• Nenhum resultado encontrado

Processos educativos da educação do campo

No documento Download/Open (páginas 46-52)

A educação voltada para o campo é questão de tomada de decisão política global, tendo em vista que a educação não foi planejada para os camponeses, mas que diante das mudanças sociais e tecnológicas, a educação vai tomando proporção ao longo de seu processo histórico. Daí que, para falar em educação do campo, não é somente pensar a questão teórica, contextualizada, mas, sobretudo assumir uma postura política. Desse modo, Caldart (2009, p. 36) alerta para o sentido de que a educação do campo em:

Sua natureza e seu destino estão profundamente ligados ao destino do trabalho no campo e, consequentemente, ao destino das lutas sociais dos trabalhadores e da solução dos embates de projetos que constituem a dinâmica atual do campo brasileiro, da sociedade brasileira, do mundo sob a égide do capitalismo em que vivemos. E ainda que „muitos não queiram‟, esta realidade exige posição (teórica sim, mas, sobretudo prática, política) de todos os que hoje afirmam trabalhar em nome da Educação do campo. Assim, as dimensões que se envolvem no seio desse movimento camponês em estado de luta, que tende a se portar contra o sistema capitalista, não somente se prende a este fator social, mas, a complexidade que o próprio movimento requer, mediante a tríade da teoria, prática e política. Contudo, é preciso consciência política, sobretudo acerca da importância do movimento camponês em luta ao reivindicar uma educação do campo.

É, portanto, necessário que de fato se efetive a consciência política ao se dialogar sobre a educação do campo. Tendo em vista que esta arena é permeada por tensão desde primórdios históricos e, embora, se haja muita teoria em volta, a prática ainda é iminente e a política é restrita. Nesse sentido, Caldart (2009, p. 38) corrobora com o entendimento de que a educação do campo acontece mediante

47 as contradições e tensões existentes em seu processo de vir a ser. Assim, se concebe que ao se abordar sobre a educação do campo:

É a necessidade e a importância, política, teórica, de compreender este fenômeno chamado de Educação do campo em sua historicidade, o que implica buscar apreender as contradições e tensões que estão na realidade que a produziu e que a move, e que ela ajuda a produzir e mover; que estão no „estado da coisa‟, afinal, e não apenas nas ideias ou entre ideias sobre o que dela se diz.

Nesta situação conflituosa, se faz jus às contradições e tensões em que a educação do campo vem se fazendo à medida que, se acentua a necessidade desta modalidade educacional para os povos do campo. Pois, sabe-se que os povos do campo, conhecidos como sujeitos diversos, possuem especificidades diferenciadas e que merecem igual atenção. Desta forma, sob a ótica de Caldart, várias questões devem ser levadas em consideração. Pois:

[...] no terreno das tensões e contradições e não das antinomias, estas últimas muito mais próprias ao mundo das ideias do que ao plano da realidade concreta, das lutas pela vida real em uma sociedade como a nossa: sim! A Educação do campo toma posição, age, desde uma particularidade e não abandona a perspectiva da universalidade, mas disputa sua inclusão nela (seja na discussão da educação ou de projeto de sociedade). Sim! Ela nasce da „experiência de classe‟ de camponeses organizados em movimentos sociais e envolve diferentes sujeitos, às vezes com diferentes posições de classe. Sim!

A autora ainda acrescenta:

A Educação do campo inicia sua atuação desde a radicalidade pedagógica destes movimentos sociais e entra no terreno movediço das políticas públicas, da relação com um Estado comprometido com um projeto de sociedade que ela combate, se coerente for com sua materialidade e vínculo de classe de origem. Sim! A Educação do campo tem se centrado na escola e luta para que a concepção de educação que oriente suas práticas se descentre da escola, não fique refém de sua lógica constitutiva, exatamente para poder ir bem além dela enquanto projeto educativo. E uma vez mais, sim!

Também é validado pela autora a necessidade de que:

A Educação do campo se coloca em luta pelo acesso dos trabalhadores ao conhecimento produzido na sociedade e ao mesmo tempo problematiza, faz a crítica ao modo de conhecimento dominante e à hierarquização epistemológica própria desta sociedade que deslegitima os protagonistas originários da Educação do campo como produtores de

48 conhecimento e que resiste a construir referências próprias para a solução de problemas de outra lógica de produção e de trabalho que não seja a do trabalho produtivo para o capital (2009, p. 39). O posicionamento político, ideológico, epistemológico e filosófico de Caldart (2009), nos remete a constituição da educação do campo, como uma filosofia antagônica aquela que foi posta pelos senhores feudais desde primórdios. Desse modo, é uma luta mesmo de fazer valer o papel social do intelectual orgânico que está presente no campo da disputa pelo poder, ou seja, pelo conhecimento. Esta necessidade de evidenciar as especificidades das lutas dos camponeses por uma educação do campo se compreende que é preciso à legitimação desses sujeitos, de suas identidades e culturas e não somente que impere a lógica do capitalismo que exclui os que não fazem parte da elite intelectual e consequentemente produtora de capital.

