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Processo sincrético

No documento Adriano Gomes Dissertação (páginas 46-49)

CAPÍTULO 2 – O PANTEÃO UMBANDISTA

2.1. Natureza dos espíritos

2.1.4. Processo sincrético

Para Ferreti (1995), Prandi & Souza (2004a), Prandi (2005) e Canevacci (1996) o sincretismo constitui-se uma ferramenta de impacto na religião hegemônica – Cristianismo - a qual historicamente mostrou-se sempre resistente às práticas de matriz africana, por julgá-las anticristãs e associadas ao mal, pensamento embasado na mentalidade da teologia cristã com seu dualismo: Deus e diabo. Nas análises feitas por Ferretti (1995, p. 91) acerca do sincretismo na Casa das Minas18, no Maranhão, aquele apresenta três variantes que ele julga indispensáveis para a compreensão desse conceito, a saber:

0 – separação, não-sincretismo (hipotético); 1 – mistura, junção, ou fusão;

2 – paralelismo ou justaposição; 3 – convergência ou adaptação.

Com base na análise de Ferretti pode-se dizer que num mesmo terreiro e em outras manifestações afro-brasileiras é possível encontrar, sim, separações, misturas, paralelismos e convergências assumindo características específicas. No que diz respeito ao culto aos Caboclos, Prandi & Souza escrevem:

“Na passagem da umbanda ao candomblé, os terreiros redefiniram vários elementos rituais e simbólicos, inclusive no âmbito do sincretismo católico, mas não deixaram de lado o culto ao caboclo. O encontro do culto de caboclo do antigo candomblé com o Kardecismo gerou no passado a Umbanda” (Prandi & Souza, 2004a, p. 144).

Os Caboclos na Umbanda representam os espíritos de antigos indígenas, filhos/as de Orixás que povoaram as terras brasileiras há dezenas de anos, são os verdadeiros ancestrais em terras nativas, guardiães da natureza e das matas. Os cultos aos Caboclos estariam ligados aos rituais dos antigos negros de origem banto, na antiga África em seus cultos às divindades africanas presas à terra que, incorporados no Brasil tornaram-se - processo sincrético - indígenas desbravadores das terras brasileiras (Prandi & Souza, 2004a, pp. 121-122).

18 Casa de culto afro-brasileiro localizada em São Luís do Maranhão, chamada de a casa jeje de São Luís,

organizada na primeira metade do século XIX, por negros minas, procedentes de Daomé – África. (Ferretti, 1995, p. 117).

47 De acordo com Prandi,

“O sincretismo não é, como se pensa, uma simples tábua de correspondência entre orixás e santos católicos, assim como não representa o simples disfarce católico que os negros davam aos orixás para poder cultuá-los livres da intransigência do senhor branco, como de modo simplista se ensina nas escolas até hoje. O sincretismo representa a captura da religião dos orixás dentro de um modelo que pressupõe, antes de mais nada, a existência de dois pólos antagônicos que presidem todas as ações humanas: o bem e o mal; de um lado a virtude, do outro o pecado. Essa concepção, que é judaico-cristã, não existia na África” (Prandi, 2005, pp. 75- 76).

Mediante o exposto, tem-se a seguinte compreensão: o lado do bem ficou representado pelos Orixás e santos católicos, enquanto o lado do mal ficou representado pelos Exus e Pombagiras, espíritos julgados por este processo sincrético judaico-cristão, das profundezas e abismos escuros, isto é, figuram-se na imagem do diabo e suas legiões de demônios. Prandi escreve que foi sem dúvida um processo de cristianização das tradições banto que empurrou os Exus para o domínio do inferno cristão (Prandi, 2005, p. 77). Cabe aqui apresentar as imagens das Pombagiras que, no imaginário cristão, vestiram-se de prostitutas e pecaminosas. De acordo com Prandi, este partindo das análises de Augras (2000) em seu livro (2005, p.77), as figuras características das grandes mulheres deusas africanas passaram a compor a imagem de pecaminosas personificando, assim, o diabo. Quanto aos Exus masculinos, tiveram que passar por algumas mudanças para se adequarem ao novo contexto cultural brasileiro que, diga-se de passagem, hegemonicamente cristão. Desse modo, diante da forte repressão de ordem sexual existente e predomínio teológico judaico-cristão, acima de tudo, católico, os Exus ganharam chifres, rabos, garfos e até mesmo pés de bodes e cores de sangue ganhando coroamento final como senhores do inferno na organização da Umbanda no século XX (Prandi, 2005, pp. 79-80).

