CAPÍTULO I FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2. TEORIA DA REPRESENTAÇÃO SOCIAL
2.1 Processos formadores da representação social
De uma perspectiva cognitiva, dois processos, que são intrinsecamente relacionados, e que são modelados por fatores sociais fazem parte da formação das representações sociais: a ancoragem e a objetivação.
De início Moscovici já nos informa que “formar” não tem um significado genético, designa uma sucessão provável de fenômenos cujas etapas devem ser validadas pela observação. Esses processos são geradores de temas, enquanto ideias- fonte, conceitos ou imagens, cujas noções geram sentidos e representações na relação cultura-cognição (Moscovici, 2012, p. 100).
O processo de ancoragem sintetiza classes de discurso das representações sociais, na construção de campos semânticos e suas chaves interpretativas. A objetivação traz marcas da cognição e do recurso linguístico que se referem a modos de composição entre objetos e o estabelecimento de limites nas relações de campo interno- externos (2011, p. 245).
A ancoragem, por um lado, precede a objetivação e, por outro, situa-se na sua sequência. Enquanto processo que precede, refere-se ao fato de que qualquer tratamento da nova informação exige pontos de referências, exige esquemas já estabelecidos que
suportem o novo; como processo que “segue” a objetivação, refere-se à função social das representações, nomeadamente, permite compreender a forma como os elementos representados contribuem para exprimir e constituir as relações sociais. Em suma, a ancoragem é feita na realidade social vivida, não sendo, portanto, concebida como processo cognitivo intraindividual (Spink, 2008).
Esse primeiro mecanismo ao ancorar ideias “estranhas” e perturbadoras de conceitos reificados na sociedade, o faz tentando reduzi-las a categorias e imagens que lhes são familiares, no contexto de uma linguagem própria e ao de seu grupo de referência.
O que o sujeito ou grupo social faz quando se depara com temas, fenômenos ou situações ameaçadoras, estranhas ao seu cotidiano, é tentar classificar e nomear a novidade, buscando uma coerência social e cognitiva que reduza o desconhecido, trazendo-os para a sua zona de conforto, organizando-os em categorias que reduz e seleciona o que se torna consensualmente significativo e importante naquele contexto específico.
A objetivação diz respeito à forma como se organizam os elementos constituintes da representação e ao percurso através do qual tais elementos adquirem materialidade, isto é, se tornam expressões de uma realidade vista como natural, essencialmente uma operação formadora de imagens que se tornam concretas, quase tangíveis.
Essa formação implica em três fases ou etapas: a primeira é a construção seletiva das informações do corpo teórico-científico veiculadas, que ao sofrer transformação, forma-se um todo relativamente coerente ao nível do senso comum. Tal seleção será diferente em função de critérios cultuais, acesso às informações e pertencimento grupal, de um lado; por outro, são os critérios normativos que retém os elementos de informação relevantes e coerentes com o sistema de valores próprios ao grupo.
A segunda etapa corresponde à organização dos elementos, que envolve a formação do núcleo figurativo no qual os elementos da representação estabelecem entre
si um padrão de relações conceituais estruturadas, que assegura a estabilidade da estrutura imageante, tornando-se uma de suas materialidades.
O modelo figurativo resultante preenche várias funções: concentra a maioria dos conceitos importantes da teoria cientifica e a representação social, embora sua exatidão seja relativa; a mudança de “indireto” em “direto” se realiza, o que na teoria é expressão geral e abstrata de uma série de fenômenos torna-se, na representação, tradução imediata do real; e o modelo associa os elementos indicados numa sequência autônoma com dinâmica própria, independente das contradições (Moscovici, 2011, p.115).
E a última etapa da objetivação é a naturalização que corresponde à transformação dos conceitos retidos e as respectivas relações que adquirem materialidade, significado prático. Nesse momento o objeto social deixa de ser uma abstração e torna-se uma realidade quase tangível, quase “palpável”, conferindo uma realidade plena, agora tornada conhecimento do senso comum, em última instância, um novo conceito, “quase plenamente domado”, autônomo.
Enquanto na objetivação os elementos representados de uma ciência se integram a uma realidade social, a ancoragem permite apreender a maneira como eles contribuem para modelar as relações sociais e como eles as exprimem. “O objeto visado pela sociedade, assim como o sujeito saem desses desenvolvimentos transformados” (Moscovici, 2011, p. 158).
Para Jodelet (1989) o processo de ancoragem relaciona-se dialeticamente à objetivação, articula três funções básicas da representação: a função cognitiva de integração da novidade, a função de interpretação da realidade e a função de orientação das condutas e das relações sociais. Assim, esse processo permite compreender: a) como a significação é conferida ao objeto representado; b) como a representação é utilizada como sistema de interpretação do mundo social e instrumentaliza a conduta; c) como se dá sua integração em um sistema de recepção e como influenciam e são influenciados pelos elementos que aí se complementam.
Portanto, a ancoragem pode-se dizer que é um processo que se dirige para dentro, armazenando e buscando coisas, pessoas, eventos identificáveis atribuindo um nome, enquanto que a objetivação é o processo que tende a se dirigir para fora,
derivando conceitos e imagens que passam a fazer parte de novas elaborações do pensamento que se atualiza na linguagem verbal, criando novos significados e sentidos do mundo.
Face ao exposto, pode-se inferir que, para esses processos entrarem em ação, primeiro o “objeto social” precisa ter alguma relevância científica e circular discursiva e comunicativamente em determinada cultura ou grupo social. Em seguida, aquilo que está “solto”, que é estranho, não familiar é trazido para o contexto particular e se incorpora às redes de significações, e são nomeados e classificados num quadro de referência próprio daquele sujeito ou grupo. E ao fazer esse deslocamento um novo corpo semântico e de relações de sentidos são construídos, formando- se um novo corpo de conhecimentos que se une ao anterior e se estabiliza. Portanto, com bases nas representações sociais geradas e partilhadas, o indivíduo ou grupo social se apropria desses novos conhecimentos, com base nos quais suas ações serão orientadas.
Essa ilação particular desses dois processos não desconsidera outros construtos cognitivos que estão envolvidos nas elaborações das representações sociais, tais como, a percepção, a atenção, a memória, a linguagem, a afetividade, ou seja, quem representa o faz a partir de seus referentes, de sua cultura, de sua história e do grupo social a que pertence.