3. Campos Teóricos Envolvidos
3.5. Processos de Criação de Vantagens Competitivas nos Clusters
O termo cluster alberga os resultados de um conjunto muito significativo de objectivos, que incluem a análise, a acção – prescrição, ou ambas, de campos teóricos, de trabalhos empíricos, de níveis de análise industrial ou geográfica e de abordagens epistemológicas.
No âmbito de uma abordagem sistémica da competitividade Mateus et al. (2005, p. 40, vol. 1, parte 1) caracterizam o conceito de cluster no domínio da eficiência empresarial colectiva. Para os autores, a inserção das firmas em clusters permite-lhes beneficiar de externalidades positivas quer pela via da especialização, do acesso a serviços mais especializados e da redução de custos de transacção – eficiência estática, quer pela via da redução da incerteza e do favorecimento de uma rápida difusão de práticas inovadoras – eficiência dinâmica. Esta lógica de inserção das firmas em clusters (...) não surge apenas de uma aglomeração espontânea de firmas com interesses produtivos convergentes mas é significativamente reforçada por uma intervenção de agentes públicos e semi-públicos, como é o caso das associações empresariais e locais, nomeadamente.
A amplitude da perspectiva conceptual torna inacessível, à luz da dimensão e dos propósitos do presente projecto, a sua descrição de forma exaustiva. Em alternativa, o propósito passa
Identifying Policies in the Perspective of the European Union Enlargement31, com cuja equipa o autor desenvolveu activos contactos na fase de discussão de resultados.
A equipa do projecto identificou, como principais, cinco abordagens teóricas: 1) A teoria de Marshall e os seus desenvolvimentos; 2) A teoria da localização; 3) A teoria institucional e dos custos de transacção; 4) A teoria dos negócios internacionais; e 5) Os estudos regionais. A Tabela 96 (p. 463) e a Tabela 97 (p. 464), em anexo, apresentam as principais teorias e as tipologias de clusters. Os autores do relatório (ibid.) ensaiam, igualmente, a identificação das ligações entre as diversas teorias. De acordo com esta abordagem, os estudos regionais (Scott, 1988 e 1995) e a teoria dos spillovers tecnológicos (Saxenian, 1985 e 1994) inspiram-se, de forma evidente, na teoria de Marshall e no conceito de “atmosfera industrial”. Contudo, no caso da teoria da localização, a ligação à análise proposta por Marshall é mais ténue.
Algumas das discussões em volta dos conceitos de retornos crescentes e de economias externas ligam a nova geografia económica à teoria de Marshall. As principais ligações entre as diversas linhas são ilustradas pela Figura 121 (p. 549, em anexo).
Herrigel (2000, p. 287) é, por outro lado, crítico da excessiva exposição ou atenção dada à tipologia dos clusters Marshalianos. Este autor contextualiza a dinâmica metodológica em torno da análise dos distritos industriais. Deste modo, a literatura sobre estes casos desenvolveu-se num contexto de crítica ao conceito de produção em massa e verticalmente integrada, habitualmente denominada de Fordista. Assim, ao mesmo tempo que esta tipologia organizacional experimentava uma importante crise no mundo industrial, era dada relevância às estratégias de menor escala, flexíveis, descentralizadas e assentes em formas de colaboração intra e inter-empresas que governavam as regiões produtivas do Sudoeste da Alemanha, da Terceira Itália e de Jutland, na Dinamarca. Neste âmbito, desenvolveu-se um debate extremamente apelativo quanto às formas de superação da crise, mas que o autor considera enviesado no que concerne à possibilidade de extrapolação e extensão de formas hierárquicas e integradas poderem competir, como é o nosso caso em análise.
Bernard e Vicente (1999) sublinham que, no que se refere à estruturação física dos clusters, existe uma diversidade efectiva em que os critérios essenciais de diferenciação se baseiam nos modos de organização das actividades e na intensidade, local ou não, das interacções entre as entidades envolvidas. Contudo, de modo distinto destes autores, sublinhamos que a diferenciação é, no fundamental, modulada para características específicas da indústria.
De acordo com Storper (1995), os distritos industriais e os clusters promovem vantagens competitivas por via da geração de um número de benefícios que não estão disponíveis para empresas localizadas fora destas concentrações geográficas.
De acordo com os autores do documento WEID (op. cit., p. 40), estas vantagens competitivas podem ser agrupadas nas seguintes categorias:
1. Retornos crescentes como resultado da existência de propriedades sistémicas embedded em sistemas locais num contexto de globalização;
2. Redução dos custos de transacção;
3. Inovação e desenvolvimento tecnológico dependentes de interacções locais; 4. Redução de custos por via de uma aprendizagem efectiva;