A análise de Prandi apresentada acima remete-se ao teor de Negrão, (1996, pp. 202- 220), o qual afirma que o universo mítico umbandista dividiu-se em duas categorias distintas, esquerda e direita. Trata-se, de acordo com o referido autor, da moral e ética na religião da Umbanda, como o próprio titulo do seu livro sugere, a Umbanda ficou “entre a cruz e a encruzilhada”. Com efeito, o dualismo estava posto, a religião foi obrigada a ter e aprender a conviver em seu universo mítico, com as questões do bem e do mal; os dois lados passaram a permear o imaginário umbandista. Apesar da incorporação cristã, conforme verá a seguir; a

Umbanda, na verdade, nunca conseguiu se cristianizar completamente (Prandi, 2005, p. 80; Negrão, 1996, p. 203), pois, sempre afirma trabalhar somente para o bem, mas, influenciada pela noção do bem e mal, conforme o ideal da magia, inclusive aquele ilícito ou não aceito socialmente, território este, chamado de magia negra ou Quimbanda, muito explorado por Ortiz (1991, pp. 125-162), permeia o território mágico da Umbanda.

Assim, ao se ajustar à tradição cristã brasileira, o ritual de origem africana, evidentemente, faltou preencher o tradicional dualismo cristão, céu-inferno, salvação- condenação, Deus-diabo, bem-mal e certo-errado, à luz da fé. Para isso, basta ler Prandi (2005, p. 77) que passa-se a compreender que o lado satânico desse esquema encaixou perfeitamente nos rituais e no modo de pensar dos adeptos dessas religiões dos Orixás a partir do início do século XIX, com o ressurgimento ou sistematização da Umbanda. Enquanto os Orixás ou santos da Umbanda como comumente são chamados, assumiam o terreno do bem, muito bem representados nas imagens dos Pretos Velhos e Caboclos, os Exus, agora pluralizados, assumiriam o papel de espíritos de condutas questionáveis, figuras do mal. Desse modo, o caráter ambivalente da religiosidade umbandista percorreria historicamente o imaginário tradicional dessa religião ressurgida em solo brasileiro a partir do início do século XX, conforme abordado anteriormente. Ante o exposto, compreende-se que o Cristianismo se encarregou de demonizar as práticas afro-brasileiras com o intuito de permear a ideologia cristã à moda ocidental elitista, esta muito bem representada no espiritismo Kardecista do sudeste do país, nas primeiras décadas do século XX.

Lendo Prandi (2005, p. 82), de notar que, à moda ocidental, a Umbanda interpretou o sexo feminino como estigma de perdição; pecado do sexo; tentação do homem e dissoluto. Nesse sentido, Exu também foi feito mulher; Pombagiras, mulheres sem honra, estereotipadas de prostitutas, verdadeiras dissolutas. Assim, tem-se o que veio a ser chamada de Quimbanda, conforme citado acima, ou seja, uma ramificação do interior da Umbanda, uma espécie de magia dos Exus masculinos e femininos presentes também na prática umbandista. Segundo Prandi (2005, p. 82), “não há limites para os guias da quimbanda, tudo lhes é possível (...) tudo leva ao bem, e mesmo aquilo que os outros chamam de mal pode ser usado para o bem do devoto e do cliente (...)”. Para este autor, essas práticas nada têm a ver com o Exu mensageiro que reza a tradição iorubá; são precursoras do Candomblé no século XIX. Talvez, esse processo sincrético contraditório represente muito bem o que Canevacci chama de uma “antropologia da mudança”, a qual embala uma ordem tradicional existente, para em seguida,

49 recolocá-la em um ambiente diferente com outra ordem. Aí estão os contrastes desses novos itinerários religiosos: catolicismo popular e manifestações de matriz africana (Canevacci, 1996, p. 35). Por isso, esse processo sincrético não pode ser visto de maneira simplista, conforme apontou Prandi anteriormente.

No documento Adriano Gomes Dissertação (páginas 46-49)