SECRETARIA DE PLANEJAMENTO MUNICIPAL: PROJETO CIDADE CONSTITUINTE E REFORMULAÇÃO DO PLANO
C) O processo e resultados
A implementação do CC teve uma série de condicionantes que limitaram seu escopo, como por exemplo, a falta de uma metodologia de discussão e a dificuldade em conseguir a mobilização da população para um tema tão amplo quanto distante de suas realidades. Apesar destes limites, o processo contribuiu para que se visualizasse a possibilidade de se pensar novas formas de planejamento que fugissem aos padrões normativos e autoritários do planejamento tradicional.
Como demonstra a análise de Moura (1997), a primeira fase do processo ocorreu praticamente da mesma forma como ele havia sido estruturado. Segue então alguns dados:
• “Os GTs desenvolveram praticamente a mesma sistemática de funcionamento: debates, a partir de um temário que envolveu aspectos do eixo em questão.17 Recorreram, em escalas diferenciadas, a palestras com intelectuais e representantes de instituições e entidades que tinham estudos e propostas relativas aos assuntos em pauta, integrantes dos respectivos grupos ou não.18 As reuniões aconteceram semanalmente, com algumas descontinuidades.19 Concentrou-se o debate de propostas ao final do período, sendo que um dos grupos - Reforma e Desenvolvimento Urbano - incorporou à programação um número maior de reuniões para sistematização dos debates, antecedendo o debate final das propostas. Ao final os coordenadores e relatores elaboraram documentos com a síntese dos debates, palestras e estudos consultados, com níveis de aprofundamento variáveis segundo o grau de acúmulo alcançado.
• O nível de participação de organizações e indivíduos da sociedade civil foi bastante distinto, evidenciando que alguns eixos temáticos exerciam maior atratividade que outros e, ao mesmo tempo, que os segmentos organizados, atraídos pelo CC, se identificavam ou tinham interesses mais específicos em determinados temas. (Por) outro lado, houve um desnível significativo entre o número de inscritos e a média de participação efetiva: o GT Reforma e Desenvolvimento Urbano foi o que atraiu o maior número - 233 inscritos e uma média de 44 participantes 17 O temário parece refletir o acúmulo que tinham os organizadores com cada um dos temas propostos, além de incorporar problemáticas que podem ser consideradas estratégicas. Por exemplo: no GT Desenvolvimento Econômico - “Alternativas estratégicas para as metrópoles frente aos paradigmas tecnológicos”, “Desindustrialização de Porto Alegre”, “Perfil Econômico”, “Turismo”, “Área Rural”, “Economia Informal”, e “Desenvolvimento Tecnológico” - no GT Financiamento da Cidade - “Financiamento da Cidade e sua importância para a gestão urbana: custos do crescimento urbano”, “Receita própria”, “Receitas de crédito”, “Ações compartilhadas: setor público + setor privado”, entre outros - GT Reforma e Desenvolvimento Urbano - “Estrutura e evolução da cidade”, “Preservação do patrimônio cultural”, “Região Metropolitana”, “Descentralização”, “Meio Ambiente” (subgrupo Identidade da Cidade), “Orçamento Participativo”, “Conselhos”, “Cidade constituinte”, “Perfil de gerenciamento/descentralização” (no subgrupo Gestão Urbana), “Sistema de Planejamento e Plano Diretor”, “Função social da propriedade - solo criado”, “Regularização fundiária”, entre outros (no subgrupo Instrumentos para Reforma e Desenvolvimento Urbano) - e GT Circulação e Transportes - “A circulação e o transporte para o próximo milênio” , “O papel da empresa pública e privada na exploração do transporte coletivo”, “Política tarifária”, “Trânsito - questão de engenharia de tráfego”, “O Porto de Porto Alegre - problemas e perspectivas”, “O reescalonamento de horários como vantagem para o setor transporte”, “Como viabilizar um plano cicloviário e medidas favoráveis à circulação de pedestres”, entre outros (Moura, 1997).
