1.3 PROCESSOS DE APRENDIZAGEM NAS ORGANIZAÇÕES DE
1.3.1 Processos de aprendizagem no contexto do futebol
Em um primeiro momento, vale ressaltar que, na literatura científica nacional, são raras as pesquisas cujo objeto de estudo é o fenômeno psicossocial da aprendizagem no contexto futebolístico. Além disso, ao considerar que o futebol é um esporte muito difundido no Brasil, é surpreendente a escassa literatura abordando uma perspectiva psicológica nesse esporte (MORAES et al., 2004). Estudos que se aproximam desta abordagem são mais recorrentes nas áreas antropológica e sociológica.
O estudo de Damo (2008) traz uma perspectiva sociológica para o aprendizado do futebol, associando-o, conforme os futebolistas entrevistados, a um dom. Segundo o autor, “[...] o encobrimento da aprendizagem era algo frequente nas narrativas de atletas consagrados, cujo sucesso tende a ser explicado como natural ou dadivoso” (p. 140). Outro aspecto destacado por Damo (2008) é que, nas biografias de ex- jogadores e em depoimentos coletados de atletas, nota-se um misto de romantização e naturalização do aprendizado. No contexto do futebol, o termo “dom” é utilizado com muita frequência, em diferentes acepções, sendo uma delas como sinônimo de talento. Corroborando esta afirmação, Rodrigues (2004) evidenciou, em sua pesquisa, que a crença no dom para ser jogador de futebol é o principal fator motivador dos atletas entrevistados.
A caracterização do aprendizado do jogador profissional contemporâneo é decorrente de uma instituição disciplinadora, dotada de regras, normas e princípios científicos (positividades), tendo como objetivo produzir, manipular, individualizar, adestrar e aperfeiçoar o corpo do indivíduo, tornar o jogador dócil e utilitário (RODRIGUES, 2004). Esse método contemporâneo de aprendizado do futebol vai de encontro ao que foi demonstrado no trabalho de Toledo (2002). Conforme o autor, a “magia” do futebol brasileiro, caracterizada pela habilidade técnica em detrimento da tática e da força física, foi oriunda de uma má interpretação das regras universais do futebol no Brasil. Na origem do futebol no Brasil, o contato corpo a corpo foi tido como irregular e, devido a isso, os futebolistas brasileiros inventaram dribles,
gingas e diversas outras habilidades nas jogadas. Este estilo brasileiro de jogar futebol entrou em declínio a partir das últimas décadas do século XX, quando o processo de modernização e comercialização do espetáculo futebolístico implicou a necessidade cada vez maior de vitórias. Portanto, fez-se necessária a mudança na forma de jogar futebol, obrigando os jogadores dos clubes a adotar um estilo mais competitivo, pautado na aplicação tática e na preparação física (RODRIGUES, 2004).
Ao retomar os conceitos de processos formais e informais de aprendizagens individuais, já destacados nesta tese por Carvalho (1999), Shugurensky (2000) e Gohn (2006), é possível estabelecer que, no meio futebolístico, as aprendizagens formais estão relacionadas com o ensino dos aspectos técnicos, táticos e comportamentais (CORRÊA et al, 2002) em ambientes destinados para tal finalidade, como escolinhas de futebol, categorias de base dos clubes e aulas de educação física nas escolas. As aprendizagens informais podem ocorrer quando a pessoa assiste aos jogos de futebol, pratica-o como esporte, em momentos de lazer, ou, até mesmo, na leitura sobre as regras do jogo, entre demais fontes de natureza informal que podem construir aprendizados. Existem estudos na área da educação física e em outras áreas do conhecimento, ligadas ao rendimento esportivo, que estabelecem métodos formais para o aprendizado do futebol. No que tange à iniciação ao futebol, Filgueira (2006) revela que o esporte deve se adaptar à condição técnica, física e psicológica da criança, de forma compatível com as suas necessidades e possibilidades adequadas à sua maturação orgânica funcional – embora nem sempre esta perspectiva de respeito ao desenvolvimento infantil seja o que acontece na prática.
