O último objetivo está vinculado ao Programa Nacional de Cooperação Acadêmica (PROCAD). Refere-se aos processos identitários de formação docente relacionados à mediação de conflitos escolares.
A Constituição Federal do Brasil, logo no primeiro artigo, dispõe que a sociedade constitui-se em um Estado Democrático de Direito e tem como
fundamentos a cidadania e a dignidade da pessoa humana. No artigo sexto, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, e a segurança são enumerados como alguns dos direitos sociais do povo.
A educação assegurada como um direito social na Carta Magna recebe, na Lei de Diretrizes para a Educação (LDB), a incumbência de formação para o exercício da cidadania no decorrer da educação básica. Cidadania que é um dos fundamentos da República. Já a resolução nº 7 de 2010 (BRASIL, 2010) normatiza que as escolas que ministram o ensino fundamental trabalharão considerando o desenvolvimento do aluno para alcançar o conhecimento e os elementos da cultura imprescindíveis ao desenvolvimento pessoal e à vida em sociedade. Objetiva-se, também, que o aluno obtenha os benefícios de uma formação comum, independente da grande diversidade da população escolar e das demandas sociais.
A partir da identificação das funções da escola é possível planejar a formação de educadores. Heredia (2000) descreve e fundamenta programas de convivência no âmbito educativo, enfatizando que o engajamento dos profissionais da educação nesses programas pode produzir transformações na sociedade que se constrói e na qual se vive. O processo de formação docente que inclui em seu currículo acadêmico atividades e conteúdos que favoreçam a convivência se faz muito significativo. A socialização, o diálogo e a reflexão acerca da paz e seus frutos são exemplos de conteúdos e habilidades que permearão o currículo dos cursos de formação docente. Assim, os educadores terão ferramentas seguras para mediar os conflitos, tanto dentro da escola como em seu círculo social.
Segundo Estrela (2002), para que se desenhem as atribuições dos profissionais em educação é importante ter identificadas as funções da escola. Com a resposta à pergunta “que sociedade se quer?”, pode-se delinear o papel da escola. Para a autora, as investigações realizadas no campo da disciplina escolar legitimam que se infiram alguns princípios para planejar qualquer programa de formação. A partir da identificação das funções da escola, é possível planejar a formação docente.
A sociedade que se deseja é uma sociedade com qualidade de vida para que todos sejam capazes de conviver na construção do conhecimento sem violências, e, assim, produzir o desenvolvimento humano e o avanço societário. Parte significativa desse desejo se desenvolve na escola, com docentes bem preparados e em parceria com toda a comunidade.
Frigotto (apud SCHEIBE; BAZZO, 2001) critica a formação de professores em massa, alertando que é mais rápido e mais barato treinar professores do que oferecer-lhes condições para participar de cursos que realmente os prepare para o enfrentamento das dificuldades oriundas da profissão. É mais fácil promover cursos rápidos do que a verdadeira formação, que articule o ensino com a análise e a pesquisa da realidade.
Os alunos participaram do curso de formação de mediadores e se familiarizaram com a forma irradiada para a administração e resolução dos conflitos. Interessaram-se pelo projeto e aproveitaram suas contribuições. No entanto, os professores inicialmente não se mostraram abertos à participação do projeto:
[...] os alunos se mostraram abertos e receptivos à mediação. Já os professores nem tanto. Os professores têm muita reticência quando se propõe alguma coisa que eles desconhecem; não está familiarizado. Num primeiro momento ele vai ficar atento, vai olhar, vai ver como funciona. (E2) A gente pensa que sabe tudo. É importante a gente parar, rever algumas coisas que às vezes a gente até sabia, mas é bom ouvir de novo. Até pra ter outra noção. (E13)
Eu acho interessante essa proposta de tentar contornar, não é bem contornar, de transformar esses conflitos que a gente tem na escola. É uma coisa que eu acho que é interessante para o professor, para o aluno e para a própria comunidade escolar. (E14)
Segundo a respondente, em geral, os professores não se abrem a outras possibilidades, porque eles não conhecem e não sabem como fazer.
Então, geralmente, os professores são herméticos, eles estão fechados a outras possibilidades. E realmente eles não conhecem e não sabem como fazer. (E1)
Mas com a divulgação da mudança de comportamentos dos atores que participaram do curso ou da técnica mediática, o corpo docente começou a valorizar o projeto.
No inicio, alguns professores aqui, até a própria coordenação não acreditava muito no resultado desse curso (projeto). Mas a partir do momento que começaram a ver o resultado, eles passaram a acreditar mais e a ter mais confiança.(E13)
No caso da mediação de conflitos, a estratégia já é, por si, prevenção da violência.
Nos relatos, foi possível observar que os cursos de formação de professores apresentam deficiências na preparação dos docentes para o enfrentamento do
cotidiano na escola. É importante que seja ofertada ao educador uma formação para a construção de competências ligadas ao social e, assim, propiciar ao educando uma formação integral, compreensiva da prática e difusão do diálogo e do respeito às diversidades e aos direitos do outro. Como sinaliza Gadotti (2009), a educação integral visa superar o currículo fragmentado, que isola as disciplinas e consequentemente isola os sujeitos e cria guetos de aprendizagem. Tal fragmentação é constatada também na escola pesquisada:
As universidades são muito falhas, primeiro porque, a tendência desde o inicio do século com a industrialização, do século XX, foi de compartimentar o conhecimento, tornando as pessoas especialistas em determinados aspectos. (E2)
As instituições de ensino superior não estão acompanhando as mudanças que ocorrem velozmente na sociedade, na comunidade, na escola e na família. A formação do professor é dividida por áreas: língua portuguesa, matemática, história, geografia, mas o aluno é único e requer uma educação integral, não no sentido de permanecer seis, sete ou oito horas na escola. Educação integral no sentido de formar a pessoa plena, cidadã.
Hoje em dia os alunos estão em outro tempo, sabe? E aí o professor que vem para a sala de aula não está preparado para esse aluno veloz como ele é. Hoje o aluno não precisa do professor para adquirir nenhum conhecimento; está tudo disponível. Qual passou a ser o papel do professor, a gente não detém mais a verdade, nós não detemos mais o conhecimento, então o que a gente passou a ser? A gente passou a ser um mediador; pois não adianta nada eu ter um conhecimento e não saber como usar. Então o papel do professor se modificou, não é mais ofertar o conhecimento, mas ensinar como se usa o que se tem, para que serve, onde está o foco? (E3)
As mudanças sempre ocorreram no campo da Educação. Na metade do século XX em menor velocidade do que nas duas últimas décadas. E no século XXI as mudanças ocorrem com maior intensidade do que no final do século XX. O educador necessita de formação como mediador. Mediador de conflitos, mediador do conhecimento, mediador das relações sociais.
Parece que ser professor é a última coisa que alguém vai pensar.
Mas as universidades não concebem. E a necessidade do trabalho pedagógico, ela é específica e ela precisa de uma formação específica. (E2) Poucas são as oportunidades de formação de professores com foco na mediação de conflitos. Schlesener (2009) afirma que a formação de seus próprios
intelectuais permite a elaboração de uma nova leitura da história para conhecer a realidade e dar respostas concretas às questões enfrentadas. A autora prossegue enfatizando que o ensino se transforma em arte quando o educador consegue compreender e tornar o processo de conhecimento um fogo vivo, “numa energia vital.” Tal entendimento encontra consenso entre os entrevistados:
Se o professor acreditar, o aluno acredita. Barco que tem bom comandante não tem motim, porque o povo confia no comandante, no curso que ele está tomando, sabe que a decisão que ele tomou naquele momento é a melhor. (E3)
Alguns professores que fizeram o curso mediavam o conflito em sala de aula, porque o professor tem que ser mediador o tempo todo; a todo o momento pode acontecer um estrago, eu mesmo já vi cenas em sala em que o professor mediou. (E5)
Eu acredito que se houvesse a mediação no currículo de graduação, o professor chegaria à sala de aula, mais preparado para enfrentar as situações no dia-a-dia. (E11)
Blin e Deulofeu (2005, p. 107) entendem que “se a classe é um lugar de aprendizagem dos saberes escolares, é também um espaço onde se instauram relações e onde os alunos aprendem a integrar a coletividade, isto é, socializar-se.” Na concepção desses autores, a socialização constitui a interiorização de normas, de regras e de comportamentos relativos à integração em um grupo. Enquanto a sociabilidade caracteriza a capacidade de um indivíduo relacionar-se com outrem – comunitário “outro eu”, e societal, “outro diferente de mim.” As relações interpessoais hoje se desenvolvem e se acentuam em qualidade de convívio escolar, na sala de aula. Por isso, esse espaço será propício à boa convivência, para relacionamentos integradores e para a busca da construção da Cultura da Paz.
Schlesener (2009, p. 99) sinaliza que a formação do educador o preparará para o enfrentamento das situações inerentes à educação formal: “um professor precisa mostrar as várias leituras possíveis de uma situação, sem defender uma posição política ou ideológica, embora não deva se mostrar neutro. [...] porque forma as novas gerações.”
A mediação é um instrumento potencialmente viável para controlar os conflitos que ocorrem no interior da escola, desencadeando na prevenção da violência e na construção da Cultura da Paz. Paz que, de acordo com Galtung (2003), “es una relacion positiva de union y solidaridad entre partes. Las condiciones
son respeto mutuo, dignidad, igualdad y reciprocidad. En todas las areas: espiritu, mente y cuerpo[...].”6
Uma educação geradora de paz e mediadora dos conflitos é aquela cujo planejamento das atividades proporcione aos educandos a oportunidade de pensar e agir globalmente com a certeza e a presença do compromisso transformador local. Para prevenir conflitos, é importante criar um clima de confiança na classe.
Qualquer um tem necessidade de se sentir seguro para poder aprender. Dificilmente um aluno consegue se concentrar nas tarefas escolares quando colegas brigam em volta dele, quando são lançados materiais, quando a alternância da palavra não é respeitada, quando se sente ridicularizado ou ameaçado pelos outros. Ele precisa saber que não se pode fazer o que quiser na sala de aula e que o professor é o responsável por tudo o que passa ali. Desde o início do ano, cabe ao professor criar um quadro, limites e instaurar regras de funcionamento, enunciadas claramente e que inclua os direitos e os deveres de cada um. As regras são uma proteção. (BLIN; DEULOFEU, 2005, p. 109).
É importante construir regras claras no ambiente escolar. Como alertam os autores, as regras são instrumento de proteção. Com o estabelecimento de regras, cada um sabe exatamente quando e como agir. Construí-las coletivamente a cada início de ano é mais prazeroso e constitui indícios de que serão seguidas. No decorrer do ano elas poderão ser modificadas, melhoradas ou até abolidas.
Os alunos ficarão mais encantados ao construí-las e mais responsáveis em seguir as normas estabelecidas por eles próprios. Para realizar mais essa função que as leis educacionais impõem, o educador precisa manter sua autoridade, não a vertical, do dono da verdade, do transmissor de conteúdos, mas a horizontal, de coordenador, facilitador da construção do conhecimento. Mesmo porque a informação hoje está disponível a toda velocidade. No caso da mediação de conflitos, a estratégia já é, por si, prevenção à violência. Gontijo e Vieira (2008) entendem que a atitude de iniciativa de um professor em uma ação pontual, a partir de uma disciplina, pode desdobrar em interações internas e externas potencialmente significativas para a instituição como um todo e para a comunidade.
Embora a legislação contemple a formação do educador para atuar na formação do aluno de forma mais ampla, “para implementação do seu projeto político-pedagógico, as escolas se articularão com as instituições formadoras com
6 Tradução:
“é uma relação positiva de união e solidariedade entre partes. As condições são respeito mútuo, dignidade, igualdade e reciprocidade. Em todas as áreas: espírito, mente e corpo [...].” (Trad. desta autora).
vistas a assegurar a formação continuada de seus profissionais.”(CNE N.º 7/2010). Esse ainda é um sonho distante, pois os profissionais conseguem diagnosticar a realidade e inserir suas necessidades nos projetos, no entanto, só aprendem a trabalhar com o treinamento em serviço e a pesquisa de campo no próprio local de trabalho. As instituições de ensino não estão acompanhando as mudanças que ocorrem velozmente na sociedade, na comunidade, na escola e na família.
O educador, de acordo com Blin e Deulofeu (2005), desempenha papel determinante na orientação do clima relacional entre os alunos. Uma das formas sugeridas pelo autor para garantir a cooperação e a solidariedade é propor situações que desenvolvam as competências de trabalho de equipe em classe.
A mediação de conflitos como ação de transformação da sociedade, de acordo com Adam (apud HEREDIA, 2000), contribui na mudança de uma cultura de violência enraizada em competições, força, poder, riqueza, prestígio e domínio, para uma cultura de paz. Esta última é lastreada por valores, atitudes, comportamentos e estilos de vida baseados na não violência, no respeito aos direitos humanos, na tolerância, no entendimento intercultural e no livre acesso à informação.
Para Perrenoud (2000), a competência dos docentes é, entre outras, formar para a cidadania, o que implica na tomada de consciência e assunção das responsabilidades. Desse modo, é desejável demonstrar retidão, coragem, otimismo e demais qualidades, incluindo as competências de análise, de descentralização, de comunicação, de negociação. Tais competências são indispensáveis para enfrentar as contradições dos sistemas sociais, as quais surgem no dia-a-dia do trabalho docente e podem se transformar em conflitos tendentes a gerar violência, se não prevenidos ou bem administrados.
