CAPÍTULO 2 – O PANTEÃO UMBANDISTA
2.1. Natureza dos espíritos
2.1.4. Processo sincrético
Para Ferreti (1995), Prandi & Souza (2004a), Prandi (2005) e Canevacci (1996) o sincretismo constitui-se uma ferramenta de impacto na religião hegemônica – Cristianismo - a qual historicamente mostrou-se sempre resistente às práticas de matriz africana, por julgá-las anticristãs e associadas ao mal, pensamento embasado na mentalidade da teologia cristã com seu dualismo: Deus e diabo. Nas análises feitas por Ferretti (1995, p. 91) acerca do sincretismo na Casa das Minas18, no Maranhão, aquele apresenta três variantes que ele julga indispensáveis para a compreensão desse conceito, a saber:
0 – separação, não-sincretismo (hipotético); 1 – mistura, junção, ou fusão;
2 – paralelismo ou justaposição; 3 – convergência ou adaptação.
Com base na análise de Ferretti pode-se dizer que num mesmo terreiro e em outras manifestações afro-brasileiras é possível encontrar, sim, separações, misturas, paralelismos e convergências assumindo características específicas. No que diz respeito ao culto aos Caboclos, Prandi & Souza escrevem:
“Na passagem da umbanda ao candomblé, os terreiros redefiniram vários elementos rituais e simbólicos, inclusive no âmbito do sincretismo católico, mas não deixaram de lado o culto ao caboclo. O encontro do culto de caboclo do antigo candomblé com o Kardecismo gerou no passado a Umbanda” (Prandi & Souza, 2004a, p. 144).
Os Caboclos na Umbanda representam os espíritos de antigos indígenas, filhos/as de Orixás que povoaram as terras brasileiras há dezenas de anos, são os verdadeiros ancestrais em terras nativas, guardiães da natureza e das matas. Os cultos aos Caboclos estariam ligados aos rituais dos antigos negros de origem banto, na antiga África em seus cultos às divindades africanas presas à terra que, incorporados no Brasil tornaram-se - processo sincrético - indígenas desbravadores das terras brasileiras (Prandi & Souza, 2004a, pp. 121-122).
18 Casa de culto afro-brasileiro localizada em São Luís do Maranhão, chamada de a casa jeje de São Luís,
organizada na primeira metade do século XIX, por negros minas, procedentes de Daomé – África. (Ferretti, 1995, p. 117).
47 De acordo com Prandi,
“O sincretismo não é, como se pensa, uma simples tábua de correspondência entre orixás e santos católicos, assim como não representa o simples disfarce católico que os negros davam aos orixás para poder cultuá-los livres da intransigência do senhor branco, como de modo simplista se ensina nas escolas até hoje. O sincretismo representa a captura da religião dos orixás dentro de um modelo que pressupõe, antes de mais nada, a existência de dois pólos antagônicos que presidem todas as ações humanas: o bem e o mal; de um lado a virtude, do outro o pecado. Essa concepção, que é judaico-cristã, não existia na África” (Prandi, 2005, pp. 75- 76).
Mediante o exposto, tem-se a seguinte compreensão: o lado do bem ficou representado pelos Orixás e santos católicos, enquanto o lado do mal ficou representado pelos Exus e Pombagiras, espíritos julgados por este processo sincrético judaico-cristão, das profundezas e abismos escuros, isto é, figuram-se na imagem do diabo e suas legiões de demônios. Prandi escreve que foi sem dúvida um processo de cristianização das tradições banto que empurrou os Exus para o domínio do inferno cristão (Prandi, 2005, p. 77). Cabe aqui apresentar as imagens das Pombagiras que, no imaginário cristão, vestiram-se de prostitutas e pecaminosas. De acordo com Prandi, este partindo das análises de Augras (2000) em seu livro (2005, p.77), as figuras características das grandes mulheres deusas africanas passaram a compor a imagem de pecaminosas personificando, assim, o diabo. Quanto aos Exus masculinos, tiveram que passar por algumas mudanças para se adequarem ao novo contexto cultural brasileiro que, diga-se de passagem, hegemonicamente cristão. Desse modo, diante da forte repressão de ordem sexual existente e predomínio teológico judaico-cristão, acima de tudo, católico, os Exus ganharam chifres, rabos, garfos e até mesmo pés de bodes e cores de sangue ganhando coroamento final como senhores do inferno na organização da Umbanda no século XX (Prandi, 2005, pp. 79-80).
