José Luis Romero, essa lei estava destinada a modificar a fisionomia da Argentina, ampliando os espaços de participação política (ROMERO, 1987, p. 97).
A Ley Sáenz Peña, para os conservadores, teve como resultado o período chamado de “perigo democrático”. As revoltas, ocorridas entre 1914 e 1922, abalaram a segurança psicológica das elites liberal-conservadoras. Segundo Rouquié (1978a), a multiplicação das greves entre 1914 e 1919 foi a expressão de uma situação econômica pouco sã, mas dinâmica. Em janeiro de 1919, ocorreu em Buenos Aires um violento confronto entre grevistas metalúrgicos do bairro operário de Nueva Pompeya e grupos de civis partidários da ordem. O saldo de inúmeras mortes no confronto deixou sua marca no período conhecido como a “Semana Trágica”.
A posição do presidente Yrigoyen foi ambígua. Por um lado, apoiava os grevistas, e por outro, colocava o exército nas ruas para impor a ordem. Nesse período, foram criadas organizações privadas de defesa social, como a Liga Patriótica, encabeçada por antigos colaboradores do presidente, que se encarregaram das tarefas repressivas (posteriormente a Liga Patriótica romperia definitivamente com o presidente). Esse grupo paramilitar de civis e de alguns militares teve um desempenho repressor nos conflitos ocorridos na Patagônia em 1920. Foi enviada à região, por ordem do presidente, uma pequena expedição militar integrada por tropas do 10º Regimento de Cavalaria, sob comando do militar radical tenente Coronel Varela, que autorizou o fuzilamento em massa dos rebeldes.
A atitude de Varela não foi compatível com a imagem que os radicais queriam se identificar. Como conseqüência, o presidente não lhe conferiu as glórias que o próprio
julgava-se merecedor. A medalha de honra ao mérito lhe foi dada pela Liga Patriótica. Esse episódio aumentou o desgaste nas relações entre o Estado e os militares, que acusavam o governo de estar mais preocupado com sua imagem que em recompensar ou justificar seus exércitos. Para os militares, Yrigoyen utilizou homens treinados para fazer a guerra com fins policialescos e apelava para o exército como última alternativa quando a situação tornava-se incontrolável (ver ROUQUIÉ, 1978a, p. 140-149).
Somava-se ao “perigo democrático” o chamado “perigo vermelho”, gerado pela Revolução Russa de 1917. Embora anticomunista, Yrigoyen não compartilhava da apreensão dos conservadores, que entendiam todas as demandas operárias como influência das idéias bolchevistas. Consciente do aumento do custo de vida, o presidente considerava justas as exigências dos trabalhadores e defendia a liberdade política e o bem-estar social (ver MAZO, 1955, p. 210 e p. 223-226).
Segundo Skidmore e Smith (1984, p. 84), essa posição derivou da necessidade dos radicais obterem os votos dos trabalhadores na constante disputa com os conservadores. Por outro lado, na medida em que Yrigoyen teve, pelo menos na aparência, uma atitude política pró-trabalhadores, estes últimos criaram a expectativa de possibilidade de mudança nas relações entre o Estado e o trabalho.
Yrigoyen não desenvolveu uma política social que institucionalizasse os direitos trabalhistas. A ação do governo ficou restrita à resolucão de cada manifestação operária específica. Em algumas situações, não teve dúvidas em neutralizá-las através da repressão policial.29 Independentemente do reduzido escopo da ação social do presidente Yrigoyen, ele foi o primeiro governante na história argentina a receber delegações de operários na Casa Rosada e também,o primeiro a criticar, perante o Congresso Nacional,
as condições precárias em que se desenvolvia o trabalho dos ferroviários devido ao pouco empenho que as empresas haviam posto em melhorar sua situação, antes de acontecer a greve de setembro (...) Esse movimento de reivindicação operária estava justificado em suas causas determinantes (YRIGOYEN, 1953, p. 143; tradução da autora).
Esse fragmento do discurso proferido em 1918 traduzia uma defesa aberta do presidente da greve dos ferroviários, de setembro de 1917, e um indisfarçado apoio à
causa dos grevistas. Ainda que após 1919 (Semana Trágica), o interesse de Yrigoyen pela causa trabalhista tenha arrefecido, não se pode negar o importante fato de que, na década de 1920, o presidente radical era reconhecido pelas classes trabalhadoras como seu porta-voz, tendo usado, em suas falas públicas, a linguagem esperada por elas.
Não obstante o reconhecimeto da questão trabalhista – que de resto não favoreceu os trabalhadores com a implantação de uma política social –, o governo radical foi duramente criticado pelos setores militares, que se viam excluídos dos centros de decisão política, e pelos conservadores, que se sentiam ameaçados pela “rebeldia” dos operários, expressa nas greves e nos movimentos reivindicatórios, que já se estendiam ao campo (ROUQUIÉ, 1978a, p. 140-153).
