PARTE I A CONSTRUÇÃO DO TERRITÓRIO NEGRO
2. PROCESSOS ORGANIZATIVOS E MEMÓRIAS DOS CONFLITOS
Foto 6: Morro do Óleo (Conceição) – local da terra adquirida por Benvindo em 1892
Foto 7: Jorge Benvindo, à direita, com parte da família visitando o Convento da Penha, em Vila Velha (ES), no final da década de 1940.
Foto 8 (à direita): Odálio Miguel dos Anjos, neto de Benvindo, falecido em abril de 1998.
2.1 – ORGANIZAÇÃO POLÍTICA E MEMÓRIA DOS CONFLITOS
O enfoque central deste capítulo é a “memória local dos combates” (FOUCAULT, 1979) e dos conflitos étnicos/territoriais no processo de formação de Os Benvindos. Por meio da memória, os membros do grupo demarcam as diferenças étnicas entre o “nós” da comunidade e os “outros”, que são os fazendeiros (grandes proprietários de terras, sendo vários deles descendentes de antigos senhores de escravos do entorno de Retiro) ou o pessoal de origem (descendentes de imigrantes europeus). Neste caso, a memória, como bem afirmou Wolf (2003), “tem um papel politicamente litigioso”. O conflito, da mesma forma que a guerra, como sugeriu o mesmo autor, “é um dos meios mais eficazes de intensificar a etnicidade”. Baseado no estudo de David Lan sobre o Zimbábue independente, Wolf retoma a observação de que durante os conflitos, os rebeldes shonas construíram uma identidade quase de reencarnação de guerreiros e de chefes políticos já falecidos (cf. WOLF, idem: 243 e 249)40. Uma situação de conflito ou de guerra com o exterior, como também foi pensada por Simmel (1983: 154), pode se tornar uma chance para estreitar os laços de unidade entre os membros de uma organização política e superar os antagonismos internos.
A memória dos conflitos refere-se às lutas em defesa da terra. Neste caso, o papel politicamente litigioso da memória está no fato dela suscitar lembranças que viabilizam contestações e lutas contra aqueles que historicamente têm expropriado as terras de Os
Benvindos. Deste modo, a memória se expressa através de lembranças, pois é a partir dela que os
integrantes do grupo retomam seu orgulho, sua auto-estima, seus feitos heróicos e conquistas. A memória é acionada, também, a partir de situações que envolvem as dimensões das relações simbólicas e afetivas com a terra e, ao mesmo tempo, torna-se um instrumento ideológico na configuração social e política do território. A memória apresenta-se através de um discurso
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Os dicionários jurídicos definem a noção de litígio como aquilo que exprime a controvérsia ou a discussão formada em juízo, a respeito do direito ou da coisa, que serve de objeto da ação ajuizada. Entende-se, também, por litígio a demanda proposta em justiça, quando é contestada. A mesma noção diz respeito a processo, demanda e a pleito, se referindo, ainda, ao meio pelo qual as partes fazem valer seus direitos em juízo. No plano das relações internacionais entre as nações, litígio significa “conflito de interesses entre dois ou mais Estados, de natureza política ou jurídica, que se resolve pelos meios diplomáticos, por arbitramento ou por meio das guerras” (cf. NÁUFEL, José. Novo Dicionário Jurídico Brasileiro. Rio de Janeiro: Forense, 1998: 575. SILVA, De Plácido. Vocabulário Jurídico. Rio de Janeiro: Forense, 1996: 100).
político sobre o passado, fundamentando-se na realidade do presente.
Na análise de Leach (1996), as organizações políticas reais podem passar por oscilações e instabilidades, visto que existem nos ciclos do tempo e no espaço e se estruturam em ambientes que estão em constante mudança. Por isso, as organizações políticas são instáveis, pois “toda sociedade real é um processo no tempo” e a história, assim como as narrações dos membros dessas sociedades, são tecidas a fim de justificar as condições, as atitudes e as ações atuais (cf. p. 69, 145 e 161). Estendendo a análise às relações políticas, Leach (idem: 275) entende que uma sociedade é sempre uma unidade de organização política e, ao mesmo tempo, é um segmento de um sistema político de maior escala. Assim, o autor toma como axioma que a estabilidade de qualquer unidade política é necessariamente afetada por mudanças na distribuição de poder, dentro do sistema político de escala imediatamente maior.
