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1 O FAMILIAR COMO OBJETO EXÓTICO: O MOVIMENTO REAL DO DIREITO

1.2 AS CATEGORIAS EXPLICATIVAS DO MOVIMENTO REAL DO DIREITO

1.2.2 Processo de troca e sujeito de direito

É célebre, na crítica marxista ao direito, a passagem de Teoria Geral do Direito e Marxismo na qual se afirma que o sujeito de direito é o “átomo da teoria jurídica, o elemento mais simples e indivisível, que não pode mais ser decomposto” (PACHUKANIS, 2017a, p.

117). O sujeito de direito é identificado como a unidade mais simples da teoria jurídica, e por isso é nela que repousa o segredo último da forma jurídica (KASHIURA JÚNIOR, 2014).

Veremos neste item porque esta categoria assume tamanha importância na investigação do fenômeno jurídico.

Podemos começar com uma pergunta em alguma medida ampla: afinal, por que determinada relação social precisa se manifestar como direito, e não de outro modo qualquer?

Para Celso Naoto Kashiura Júnior e Márcio Bilharinho Naves – importantes comentadores da obra pachukaniana –, a formulação teórica de Pachukanis pode responder a esta questão justamente ao compreender dois pontos: (i) “é na forma que repousa o segredo mais íntimo do fenômeno jurídico”; e (ii) “elaborando o conceito de forma-sujeito de direito, Pachukanis dá conta do mecanismo de funcionamento do direito no processo do capital” (KASHIURA JÚNIOR e NAVES, 2011, p. 6). Em outras palavras, a forma jurídica – momento máximo em que culmina a crítica marxista ao direito, e na qual chegaremos mais adiante – resulta da articulação de categorias mais simples. Pachukanis, encontrando a unidade mais simples do fenômeno jurídico no sujeito de direito, parte desta categoria para realizar a concretização histórica gradual do direito como objeto pensado.

Ativando novamente a inspiração no exercício antropológico que conduz nossa exposição, vejamos uma passagem de Teoria Geral do Direito e Marxismo que podemos ler como um autêntico convite ao estranhamento da noção de sujeito de direito:

A crescente divisão do trabalho, a melhoria nos meios de comunicação e o consecutivo desenvolvimento das trocas fizeram do valor uma categoria econômica, ou seja, a personificação das relações sociais de produção que dominam o indivíduo. Para isso, foi preciso que os atos de troca isolados ocasionais, formassem uma cadeia de circulação ampla e sistemática de mercadorias. Nesse estágio de desenvolvimento, o valor se distingue dos preços ocasionais, perde sua característica de fenômeno psíquico individual e adquire significação econômica. Tais condições reais são necessárias também para que o homem se transforme de um exemplar de zoológico em persona jurídica, sujeito de direito individual e abstrato. Essas condições reais consistem no estreitamento dos vínculos sociais e no crescimento do poder da organização social, ou seja, da organização de classe, que atingem seu apogeu no Estado burguês “organizado”. Aqui, a capacidade de ser um sujeito de direito finalmente se destaca da personalidade concreta viva, deixa de ser uma função de sua vontade consciente ativa e se torna pura propriedade social. A capacidade de agir é abstraída de sua capacidade jurídica. O sujeito de direito recebe um duplo de si na forma de um representante, que adquire um significado de ponto matemático, de um centro no qual se concentra certa quantidade de direitos. (PACHUKANIS, 2017a, p. 122).

Pachukanis, nesta passagem, chama a atenção à transição de manifestações fenomênicas (“preço” e “personalidade concreta viva”) para formas essenciais (“valor” e

“sujeito de direito”). Qualquer forma social é histórica, e com o sujeito de direito não é diferente. Para compreender tal categoria como forma social, convém que a tornemos de familiar em exótica. Eis um estranhamento fundamental: o ser humano não nasceu sujeito de direito, mas adquiriu historicamente tal qualidade, transformando-se de “um exemplar de zoológico em persona jurídica”. Houve, assim, um longo processo pelo qual “a capacidade de ser um sujeito de direito” se destacou “da personalidade viva concreta”, ou seja, pelo qual se formou uma relação social específica.