5. Benefícios provenientes de economias externas localizadas;
6. Vantagem de first mover em resultado de uma especialização inicial do território;
7. Vantagens provenientes de organizações direccionadas para os clientes e da diversificação de produtos.
A Tabela Complementar 3 (p. 584, em anexo) apresenta uma síntese destes pontos. Contudo, é necessário articular os aspectos mais significativos sublinhados neste texto com as características do nosso objecto de investigação:
− os retornos crescentes suportados pelas propriedades sistémicas embedded num sistema local podem ser entendidos como eficiências dinâmicas relacionadas com processos evolutivos e com competências desenvolvidas pelas empresas ao longo do tempo. Em certa medida, isto é o oposto da ideia de eficiências estáticas que podem ser alcançadas através de um aumento da dimensão e do volume;
− quando a contratação, a negociação, a monitorização e o controlo são dispendiosos, as relações de troca ficam concentradas em grupos que traduzem a confiança no colectivo. Pelo contrário, quando os custos da informação, da avaliação e do controlo são baixos, as relações de troca podem ter lugar através de agentes anónimos ou do mercado. Contudo, em resultado da reconfiguração da indústria automóvel e da modelação das MNC como redes integradas e
(ponto 7.4) e, numa base empresarial, quer por processos internos às OEM e aos fornecedores, quer por lógicas de interacção e ajustamento locais;
− um enquadramento institucional favorável a relações de negócio eficientes é caracterizado pelo desenvolvimento de regras e rotinas que reduzem a incerteza nas transacções e que beneficiam a coordenação e a cooperação nos negócios. A confiança pode ser considerada um bem relacional endógeno criado pelas empresas através da cooperação e como um produto de uma interacção positiva ocorrida entre dois ou mais parceiros. No nosso caso, este ambiente é modulado pela estrutura da indústria e pela estratégia de negócio do OEM;
− de um modo diverso do modelo de distrito industrial32, a criação de novo conhecimento
não é o resultado de estratégias de investigação e de interacções aleatórias, mas o resultado de uma combinação de processos resultantes, quer do esforço deliberado e planeado de actividades de I&D, no nosso caso, em boa medida situadas fora do cluster, quer de interacções de proximidade;
− os distritos industriais e os clusters reúnem e integram empresas geograficamente concentradas numa área onde os actores partilham a mesma cultura e o mesmo sistema económico e organizacional. A concentração geográfica de empresas suporta e aumenta a viabilidade da transmissão de conhecimento tácito e promove o upgrade tecnológico e organizacional;
− os efeitos de arrastamento e as externalidades produzidas pela rede estão confinados e emergem graças a estratégias direccionadas para o mercado e práticas, voluntárias ou involuntárias, de cooperação e de adopção rápida “forçada”;
− em cada cluster industrial, as empresas produtoras de bens finais são o centro da divisão cognitiva de trabalho e, tipicamente, estão especializadas nas tarefas menos rotinizadas. Estes agentes estratégicos são, por sua vez, os actores dominantes da fileira produtiva. Na realidade, o nível médio de inovação em cada cluster depende, em grande parte, destas empresas. Estas são responsáveis pela absorção de conhecimento externo que necessita de ser adaptado de forma rápida às condições locais e endogeneizado pelas empresas pertencentes à rede de subcontratados e especialistas;
− nos clusters, outras empresas especializam as suas actividades na produção de bens intermédios estratégicos e desenvolvem competências cruciais para os produtores finais. A presença deste tipo de empresas abre o caminho a externalidades e a spillovers de conhecimento, i.e., meta-inovação. Com o passar do tempo, ocorre a acumulação de
conhecimento localizado. Este facto influencia a qualidade intrínseca dos bens intermédios, o seu custo médio e o seu nível de diferenciação e inovação. O processo aumenta a competitividade global das empresas de produtos finais;
− nesta interpretação, a divisão cognitiva de trabalho entre empresas impõe, de forma estrutural, a diversidade das empresas. Este facto explica porque os clusters são populados por agentes diferenciados: produtores rotinizados, agentes inovadores, meta-organizadores colectivos e instituições de regulação;
− o alto nível de produção descentralizada que pode ser observado nos clusters industriais reduz os custos de governança de todo o sistema. Importa referir que a vasta maioria das empresas presentes no cluster não tem, no entanto, autonomia económica, pelo contrário, tendem a desenvolver actividades mais rotinizadas e são, habitualmente, subcontratadas pelo produtor final.
Na descrição do relatório WEID (2002, p. 82), é possível estilizar caminhos de evolução que integrem fases de desenvolvimento, de expansão, de maturação, de transição e de reconfiguração Figura 122 (p. 550, em anexo). As localizações que têm algumas condições de partida favoráveis iniciam o seu crescimento através do enraizamento de empresas fundadoras. O desenvolvimento de extensas economias externas permite o início de tendências de auto-reforço, recursivas, que favorecem a consolidação do cluster industrial. O início e o progresso do cluster pode ser reforçado pelo desenvolvimento de um sistema institucional conducente ao crescimento, onde os benefícios da rede emergem e a cooperação extensa é promovida pelos agentes locais.
Este processo apresenta características não-lineares, resultantes das condições de desenvolvimento internas e da interacção com o ambiente externo, isto é, no fundamental, o mercado internacional e as condições institucionais33 de nível superior.
A Tabela 97 (p. 464, em anexo) apresenta uma proposta de classificação realizada pela equipa do WEID. Além desta classificação, os autores desenvolvem, igualmente, um conjunto de considerações sobre a evolução destas tipologias, cujas características são marcadas, por um lado por algum determinismo e, por outro, por uma falta de ligação às condições específicas da indústria ou indústrias em que estão integradas. Deste ponto de vista, a apresentação de