18 Por exemplo, no GT Desenvolvimento Econômico: FIERGS. técnicos da prefeitura e de órgãos do estado, SENAI, Sindicato de trabalhadores e intelectuais, como Paul Singer. No GT Reforma e Desenvolvimento Urbano: pesquisadores da UFRGS, técnicos da prefeitura e representantes de organizações da sociedade civil, como a FASE e a AGEL. Note-se que neste último, as palestras concentraram-se num primeiro momento com o objeto de difundir um conhecimento básico inicial, a partir do qual foi subdivido em três subgrupos: Identidade da Cidade; Gestão Urbana; e Instrumentos para Reforma e Desenvolvimento Urbano.
19 No período - julho à dezembro - O GT Reforma e Desenvolvimento uibano realizou 20 reuniões; o de Desenvolvimento Econômico, 17; o de Circulação e Transportes, 22; e o de Financiamento da Cidade, 17 ( Relatório “Processo Porto Alegre Mais - Cidade Constituinte”, Secretaria Executiva, mimeo, s/d, apud Moura, 1997)
por reunião; o de Financiamento da Cidade foi o menos concorrido - 62 inscritos e média de 12; os outros dois tiveram um nível de participação intermediário e aproximado - 168 e 147 inscritos e uma média de 23 e 21, nos casos dos GTs Circulação e Transportes e Desenvolvimento Econômico, respectivamente.
(...)
• Por fim, o Congresso da Cidade, ponto culminante e de fechamento dessa fase do processo, aconteceu nos dias 17, 18 e 19 de dezembro. Nele foram apreciados e votados o regimento interno e os resultados das discussões dos grupos e dos dois seminários, com a devida compatibilização da comissão de sistematização.20 A sistemática adotada foi a de exposição das diretrizes por GT, classificadas em consensuais e não-consensuais, a partir da qual eram levantados destaques por parte do plenário, para posterior apreciação e votação. O critério adotado para isso foi o de maioria simples. Poderiam participar na condição de delegado, com direito a voto, os inscritos nos GTs que tivessem comparecido a pelo menos duas reuniões. Além desses, poderiam participar com direito à palavra observadores e convidados. Tomando-se o total de inscritos nos grupos, nota-se que o número de delegados situou-se um pouco abaixo - 548, de 610 - sendo que, 32,48% correspondentes à representação de instâncias governamentais.21
• O congresso aprovou, ao final, um documento contendo diretrizes, projetos e ações, os quais foram agregados, não mais em tomo dos quatro eixos temáticos dos GTs, mas de nove eixos considerados estratégicos para o desenvolvimento da cidade.22 Ao mesmo tempo, aprovou a “Carta de Porto Alegre - Inventando o Futuro”, contendo uma visão do que representou o congresso e dos princípios básicos do “projeto de futuro” articulados em tomo desses nove eixos.23”. (Moura, 1997: 175-179).
20 Abriu-se espaço no congresso para apresentação e votação de propostas inéditas, ou seja, que aparecessem no próprio evento (Moura, 1997).
21 Isso, dos âmbitos municipal, estadual e federal, com peso maior do primeiro. A representação da sociedade civil (67,52%) foi assim distribuída: Individual (18,06% - 99); Orçamento Participativo (12,04% - 66), Entidades Associativas (11,67% - 64), Entidades Patronais (6,57% - 36); Sindicato de Trabalhadores (5,29% -29); Partidos Políticos (4,60% - 25); Entidades de Profissionais Liberais (4,19%, 23); Universidades (2,73% -15); e ONGs (2,38 % - 13). Quanto ao número de convidados e observadores, encontrou-se apenas o registro dos primeiros - 50. (Relatório Processo Porto Alegre Mais - Cidade Constituinte, apud Moura, 1997).
22 Trata-se de um conjunto de linhas estratégicas, como imagens projetadas de uma cidade com múltiplas facetas: “Cidade com Gestão Democrática... Descentralizada... Que Combate as Desigualdades e a Exclusão Social ... Que Promove as Qualidades de Vida e do Ambiente ... Culturalmente Rica e Diversificada ... Atrativa e Competitiva ... Que Articula a Parceria Público/Privado ... Com Estratégia para se Financiar ... Articulada à Região Metropolitana” (Diretrizes para Porto Alegre, PMPA/Congresso da Cidade, dez/93, apud Moura, 1997).