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Sinal 34 – DROGAS

3 PROCESSOS NEOLÓGICOS NA CRIAÇÃO DE NOVOS SINAIS EM

3.1 PROCESSOS DE FORMAÇÃO DOS SINAIS EM LIBRAS

Uma breve revisão de literatura permite encontrar uma série de processos motivacionais de novos sinais: mimese ou iconicidade, composição, derivação, empréstimos por transliteração da letra inicial e empréstimo estereotipado.

Os avanços nos estudos de línguas de modalidade visuoespacial revelam traços específicos destas línguas (FARIA-NASCIMENTO, 2013, p. 79). Essas inovações e descobertas registradas nos estudos linguísticos dessas línguas evocam a necessidade de revisão e ampliação de tais conceitos linguísticos. Dentre os níveis linguísticos, interessam-nos a morfologia e a semântica. Seguindo a esteira de Faria-Nascimento (2013, p. 81),

Na perspectiva associativa incorpora duas dimensões da língua: a dimensão morfológica por meio da análise da estrutura morfológica e dos processos de construção das palavras que levam, em primeira mão, a uma descrição mais permeável do léxico, e a dimensão semântica, que considera o significado nesses processos, ou seja, a interpretação semântica das unidades lexicais construídas.

Para abrangermos a área que analisa os processos de formação de novos sinais, faz-se necessário nos ancorarmos nos estudos de formação das estruturas dos sinais, de Felipe (2006), Ferreira-Brito (1995), Quadros e Karnopp (2004) e Faria-Nascimento (2009; 2013).

Tipologicamente, a Libras pode ser categorizada como língua prototipicamente flexional e também com características aglutinantes. Essas propriedades são evidenciadas de acordo com a possibilidade de formação de sinais, tanto pelo processo de composição quanto pelas formas de incorporação lexical comumente presentes na Libras (FELIPE, 2006, p. 200). Ainda sobre este tema, Faria-Nascimento (2013, p. 97) declara que

Tanto no estudo das LOs como no estudo das LS, é possível encontrarmos processos composicionais, flexionais e derivacionais. A composição é o processo morfológico de construção de uma ULS [Unidade Lexical Sinalizada] a partir da associação de dois ou mais radicais, para originar uma nova ULS. Entre flexão e derivação há uma tênue fronteira que clama por estudos que permitam distinguir mais claramente os dois tipos de processos. A derivação normalmente muda a classe ou o significado da ULS, enquanto a flexão não muda nem a classe, nem o significado da ULS.

Neste nível de análise, os parâmetros da Libras podem ser considerados como morfemas. De acordo com Faria-Nascimento (2013, p. 83), esses morfemas também são subdivididos em morfemas livres e presos:

No estudo das unidades morfológicas construcionais da LSB, também são encontrados: (a) morfemas livres, independentes, constituídos de ULS já construídas na língua, as quais podemos considerar como unidades primeiras/primitivas, que servirão de base ou complemento para a construção de novas ULS; e (b) morfemas presos, dependentes, os quais nunca aparecem sozinhos, ligam-se a pelo menos um outro morfema para construir uma ULS livre, isto é, são unidades dependentes de outras para se constituírem unidades lexicais independentes.

As primeiras divisões canônicas classificaram os principais fenômenos derivacionais, evidenciados por Quadros e Karnopp (2004, p. 96), como: “a nominalização na língua de sinais brasileira, a formação de compostos e a incorporação de numerais nos sinais”. Quanto à flexão, as autoras, a partir dos estudos de Klima e Bellugi (1979 apud QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 111-112), destacam esses processos: pessoa (deixis), número, grau, modo, reciprocidade, foco temporal, aspecto temporal, aspecto distributivo.

Assim, como principais processos de formação dos sinais, temos os fenômenos abaixo:

1) Processos miméticos ou icônicos: por ser de modalidade visuoespacial, a mímica também é um recurso nas línguas de sinais formador de itens lexicais. Logo, a língua de sinais que possui este processo linguístico “representa iconicamente o referente a partir dos parâmetros de configuração sígnica e da sintaxe da língua”

(FELIPE, 2006, p. 206). Ainda sobre este processo, a autora exemplifica com a descrição de uma situação real no mundo, na qual “um homem em pé com um jornal embaixo do braço direito e com um saco de pipoca na mão esquerda”, cuja transcrição em Libras é descrita da seguinte maneira: HOMEM - JORNAL coisa-arredondada COLOCAR-EM-BAIXO-DO-BRAÇO-ESQUERDO, PIPOCA coisa-arredondada SEGURAR-COM-A-MÃO-DIREITA (FELIPE, 2006, p. 206).

