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2 TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS (TRS)

2.3 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS: DIMENSÕES E PROCESSOS

2.3.2 Processos geradores das Representações Sociais

Os processos geradores de uma representação social são denominados objetivação e ancoragem. Objetivar significa descobrir o aspecto icônico de uma ideia ou de um ser mal definido, reproduzir um conceito em uma imagem. O processo de objetivação dota de realidade um conceito não familiar, o que residia em um universo distante parece-nos agora físico, acessível, ao alcance da mão. Dessa forma, tem a propriedade de tornar concreto o abstrato, de materializar algo. Por sua vez, ancorar significa classificar e atribuir um nome, sendo assim, o processo permite transferir algo estranho de um espaço externo ao nosso sistema de categorias para dentro dele e colocá-lo em confronto com o paradigma da categoria que acreditamos ser a mais adequada. A classificação e a denominação são condições essenciais para a representação. (GALLI, 2012)

De acordo com Ordaz e Vala (1997), o processo de objetivação analisa as formas através das quais um conceito é objetivado ou um fenômeno é pensado de forma objetivada, ou seja, adquire materialidade e se torna expressão de uma realidade vista como natural. Segundo Santos (1994), a objetivação caracteriza-se pelo fato de que as ideias construídas em contextos específicos são percebidas como algo palpável, concreto e exterior ao sujeito. Essas realidades podem ser, em seguida, atribuídas aos outros ou a si mesmo. Ela torna concreto o que é abstrato, transforma um conceito em uma imagem ou em núcleo figurativo. Define que a objetivação implica em dois movimentos:

a) a naturalização do objeto – é a construção de um modelo figurativo, um núcleo imaginante – a transformação do conceito em categorias de linguagem e entendimento. b) a

categorização – a partir da qual a representação social torna-se

um instrumento de ordenamento e de classificação do real. Esses dois movimentos implicam a seleção das informações e a descontextualização dos elementos retidos. (SANTOS, 1994, p.136)

Furtado (2009) acrescenta que o processo de objetivação corresponde a três momentos distintos. Primeiramente, as crenças, ideais e informações inerentes ao objeto da representação passam por um processo de seleção e descontextualização, no qual se busca a formação de um todo relativamente

coerente, com o intuito de tornar a mensagem mais breve, precisa, e mais comunicável e útil. Segundo, a objetivação corresponde à organização dos elementos em um padrão ou esquema de relações estruturadas, a esquematização estruturante. Por fim, o processo de objetivação corresponde a naturalização, que consiste nos esquemas figurativos e suas respectivas relações se constituírem em categorias naturais e adquirirem materialidade. “Não apenas o abstrato se concretiza em metáforas e imagens, como aspectos da percepção se tornam realidade, com equivalência entre a realidade e os conceitos.” (p.12)

A ancoragem, por sua vez, caracteriza-se pela inserção do objeto numa hierarquia de valores, estabelecendo uma rede de significados em torno do mesmo. Pela naturalização e ancoragem, a representação social adquire seu caráter figurativo e significativo. Ordaz e Vala (1997) definem que o processo de ancoragem designa a transformação do não familiar em familiar e as formas através das quais as representações sociais, uma vez constituídas, se tornam socialmente funcionais.

Dada à natureza complexa da ancoragem, Jodelet (1984) apud Campos (2017) propõe uma visão da ancoragem definida a partir de três modalidades. A primeira modalidade define a ancoragem como um processo de designação ou atribuição de significado. Dessa forma, “o sistema de valores da sociedade, bem como o quadro das relações sociais entre os diferentes grupos e seus diferentes interesses, contribui para a criação de uma rede de significados em torno de uma representação”. (CAMPOS, 2017, p.781)

A segunda modalidade é quase uma consequência da primeira e não pode ser dissociada do estudo da objetivação. Dado que há a criação de uma rede de significados, impulsionada pelo caráter de novidade do objeto e que um modelo figurativo o constitui, a representação social é instrumentalizada. São dois processos complementares: “ao mesmo tempo em que as situações/indivíduos/grupos/eventos são interpretadas, tomando como referência o novo saber, os objetos interpretados sofrem o impacto de transformação dos significados.” (CAMPOS, 2017, p.781) Assim, as representações sociais têm um efeito de geração de significados no meio social e os elementos da representação não somente expressam as relações sociais, mas contribuem para constituí-las.

A terceira modalidade designa o enraizamento de uma representação social no sistema de pensamento. “A noção de enraizamento deve ser tomada com certa prudência já que se trata de um processo de mão dupla.” (CAMPOS, 2017, p.781) O novo sofre modificações na medida em que é incorporado em sistemas preexistentes. Contudo, simultânea ou reciprocamente, também ele exerce seu poder, seus efeitos de significação, produzindo alterações nos sistemas anteriores.

Portanto, ambos os processos, objetivação e ancoragem, são fundamentais para estruturar uma representação social como um objeto compartilhado por um determinado grupo. A ancoragem possibilita que algo desconhecido seja incorporado à rede de categorias, permitindo compará-lo com algo que já faz parte desta. Pela referência a experiências e esquemas de pensamentos já estabelecidos que o objeto será pensado. É um processo dinâmico a medida que se mantém enquanto preserva alguma coerência entre o que é conhecido e o que é associado ao conhecimento, ou seja, aquilo que era desconhecido. A objetivação refere-se à forma de organização dos elementos da representação, onde esses elementos são materializados em ideias e significados e se tornam expressões da realidade. Logo, consiste em transformar o que é representado através de uma forma ou de um ícone de representação. “O objeto percebido e o concebido estão constantemente relacionados, pois a objetivação está sempre materializando ideias e significações, estabelecendo correspondência entre as palavras e as coisas.” (FURTADO, 2009, p.11)

2.4 TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E SUA RELEVÂNCIA PARA