Plotkin indica Yrigoyen como o ator fundamental na quebra do consenso liberal. A seu ver, o presidente não tinha um programa concreto de governo, mas estava seguro de sua legitimidade por duas razões: a primeira, por ser uma resposta das urnas e, a segunda, por acreditar que o êxito eleitoral de seu partido simbolizava a “pátria mesmo”. Para Yrigoyen, ele e o partido encarnavam a união cívica que representava as aspirações do povo argentino. O autor reconhece que, durante o primeiro governo de Yrigoyen, a liberdade de expressão não sofreu limites, embora o discurso oficial não reconhecesse a oposição como um interlocutor legítimo no cenário político. Plotkin (1994) caracterizou essa situação como de “dupla deslegitimação”: a do próprio governo vigente em relação à oposição e a da oposição conservadora, que colocava em questão a “legitimidade do governo radical e do marco ideológico e institucional que o tornou possível” (p. 23).
Em 1922, o radical Marcelo T. Alvear foi eleito presidente do país com uma inexpressiva oposição. Alvear, chamado “o oligárquico”, em contraposição ao “popular” Yrigoyen, apoiou-se em políticos que se opunham ao governo anterior. Em 1924, a insustentável divisão interna do Partido Radical levou à constituição de dois partidos distintos. De um lado, estavam aqueles que se mantiveram fiéis ao chefe, os yrigoyenistas, também conhecidos como “genufletos” e, do outro lado, os antipersonalistas que, junto aos conservadores e socialistas, eram chamados de “contubernistas”.30
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Genuflexos (aquele que está de joelhos) foi a denominação daqueles que obedeciam a Yrigoyen incondicionalmente. Contubernistas era a palavra, segundo Romero, nova e afortunada, que qualificava os acordos entre antipersonalistas, conservadores e socialistas (viver em contubérnio: amasiados). Sobre isso, ver Romero (1994, p. 79).
A cisão interna entre os radicais passou a dominar as discussões políticas no país, principalmente a partir da eleição de 1926, quando os yrigoyenistas ganharam muitas posições no governo federal. Os ataques dos conservadores ao yrigoyenismo tornaram- se cada vez mais virulentos. As tensões, que foram abrandadas durante a presidência do radical Marcelo T. de Alvear (1922-1928), recrudesceram com a proximidade das eleições de 1928. A Lei Eleitoral foi considerada na época a “traicionera encrucijada
del cuarto oscuro” (BUCHRUCKER, 1987, p. 32-33).
De acordo com Luis Alberto Romero, a frente política anti-yrigoyenista foi consideravelmente aumentada com a dissidência do Partido Socialista Argentino, o recém-formado Partido Socialista Independente, liderado por Antonio de Tomarso e Federico Pinedo e por outros grupos minoritáros que propagavam idéias contra o sufrágio universal e a chamada “democracia obscura”. Romero afirma que, nessa ocasião, a direita Argentina estava segura dos seus objetivos e do apoio das classes proprietárias. No caso de um resultado frustrante na eleição, já se considerava a alternativa de acabar com o regime democrático que, segundo seus preceitos, “não assegurava a eleição dos melhores” (ROMERO, 1994, p. 80).
A propaganda contra Yrigoyen não foi eficiente o bastante para impedir sua consagração nas eleições de 1928, com 60% dos votos, mesmo sem o apoio do presidente em exercício, Marcelo T. Alvear. A resposta das urnas acelerou o movimento de cunho anti-democrático contra o novo presidente, que finalizariam com a eclosão da Revolução de 1930. O centro das discussões passou a ser quando e como se daria a intervenção para depor o presidente eleito. Segundo a avaliação dos conservadores, a autoridade de Yrigoyen foi algo inédito na Argentina, uma vez que o poder político atuou com relativa autonomia em relação aos que controlavam a economia. Esse novo estilo de poder era inaceitável para os setores economicamente fortes, acostumados com a permanente colaboração do Estado. Yrigoyen era visto pela oposição como a encarnação dos “vícios da democracia”, da agitação social, do caudilho autoritário e causador de todos os desmandos do país.
A Revolução de 1930
As eleições de 1928, que levaram Hipólito Yrigoyen pela segunda vez à presidência da nação, deixaram as forças opositoras sob tensão. Na concepção do General Uriburu, a “hora da espada” havia chegado.31 Apesar do apoio das massas populares a Yrigoyen, expresso nos 838.583 votos que o Partido Radical obteve, contra os 414.026 recebidos pela Frente Única, os 64.985 do Partido Socialista e os poucos votos obtidos pelo Partido Democrata Progressista e pelo Partido Comunista, o golpe não foi evitado.