2) Nominalização: Assim como na ASL, este fenômeno na Libras é evidenciado na mudança do tipo de movimento empregado na realização do sinal, pois “o movimento

dos nomes repete e encurta o movimento dos verbos” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 96-98):

Figura 13 - Ilustração da derivação de nomes de verbos

Fonte: Quadros e Karnopp (2004).

3) Formação de compostos: Este processo gerador de novas palavras é muito produtivo nas línguas de sinais, ocorrendo por meio da “junção de dois elementos semânticos, de existência independente no léxico, em apenas um elemento lexical”

(QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 102). Nesta categoria, temos exemplos, dentre outros como o sinal ACREDITAR (SABER + ESTUDAR) e ESCOLA (CASA + ESTUDAR).

Figura 14 – Formação de compostos em Libras

Fonte: Quadros e Karnopp (2004, p. 103).

4) Incorporação de numeral: este processo ocorre por meio da mudança da configuração de mão que representa a quantidade de números. Os demais parâmetros permanecem inalterados. Dessa forma, ao serem combinados os morfemas presos de número a outros morfemas significativos, geram-se novos itens lexicais. Quadros e Karnopp (2004, p. 107) exemplificam que os sinais “dois meses ou três meses pode[m] ser expresso[s] pela mudança na configuração de mão do sinal”. Pereira et al. (2011, p. 73) estendem a análise de tal processo para a duração de horas, conforme apresentado abaixo.

Figura 15 – Incorporação de numeral

Fonte: Pereira et al. (2011, p. 73).

Para a organização dos dados coletados, seguiremos os processos de formação de novos sinais: Mimético ou icônico, composição, derivação, empréstimos, neologia semântica, reduplicação e derivação regressiva.

Ressaltamos que, neste trabalho, não se pretende esgotar sobre a formação de novos sinais em Libras, mas, sim, fazer considerações acerca da criação de novos sinais. Parte-se dos fenômenos de formação de novas palavras/sinais e, posteriormente, delimita-se os que são exclusivamente inerentes às regras internas da Libras. De forma sucinta, Quadros e Karnopp (2004, p. 20) definem estes processos na língua de modalidade oral auditiva oficial do Brasil:

Diferentes processos formam novas palavras na língua portuguesa, por exemplo, a sufixação (vestibulando, piolhento, vampiresco), a prefixação (desemprego, impopular, microempresa), a composição (seguro-desemprego, vale-refeição, ecoturismo) e a atribuição de novos sentidos às palavras previamente existentes (carro indicava carro de bois no século passado, atualmente indica um automóvel).

Menos usados, mas ainda assim importantes são os processos de cruzamento de palavras (portunhol = português + espanhol), formações analógicas (videasta, sobre cineasta), abreviações (proleta, por proletário) entre outros.

Outro fato linguístico presente nas línguas são as variantes linguísticas. Essas comunidades linguísticas nomeiam por meio de sinais as entidades, objetos e coisas a partir da experiência do mundo real; dependendo da região na qual a comunidade está inserida, dentro de uma mesma língua é possível a ocorrência de mais de um sinal para um mesmo referente. Em geral, as estruturas conversacionais são mantidas, havendo possibilidade de interação mútua entre as pessoas que utilizam a Libras. Porém, as comunidades surdas brasileiras contam com um grande número de sinais variantes entre estados, as variações linguísticas diatópicas31, pois, além de trazerem aspectos da língua de modalidade visuoespacial, contam com os aspectos regionais, culturais, identitários da comunidade surda.

Este fato é intrínseco a todas as línguas, pois, como é observado nelas, é justamente a percepção de que as línguas naturais e humanas, ao entrarem em contato com outras, são povoadas de novas palavras/sinais, expressões etc. Logo, para evitar a troca mútua e a entrada de itens lexicais pertencentes a outras línguas, teria que haver o afastamento da “própria língua do contato com outras” (CRYSTAL, 2005, p. 54). Essa ideia vai de encontro às atuais interações humanas, visto que as comunidades linguísticas, majoritariamente, pretendem estabelecer mais relações sociais, econômicas, políticas e culturais.

Assim, uma vez utilizados, tais empréstimos passam a ser constituintes de uma língua e podem passar por transformações próprias ao sistema linguístico a que passam a pertencer. Crystal (2005, p. 55) menciona que, “quando uma língua adota palavras – e também sons e construções gramaticais –, ela os adapta”.

Outro fator de grande impacto nas línguas de sinais é o avanço da tecnologia.