A análise de Prandi apresentada acima remete-se ao teor de Negrão, (1996, pp. 202- 220), o qual afirma que o universo mítico umbandista dividiu-se em duas categorias distintas, esquerda e direita. Trata-se, de acordo com o referido autor, da moral e ética na religião da Umbanda, como o próprio titulo do seu livro sugere, a Umbanda ficou “entre a cruz e a encruzilhada”. Com efeito, o dualismo estava posto, a religião foi obrigada a ter e aprender a conviver em seu universo mítico, com as questões do bem e do mal; os dois lados passaram a permear o imaginário umbandista. Apesar da incorporação cristã, conforme verá a seguir; a
Umbanda, na verdade, nunca conseguiu se cristianizar completamente (Prandi, 2005, p. 80; Negrão, 1996, p. 203), pois, sempre afirma trabalhar somente para o bem, mas, influenciada pela noção do bem e mal, conforme o ideal da magia, inclusive aquele ilícito ou não aceito socialmente, território este, chamado de magia negra ou Quimbanda, muito explorado por Ortiz (1991, pp. 125-162), permeia o território mágico da Umbanda.
Assim, ao se ajustar à tradição cristã brasileira, o ritual de origem africana, evidentemente, faltou preencher o tradicional dualismo cristão, céu-inferno, salvação- condenação, Deus-diabo, bem-mal e certo-errado, à luz da fé. Para isso, basta ler Prandi (2005, p. 77) que passa-se a compreender que o lado satânico desse esquema encaixou perfeitamente nos rituais e no modo de pensar dos adeptos dessas religiões dos Orixás a partir do início do século XIX, com o ressurgimento ou sistematização da Umbanda. Enquanto os Orixás ou santos da Umbanda como comumente são chamados, assumiam o terreno do bem, muito bem representados nas imagens dos Pretos Velhos e Caboclos, os Exus, agora pluralizados, assumiriam o papel de espíritos de condutas questionáveis, figuras do mal. Desse modo, o caráter ambivalente da religiosidade umbandista percorreria historicamente o imaginário tradicional dessa religião ressurgida em solo brasileiro a partir do início do século XX, conforme abordado anteriormente. Ante o exposto, compreende-se que o Cristianismo se encarregou de demonizar as práticas afro-brasileiras com o intuito de permear a ideologia cristã à moda ocidental elitista, esta muito bem representada no espiritismo Kardecista do sudeste do país, nas primeiras décadas do século XX.
Lendo Prandi (2005, p. 82), de notar que, à moda ocidental, a Umbanda interpretou o sexo feminino como estigma de perdição; pecado do sexo; tentação do homem e dissoluto. Nesse sentido, Exu também foi feito mulher; Pombagiras, mulheres sem honra, estereotipadas de prostitutas, verdadeiras dissolutas. Assim, tem-se o que veio a ser chamada de Quimbanda, conforme citado acima, ou seja, uma ramificação do interior da Umbanda, uma espécie de magia dos Exus masculinos e femininos presentes também na prática umbandista. Segundo Prandi (2005, p. 82), “não há limites para os guias da quimbanda, tudo lhes é possível (...) tudo leva ao bem, e mesmo aquilo que os outros chamam de mal pode ser usado para o bem do devoto e do cliente (...)”. Para este autor, essas práticas nada têm a ver com o Exu mensageiro que reza a tradição iorubá; são precursoras do Candomblé no século XIX. Talvez, esse processo sincrético contraditório represente muito bem o que Canevacci chama de uma “antropologia da mudança”, a qual embala uma ordem tradicional existente, para em seguida,
49 recolocá-la em um ambiente diferente com outra ordem. Aí estão os contrastes desses novos itinerários religiosos: catolicismo popular e manifestações de matriz africana (Canevacci, 1996, p. 35). Por isso, esse processo sincrético não pode ser visto de maneira simplista, conforme apontou Prandi anteriormente.