Nos contextos das relações de Os Benvindos com atores da sociedade envolvente, muitas vezes ocorrem conflitos porque existem choques de concepções e de interesses, mas, ao mesmo tempo, ocorrem transformações, como se verá no caso das transformações na arquitetura, no final deste capítulo. Entretanto, são nas relações conflituosas ou amistosas que Os Benvindos constroem as fronteiras. Neste sentido, o conflito é uma das mais vívidas interações41, pois está destinado a resolver dualismos divergentes e é um modo de conseguir algum tipo de unidade (SIMMEL, idem: 122). Os conflitos ocorrem tanto nas relações sociais externas quanto nas internas, por isso, Simmel levanta a probabilidade de que não exista “unidade social onde correntes convergentes e divergentes” não estejam “inseparavelmente entrelaçadas. Um grupo absolutamente centrípeto e harmonioso, uma ‘união’ pura (...) não só é empiricamente irreal como não poderia mostrar um processo de vida real” (Idem: 124). Aqui pode ser observada uma conexão entre a teoria de Leach (1996) - sobre a sociedade Kachin, para quem as organizações sociais e os sistemas políticos reais não estão em equilíbrio – e a de Simmel. Este, ao analisar o conflito como força integradora do grupo, escreve: “As hostilidades não só preservam os limites, no interior do grupo, do desaparecimento gradual, como são muitas vezes conscientemente cultivadas, para garantir condições de sobrevivência” (SIMMEL, Idem: 126).
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Além do conflito, também a noção de sociação em Simmel diz respeito a toda forma de interação e de relação social. Onde existe relação social encontra-se a competição, daí que a competição tem uma função sociativa. A sociação, que é interação entre iguais, é, também, a forma pela qual os indivíduos se agrupam em unidades para satisfazerem seus interesses. A sociabilidade, enquanto um mundo sociológico ideal e artificial, é o jogo no qual se “faz de conta” que são todos iguais, tornando-se um desvio da realidade e um modelo ideal da simetria (cf, SIMMEL, 1983: 166 e 173).
2.2 – O TECIDO SOCIAL DA MEMÓRIA SOBRE A FORMAÇÃO DO GRUPO
“Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassado; é esta uma das funções dos grandes homens. (...) O futuro, tal como o passado, atrai os homens de hoje, que procuram as suas raízes e a sua identidade, e mais que nunca fascina-os” (LE GOFF, 1997: 300 e 307).
Ao narrarem os fatos da memória social, Os Benvindos têm como referência comum seus ancestrais, principalmente o antigo Benvindo e sua esposa, Maria Pereira das Neves, avós de muitos deles, que lhes deixaram a terra como uma herança. Aqui, como no caso analisado por Godoi (1999), a memória está inscrita e vai sendo “tecida” genealogicamente no presente para uma configuração social do território, estabelecendo conexões entre o presente, o passado e as expectativas do grupo em relação ao futuro.
“Consideramos que as versões do passado são instrumentos fundamentais de definição da realidade atual e perspectivas futuras, mas que o contrário não deixa de ser verdadeiro, isto é, as perspectivas de mudança futuras também podem redefinir versões do passado, de forma a tê-las, até mesmo, como instrumento de ação política. (...) O grupo, assim, não se define só espacialmente, mas historicamente também; ele possui uma memória social coletiva, enfim, uma história, que é recriada segundo o universo simbólico dos sujeitos e as condições sociais nas quais estão imersos” (GODOI, 1999: 28-29).