Permear um aprofundamento teórico acerca das contradições e tensões que transitam no movimento social camponês por uma educação do campo é corroborar com a efetividade da necessidade das lutas, mobilizações e reivindicações acerca desta educação que seja para os povos do campo e não sobre os povos do campo.

A realidade é que as tensões e contradições são características de violência contra a dignidade humana, o direito a vida que todos têm. Os conflitos sociais não foram poucos e ainda não acabou. Talvez tenham se camuflado. Mas, que estas contradições e tensões ainda existem em seus campos de luta pelo reconhecimento, pelo pertencimento e, sobretudo pelo acesso aos direitos humanos fundamentais dos povos do campo.

Por conseguinte, é importante saber como de fato se conceitua a educação do campo. Então, Caldart, trás em seu bojo, as especificidades concernentes ao campo como pode ser definido o movimento da educação do campo, assim se concebe:

[...] um movimento real de combate ao „atual estado de coisas‟: movimento prático, de objetivos ou fins práticos, de ferramentas práticas, que expressa e produzem concepções teóricas, críticas a determinadas visões de educação, de política de educação, de projetos de campo e de país, mas que são interpretações da realidade construídas em vista de orientar ações/lutas concretas (2009, p. 40).

49 É nessas conjecturas de „atual estado de coisas‟ que se movimenta a educação do campo, com suas tensões e contradições, pois parece que as conquistas sociais somente podem acontecer se houver essas mobilizações sociais, porque os bens socialmente produzidos não estão destinados para todos com igualdade, mas sim, apenas para alguns, estes os que fazem parte da elite da sociedade, enquanto que aqueles apenas podem produzi-lo socialmente, materialmente e simbolicamente.

Contudo, as conquistas acontecem pelo protagonismo dos sujeitos do movimento social camponês em seu estado de luta, que se reconhecendo como sujeito pertencente e de direito a uma educação do campo, em movimento evidentemente luta por este direito. Caldart corrobora para o entendimento de que:

Os protagonistas do processo de criação da Educação do campo são os „movimentos sociais camponeses em estado de luta‟, com destaque aos movimentos sociais de luta pela reforma agrária e particularmente ao MST. O vínculo de origem da Educação do campo é com os trabalhadores „pobres do campo‟, trabalhadores sem-terra, sem trabalho, mas primeiro com aqueles já dispostos a reagir, a lutar, a se organizar contra „o estado da coisa‟, para aos poucos buscar ampliar o olhar para o conjunto dos trabalhadores do campo (2009, p.40).

O protagonismo do movimento camponês em estado de luta parte primeiro da indignação, a ordem subversiva, da qual os povos do campo sempre foram submetidos, em sendo assim, os camponeses indignados e sabendo que são sujeitos de direitos e cidadãos do mundo lutam por um projeto de sociedade, combatendo assim a desigualdade social existente de forma antagônica ao modelo neoliberal, que tende a imperar na sociedade da produção do capital.

Dessa forma, entender a essência da educação do campo se faz pertinente, tendo em vista que é muita usada à preposição do/no. Assim, Caldart, nos explica o sentido epistemológico da educação do campo, para ela, significa que:

Na sua origem, o „do‟ da Educação do campo tem a ver com esse protagonismo: não é „para‟ e nem mesmo „com‟: é dos trabalhadores, educação do campo, dos camponeses, pedagogia do oprimido. Um „do‟ que não é dado, mas que precisa ser construído pelo processo de formação dos sujeitos coletivos, sujeitos que lutam para tomar parte da dinâmica social, para se constituir como sujeitos políticos, capazes de influir na agenda política da sociedade. Mas que representa, nos limites „impostos

50 pelo quadro em que se insere‟, a emergência efetiva de novos educadores, interrogadores da educação, da sociedade, construtores (pela luta/pressão) de políticas, pensadores da pedagogia, sujeitos de práticas (2009, p. 41).

Portanto, o conhecimento da educação do campo é um processo político de protagonismo social de seus sujeitos construtores de sua transformação social. Sentido este que impulsiona os sujeitos a lutarem, reivindicarem e mobilizarem por uma educação do campo, uma vez que esta não é dada ou adquirida, mas conquistada com o movimento camponês em estado de luta.

