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3 ÁFRICA, MIGRAÇÃO E ESCRAVIDÃO

3.1 PROCESSOS MIGRATÓRIOS: DE DENTRO PARA FORA

3 ÁFRICA, MIGRAÇÃO E

• Intercâmbio tecnológico.

• Intervenção e conquistas militares.

Primeiramente, conforme apresentado na Capítulo 1, o processo de migração no continente tem seus primórdios ainda no processo evolutivo do gênero Homo.

Silva (2016, s.p.) afi rma que:

Desde a Antiguidade, esse continente, carregado de história, foi alvo do domínio e ocupação de vários povos, negroides, caucasoides, etíopes, bosquímanos, pigmeus e, em épocas mais recentes, mas ainda pré-históricas, mongoloides. Assim, há vários séculos a população africana vem realizando importantes deslocamentos migratórios, no próprio continente ou para o exterior.

Conforme Mabogunje (2010, p. 374-375), “a reconstrução das trilhas e características destes processos migratórios deu-se devido a testemunhos arqueológicos, etnológicos e linguísticos”.

A África é o único continente onde se encontram, numa linha evolutiva ininterrupta, todos os estágios do desenvolvimento do homem: australopitecos, pitecantropos, neandertalenses e Homo sapiens sucedem-se, com os respectivos utensílios, das épocas mais distantes até o Neolítico (OLDEROGGE, 2010, p. 298).

O processo evolutivo do gênero Homo inicialmente avança pelo interior da África rumo ao norte, para a Europa e o noroeste da Ásia. Esse fl uxo migratório ainda avançou a leste rumo à Oceania. Em virtude desse fl uxo migratório “inicial”, as evoluções do gênero Homo, tendo como referência as teorias de povoamento a partir do estreito de Bering, chegam até a América. Araújo (2018) aponta que a partir da África, os primeiros humanos espalham-se pela Europa, Ásia e América, em um processo que durou milhares de anos, sendo um dos maiores processos migratórios vivenciados pela humanidade.

Como característica fundante da evolução do gênero Homo, a exploração do espaço geográfi co no processo transitório entre o nomadismo e o sedentarismo também proporcionou fl uxos migratórios em diferentes regiões da África, rumo ao litoral ou ainda explorando o interior africano.

A “simples” exploração do espaço geográfi co no processo de evolução do gênero Homo, além da questão territorial ainda proporcionou um intenso intercâmbio social e cultural. Completando a análise, ressalta-se que:

Sobre a extensa massa planáltica, as linhagens, os clãs, as tribos e as nações deslocaram-se lentamente, em busca de melhores solos e de pastagens menos pobres. Grande parte da história da África é o relato dessas migrações. [...] Nas fl orestas pluviais, nos cerrados, nas savanas, nas estepes secas e nas estepes úmidas, no litoral e nos planaltos, nas depressões e nas montanhas, no Sudd e no Sael, o homem transformou a paisagem. Desbastou fl orestas ou nelas abriu grandes clareiras; ampliou savanas com as queimadas; impôs suas plantações, suas hortas, seus pomares, por toda parte;

cultivou espécies vindas de outros continentes, a multiplicar bananais, bosques de mangueiras, matas de cajueiros, roças de cacau, mandiocais e renques de milho; alterou a superfície das terras em que vivia, para em montes postiços enterrar os seus mortos, proteger-se das enchentes, fazer seus plantios, erguer suas casas (SILVA, 2011, p. 36-37).

Para além dos fl uxos migratórios no processo evolutivo do gênero Homo, as questões climáticas também contribuíram para a exploração, a ocupação e o intercâmbio do espaço e de diferentes povos. De antemão, deve-se considerar que “na África nos deparamos, além de sua inusitada diversidade socioeconômica, com a diversidade geográfi ca e climática, que é formada por imensos desertos ao lado de extensos e férteis vales” (SILVA, 2016, s.p.).

