SABERES, TEORIA E CONHECIMENTO: O VICE-VERSA DOS LIVROS À MILITÂNCIA.
5.2. Processos formativos a partir da Educação Popular do PMTF.
No segundo capítulo desse trabalho, evidenciamos a respeito da percepção de educação que vem sendo discutida ao longo dos séculos. Explanamos - fazendo uso de autores como Freire e Brandão - os papéis sociais que a mesma intrinsecamente assume e desse modo afunilamos o núcleo teórico para uma das categorias de análise emergidas do objeto de estudo. A categoria foi a Educação Popular.
A “montagem” do núcleo conceitual já teria sido o suficiente para reafirmar uma constatação já notada antes mesmo da construção desse estudo: a educação não ocorre somente no ambiente escolar. Os ensinamentos e vivências dos autores selecionados já asseguravam tal entendimento. Todavia, dado o objetivo dessa pesquisa, compreendemos que as escritas vindas posteriormente ao segundo capítulo revelariam mais um olhar diferenciado para a educação, tendo em vista que a mesma está em constante reinvenção, dada a sua necessidade de configurar-se a partir de práticas sociais.
Essas reflexões nos fizeram chegar ao “fazer formativo” realizado no PMTF. Brandão (2013) nos permite um primeiro aclaramento tendo por base a endoculturação, analisando que “vista em seu voo mais livre, a educação é uma fração da experiência
endoculturativa. Ela aparece sempre que há relações entre pessoas e intenções de ensinar- e-aprender” (p. 25)
Ora, o processo de endoculturar citado pelo autor nada mais é do que formar a partir do que se vivencia culturalmente. Dito isso, notadamente o Ponto realiza essa função educativa quando entende que esta é uma de suas missões. O conselheiro José Maria nos aponta isso, ao afirmar:
Porque a educação, tem algumas coisas que você vai aprender na escola, algumas coisas que você vai aprender na sua casa, no lar, mas tem outras que você vai aprender é envolvido nesses projetos sociais, então, nós temos uma missão muito grande. Nós, conselheiros, de fazer as atividades voltadas ao povo, ao nosso bairro e a questão social, porque é uma contribuição muito grande para que a gente possa ter lá na frente um jovem melhor, uma criança melhor.
Essa crença de que um projeto como o do Ponto pode assumir a responsabilidade de “modificar” a vida de um ser humano surge a partir do acreditar, ainda que inconscientemente, no endoculturamento, haja vista que a intenção de ensinar sobre a importância de valorizar a memória da Terra Firme seria, para o Conselheiro, uma das maneiras de garantir a autonomia do sujeito integrante do processo formativo realizado através do PMTF.
O Ponto de Memória da Terra Firme, aposta, segundo o observado na narrativa de José Maria, em uma educação popular, a qual legitima os saberes das ruas, e, nesse caso, de projetos sociais, como o do Ponto.
É necessário que se entenda que a numerosa presença de Projetos e Movimentos sóciopoliticos em lugares como favelas e periferias, comumente, se valem da premissa de que a valorização de seu território é um dos primeiros passos para que seus saberes sejam epistemologicamente assumidos. Nessa mesma senda, as autoras abaixo embasam o referido pensamento:
Os processos de formação que se constituem nas dinâmicas territoriais são reveladores do quanto as relações sociais vivenciadas entre indivíduos e grupos de uma determinada comunidade e entre grupos com histórias diferentes, correspondem a contextos edificantes de práticas educativas. Nesse ambiente de campo de relações são potencializados movimentos e experiências que garantem a mobilização de saberes e práticas que colaboram para a formação humana. (CARMO; ARAÚJO, 2014, p. 270)
A educação, por si só, já lida com processos humanos formativos dada a sua natureza de ser uma prática social. Entretanto, a hierarquia de saberes que
assombrosamente envolve seu campo, permite a dificuldade de compreendê-la em sua amplitude, ou seja, quer restringi-la a um espaço (geralmente escolar). O que queremos afirmar com isso é que o fato de considerar um conhecimento mais valoroso que outro é impedir que a educação avance socialmente, e assim, acabe menosprezando os saberes ditos “não formalizados”. Na realidade, é injusto e incoerente que afirmemos que a própria educação é quem aceita isto, quando o que de fato acontece são educadores que desvalorizam o processo formativo ocorrido em todo e qualquer espaço.
Contudo, como vamos afirmando ao longo do texto dissertativo, acreditamos nesse processo de educação que se distribui socialmente, alcançando, também, espaços socioeducativos como, periferias, favelas, movimentos e projetos sociais e centros comunitários. E, por essa razão, analisamos o caráter formativo que se dá no PMTF por meio de práticas de Educação Popular, as quais se revelam, por exemplo, em atividades que afirmam e/ou revelam a cultura de Terra Firme, que por vezes, é desconhecida pelo próprio morador. Novamente, o conselheiro José Maria sinaliza esses momentos formativos:
Uma atividade que me marcou foi uma atividade que eu não tive cem por cento de participação, mas o nosso cortejo cultural, que houve, né?! (...) Todos participaram, teve apresentação dos grupos. Ponto de Memória coordenando, então, foi assim, aquela ação, aquele movimento que é um movimento que a comunidade precisa. Precisa saber que tem a cultura, que alguém tá interessado, que gosta dessa cultura, que proporciona pra comunidade uma coisa que ela não precisa ir lá no centro da cidade, não precisa ir se deslocar pra longe pra ver o que a gente tem no nosso bairro, os nossos grupos culturais, nossos grupos sociais, né?! As pessoas verem a cultura.
