Projeto Maré de
OCEANOS DE EMPODERAMENTO
3.3 Processos de Empoderamento Crítico em Educação Popular
Trabalhos desenvolvidos em educação popular têm como prerrogativa estarem à luz do que apregoa Freire (2013), pois o autor e suas ideias são basilares para trabalhos que obrigatoriamente tratam de autonomia e resistência. Para o mesmo, “A acomodação exige uma dose mínima de criticidade. A integração, pelo contrário, exige um máximo de razão e consciência” (FREIRE, 2013, p. 100), dessa forma, autonomia e resistência estão diretamente ligadas à razão e consciência.
Nesse sentido, a pesquisa torna-se alicerce do ensino acadêmico, à medida que estudantes se apropriam, produzem e compartilham conhecimentos, mas se constitui também num processo de aprendizagem, quando permite reconhecer outras perspectivas, outras formas de conceber, perceber e explicar a realidade, a partir das quais diferentes alternativas de intervenção podem ser formuladas e experimentadas (KLEBA; WENDAUSEN, 2010, p. 428).
Assim, o foco desta pesquisa, como foi dito no Capítulo 1, é compreender as ações do Projeto, identificando sua relação com a educação popular, a fim de evidenciar em que medida a ONG Maré tem contribuído com processos de empoderamento crítico dos sujeitos sociais envolvidos no Projeto Compartilhando Saberes. O problema de pesquisa está voltado para descrever, compreender e interpretar formas compartilhadas na cultura da Maré enquanto sujeitos que juntos aprendem, ensinam, reaprendem e mudam suas formas de ensinar e aprender continuamente, a partir da imersão no projeto conduzindo para mares além dele.
Em sintonia com Freire (2013, p. 140), “Estávamos, assim, tentando uma educação que nos parecia a de que precisávamos. Identificada com as condições de nossa realidade”. Ou seja, uma educação, análise conjunta e mudança coletiva “Realmente instrumental, porque integrada ao nosso tempo e ao nosso espaço e levando o homem a refletir sobre sua ontológica vocação de ser sujeito” (Ibidem). Essa vocação
ontológica nos conduz a juntos(as), sermos mais, a coletivamente praticarmos a educação como prática de liberdade. Sendo esta liberdade igualitária para todos(as) que juntos(as) nadam. Inclusive, e, sobretudo, os que nadam em sentido oposto, na Maré, ou em quaisquer outros mares, uma vez que o que compartilhamos e reaprendemos é ressignificado e atinge de forma direta mares além dos da Maré.
Na opinião de Villacorta e Rodríguez (2002, p. 47), o empoderamento “É uma perspectiva que coloca as pessoas excluídas dos processos prevalecentes de desenvolvimento e do poder (sua distribuição e exercício) no centro do processo de desenvolvimento”, estimulando capacidades e despertando habilidades. Dessa maneira, “A afirmação de que o empoderamento não pode ser feito em nome das pessoas que necessitam ser empoderadas é um pressuposto de qualquer processo de empoderamento” (ROMANO; ANTUNES, 2002, p. 26), uma vez que tal feito precisa surgir com as pessoas e não por elas, por isso, que parte do empoderamento individual, ruma ao coletivo, perpassa o crítico, para poder atingir o de classe social. São quatro etapas de empoderamento que se desencadeiam de forma processual, não necessariamente de forma sequenciada, mas obrigatoriamente de forma contínua.
Só é possível atingir o empoderamento de classe social quando se alcança o empoderamento crítico, coletivo e individual. Assim, as etapas de conhecimento crítico da realidade motivado pelo desejo e busca de mudança social (empoderamento crítico), ação grupal conjunta (empoderamento coletivo) e perspectiva psicológica individual (empoderamento individual) precisam anteceder o empoderamento de classe social. Independente da sequencia em que ocorram estes três movimentos anteriores, que podem sair do coletivo para o individual, ou vice-versa, do crítico para o individual, ou ao contrário, como são movimentos, cada ser humano nada em seu ritmo e mergulha em cada movimento no seu tempo, espaço e possibilidade.
Daí que a função gnosiológica não possa ficar reduzida à simples relação do sujeito cognoscente com o objeto cognoscível. Sem a relação comunicativa entre sujeitos cognoscentes em tôrno do objeto cognoscível desapareceria o ato cognoscitivo. A relação gnosiológica, por isto mesmo, não encontra seu têrmo no objeto conhecido. Pela intersubjetividade, se estabelece a comunicação entre os sujeitos a propósito do objeto (FREIRE, 1983, p. 44).