O processo educativo da educação do campo, não se basta a si mesmo, pois ele é permeado pelos próprios sujeitos que estão inseridos em seus contextos sociohistórico. No que concerne a pedagogia da educação do campo, Caldart (2009, p. 42) expressa o sentido epistêmico desta pedagogia, assim:

Considerar a realidade do campo na construção de políticas públicas e de pedagogia significa considerar os sujeitos da educação e considerar a prática social que forma estes sujeitos como seres humanos e como sujeitos coletivos. E não pretender que a educação/a pedagogia valha e se explique por e em si mesma.

Nessa perspectiva a educação do campo parte do anseio dos sujeitos de direitos, pois a prática social é coletiva em prol da práxis educativa. Contudo, ainda é ressaltado por Caldart que “É preciso pensar a escola sim, e com prioridade, mas sempre em perspectiva, para que se possa transformá-la profundamente, na direção de um projeto educativo vinculado as práticas sociais emancipatórias mais radicais” (2009, p. 43). A educação, portanto, deve estar vinculada a práticas sociais emancipatórias que corroborem com o desenvolvimento integral dos sujeitos sociais. Entretanto, a educação que deve ser permeada no campo, não é somente a questão de escolas do campo, mas sim uma formação que viabiliza o desenvolvimento social, cultural e identitário do ser do campo.

O acesso ao conhecimento sempre foi restrito e hierarquizado. Assim, os povos do campo ficavam/ficam alheios ao acumulo deste capital intelectual. Motivo pelo qual, muitos dos que vivem no campo não dominam as letras, ou seja, não sabem nem ler, nem escrever. Assim, Caldart salienta que:

Na reafirmação da importância da democratização do conhecimento, do acesso da classe trabalhadora ao conhecimento

51 „historicamente acumulado‟, ou produzido na luta de classes, a Educação do campo traz junto uma problematização mais radical sobre o próprio modo de produção do conhecimento, como crítica ao mito da ciência moderna, ao cognitivismo, à racionalidade burguesa insensata; como exigência de um vínculo mais orgânico entre conhecimento e valores, conhecimento e totalidade do processo formativo (2009, p.45).

Nesse contexto, a educação do campo reivindica também pela produção de conhecimento, ou seja, que os sujeitos do campo com seus saberes e suas sistematizações produzam seus conhecimentos, e que sejam reconhecidos e validados, a partir da construção do seu próprio material pedagógico.

Os saberes dos povos do campo, não pareciam ter valor para os cientistas, para academia. Atualmente, é que este cenário vem mudando. Os sujeitos dos movimentos sociais camponês devem “estudar para poder compreender melhor a complexidade do momento atual da luta de classes” (Caldart, 2009, p. 48). É justamente pela apropriação do conhecimento que os atores sociais podem reivindicar seu direito a educação, não como uma forma de assistência, mas sim, como um direito que deve ser universal, inalienável e indivisível para os povos do campo. Por conseguinte, compreende-se que a educação é uma bandeira de luta do movimento social camponês em estado de luta, pois somente assim é que a realidade do campo de fato muda, pois nem sempre a educação que é ofertada na escola do campo é realmente voltada para o interesse e necessidade dos sujeitos do campo.

Principalmente quando o sujeito educador/a não simpatiza com o contexto do campo, o que acontece muito, uma vez que nem sempre a educação do campo é viabilizada por pessoas formadas nas perspectivas da educação do campo. Por isso, outra bandeira de luta do movimento social camponês em estado de luta se levanta, a fim de que o ensino oferecido na educação do campo seja por educadores realmente formados para tal e, não alguém que esteja sendo punido, quase sempre em casos da rede pública, na cidade, seja transferido para o contexto social e cultural do campo para “ensinar”. Situação que somente tende a descaracterizar a educação do campo e que muito acontece historicamente nos contextos das escolas no campo, por perseguição política.

Nessa perspectiva, ainda muito precisa ser feito para ressignificar os processos educativos para a educação do campo, pois somente com uma

52 formação pedagógica especifica para o contexto do campo é que a prática pedagógica pode ser outra, se a educação do campo não for ofertada pelo movimento social camponês, esta será possivelmente fragmentada em sua especificidade. Daí é importante, que as práticas pedagógicas possam ser viabilizadas de forma a promover a emancipação e a transformação social dos camponeses, com uma educação contextualizada e integrada com as especificidades inerentes à realidade dos povos do campo.

Em sendo assim, se entende que os processos culturais e identitários dos sujeitos do campo, devem ser levados em consideração no interior da sala de aula, pois é preciso viabilizar o horizonte de sentido que emerge da necessidade de reconhecimento e pertencimento destes sujeitos pelo seu local de origem. Nesta perspectiva a pedagogia do campo deve ser do campo.

No documento Download/Open (páginas 46-52)