O educador necessita de formação como mediador. Aréchaga e Brandoni (2009) afirmam que se os educadores se preparam para a ação de mediar conflitos terão mais instrumentos para desempenhar suas funções, com o intercâmbio de pontos de vistas acerca dos problemas comuns, e os resolverão automaticamente. Desta forma estreitarão a distância entre o currículo explícito e o oculto.
Gadotti (2009, p. 54) lembra que é preciso investir na formação continuada do professor. É fundamental reafirmar a dignidade e a beleza dessa profissão, diante de tantos desafios impostos às vidas dos docentes, que, segundo Vieira (2004), são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade. Heredia (2000) afirma que a mediação social visa à transformação da realidade. Neste enfoque se aproxima em
muitos aspectos da educação aplicada à área social (Pedagogia Social), que “objetiva provocar mudanças nas pessoas e na sociedade” (CALIMAN, 2011, p. 242). Já Estrela (2002, p. 122) ressalta que o ato pedagógico requer decisões objetivas e coerentes, alertando para a necessidade da transformação da estrutura escolar em uma rede de interações mútuas em todos os níveis. Para Freire (2011), não existe diálogo se não há uma intensa fé nos homens.
O educador exerce um papel de fundamental importância na vida do aluno. Kohlberg (apud ARÉCHAGA; BRANDONI, 2009) ensina que para o aluno entender e sentir a justiça, ele necessita ser tratado com justiça e também incentivado a agir com justiça. Os atores da educação são humanos. Vieira (2012) lembra que no processo educativo, as relações sociais se tornam mais humanizadoras quanto mais o processo se constitui em um espaço de autorias, quando os sujeitos de fato adquirem o poder de se sentirem sujeitos construtores de sua história.
O fato de alguns professores não aceitarem o projeto pode ter diversas razões. Souza (2008) diz que nunca foi fácil ensinar e que vários fatores interferem na construção do conhecimento. Assim, é importante a participação dos professores em projetos escolares, especialmente nos projetos que visam à prevenção da violência, com o escopo de trabalhar as relações interpessoais e os saberes fundamentais que atendem as necessidades da realidade escolar. Para Estrela (2002), independente da natureza dos fundamentos do sistema disciplinar admitidos por cada docente, sem dúvida, o professor exerce uma função de inculcação de normas, o que o torna um veiculador de uma ética, de uma moral e de uma axiologia que são inerentes ao currículo expresso e oculto da escola.
Considerando as funções elencadas nas Resoluções do CNE em 2010 e 2012, deduz-se que a formação do educador do século XXI levará em conta as mudanças sociais e considerará o crescimento individual e relacional dos indivíduos. Essa formação, ressalta Schlesener (2009), necessita ser permanente e planejada em conformidade com o projeto educativo claro e com as necessidades e interesses da realidade local. Para a autora, a formação dos educadores será continuada e deve se articular com um projeto educativo bem definido, que ultrapasse a fragmentação das disciplinas e permita ao educador compreender seu papel nas relações sociais e políticas.
Nesse sentido, entende-se como fundamental que se desenhem cursos de aperfeiçoamento, aprofundamento e práticas para construir as várias competências
que a sociedade exige do educador neste século XXI. Para Freire (1998, p. 80), “seria uma contradição se, inacabado e consciente de seu inacabamento, primeiro, o ser humano não se inscrevesse ou não se achasse predisposto a participar de um movimento constante de busca e, segundo, se buscasse sem esperança.” Nesse processo de busca, desenha-se uma emergente necessidade de qualificação para a mediação de conflitos, mas tal formação só adquire seu sentido dentro de uma perspectiva de formação humanística e integral, tanto do professor quanto do aluno.
Em síntese, analisando as respostas dos entrevistados, percebeu-se por suas falas que, inicialmente, eles não se interessaram pela estratégia, e até demonstraram certa resistência. Mas no decorrer do projeto, com o surgimento de resultados positivos nas atitudes e comportamentos dos alunos, os professores começaram a ver a estratégia de outra forma. Atualmente três professores estão frequentando o curso, dois deles com muito entusiasmo e expectativas. A visão da mediação de conflitos apresentada por esses professores é de instrumento utilizado na colaboração da prevenção à violência. Os dados indicam que o professor se forma de maneira compartimentalizada e por isso acredita que deve se ater a sua disciplina. Contudo, vários são os fatores que interferem na construção do conhecimento. Assim, na formação dos educadores não se contempla, de forma satisfatória, a construção de competências para o enfrentamento de situações conflituosas no ambiente escolar. Indubitavelmente, o educador exerce um papel de fundamental importância na vida do aluno. É importante a participação dos professores em projetos escolares, especialmente nos projetos que visam à prevenção da violência.