Sendo o empoderamento processual, ele é também o resultado desse processo que compreende tanto a busca pelo aprender quanto a consequência deste aprender, de forma individual, coletiva, crítica ou de classe social.
Pode-se observar pensamento similar ao freireano, na afirmativa de Bacqué e Biewener (2015, p. 386),
l’empowerment est tout autant processus que résultat de ce processus. Il dit à la fois le pouvoir à rechercher, à obtenir, à conquérir, et le processus d’apprentissage, d’acquisition des connaissances qui permet d’y accéder sur un double plan individuel et collectif12.
Assim, “[...] uma vez que o empoderamento, apesar de significar, à letra, mais poder, ou acréscimo de poder, é um conceito disputado no espectro das orientações políticas vigentes, dando origem por esse fato a dissensos interpretativos” (BARBOSA; MÜHL, 2016, p. 12). Por isso, friso sobre que mares nado nesta construção teórica que se ancora nas práticas dos que fazem a ONG Maré Produções Artísticas e Educacionais por intermédio do Projeto Compartilhando Saberes, no empoderamento crítico reside a nossa pesquisa.
A questão do empowerment da classe social envolve a questão de como a classe trabalhadora, através de suas próprias experiências, sua própria construção de cultura, se empenha na obtenção do poder político. Isto faz do empowerment muito mais do que um invento individual ou psicológico. Indica um processo político das classes dominadas que buscam a própria liberdade da dominação, um longo processo histórico de que a educação é uma frente de luta (FREIRE; SHOR, 1986, p. 72).
Dialogando com vários autores, Bossé (2003, p. 34-36), pontua cinco componentes indispensáveis para o alcance do empoderamento. Primeiro, aponta necessária a consideração simultânea de condições estruturais e mudança social individual; depois, a adoção de unidade de análise de atores no contexto; em seguida, afirma que se devem levar em conta os contextos de aplicação; posteriormente, pontua a definição da mudança pretendida e seus termos com as pessoas interessadas; e finalmente, o autor apregoa que é necessário o desenvolvimento de uma abordagem de ação consciente.
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12- “O empoderamento é tanto um processo como resultado desse processo. Ele diz que tanto o poder de buscar, obter, conquistar e o processo de aprendizagem, a aquisição de conhecimento que permite acessá-lo em um duplo nível individual e coletivo” (Tradução livre).
Estes cinco componentes necessários segundo a visão de Bossé me conduzem a perceber que também são passos fundantes nos princípios que regem a pesquisa-ação e a educação popular, ambas atuam do individual ao coletivo, consideram o contexto, pretendem ocasionar mudanças e buscam por conscientização.
O empowerment da classe social é um problema de análise, bem como um problema de pedagogia. Quando se trata de relações de classe, percebo ao mesmo tempo clareza e confusão nos estudantes. A consciência não é uniforme de aluno para aluno, ou de grupo para grupo. A consciência é, freqüentemente, incoerente num mesmo aluno (FREIRE; SHOR, 1986, p. 72).
Sobre processo de empoderamento em educação popular, observado o empoderamento crítico como um constituinte da educação popular e assim sendo, numa vertente dialógica e comprometida com a práxis. Oliveira (2008) reflete em educação popular alguns enunciados teóricos, se posicionando em consonância com os preceitos freireanos, para maior aprofundamento sobre a educação popular me debruço no capítulo “Educação Popular: um mergulho partilhado”.
No que tange aos conceitos de empoderamento, Bossé (2003, p. 37-43) elenca três tópicos: L’appropriation ou l’appropriation psychosociale, L’habilitation e Le pouvoir ou le pouvoir d’influence. Estes tópicos tratam da apropriação psicossocial ou apropriação, empoderamento como apropriação e empoderamento com poder ou poder de influência. Depois fala de De l’empowerment au pouvoir d’agir, que trata desde empoderamento a poder de agir, assim, o autor afirma que o empoderamento visto como apropriação de poder desenvolve também a ação. Ao estar habilitado com o poder, o indivíduo está apto a agir, no entanto, quando trata do poder de agir, ele se refere ao empoderamento distante de sua origem individualista de ofertar poder a um único propósito e se aproxima da possibilidade de coletividade que este poder socializado pode alcançar.
O empoderamento é entendido como um processo contínuo e em constante renovação de aumento do poder pessoal, social, político e econômico das pessoas, famílias, comunidades e organizações da sociedade civil, que se traduz na ampliação das capacidades individuais e coletivas, no aumento do controle, sobre recursos e ampliação do acesso às organizações da sociedade civil, ao Estado e ao mercado, em condições de maior eqüidade e accountability, contribuindo para o aumento das liberdades em geral (ROMANO; ANTUNES, 2002, p. 113).