Torna-se mais concreta, com isso, a historicidade na construção da categoria sujeito de direito. O momento histórico em que se gestaram as condições para o pleno desenvolvimento do capitalismo corresponde aos correlatos processos de expropriação dos meios de produção dos trabalhadores em favor de uma classe minoritária. “O pressuposto para que o sujeito de direito surja é, antes de tudo, a existência de uma grande massa de trabalhadores expropriados

e a concentração dos meios de produção em unidades autônomas e concorrentes”

(KASHIURA JÚNIOR, 2014, p. 185). A forma jurídica, paralelamente, encontra aí as condições para o seu desenvolvimento histórico: “a forma jurídica foi gestada no interior do processo de acumulação primitiva, quando o trabalhador direto é despossuído das condições de trabalho e adquire as condições necessárias para a sua inserção na esfera da circulação”

(NAVES, 2014, p. 79).

O processo histórico pelo qual esta relação se torna regular corresponde, portanto, ao emprego da violência física brutal que, ao longo dos séculos, dizimou incontáveis povos, seja pela escravidão ou pela aniquilação física direta, e expropriou – progressivamente – a maior parte da população mundial dos meios de produção, não lhe deixando outra alternativa para a sobrevivência senão a venda diária da força de trabalho e a subsunção ao capital. Conforme detalha Marx no vigésimo quarto capítulo d’O Capital, a acumulação primitiva caracteriza esta espoliação como condição ao desenvolvimento do modo de produção capitalista. Com isso, a separação entre produtor e meios de produção lança as bases para o desenvolvimento da forma jurídica (PAZELLO, 2016b).

Paralelamente, condições reais, como a crescente divisão do trabalho e o desenvolvimento dos meios de comunicação, resultando no estreitamento dos vínculos sociais e no desenvolvimento da organização estatal, culminaram no momento histórico em que “a capacidade de ser um sujeito de direito finalmente se destaca da personalidade viva concreta”

(PACHUKANIS, 2017a, p. 122). Assim, as massas expropriadas de trabalhadores, como compensação, recebem um presente, não apenas “raro”, como nos diz Pachukanis,18 mas em verdade duplo: a capacidade de ser juridicamente livre para possuir mercadorias e, como desdobramento desta raridade, outra não menos mágica, a capacidade de ser juridicamente sujeito para titularizar direitos.

No plano da reconstrução do concreto no pensamento, a categoria sujeito de direito é o resultado da abstração destas capacidades. O sujeito de direito torna-se a forma social pela qual os guardiões das mercadorias se reconhecem como tal e realizam o processo de troca, _______________

18 “Ao cair na dependência escrava das relações econômicas que se impõem, a suas costas, na forma das leis do valor, o sujeito econômico, já na qualidade de sujeito de direito, recebe como recompensa um raro presente:

uma vontade presumida juridicamente que faz dele um possuidor de mercadorias tão absolutamente livre e igual perante os demais quanto ele mesmo o é.” (PACHUKANIS, 2017a, p. 121).

que, em última instância, é etapa do processo de realização do valor. Aqui encontramos o que Pachukanis indica pela correspondência entre os tecidos jurídico e econômico: “[o] sujeito como titular e destinatário de todas as pretensões possíveis e a cadeia de sujeitos ligados por pretensões recíprocas são o tecido jurídico fundamental que corresponde ao tecido econômico, ou seja, às relações de produção da sociedade” (PACHUKANIS, 2017a, p. 109).

A partir disso, podemos conceber a subjetividade jurídica como a realização do capitalismo (KASHIURA JÚNIOR, 2014) e, mais do que isso, também como a forma que

“diferencia o próprio direito das demais relações sociais burguesas” (PAZELLO, 2015, p.

137). A capacidade de titularizar uma mercadoria, pela qual o sujeito a ela se opõe e pode trocá-la por outras equivalentes, encontra sua completa realização jurídica e econômica na capacidade de titularizar e ser destinatário de “de todas as pretensões possíveis”.

A crítica marxista ao direito, com isso, afirma que foram determinadas forças reais que tornaram o ser humano de unidade biológica em sujeito de direito, e que é a partir desta noção que se entrelaça o tecido jurídico moderno. E aqui chegamos a uma chave fundamental para a compreensão não simplificada ou redutiva do pensamento pachukaniano. O fato de o sujeito do direito, átomo da teoria jurídica, ser encontrado no processo de troca, não significa que tudo que há para ser conhecido sobre o fenômeno jurídico se exaure neste momento específico. A história do capitalismo reservou ao desenvolvimento da forma jurídica uma complexidade que, sob o critério da totalidade, exige o esforço de articularmos mediações a partir destas primeiras apreensões.