O uso de ferramentas tecnológicas digitais, como smartphones, por exemplo, propicia

31 De acordo com Alkmin (2012, p. 36): “A variação geográfica ou diatópica esta relacionada às diferenças linguísticas distribuídas no espaço físico, observáveis entre falantes de origens geográficas distintas”.

um grande compartilhamento de informações em escala mundial, e já constitui um meio em que a comunidade surda pode expressar a sua língua na forma mais natural, por meio de vídeos, canais no Youtube em Libras, para tratar de diversas temáticas.

Tais recursos rompem com as barreiras e regras ratificadas pelo sistema formal da língua, no qual a escrita tem o seu valor supervalorizado em detrimento da fala.

Visando alcançar tais registros das línguas de sinais, surgem novas formas de utilização e registro da língua de modalidade visuoespacial, seja por vídeos em redes sociais, ou outras formas.

Logo, pode-se estabelecer que o conceito de neologia seja uma área da linguística que se ocupa da “observação, registro, descrição e análise” dessas novas unidades na língua. Este fenômeno de surgimento de novos termos propicia a renovação lexical em uma língua, sendo a criação propriamente dita de termos e a incorporação dessas unidades novas (CORREIA; ALMEIDA, 2012, p. 17).

Dessa forma, Correia e Almeida (2012, p. 18) dividem a neologia, basicamente, em dois tipos:

(a) Neologia denominativa: resultante da necessidade de nomear novas realidades (objetos, conceitos), anteriormente inexistentes;

(b) Neologia estilística: correspondente à procura de uma maior expressividade do discurso, para traduzir ideias não originais de uma maneira nova, ou para exprimir de modo inédito uma certa visão do mundo.

As duas possibilidades apresentadas são fenômenos que podem ocorrer na criação do sinal. Os neologismos denominativos surgem da necessidade de uma

“nomeação específica”, sendo mais estáveis e com maior propensão à entrada no sistema linguístico, consequentemente sendo registrados nos dicionários (CORREIA;

ALMEIDA, 2012). Já os estilísticos ocorrem, incialmente, no discurso, objetivando uma maior expressividade de ideias, cujas formações são efêmeras, raramente são incluídos no sistema da língua (CORREIA; ALMEDIA, 2012).

O sinalizante da modalidade visuoespacial tem um domínio não explícito dos processos de formação dos sinais, recorrendo aos mecanismos linguísticos a partir das regras internalizadas.

Os sinalizantes, ao fazer essas criações, muitas vezes, nem se dá conta de que está utilizando processos sistêmicos para a criação dos novos sinais e respeitando restrições nessas formações.

Quanto a essas restrições na formação de sinais, Quadros e Karnopp (2004) ponderam que tais prerrogativas são impostas tanto pelo “sistema de percepção (visual)” quanto pela produção por meio do “sistema articulatório (fisiologia das mãos)”

da modalidade linguística. Dessa forma, as “restrições físicas e linguísticas especificam possíveis combinações entre as unidades mínimas (configuração de mão, movimento, locação e orientação de mão na formação dos sinais” (QUADROS;

KARNOPP, 2004, p. 78). As autoras ainda pontuam que tais restrições controlam a complexidade dos sinais, facilitando a produção e a percepção, o que indica uma maior previsão da sua formação

Apesar de novos itens lexicais sinalizados seguirem as propriedades de “boa formação”, não necessariamente passarão a integrar o sistema linguístico da Libras ou serão inseridos nos dicionários. Correia e Almeida (2012, p. 25) definem os passos para a efetiva adoção do neologismo:

De todos os neologismos produzidos no nível da fala, apenas alguns passarão para o sistema linguístico, isto é, para a língua. Em geral, essa passagem é certificada socialmente pela inserção nos dicionários gerais de língua, razão pela qual eles são usados normalmente para a constituição dos corpora de exclusão [...]

Embasar-nos-emos, nesta pesquisa, na distinção feita entre os conceitos mimético ou icônico, composição, derivação, empréstimos, neologia semântica, derivação regressiva e reduplicação abordados para classificar os sinais registrados.

Consideramos como neológicos os itens lexicais não registrados no Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue (CAPOVILLA et al., 2012).

Na Seção seguinte, apresentamos e descrevemos 34 termos extraídos do canal de Youtube “Surdo Cult”. Juntamente com a descrição, apresentaremos as análises dos questionários semiestruturados e das entrevistas.

4 APRESENTAÇÃO, DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS NOVOS SINAIS

A linguística nos tem ensinado que as línguas não podem ser decretadas, mas que são produtos da história e da prática dos falantes, que elas evoluem sob a pressão de fatores históricos e sociais. (CALVET, 2007, p. 85).