Assim, para Oliveira (2008, p. 193), “Os processos de empoderamento na educação popular são constituídos via ressignificação e repolitização do sentido deste termo cujas ações voltam-se para mudança concreta dos fatores sociais e estruturais em que as classes populares encontram-se inseridas”, diferente de poder individual que conduz a solidão dessa posse, e aproximado de poder coletivo, crítico que busca transformar.
É comum perceber que “Nas práticas de empoderamento das pessoas através de programas e projetos promovidas pelos governos, bancos e agências de desenvolvimento multilaterais e bilaterais é recorrente que esse conceito assuma caráter de uma dádiva, de algo que pode ser outorgado” (ROMANO; ANTUNES, 2002, p. 12), no entanto, é sabido que este empoderamento advindo deste tipo de prática se difere do crítico e se ancora exclusivamente no individual. Com cunho psicológico visando a elevação da autoestima e a percepção individualizada de capacidades.
Barbosa e Mühl (2016, p. 12), alertam que “O envolvimento da educação com o empoderamento, sendo estratégico por essas razões, precisa se rodear de certos cuidados”, percebe-se continuamente nas ações realizadas com a Maré que “A luta contra os poderes hegemônicos, indubitavelmente, ainda se desenvolve de maneira bastante desigual; os espaços para a luta cultural são escassos e muito verticalizados” (ALVES, 2016, p. 11), sobretudo, após o golpe político-midiático-parlamentar ocorrido em 2016, quando o Brasil revive retrocessos estarrecedores, inclusive na área da educação, da cultura e das artes. Sendo empoderar sinônimo de construir poder, certamente, é uma das possibilidades que menos interessam aos que mergulham nos rios do neoliberalismo, especialmente, se o empoderamento em questão é crítico e por isso, visa ser também mobilizador.
A procura por bússolas que norteiem o trajeto de pesquisa precisa ser intensa, inclusive nadando por categorias que se popularizam, assim como nado no mar do empoderamento. “Porém, as novas estratégias adotadas pelos segmentos subalternos não têm como fim ser "o mesmo" e estão produzindo agências. Logo, são meios que não devem ser menosprezados” (ALVES, 2016, p. 11). Percebo que todo grupo social que busca aperfeiçoar suas formas coletivas de resistência e aprendizado no combate as injustiças sociais pode se pautar no empoderamento crítico como âncora teórica que possibilite a mobilização da saída do estágio de deriva para a busca consciente do porto de destino, a práxis.
Bacqué e Biewener (2015, p. 387), apontam que “L’ar ticulation des dimensions individuelle, collective et politique constitue un élément capital de la démarche
transformatrice de l’empowerment”13
. Observo que, para o empoderamento ser transformador, ou seja, de classe social, necessária se faz a articulação entre a criticidade individualizada, coletiva e estrutural. Atuando no campo pessoal, conjunto em coletividade e político, socialmente engajado na transformação da sociedade.
Barbosa e Mühl (2016, p. 14), afirmam que “O empoderamento [...] é simultaneamente um processo individual e coletivo cujo objetivo é ajudar os sujeitos a conduzirem as suas vidas e também a emanciparem-se, sendo importante, na linha das teorias de transformação social de Paulo Freire”. Assim, empoderamento crítico e educação popular nadam em sintonia rumo aos mares que viabilizam atingir as possibilidades de mudanças sociais coletivas e conscientes, por isso, críticas.
l’empowerment rend lisible la prise en compte nécessaire et émancipatrice de la liberté individuelle, indissociable des conditions structurelles et institutionnelles qui articipent à sa condition de possibilité, et potentiellement favoriserait à faire émerger un empowerment contemporain14 (BACQUÉ; BIEWENER, 2015, p. 387).
Dessa forma, observa-se que, para que aconteça a liberdade individual, nos campos psicológico, político e físico, vital para que ocorra o empoderamento, é preciso que perpasse pela capacitação individual associada às condições de cunho estrutural e institucional enquanto grupos que se empoderam em sintonia. Só assim pode emergir o empoderamento contemporâneo que tratamos aqui de crítico, em harmonia com a educação popular. Aprofundar a reflexão sobre os processos de empoderamento em educação popular é ação para o capítulo seguinte, e vetor de toda a tese.
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13- “A articulação das dimensões individual, coletiva e política constitui um elemento crucial do processo transformador de empoderamento” (Tradução livre).
14- “o empoderamento deixa clara a consideração necessária e emancipatória da liberdade individual, inseparável das condições estruturais e institucionais que participam de sua condição de possibilidade e potencialmente encorajaria o surgimento do empoderamento contemporâneo” (Tradução livre).