Ao relatarem fatos referentes aos seus ancestrais, os narradores recriam o passado, levando em consideração a interpretação que fazem de suas experiências de vida no presente, especificamente suas formas de organização social e de associação política. As versões relatadas pelo grupo sobre o passado são vistas a partir das possibilidades vislumbradas e fornecidas pelo presente ou, como observaram Soares (1981: 35) e Godoi (1999: 28-29), quando enfocam grupos que vivem no meio rural, em situações correlatas, essas versões são instrumentos fundamentais de definição ou redefinição da realidade atual e das perspectivas futuras.
Nos primeiros contatos que estabeleci com os moradores, duas versões eram relatadas sobre a formação do grupo. A primeira, relatada pela líder 1, dizia que seu trisavô Benvindo teria sido comprado na África, ainda criança com seus pais, na primeira metade do século XIX e, em uma fazenda do vale do rio Santa Maria da Vitória, teria sido feito escravo de um imigrante de
domínio desse senhor de escravos, teria se casado com Maria Pereira das Neves, que pertencia a
um grupo familiar de negros livres que viviam em uma localidade nas proximidades de lugares
denominados como Conceição e Morros do Pelado, situados à margem direita da corrente do rio Santa Maria da Vitória.
A segunda versão sobre a formação do grupo, relatada por pessoas idosas, reproduz as histórias deixadas por Jorge Benvindo (filho caçula do referido casal ancestral) e retoma a idéia de sua procedência africana, especificamente de Angola, acrescentando informações sobre a aquisição da terra, como ilustram os relatos a seguir.
O nosso avô, para mim ele era africano. Ele não era daqui, não. E nossa avó também não era daqui, não. Assim dizia o meu tio Jorge, que eu era manobrado por ele. Pra bem dizer, ele manobrava esse Retiro todinho. Era ele que manobrava (Antônio Pereira). Tio Jorge Benvindo dizia: ‘a nossa origem é africana, porque papai veio da África’. Tio Jorge dizia que vovó (Maria das Neves) era Angola. Jorge falou que ela era de Angola. Eu acho que ela era da Angola, mesmo. Isso tudo era do tempo da escravidão. (...) Ele contava que o meu avô foi escravo de uma senhora de nome... Severiana, mas a minha avó não era escrava, não. O pessoal dela não era da escravidão, não; tirava o sustento fazendo ticido. Nos domingos e dia santo, que ele tinha forga, diz que o meu avô ia pras matas tirar cipó, taquara... o material pra mulher dele, pra ela trabalhar nos ticidos, na semana. Com esse trabalho, depois de muitos anos, que ela e o pessoal dela foi vendendo o ticido, foi guardando o dinheiro, Jorge dizia que eles conseguiram arrumar o dinheiro que o meu avô comprou esse terreno. Primeiro ele comprou lá na Conceição, depois comprou aqui (Odálio Miguel dos Anjos – 1997).42
Em relação aos argumentos da procedência africana de seus ancestrais, um neto de Jorge Benvindo afirma que todos os moradores de Retiro são descendentes de africanos, não de escravos, mas de escravizados. Porque os escravos não formavam um povo, mas os descendentes
de africanos escravizados são parte de um povo.
Um outro morador, proveniente de um lugar vizinho denominado Morro da Pimenta, que se tornou genro de Jorge Benvindo, fez um relato sobre os meios de sobrevivência e a aquisição da terra semelhante ao de Odálio (entrevista acima).
Eu ouvia seu Jorge falar que o pai dele era escravo, mas a mãe dele, o pessoal dela não era da escravidão, não. Ele dizia que o pessoal dela vivia fazendo tudo quanto era
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Odálio Miguel dos Anjos - neto de Benvindo Pereira dos Anjos e de Maria Pereira das Neves – faleceu em abril de 1998, no decorrer da primeira fase do trabalho de campo.
qualidade de ticido: peneira, cesto, tipiti, samburá... Com isso, ela se virava comprando as coisas pra ela mais os filhos, porque ela e o pessoal dela não era da escravidão, não. Daí o velho Benvindo foi morar junto com o pessoal dela. Depois, comprou o terreno lá da Conceição e de lá comprou esse daqui. Comprou de um tal de João Porto. O velho João Porto. Parece que ele tinha um engenho ali perto daquele pé de fruta-pão, o velho João Porto (herdeiro NO).
