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PROCESSOS NO SISTEMA E PROCESSOS DO SISTEMA

A visão sistêmica dos estudos sociais proposta por André Marchal (1955), na tradição de Etiénne Condillac (1754) e em resposta à visão biológica de Ludwig von Bertallanfy (1960), constitui hoje um arsenal conceitual indispensável para uma análise em perspectiva histórica

dos conflitos mundiais de poder com seus componentes de interesses materiais e ideológicos. É uma perspectiva que reconsidera os papéis de personalidades como Adolf Hitler, Winston Churchill, Josef Stalin, Franklin Roosevelt e Mao Tse Tung como representantes de forças so- ciais. Os líderes refletem movimentos de forças sociais que definem zonas de conflito e ajuste, os espaços de alianças, as possibilidades de espaços estáveis de poder tal como aconteceu com Felipe II, Luis XIV e Napoleão Bonaparte em seus devaneios imperiais.

O atual conflito mundial de poder tem origens anteriores à forma- ção do capitalismo moderno e surge de movimentos continentais da Idade Média, quando as invasões da Europa por mongóis, nórdicos e árabes, determinaram sistemas políticos contrastantes que fundaram o impulso europeu. Observe-se que a expansão de Átila (630) quase coincidiu com a invasão da Espanha pelos árabes, quando a Europa absorvia as invasões de visigodos e magyares e que a invasão de Gen- gis Khan corresponde à segunda parte da Idade Média, quando Tomás de Aquino dava os rumos à Igreja Católica.

O império de Carlos Magno foi anterior à Horda Dourada mongol e a dinastia carolíngia que investiu nas Cruzadas e induziu a expansão ibérica, criava, indiretamente, uma mudança de escala no jogo do po- der da qual saiu o império marítimo português. Foi o desenvolvimento do mercado central europeu que animou o aparecimento de monar- quias em expansão como os Valois e os Habsburg.

O desenvolvimento do mercado significou o aparecimento de bur- guesias urbanas ricas, especialmente nos Países Baixos, que se tor- naram a força em oposição ao feudalismo. O jogo do poder muda de escala quando a expansão da Inglaterra sobre as Ilhas Britânicas dá lugar à disputa com a Holanda e a luta pelo poder se torna intercon- tinental. Será preciso desenterrar as contradições dos absolutismos mercantis – Inglaterra e França – para entender o papel estratégico da Oceania e do Caribe que deram lugar à disputa pelo Canadá?

O século XVII foi o da transição, quando Portugal e Espanha per- deram espaço, e deram lugar à montagem do poderio britânico no século XVIII.2 A lógica do poder pela reprodução do domínio britâ-

nico foi interrompida pela independência dos Estados Unidos e pelas guerras de Napoleão, mas saíram desse contexto com a Comunidade Britânica de Nações e com um jogo de poder hegemônico que só se- ria contestado pela Alemanha na Europa e pelos Estados Unidos na América Latina. As lutas de poder por mercado se disseminaram na Primeira Guerra Mundial, tornaram-se lutas por energia, quando o petróleo mudou a indústria bélica. Juntavam-se os conflitos herdados do século XIX com os da economia industrial do século XX.

Torna-se necessária uma visão intertemporal do processo. O mun- do moderno da civilização ocidental surgiu do impulso de extravasão da Europa sobrevivente das invasões dos séculos VIII ao XI, quan- do iniciou uma reconquista da África e invadiu a América. O sistema da civilização material ocidental descrito por Braudel se desenvolveu com a superação da Europa ocidental das invasões que sofreu na pri- meira parte da Idade Média e por meio de um movimento geral de exuberância de poder sobre outros continentes, criando um conceito de império diferente dos impérios europeus. Com as invasões da Amé- rica, da África, da Ásia e da Oceania, a Europa criou, no século XVI, um conceito de império mundial em expansão, equivalente ao Império Romano em expansão (BOXER, 2005).

Pela comparação, infere-se que quando esse império para de se expandir começa sua decadência. O Império Romano parou de se ex- pandir por volta do ano 160, quando Marco Aurélio alcançou a última vitória sobre os germanos em Strasbourg e, a seguir, começou a sofrer

2 Pode-se situar o início do poderio britânico nas batalhas de Oudenard a Maplaquet, de 1704 a 1709 quando John Marlborough e o Príncipe Eugenio derrotaram os exércitos de Luis XIV.

uma invasão pertinaz de imigrantes pobres que se tornaram seus sol- dados defensores e que não puderam resistir a novas grandes inva- sões de visigodos, ostrogodos e outros. O império mundial iniciado por Portugal e pela Espanha cresceu pouco antes desses dois países entrarem em decadência e foi animado pela expansão da Holanda, da França e da Inglaterra. Mas só se completou na segunda metade do século XIX, quando os ingleses concluíram o domínio sobre a Índia, e a França avançava na colonização do norte da África e da Indochina.

Esse império mundial dos países do Mar do Norte durou muito pouco quando foi confrontado pela Alemanha em 1870, assim, não conseguiu dominar a Rússia e passou a ter os Estados Unidos como concorrentes. Esse movimento geral pode ser considerado como des- dobramento de contradições internas que começou com o domínio da Inglaterra sobre as ilhas britânicas e quando passou a depender da fronteira agrícola de suas próprias colônias. A Índia passou a ser o verdadeiro sustentáculo do Império Britânico.

A incapacidade das nações vitoriosas, em 1918, para estabelece- rem um sistema operacional compatível com a extensão do impé- rio mundial revelou uma profunda contradição do sistema de poder quando não conseguiu confrontar o autoritarismo alemão. A Segunda Guerra Mundial desembocou em nova situação imperial com o po- der norte-americano com uma postura imperial mundial.3 As crises

internas da União Soviética facilitaram o caminho do imperialismo norte-americano que passou agir como em unilateralidade. As trans- formações do sistema de poder mundial, desde o fim do século XX, revelam um novo ambiente de disputa pelo poder hegemônico, com os Estados Unidos defendendo uma supremacia cujos custos superam

3 Será oportuno aqui dissentir da abordagem de Antonio Negri e Michael Hardt sobre império, que de fato já estava incorporada na territorialidade difusa do poderio norte- americano.

suas possibilidades, a China expandindo seu poder econômico e mili- tar e a Rússia reestruturando seu poderio militar e econômico. As três grandes potências dependem de combinar seu mercado interno com combinações internacionais em um ambiente agora condicionado por potencias de segunda linha poderosas como a Índia e a Turquia.4

A ascensão de potências de segundo plano a condições de defesa e de escala de mercado dá o tom da disputa pelo poder que se tornaram espaços praticamente invioláveis como a Índia, a Turquia e o Iran. Nesse conjunto, Israel funciona como potência secundária aliada aos Estados Unidos, mas dependendo de uma estratégia regional própria contraditória com os interesses norte-americanos.