A rigor, pode-se dizer que o golpe de 1930 foi consequência da intolerância dos conservadores, aliados aos militares, à forma do governo tratar as inúmeras greves que ocorreram no país principalmente a partir de 1914. Smith (1963, p. 77) afirma que a atuação de Yrigoyen, até 1919 marcada por uma acentuada simpatia aos trabalhadores, foi inibida com o desenrolar dos movimentos grevistas da Semana Trágica. As violentas batalhas entre trabalhadores e a polícia nas ruas de Buenos Aires teriam posto termo no ardor trabalhista de Yrigoyen, podendo explicar sua subseqüente indiferença com respeito aos problemas sociais.
A resistência ao golpe foi inexpressiva, e Yrigoyen, que havia pedido licença do cargo no dia anterior, saiu do cenário político, rompendo definitivamente o consenso liberal democrático iniciado na década de 1880.32 Os perigos que ameaçaram a paz no período de 1916 a 1922 (primeiro governo de Yrigoyen) não se repetiriam sob o controle de um governo forte. Com isso, a direita conservadora retornava ao poder e legitimava o golpe pelo clima de “caos social”.
31 Essa expressão foi usada pelo poeta Leopoldo Lugones em discurso, em Lima, em 1924, e publicado pelo Círculo Militar. Segundo o poeta e patriota, velho anarquista e depois nacionalista reacionário, era chegado o momento de reagir contra o mal: “A hora da espada havia chegado”. Esse chamado à intervenção do exército na política significava a necessidade de uma restauração dos valores morais que a política de Yrigoyen havia esquecido. Ver Troncoso (1957, p. 39-40). Segundo Gerassi (1968), “Lugones foi o primeiro argentino esquerdista que condenou abertamente o processo democrático. Foi o primeiro que declarou o amor à Pátria como o único valor moral e político aceitável” (p. 43, tradução da autora).
32 Até 1930, a Argentina viveu em um esquema idealizado conhecido como “modelo del ochenta”.
A década infame: 1930-1943
Os anos que se estenderam entre a Revolução de 1930 e o golpe de junho de 1943 foram marcados por sucessivas transgressões dos governantes às normas constitucionais. A coalizão vitoriosa no golpe foi liderada pelo General José Félix Uriburu, nacionalista de extrema direita, que estava convencido de que o sistema democrático não fecundaria na Argentina. Uriburu exerceu o cargo de presidente do governo provisório, entre 6 de setembro de 1930 e 20 de fevereiro de 1932. Ele liderava a facção de direita, defensora da implantação de um Estado corporativo de inclinação fascista, que se dispunha a acabar com os partidos políticos, modificar corporativamente a estrutura do Congresso, impor o voto qualificado e estabelecer um Estado autoritário. Propunha, ainda, a instituição de uma ordem hierárquica baseada na função social. O voto, contrariando a Ley Saenz Peña, deveria estar nas mãos dos membros mais “qualificados” da sociedade. O Congresso seria composto por legisladores eleitos, que representariam interesses funcionais ou corporativos, substituindo os “agentes de comitês políticos”, como Uriburu se referia aos congressistas. Uriburu governou o país sob lei marcial durante nove meses, criando a imagem de um regime brutal e implacável.
A tendência política líderada por Uriburu rompeu abertamente com a política social de Yrigoyen, através da implantação de uma “ditadura militar-policialesca”, fortalecida pela mobilização de milícias na rua. No período imediato após o golpe, Uriburu contou com o apoio, ou pelo menos com a boa vontade, de amplos setores da opinião pública argentina. Isso não significa que os grupos que se uniram a Uriburu comungassem com as idéias do General. A princípio, Uriburu catalizou, em razão de seu prestígio castrense, as forças políticas anti-yrigoyenistas dos radicais, os conservadores e os socialistas independentes. Durante a fase em que contava ser contra o governo de Yrigoyen, os setores acima apoiaram Uriburu na guerra contra o governo constitucional, mas, posteriormente, não avalizaram sua conduta política. Certamente o uriburismo não representava uma força política homogênea e bem organizada. A frente opositora se deu pelo consenso anti-liberal, principal ponto de convergência da oposição. Uriburu não se destacou por grandiosas idéias ou por um notável talento político. Ao seu lado, atuaram dois importantes intelectuais argentinos, considerados os
mais ilustres nacionalistas à época da Revolução de 1930: Leopoldo Lugones e Carlos Ibarguren.
