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PROCESSOS E DIMENSÕES ÉTICAS

No documento Tese Gerontologi Social Dulce Correia (páginas 51-56)

CAPÍTULO III PROTOCOLO METODOLÓGICO

3.5 PROCESSOS E DIMENSÕES ÉTICAS

De acordo com Fortin (1999, p.128) "para proceder ao desenvolvimento dos

conhecimentos quer seja das ciências biomédicas, quer seja das ciências de comportamento humano, o investigador deve obter da parte dos potenciais sujeitos um consentimento esclarecido e livre". Assim sendo, para acautelar as questões de ordem ética com que nos poderíamos deparar durante o desenvolvimento da investigação, foram formulados pedidos de autorização, por escrito, nomeadamente ao CEAMPS, para recolha de documentação, autorização de entrevistas aos técnicos do CAMPS, nomeadamente Psicólogo e Assistente Social, bem como a solicitação de colaboração dos núcleos de Estremoz, Évora e Portalegre para seleção do público-alvo desta investigação.

Teve-se também em atenção os princípios que regem qualquer investigação, pelo que antes da realização das entrevistas se expuseram os objetivos e a natureza do estudo aos

participantes, respeitando sempre a vontade dos sócios em colaborar ou não no estudo, assegurando o direito à confidencialidade e garantindo o direito ao anonimato das informações.

3.6 O PROCESSO DE TRATAMENTO DE DADOS

3.6.1 Análise de Conteúdo

"Em investigação social, o método das entrevistas está sempre associado a um método de análise de conteúdo [...], trata-se, de facto, de fazer aparecer o máximo possível de elementos de informação e de reflexão, que servirão de materiais para uma análise sistemática de conteúdo que corresponda, por seu lado, às exigências, de estabilidade e de intersubjetividade dos processos" (Quivy & Campenhoudt, 2008, p.195).

Para Guerra (2006, p.62) a análise de conteúdo da entrevista contém duas dimensões, "a descritiva que visa dar conta do que foi narrado e uma dimensão interpretativa que decorre das interrogações do analista face a um objeto de estudo".

De acordo com Amado (2000. pp.55-56) a análise de conteúdo "trata-se de um processo de esquartejamento do texto e do seu sentido imediato, visível [...] em categorias de significação [...] com o objetivo de se descortinarem outros sentidos".

Segundo Albarello et al (1995, p.121) a análise de conteúdo é um trabalho indutivo do investigador, "na medida em que tem de descobrir as categorias pertinentes a partir das quais é possível descrever e compreender a realidade observada". Os mesmos autores referem ainda que este tipo de análise é o indicado na sociologia compreensiva "na medida em que esta se esforça por reconstruir, pela interpretação, o significado visado pelos atores em situação".

Neste sentido, após a transcrição das entrevistas aos antigos combatentes, a investigadora procedeu à categorização dos dados recolhidos, que teve como base a estrutura do guião de entrevista. Foram criadas cinco categorias, de acordo com as dimensões definidas no respetivo guião: RELAÇÕES FAMILIARES E CONDIÇÕES DE VIDA, MOTIVAÇÕES PARA A GUERRA (Dimensão - A vida antes da mobilização); A PARTICIPAÇÃO NA GUERRA - COMPETÊNCIAS E VULNERABILIDADES (Dimensão - A vida enquanto militar na guerra colonial), e na última dimensão, que correspondeu à vida pós-guerra colonial, a investigadora decidiu criar duas categorias, respetivamente O SENTIDO DA VIDA - TRANSFORMADO PELA GUERRA e A CONDIÇÃO DE ANTIGO COMBATENTE NA VELHICE. Foram criadas posteriormente as subcategorias e associados os respetivos indicadores de cada subcategoria. Os quadros seguintes mostram a forma de organização de cada categoria:

Quadro 1 - "RELAÇÕES FAMILIARES E CONDIÇÕES DE VIDA"

CATEGORIA SUBCATEGORIA INDICADORES

RELAÇÕES FAMILIARES E CONDIÇÕES DE VIDA

Vida precária Meio Rural Outra fonte de Rendimento

Familiar

Apoio no sustento da casa Pouca valorização dos estudos

Quadro 2 - "MOTIVAÇÕES PARA A GUERRA"

CATEGORIA SUBCATEGORIA INDICADORES

MOTIVAÇÕES PARA A GUERRA

Dever com a Pátria Sentimento incutido ao Povo Melhorar as condições de vida A oportunidade para os mais

desfavorecidos economicamente Revolta/Desânimo Ruturas familiares e

profissionais

Quadro 3 - "PARTICIPAÇÃO NA GUERRA - COMPETÊNCIAS E VULNERABILIDADES"