Enquanto que o empowerment individual ou o empowerment de alguns alunos, ou a sensação de ter mudado, não é suficiente no que diz respeito à transformação da sociedade como um todo, é absolutamente necessário para o processo de transformação social. Está claro? O desenvolvimento crítico desses alunos é fundamental para a transformação radical da sociedade. Sua curiosidade, sua percepção crítica da realidade são fundamentais para a transformação social, mas não são, por si sós, suficientes (FREIRE; SHOR, 1986, p. 71).
Portanto,compreendo que há empoderamento crítico no Projeto Compartilhando
Saberes da Maré, estando ciente de que ele é importante para os processos de transformação da sociedade, por outro lado, ainda há passos necessários para avançar do empoderamento crítico ao empoderamento de classe social.
Para o empoderamento acontecer ele precisa necessariamente ser individual, mas para ser coletivo ou comunitário, precisa partir da consciência individual em direção à consciência coletiva, o que corresponde a um segundo movimento de empoderamento. Para ser crítico o empoderamento precisa ser individual e simultaneamente coletivo, e assim estar além da capacidade ingênua atingindo o estágio da criticidade, onde repousam as buscas por mudanças sociais coletivas. Atingidos os três movimentos anteriores, a saber, individual, coletivo e crítico, o empoderamento pode caminhar para o quarto movimento, o de classe social.
Freire e Shor (1986, p. 72), asseguram sobre empoderamento de classe social que “Procurando explicar melhor como compreendo o empowerment como o empowerment de classe social. Não individual, nem comunitário, nem meramente social, mas um conceito de empowerment ligado à classe social”.
Imagem nº 46: Níveis de Empoderamento
Aqui repousa um dos achados desta pesquisa, autores precedentes observaram três movimentos de empoderamento, nosso mergulho busca nadar para um quarto movimento, visto que o crítico, que se situa após o individual e coletivo; entre o coletivo e o de classe social. Pois, compreendo que é possível atingir a criticidade observando que é preciso chegar ao nível de classe social apontado por Freire, mas a
Empoderamento de Classe Social Empoderamento Crítico Empoderamento Coletivo Empoderamento Individual
criticidade não basta para atingi-lo, mesmo atuando em sintonia com a educação popular nos níveis individual e coletivo, o empoderamento crítico, apesar de social, ainda não é de classe social.
Ao avaliar ONGs consideradas progressistas, Machado (2009, p. 205-206), chegou a conclusão que:
Apesar das trajetórias históricas compatíveis com um perfil progressista e do intuito de “trabalhar na perspectiva da libertação”, como afirmam alguns dos educadores, o processo de conscientização das práticas de educação popular dessas organizações não desvela a razão de ser da realidade estrutural e sim da local. Em vista disso, suas práticas educativas contribuem com o desenvolvimento da “consciência da práxis” (forma crítica de abordagem do mundo que leva a autoconsciência da prática transformadora). Porém, esta limita-se a “consciência comunitária” (o descobrir-seenquanto comunidade) e não a “consciência de classe” (o descobrir-se enquanto sujeito social de uma classe subalterna, que vive em condições de exploração e dominação na sociedade capitalista). De modo que as perspectivas e práticas dessas ONGs, assim como suas conquistas, restringem-se as mudanças das condições locais, pontuais, não se estendem as mudanças de dimensão nacional, menos ainda aos processos de transformação social de que se trata aqui.
Ao discorrer sobre a questão do empoderamento crítico presente no Projeto Compartilhando Saberes, da ONG Maré, não posso desconsiderar o fato de que algumas das limitações desse Projeto se devem ao contexto onde está inserido, ou seja, a realidade das próprias organizações não-governamentais, as quais emergem para atuar de forma localizada e pontual, porém, a particularidade das ONGs de cunho progressista, como apontou a supracitada autora, é que elas tem contribuído com a “consciência da práxis”, e, ainda que concordemos que essa consciência limita-se a “consciência comunitária” e “não consciência de classe”, considero que um Projeto educativo como o Compartilhando Saberes, que estimulo o empoderamento crítico, é muito importante, pois o empoderar-se em uma sociedade capitalista não tem sido tarefa fácil, daí que o trabalho em educação popular nesse tipo de organização contribui significativamente na vida dos sujeitos sociais e, que, empoderar-se não só individualmente, nem só coletivamente, mas sim criticamente (já que este envolve tanto o individual quanto o coletivo), seja em grupos ou em comunidades, pode vir a ser o movimento necessário para a construção social do empoderamento de classe.
CAPÍTULO 4: