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Processos de transformação e purificação do ouro

3. Exploração aurífera no período Alto-Imperial: tipos de exploração, condição

3.1. Síntese da história da mineração em Portugal

3.1.4. Processos de transformação e purificação do ouro

Neste subponto da minha investigação não me irei alargar muito, uma vez que pretendo realizar uma síntese dos processos mais importantes necessários para a obtenção do metal do ouro no estado mais puro possível.

A metalurgia do ouro engloba um conjunto de processos complexos exercidos no minério do ouro até este se transformar num produto passível de ser comercializado e utilizado nas diferentes áreas. Estes processos de transformação sofreram alterações ao longo dos períodos históricos, evoluindo gradualmente as suas técnicas e métodos de processamento (MARTINS, 2008: 71).

Plínio na sua obra refere os processos de tratamento do ouro e descreve os que foram utilizados com as seguintes nomenclaturas: tundere (trituração), lavare (lavagem), urere (aquecimento) e moliri (moagem). A escória denomina por scoria. O minério era triturado até à dimensão aproximada de uma ervilha, quando extraído da rocha.

O tratamento do minério extraído dos jazigos primários era primeiramente realizado através da moagem do quartzo aurífero extraído. Diodoro Siculo, num dos seus textos descreve que este processo foi utilizado pelos romanos. Esta moagem era realizada em moinhos de tipologia circular e em granito ou em moinhos de pilões. Podemos encontrar exemplos destes em Três Minas, nas Minas das Banjas, em Jales, entre outros (SÁNCHEZ-PALENCIA, 2015: 182).

Na região a Este, temos referência de dois povoados que podem ter sido utilizados como exemplo de zonas de tratamento do metal nas proximidades de explorações mineiras, sendo estes o povoado romano de Santa Comba e o povoado romano do Poço Romano (ANDRESEN et al., 2018: 211). Embora os vestígios encontrados nestes sejam muito escassos, tendo no de Santa Comba apenas sido encontradas cavidades que poderão

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corresponder a encaixes de ativação, no do Poço Romano, apenas se encontrou espólio, sendo este mós rotativas, apiloadores de quartzito, entre outros, embora com este espólio alguns autores acreditem ter existido uma oficina onde se tratava o minério do ouro, como já supramencionado no ponto da relação entre os povoados castrejos romanos e as minas de ouro do Baixo-Douro, devido a estes utensílios serem utilizados para essas finalidades. Seguidamente é necessário que ocorra um aquecimento do minério de modo a atingir uma homogeneização do mesmo. De seguida, funde-se o metal até se obter o formato pretendido. O processo seguinte adquire um nível de complexidade mais exigente, uma vez que consiste numa série de procedimentos do tipo pirometalúrgicos que vão eliminar as impurezas que possam residir no metal neste ponto. Estes procedimentos são os mais simples que eram aplicados numa fase mais antiga da mineração. Com a evolução dos tempos vieram procedimentos mais complexos e mais exatos para a obtenção do produto final no estado mais puro possível.

A extração do metal realizada por estes novos processos passava por uma fragmentação para eliminar os resíduos de maior calibre, tornando o minério o mais pequeno possível. De seguida realizava-se um conjunto de processos físicos ou físico-químicos onde se conseguia obter concentrados primários. Estes concentrados eram apurados, aplicando-se os procedimentos pirometalúrgicos supramencionados e hidrometalúrgicos. Por fim, purificava- se o metal através de operações químicas com o recurso ao fogo. Assim, obtém-se uma pureza entre os 99% e os 99,9 (MONTERO RUÍZ, 2000: 29).

Plínio na sua obra História Natura, refere os processos de extração e tratamento pelos quais o metal passava até estar pronto. Segundo as informações que este nos fornece, sabemos que o ouro que aparece em veios, denominado por ouro “trinchado” aparece por todo o comprimento dos lados destes veios. O material extraído destes veios é esmagado, lavado e levado ao fogo e moído até se transformar numa substância de pó fina. Este pó denomina-se por scudem e a prata que resulta deste processo chama-se de sudorem. A escória resultante deste processo é desfeita e levada ao fogo de novo (Hist. Nat. 33, 21, 3, 1). Este também relata que se utilizavam jatos de água libertando o ouro dos outros minerais à sua volta, obtendo-se um produto final irregular.

O processo de purificação do ouro9 podia ser realizado de vários métodos, mas o mais utilizado consistia na copelação (MARTINS, 2008: 75). Este método requeria temperaturas elevadas, substâncias redutoras, oxidantes e fundentes, separando o ouro da restante escória. Plínio faz ainda referência a outro método utilizado para processar o ouro, sendo este o recurso

ao sal. Este autor indica que o uso do sal no metal do ouro eliminava os resíduos de óxido existentes na prata (Hist. Nat., 33, 109) e, no que diz respeito ao ouro, era utilizado na sua limpeza (Hist. Nat., 33, 62). O sal, segundo Plínio (Hist. Nat. 33, 62), era também utilizado como método para comprovar o valor e a qualidade do ouro obtidos durante as explorações auríferas.

Associados a estes processos de tratamento do minério do ouro é importante referir brevemente os utensílios utilizados e estruturas, uma vez que sem estas, estes procedimentos não seriam possíveis.

O principal elemento para o processo de purificação do ouro é a utilização de um forno, sendo aqui que se inicia e termina este processo de transformação de minério para metal. Esta estrutura podia estar inserida próximo do local da exploração mineira ou um pouco afastado, num local especificamente destinado para este fim.

Segundo Estrabão, o combustível utilizado nos fornos para a fundição do ouro era a palha, podendo também se utilizar carvão vegetal. De qualquer dos modos, isto implica que o forno se localize numa zona com vegetação nos seus arredores. Os fornos podiam ser construídos utilizando pedra ou adobe, sendo necessário um adobe mais simples para o exterior e uma mais resistente para o interior do forno, uma vez que irá estar sujeito a temperaturas elevadas. A sua tipologia era circular e cónica tendo uma abertura para colocar o material a ser fundido e o combustível e uma abertura para uma chaminé (MARTINS, 2008: 78).

Os fornos podiam ser construídos com base em quatro tipologias diferentes. Podiam ser em fossa, colocados na terra ou na rocha, podiam ter uma chaminé vertical, podiam ser subterrâneos, sem qualquer estrutura saliente ou podiam ter uma estrutura circular, com uma cobertura em cúpula. Esta última é a tipologia construtiva mais utilizada pelos romanos (PLEINER, 1997).

Outras estruturas e utensílios utilizados eram as tubeiras em cerâmica, maçaricos de boca utilizados para acender o fogo dentro do forno, cadinhos e crisóis. Para a solidificação do metal após a fundição, utilizavam-se moldes de argila, pedra ou bronze (mais tarde), vertendo para estes o ouro fundido com o recurso a relheiras.

Nos jazigos secundários, o tratamento do minério era mais simples. O ouro encontrava- se livre de outros minerais não havendo geralmente uma necessidade de passar pelo processo de moagem. O minério passava por uma lavagem manual e eram introduzidas pequenas quantidades deste num recipiente circular aberto com um fundo plano ou cónico. Realizava-se um movimento oscilante com o recurso a uma pequena corrente de água, eliminando-Realizava-se os materiais de maiores dimensões. No produto final ficam apenas os fragmentos mais pequenos