É importante que se enfatize a respeito dos caminhos educativos que são possíveis de visualizar a partir da compreensão de que além de estar diretamente ligada aos processos culturais que se dão em todas as sociedades, a educação se realiza no dia a dia de cada sujeito que compõe esse coletivo, ultrapassando muros escolares. Sabendo disso, acreditamos no potencial que o PMTF já possui para cumprir esse papel de educar em sua comunidade. Nesse sentido, recorremos novamente à Brandão, que nos esclarece a respeito da importância de compreender o sentido do educar, o qual não necessita de vastas interpretações. A educação é o maior saber-fazer-aprender que se desenvolve no meio social a fim de entrelaçar saberes que se dão dentro e fora da escola.
A educação do homem existe por toda a parte e, muito mais do que a escola, é o resultado da ação de todo o meio sociocultural sobre os seus participantes. É o exercício de viver e conviver com o que educa. E a
escola de qualquer tipo é apenas um lugar e um momento provisórios onde isso pode acontecer. Portanto, é a comunidade quem responde pelo trabalho de fazer com que tudo o que pode ser vivido-e-aprendido da cultura seja ensinado com a vida – e também com a aula – ao educando. (BRANDÃO, 2013, p. 49)
Seguindo no entrelaçamento de saberes, observamos importante ressaltar um discurso afirmado por Sâmia, o qual garante que estar ou não em um banco escolar não é premissa para entendimento ou não do sentido de educar.
O Ponto de Memória faz educação popular porque junta a população e leva a educação pra ele, leva o conhecimento, né? Leva o fazer e aprende também com ele, entendeu? Com aquela população. Então, acho que o Ponto de Memória trabalha também com isso, porque não é só nós aqui que vivemos o Ponto de Memória, outras pessoas também vivem o Ponto de Memória, porque nas atividades são incluídos muitos jovens e jovens que estão sendo educados, estão sendo instruídos. Então, o Ponto de Memória faz muito bem esse trabalho.
Para esse discurso, é necessário que se dê o enfoque necessário ao “viver o Ponto de Memória”, vivê-lo está intrinsecamente relacionado ao assunto que abordamos nesse tópico: o processo formativo de sujeitos nesse Ponto. Visto que, ninguém é formado por processo educativo algum caso não permita-se vivenciá-lo e mais do que isso, senti-lo. No que diz respeito ao PMTF, é necessário que todos aqueles que o vivenciam se sintam parte dele, sendo ou não conselheiros, sendo ou não moradores do bairro da Terra Firme.
O território é “abrigo”, “casa”, “aconchego” e nele os membros exercem a sua reprodução econômica e social. Nele também as comunidades produzem seu autoconhecimento, suas representações enquanto grupo e se reconhecem territorialmente. Os membros se sentem parte e donos do espaço. (CARMO; ARAÚJO, 2014, p. 272) O Ponto de Memória é o bairro da Terra Firme, logo, é um território que a cada ação de memória, se musealiza. É necessário, então, que os sujeitos participantes dele, o vivam, como nos ensina a conselheira Sâmia. E de acordo com Carmo e Araújo (2014), a partir do sentimento de representação, os membros sentem-se, então parte e donos também. A exemplo disso, destacamos o que foi dito por um dos sujeitos em campo, Cristian, estudante da Escola Mario Barbosa, durante a oficina “Viver para lembrar, morrer para esquecer”, promovida pelo PMTF:
Hoje em dia a gente vê as periferias como um lugar de crime, de tráficos de drogas e não é. É muito além disso! A gente conseguiu ver, ouvir coisas que não via, não parava para pensar. Eu consegui vê tudo isso no nosso bairro. Existe sim crime, existe tudo isso. Mas é muito mais do que a nossa sociedade pode resumir. O bairro da Terra Firme é um poço de cultura. A gente tem que saber vê isso, capturar esses momentos. Saber que é uma feira, mas que tem uma história por trás
dela. Saber como foi que esse bairro surgiu. Então, espero que depois disso aqui, vocês possam vê o bairro de outras formas, buscar ir além do que aparenta ser.
Para essa importante narrativa, a convocatória de dois autores faz-se crucial. A primeira é Bosi (2003) quando nos fala a respeito da “mais perigosa doença que atinge a cultura” (p. 178), o desenraizamento. Na narrativa acima, verifica-se o processo inverso que o PMTF realizou por meio de uma de suas ações museais: o enraizamento. Cristian atentou-se ao que é cultural e histórico em seu bairro, aquilo que que faz parte de seu cotidiano e que foi alcançado por meio das lutas ocorridas na década de setenta, como detalhado no capítulo três. Atividades como essas alcançam o objetivo que o Ponto busca em suas ações: enraizar, por meio da cultura, a memória do bairro.
O segundo autor é Brandão (2013) que em diálogo com as narrativas de Sâmia e Cristian, nos revela que os processos formativos de educação do Ponto apontam para novos caminhos no âmbito:
Eu não tenho dúvidas em afirmar que é entre as formas novas de participação popular, nas brechas da luta política, que, hoje em dia, surgem as experiências mais inovadoras de educação no Brasil. Os professores tradicionais e os tecnocratas da pedagogia são cegos para elas, mas é ali que as propostas mais avançadas de “educação e vida”, “educação na prática”, etc. são criadas e testadas. (BRANDÃO, 2013, p. 112)
Tendo isso aclarado, corroboramos com o autor, afirmando que a percepção de que o Ponto de Memória da Terra Firme realiza processos formativos, fazendo uso de educação popular em suas ações, emergiu a partir da análise das narrativas colhidas e que naturalmente se entrelaçaram com o núcleo conceitual estudado. É o vice-versa que se dá da militância aos livros.