Leopoldo Lugones, famoso poeta argentino, defendia, na década de 1920, um nacionalismo militarista, depois de ter transitado pelo anarquismo, pelo socialismo até pelo liberalismo tradicional. Foi um grande admirador do fascismo italiano e do Estado forte. A consolidação dessa posição se deu com a Primeira Grande Guerra, quando passou a defender a idéia de que,
Antes da guerra era possível, ao meu entender, crer na liberdade, na justiça, na democracia, na igualdade e nas demais ideologias do racionalismo cristão. Depois daquele experimento não vejo como. O chefe é o resultado de uma necessidade vital e a força é a única garantia positiva de viver e, nas raças de combate como a humana, a suprema razão é o triunfo da força. Se nasce leão ou se nasce ovelha, ninguém sabe por que. Mas o que nasce leão come o que nasce ovelha, simplesmente porque nasceu leão (BUCHRUCKER, 1987, p. 52; tradução da autora).
Na lógica de Lugones o poder deveria estar nas mãos do mais forte, sendo a vontade democrática uma expressão bruta, sem qualquer traço de inteligência. Depois da Revolução de 1930, Lugones reforçou suas idéias anti-liberais, acusando o liberalismo de produtor de tendências esquerdizantes. Acreditava que a democracia e seu postulado básico, governo de todos e para todos, eram uma forma de comunismo. Em seus livros La patria fuerte e La grande Argentina, ambos editados em 1930, Lugones atribuiu à Ley Sáenz Peña a má qualidade dos parlamentos, compostos por elementos eleitos por uma massa de eleitores moral e intelectualmente baixos. A teoria do corporativismo argentino foi desenvolvida por Carlos Ibarguren. Em pronunciamento na cidade de Córdoba, em 15 de outubro de 1930, sobre o sentido e as consequências da Revolução de 6 de setembro, no qual defendia a tese da compatibilidade entre o sistema de representação da opinião pública e a dos grêmios, Ibarguren afirmava:
no parlamento pode estar representada a opinião pública e permitir-se também representação aos grêmios e corporações que estão solidamente estruturadas. A sociedade tem evoluído profundamente do individualismo democrático em que se inspira o sufrágio universal à estruturação coletiva que responde a interesses gerais mais complexos e organizados em forma coerente dentro dos quadros sociais (ROMERO, 1983, p. 162; tradução da autora).
Segundo Romero, a doutrina de Ibarguren era conciliatória, uma vez que evitava as críticas da opinião pública ao corporativismo e resolvia, dentro dos critérios conservadores, a questão da representação justa.
Diretamente ligado à agitação nacionalista desde o final da década de 1920 e à facção do General Uriburu, Ibarguren defendia a idéia de que o Estado constituía o único mecanismo capaz de atuar rapidamente frente às influências estrangeiras, conservando a tradição “criolla”, em confronto com as influências do racionalismo britânico e com os comunistas. No “Estatuto del Estado Nacionalista”, de autoria de Ibarguren, os temas que se referiam ao trabalho continham, em seu interior, o matiz autoritário do tipo de Estado que acabava de ser instalado:
o Estado deve amparar e assegurar o trabalho, sua retribuição equitativa e constituir solidamente a previsão e a assistência social, de modo que todos os trabalhadores possam ter uma existência digna conforme o seu nível de vida, que será verificado periodicamente em diversas regiões do país. Por intermédio dos respectivos grupos sociais organizados – grêmios, sindicatos, corporações e profissionais liberais –, o Estado coordenará e regulamentará os interesses patronais e do trabalho, em paridade de condições, homologará os contratos coletivos que se acordem, dirimirá as questões que suscitem, a cujo efeito instituirá a magistratura do trabalho, evitando assim os conflitos e a chamada luta de classes (tradução da autora).33
O alcance e a magnitude da avaliação dos nacionalistas argentinos sobre a conjuntura política do país e a influência que exerceram sobre os governantes resultaram em um empecilho irremediável para a retomada do poder pela via democrática. Ao lado de Ibarguren e Lugones, nacionalistas como Ernesto Palacio, Julio Razusta e Julio Meinvielle foram figuras que se acercaram de Uriburu sob o signo antiliberal.
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Estatuto del Estado Nacionalista redigido por Carlos Ibarguren. Citado por Romero (1983, p. 162; sem data do Estatuto). O pensamento político corporativista e o nacionalismo argentino marcaram parte da década de 1920, a década de 1930 e a de 1940. Sabemos que a trajetória política de Perón, antes de sua ascensão ao poder a partir de 1943, esteve muito próxima dos presidentes que governaram o país durante a “Década Infame”, quando as idéias nacionalistas foram a mais forte tendência da direita. O princípio que norteava a premência do Estado forte e controlador dos conflitos sociais, e da necessidade de aplicação da justiça social foi a tônica do pensamento de Ibargurem e a marca do governo de Perón. Não encontramos nos discursos de Perón nenhuma referência à Ibarguren, mas certamente suas idéias coincidem com os princípios do último.
Uriburu foi reconhecido como chefe dos jovens nacionalistas e dirigente