É assim que passamos a visualizar o sujeito de direito não apenas isolado em seu aspecto atômico, mas simultaneamente em seu movimento no tecido jurídico-econômico. A sociedade capitalista, afinal, “se apresenta como uma cadeia ininterrupta de relações jurídicas” (PACHUKANIS, 2017a, p. 97). Ora, uma vez que, no capitalismo, a troca de mercadorias tende a se universalizar para todas as esferas da vida, as relações jurídicas correspondentes se encadeiam simultaneamente unindo os sujeitos de direito em suas pontas.

Não se quer dizer com isso que a troca não existisse como prática em outros momentos históricos. Mas é no capitalismo que ela se generaliza como modo de produção da vida, não por um movimento meramente voluntarista, mas sim porque esta é uma condição da realização cíclica do processo de valorização, cuja tendência, em termos globais, é se expandir a todos os domínios da vida.

É neste olhar panorâmico que começamos a encontrar a forma jurídica: “[o] encontro de dois proprietários para a troca de suas mercadorias é, independentemente de qualquer exterioridade, uma relação jurídica: a forma deste encontro de proprietários é a forma do direito” (KASHIURA JÚNIOR, 2009, p. 71-72). Ou seja, a prática da troca de mercadorias como forma social é a origem histórica da forma jurídica, tema ao qual retornaremos mais adiante.

Por ora nos interessa observar que, no movimento contínuo desta cadeia, acaba ocorrendo uma inversão fundamental. Assim como a relação de valor das mercadorias aparece como “totalidade de relações reificadas”, a capacidade de ser sujeito de direito aparece como

“totalidade de relações em oposição a uma coisa” (PAZELLO, 2015, p. 136). Eis o fundamento do que se pode denominar fetichismo jurídico: “a capacidade abstrata de qualquer um de vir a ser portador de direitos de propriedade torna difícil para o pensamento burguês ver algo além de sujeitos de direito” (ARTHUR, 2017, p. 30).

Isso permite que, potencialmente, a forma sujeito de direito se generalize a todas as situações em que exista a oposição do ser humano a uma coisa qualquer, já não mais apenas a mercadoria. A formulação do assim chamado “direito à vida”, por exemplo, apenas é possível a partir da oposição artificial do ser humano consigo mesmo. A revolução de 1789, no berço da sociedade tipicamente capitalista, já era a expressão política desta oposição: “[a]s reivindicações políticas trouxeram consigo a utilização do termo direito, embora a palavra desejo ou possibilidade tivesse sido mais justa” (MIAILLE, 2005, p. 149). Não é motivo de surpresa, neste sentido, que hoje alguém escreva um livro sobre “o direito a uma morte digna”

ou defenda “o direito das árvores e florestas” – mesmo, neste último caso, estando ausente o ser humano diretamente. A familiaridade com a forma sujeito de direito, destacada da realidade concreta que a origina, torna-se campo fértil para os mais engenhosos tipos de releitura da fictio iuris19 original encontrada na troca de mercadorias.

Para ficar só com estas situações, entre tantas outras semelhantes, podemos perceber certa familiarização que a forma sujeito de direito assume na sociedade capitalista, ou seja, o fetichismo de uma forma social exótica, específica, absurda e com origem histórica _______________

19 Expressão utilizada por Marx em “Na sociedade burguesa, predomina a fictio juris [ficção jurídica] de que todo homem possui, como comprador de mercadorias, um conhecimento enciclopédico sobre elas” (MARX, 2017, p. 114, nota 5).

determinada a relações sociais indiferenciadas e que apenas artificialmente aparecem como jurídicas: “a diversidade concreta de relações do homem [ser humano] com as coisas surge como uma vontade abstrata do proprietário” (PACHUKANIS, 2017a, p. 121).

Em parte, este fetichismo explica porque o direito, assim como o valor, se define como algo “enigmático” e costuma aparecer a nós como se fosse dotado de “propriedades místicas”.20 Torna-se difícil apreender com precisão o que é direito quando temos a falsa sensação de que somos naturalmente sujeitos de direito e nos acostumamos a pensar o mundo vestidos desta fantasia. Na contracorrente, compreender a historicidade da forma sujeito de direito, estranhando-a, é o primeiro passo para desmistificar o fenômeno jurídico, isto é, desvendar o seu movimento real como produto histórico da prática humana.