CATEGORIA SUBCATEGORIA INDICADORES

PARTICIPAÇÃO NA GUERRA - COMPETÊNCIAS E VULNERABILIDADES

Exposição a condições adversas /traumáticas

Contacto com a morte, sofrimento e medo Condições precárias Relações de Camaradagem Apoio e ajuda Sentimentos de injustiça Contacto com outras

realidades sociais Comunicação com a Metrópole Suporte da família

Apoio Moral das Madrinhas de guerra

QUADRO 4 - "O SENTIDO DA VIDA" - TRANSFORMADO PELA GUERRA

CATEGORIA SUBCATEGORIA INDICADORES

"O SENTIDO DA VIDA" - TRANSFORMADO PELA

GUERRA

Crescimento pessoal Mudanças pessoais e profissionais

Estigmatização Marcas Físicas e psicológicas

QUADRO 5 - "A CONDIÇÃO DE ANTIGO COMBATENTE NA VELHICE"

CATEGORIA SUBCATEGORIA INDICADORES

A CONDIÇÃO DE ANTIGO COMBATENTE

NA VELHICE

Satisfação com a vida e com as memórias de guerra

Orgulho em ter sido Combatente

Os convívios com os outros camaradas

O papel das Associações no apoio ao Combatente

A necessidade de se associar à Liga dos Combatentes

Marcas de guerra na Velhice Stress Pós traumático Depressões Ansiedade O Reconhecimento ao Combatente Os benefícios ao antigo combatente

O silêncio face à Guerra Colonial

No que respeita às entrevistas realizadas com os técnicos, a investigadora seguiu o mesmo procedimento que com os antigos combatentes - adotou uma postura pouco interventiva, uma vez que o seu objetivo era o de conhecer "o olhar" dos técnicos do CAMPS sobre o antigos combatentes e a forma de atuação dos Centros.

Os dois técnicos entrevistados são ambos militares e desenvolvem o seu trabalho em regime de part time, com caráter voluntário. Pertencem a CAMPS diferentes, com realidades muito distintas em termos de dimensão associativa.

O técnico 1 tem 49 anos a sua formação académica é em psicologia. Entrou para o CAMPS em 2011 e anteriormente tinha desenvolvido atividade como psicólogo, mas fora da Instituição Militar.

O técnico 2 tem 36 anos, a sua formação é em Educação social e iniciou a atividade profissional no âmbito de um acordo técnico militar entre Portugal e Angola, no Hospital militar. Terminado o estágio ingressou na carreira militar e continuou a desenvolver funções de assistente social no Hospital Militar. Como oficial, para além da ligação à atividade militar, nomeadamente dar formação aos pelotões, estava também afeta à secção do pessoal, onde prestava serviços de apoio social aos militares, nomeadamente em situações em que era necessária intervenção do serviço social, assistência na família, em termos económicos, situações de adaptação a todas as rotinas militares, morte de familiares, resolução de questões legais, tais como licenças de amamentação em mulheres militares, entre outros casos.

O desenvolvimento das entrevistas com cada um dos técnicos foi diferente. No que concerne ao psicólogo este cingiu-se muito à sua função como psicólogo, contudo foi um diálogo muito rico em informação sobre o trabalho no Centro e as suas expetativas, não

havendo necessidade de grande orientação relativamente ao guião previamente elaborado. A entrevista com a Assistente Social foi mais informal, tornando-se assim reveladora de toda a envolvente emocional associada à atuação profissional que acontece no trabalho realizado pelo Centro.

À semelhança do procedimento seguido nas entrevistas com os antigos combatentes, após transcrição das entrevistas procedeu-se à categorização dos dados recolhidos, que teve como base a estrutura do guião de entrevista utilizada para os técnicos. Foram criadas três categorias, respetivamente PERCURSO NO CAMPS, O COMBATENTE DO CAMPS e por último A AÇÃO GLOBAL DO CAMPS. De seguida apresentam-se os quadros que mostram a forma de organização de cada uma das categorias construídas:

QUADRO 6 - "O PERCURSO NO CAMPS"

CATEGORIA SUBCATEGORIA INDICADORES

O PERCURSO DO TÉCNICO NO CAMPS

Motivação Altruísmo Ser militar

Formação Académica

QUADRO 7 - "O COMBATENTE DO CAMPS"

CATEGORIA SUBCATEGORIA INDICADORES

O COMBATENTE DO CAMPS

As vulnerabilidades O pós-reforma

Fragilidades psicológicas Fragilidades sociais O diagnóstico e os Apoios Ouvir e encaminhar o

combatente Apoio Social Terapia em grupo Terapia Individual

QUADRO 8 - "A AÇÃO GLOBAL DO CAMPS"

CATEGORIA SUBCATEGORIA INDICADORES

A AÇÂO GLOBAL DO CAMPS

Suprir as lacunas do passado Apoio psicológico Apoio social A relação entre o CAMPS e

as outras Instituições

Cooperação Visibilidade Social e Política Reconhecimento ao

CAPÍTULO IV - NARRATIVAS DE VIDA MARCADAS PELA GUERRA: RELATOS

No documento Tese Gerontologi Social Dulce Correia (páginas 51-56)

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