A ciência nas últimas décadas tem tido importante participação no futebol. Consequentemente, o nível do jogo e dos atletas, em muitos pormenores, tem melhorado. Como em todos os esportes coletivos, o futebol é um jogo de campo complexo, com vários aspectos interativos, em que a eficiência dos jogadores durante as partidas depende principalmente da associação de fatores táticos, técnicos e físicos (SILVA; ROMANO; YAZBEK JR.; BATTISTELLA, 1997). Os treinamentos táticos promovem a capacidade de percepção, antecipação e tomada de decisão dos atletas. O desenvolvimento da tática ocorre por meio das ações do esporte, o que justifica a importância do comportamento tático do jogador para o rendimento esportivo. Fazem parte deste treinamento as ações de ocupação do espaço em campo, noção de tempo, adaptação às situações do jogo, cooperação entre atletas e movimentação em campo. Os fatores técnicos englobam o
conjunto de fundamentos básicos que diferencia o futebol dos demais esportes, cuja peculiaridade está no uso dos pés, pernas e da cabeça para executar as ações básicas como defender, atacar e marcar gols. Tais fatores estão relacionados à psicomotricidade, a fim de desenvolver ações motoras perfeitas que proporcionem um maior desempenho objetivo e econômico no atleta. Por fim, os aspectos físicos envolvem atividades osteomusculares por meio da fisiologia do exercício. Permite aos atletas o ganho de força, aumento de massa muscular, reforço de articulações, desenvolvimento de velocidade e flexibilidade (FILGUEIRA, 2006).
Há um consenso entre autores da área de rendimento esportivo de que no futebol atual as características são distintas da prática em décadas passadas. Na atualidade, observa-se maior grau de intensidade e volume de esforço realizado pelos atletas ao final das partidas, o que seguramente tem modificado o padrão de solicitação física. Entretanto, no Brasil, os calendários apertados e os compromissos dos clubes, muitas vezes, por falta de organização do tempo, dificultam o trabalho do preparador físico na realização de capacitação mais qualitativa. Portanto, é comum a verificação de índices baixos em determinadas qualidades físicas. É importante salientar que as prioridades no futebol brasileiro são dependentes dos resultados atingidos pelo clube no transcorrer das competições. Sendo assim, a preparação física pode ser colocada em plano secundário, em detrimento do desenvolvimento técnico e tático da equipe (SILVA; ROMANO; YAZBEK JR.; BATTISTELLA, 1997).
Além dos três fatores abordados, alguns autores como Straub e Williams (1984), Corrêa (2004), Miranda e Bara Filho (2008) e Santos, Castelo e Silva (2011) acrescentam um quatro elemento: a preparação psicológica. Muitas vezes, os envolvidos no processo de treinamento esportivo desconsideram a ligação entre fatores físicos, psicológicos e sociais, o que leva um grande número de atletas a não concluir todas as etapas de treinamentos e a não atingir seu melhor potencial de performance (MIRANDA; BARA FILHO, 2008). O treinamento psicológico pode ser conceituado como o conjunto de técnicas cujo objetivo é maximizar o rendimento e o desenvolvimento individual do atleta. Entre outros fatores, a preparação mental7 ajuda treinadores e
7 Os autores também utilizam o termo “mental” embora seja considerado que o termo mais apropriado é “psicossocial”, dada a base epistemológica deste estudo (ver p.78).
atletas a melhorar o desempenho por meio do controle da concentração, da autoconfiança, do autocontrole e da capacidade de comunicação do atleta. Pode auxiliar ainda a estabelecer estratégias de enfrentamento de estresse, durante as rotinas de treinamento e períodos pré, pós e durante a competição (STRAUB; WILLIAMS, 1984).
No Brasil, os programas de preparação psicológica são escassos nos clubes de futebol. Conforme Weinberg e Gould (1996), existem três razões fundamentais para a parca utilização do treinamento emocional no esporte. A primeira delas seria o desconhecimento de que é possível desenvolver habilidades psicológicas por meio de programas de treinamento específico. Outra razão consiste na ideia de que as competências psicológicas são inatas e, portanto, não são passíveis de aprendizado. A terceira razão é a alegação de que não existe tempo disponível para este tipo de treino, haja vista que os membros de comissão técnica já relatam a dificuldade de organização de tempo para as dimensões físicas, técnicas e táticas.
Na pesquisa conduzida por Santos, Castelo e Silva (2011), foram investigados os processos de planejamento e periodização dos treinamentos de futebol, em dezoito clubes da principal liga portuguesa profissional, nas temporadas de 2004/2005. Os autores concluíram que, no processo de planejamento, foram utilizadas as dimensões físicas, técnicas, táticas e psicológicas. Os componentes do treinamento são trabalhados simultaneamente, e para tal utilizam-se exercícios táticos e técnicos que implicam também o componente físico. Há clubes que promovem as dimensões de forma separada. Ainda em relação aos resultados, a maioria dos treinadores (89%) privilegia como aspecto central do planejamento o treinamento tático e técnico, operacionalizando uma maneira de dispor a equipe em campo. Apesar de alguns entrevistados referirem-se ao desenvolvimento das capacidades físicas como sendo independente do componente tático, na maioria dos clubes (78%) a potencialização das capacidades físicas está subordinada aos aspectos do planejamento tático. Percebe-se que os autores destacam a interdependência dos componentes físicos, técnicos e táticos, mas, embora admitam a existência do componente psicológico, este aspecto não é relatado nos resultados da pesquisa.