Macedo (2008) menciona que a escassez de água em determinadas regiões e épocas do ano foi um fator climático/geográfi co decisivo na potencialização dos processos migratórios. Além disso, a percepção e o conhecimento de períodos de chuva e de seca também movimentaram grandes e intensas levas de seres humanos para diferentes regiões da África. O autor ainda enfatiza que as estepes africanas permitiram grandes deslocamentos. Nessas ocasiões, o terreno e o espaço geográfi co permitiam não apenas o acesso à água e à alimentação, mas também um relevo propício para os deslocamentos.

As densas fl orestas e suas permanentes chuvas também corresponderam a fatores climáticos/geográfi cos estimuladores de processos migratórios, com o objetivo de transpor essas fl orestas tidas como “obstáculos” ou ainda como espaço para tirar proveito da natureza e da diversidade de fauna e fl ora presentes nessas regiões.

Conforme os fl uxos migratórios vão ganhando força e espaço e paralelamente os grupos sociais africanos vão se estruturando em singelas organizações sociais e que mais tarde se efetivam como grandes (e fortes) aldeias e reinos, naturalmente, as trocas e os intercâmbios comerciais vão se efetivando. Assim,

“o fl uxo de viajantes, migrantes e comerciantes atravessando o Saara criou um intercâmbio ativo e constante entre os povos ao norte e ao sul do deserto”

(NASCIMENTO, 2007, p. 21).

Além disso, Silva (2011, p. 36-37) aponta que as condições geográfi cas, climáticas e de possíveis isolamentos:

Não impediram de todo o comércio entre povos distintos. O sal era trazido do Saara para as remotas terras do sul. O peixe seco do Logone, do Chari e do Chade chegava ao centro do Mali. A noz-de-cola, do rio Volta à Hauçalândia. Certas tribos especializavam-se na produção de determinados artefatos, que iam ser trocados em vilarejos longínquos.

Evidentemente que, quando combinamos o manejo e o conhecimento do relevo, da geografi a e das condições climáticas que favoreceram a exploração do território e, por conseguinte, a estruturação de organizações sociais aliada ao intercâmbio comercial, logo os grupos sociais passam a desenvolver e aperfeiçoar suas tecnologias de manejo da terra, de criação de animais, fabricação de armas e engenharia civil. Macedo (2008) categoriza o avanço e o intercâmbio tecnológico como fatores que contribuíram para o intenso fl uxo migratório no continente africano da Antiguidade até o período pré-colonial.

Registra-se que, com o crescimento e a organização de grupos sociais em um movimento sólido e contínuo, estes grupos passaram a conviver também com confl itos armados e alianças. A busca por territórios férteis, áreas ricas em minérios, mão de obra escrava, as intervenções e os confl itos militares também constituíram fator preponderante a fi m de estimular os processos migratórios africanos.

Quase sempre essas reações se traduzem pela procura de zonas mais irrigadas para estabelecimento defi nitivo ou temporário. Tais movimentos migratórios podem ser pacífi cos, porém, muito frequentemente, tendem à agressividade, o que vai depender do modo como estão organizados e como são dirigidos. A história de muitas comunidades africanas registra suas migrações ou as incursões que sofreram por parte de grupos migratórios mais poderosos, que as submeteram, obrigando-as a uma reorganização social (MABOGUNJE, 2010, p. 381).

A evolução do gênero Homo, a exploração do espaço geográfi co e as questões climáticas, além do intercâmbio comercial e tecnológico, acrescido de intervenção e conquistas militares, produziram naturalmente um processo de miscigenação decorrente que redundou em fl orescer uma diversidade cultural ímpar. Olderogge (2010) aponta que a difusão e a pluralidade cultural do continente africano ocorreram principalmente por conta dos fl uxos migratórios.

Podemos ainda complementar a afi rmação, mencionando que:

Esse fato sugere a difusão cultural de uma região para outra, que pode ser (embora não necessariamente) resultado da migração de populações. As alterações climáticas, com seus efeitos sobre o meio ambiente, também constituíram um estímulo para a adaptação cultural e o avanço tecnológico (SUTTON, 2010, p. 526).

3.2 PROCESSOS MIGRATÓRIOS: DE