Fatores sociais também podem ser considerados fundamentais para a aprendizagem do futebol. O papel dos pais no desenvolvimento do jovem futebolista, por exemplo, foi objeto de estudo de Moraes et al. (2004). Nesta pesquisa, desenvolvida nas categorias de base dos clubes de Minas Gerais, foi constatado que os pais tinham pouco envolvimento nos treinamentos e competições dos atletas, e não alteraram a rotina
familiar em função dos seus treinamentos. Entretanto, o pouco apoio dos pais não prejudicou o progresso dos filhos, visto que era permitido a eles praticarem o futebol livremente. A justificativa para o bom desempenho dos filhos no esporte está associada à paixão dos atletas, à intensidade e frequência de prática, além do apelo financeiro que o futebol profissional evoca no Brasil. Na literatura internacional, o estudo de Jambor (1999), realizado nos Estados Unidos, classificou os pais como agentes socializadores de seus filhos no futebol. Nos resultados, foi observado que os pais apresentavam um apoio irrestrito aos filhos, participando dos treinamentos e das competições. Desta forma, é perceptível que a aprendizagem do futebol, no Brasil, ocorre de forma diferenciada quando comparada com pesquisas de outros países sobre o assunto. Todavia, deve-se entender que a relativa falta de apoio dos pais não impediu o sucesso dos atletas, evidenciando que o desempenho dos jogadores brasileiros ultrapassa as restrições de apoio dos pais ou até mesmo a qualidade de orientação técnica (MORAES et al, 2004).
Na pesquisa de Jambor (1999), a autora demonstrou ainda que, embora os pais não tenham sido jogadores, a socialização vai além do exemplo concreto. Tal prerrogativa vai ao encontro do conceito de aprendizagem ancorada em emoções, desenvolvido por Kiehl (2008), no qual os sujeitos apresentam mais confiança nos pensamentos de algumas pessoas do que na passagem pela experiência concreta. A autora concluiu por meio de sua pesquisa que, enquanto todos os trabalhadores eram treinados para a mudança em uma organização de trabalho e conheciam suas expectativas, muitos passaram a acreditar, não pela experiência direta com o novo processo, mas por observar que seus colegas desenvolviam uma confiança em sua aplicabilidade (KIEHL, 2008).
Pode se perceber que os estudos que se referem aos processos de aprendizagem no contexto futebolístico não evidenciam aspectos ligados a tal fenômeno nas equipes profissionais. Nas pesquisas, são investigados fatores ligados à aprendizagem no início da carreira do atleta, o que remete às crenças identificadas por Damo (2008) de que a capacidade de jogar futebol está associada a um dom e, portanto, seria inata. Neste sentido, não seria possível aprender o futebol depois que o atleta atingisse a idade adulta. Tal afirmação sustenta o fato de alguns jogadores com dezessete anos, como foi o caso de Pelé, Ronaldo Nazário e, mais recentemente, Alexandre Pato, já serem considerados aptos para atuar pela seleção nacional de futebol. Ronaldo, por exemplo, destacou-se no time do Cruzeiro, de Minas Gerais, e em 1994 deixou o clube para atuar na
PSV Eindhoven, da Holanda, com o valor da transferência de 6 milhões de dólares. Com 17 anos, foi convocado para a Copa do Mundo dos EUA – o jogador mais jovem do elenco brasileiro (ESPECIAIS..., 2008). Alexandre Pato, revelado pelo Internacional em 2006, na semifinal do mesmo ano, quebrou um recorde de quase cinquenta anos que era de Pelé. Pato tornou-se o mais jovem jogador a marcar gols numa competição oficial da FIFA em todos os tempos (ESPORTES, 2008).
É sabido que o grupo exerce influência nas escolhas individuais e, também, que as escolhas individuais influenciam no grupo, tornando esta relação interdependente. Portanto, compreender as características de um grupo de trabalho, as diferenças entre grupos e equipes, e os critérios para a formação de uma equipe de alto desempenho auxiliará a caracterizar as relações entre os processos de aprendizagem e a construção psicossocial de uma equipe de alto desempenho em um clube de futebol.
1.4 FENÔMENOS PSICOSSOCIAIS EM GRUPOS E EQUIPES DE