Apesar de os herdeiros classificarem tanto Benvindo quanto sua mulher como angolas, a diferença estabelecida entre eles está no fato de considerarem ela como livre e ele teria sido feito escravo de Dona Severiana de Albuquerque.
A noção de origem africana é uma expressão bastante empregada pelos moradores de Retiro. Esta é uma categoria elaborada relacionalmente para estabelecer diferenças étnicas frente aos seus vizinhos descentes de imigrantes europeus e residentes nos municípios de Santa Leopoldina e Santa Maria de Jetibá, que se classificam e são classificados como gente ou pessoal
de origem. Depois de ouvir, com freqüência, Os Benvindos falarem de seus relacionamentos
sociais com os descentes de imigrantes europeus e se referirem a eles como pessoal de origem, é que lhes perguntei porque seus vizinhos eram de origem e eles responderam que era porque aquelas eram pessoas que se diziam de origem alemã, austríaca, suíça e italiana e por isso, eles, moradores de Retiro, pertenciam a uma outra origem, que na definição deles é a africana.43 Aqui,
como na observação de Leach (1996), as categorias de diferenciação são construídas pelo discurso verbal por meio da relação entre diferentes segmentos sociais. Essas categorias são atribuídas por atores sociais que estão em relações de alteridade entre “nós” e “os outros”.
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Conforme constatei no Livro de Registro de Óbitos nº 1 (p. 08), de 1878, no Cartório de Registro Civil e Tabelionato da Vila da Barra de Mangaraí, existiam casos, como o de Cesário Africano, onde o termo africano era empregado logo após o primeiro nome do escravo. Cesário era escravo de José Cláudio de Freitas, proprietário da Fazenda Barra do Mangaraí, que faz limites com o território de Retiro. A partir desse caso, pode se observar que o termo referente à origem africana dos negros escravizados já era empregado na referida data. Muitos descendentes dos africanos escravizados nessa fazenda permaneceram trabalhando e morando em torno dela. A Vila da Barra do Mangaraí, até a década de 1980, conforme relatam seus moradores, era formada predominantemente por descendentes dos denominados africanos. Um “levantamento” sobre “comunidades com predominância de famílias negras” no Espírito Santo, realizado pelo Instituto Jones dos Santos Neves na década de 1980, sob a coordenação de Carlos Alberto Feitosa Perim, engenheiro de planejamento urbano e regional, com a colaboração de técnicos das administrações públicas municipais e dos escritórios da EMATER, identificava os agrupamentos existentes em Retiro e na Barra do Mangaraí como constituídos por famílias “africanas” (cf. PERIM, Carlos Alberto Feitosa. “Projeto de documentário e de inventário. Quilombolas do Espírito Santo – Onde estão e como vivem?”. Vitória – ES, 2004). Ao que parece, a elaboração de um discurso sobre a “origem africana” existente em Retiro é uma construção que vem sendo feita através da interação histórica entre os diversos saberes sobre a africanidade dos descendentes de africanos no Espírito Santo.
“A atribuição de uma categoria é uma atribuição étnica quando classifica uma pessoa em termos de sua identidade básica mais geral, determinada presumivelmente por sua origem e circunstâncias de conformação. Neste sentido organizacional, quando os atores, tendo como finalidade a interação, usam identidades étnicas para se categorizar e categorizar os outros, passam a formar grupos étnicos” (BARTH, 1969 [2000]: 32).
Na metodologia da pesquisa, seguindo a orientação de Barth (2000), procurei estabelecer, primeiramente, uma dinâmica comparativa entre as versões da tradição oral fornecidas pelos próprios moradores de Retiro para perceber a diversidade e as variações do saber local. A partir da indicação das fontes orais, busquei obter informações em fontes escritas como cartórios, livros de batismo, dados historiográficos e também, com atores externos com os quais o grupo tem mantido relações sociais. À medida que avançava em meus achados sobre os ancestrais dos atuais moradores, levava a eles que, por sua vez, acrescentavam novas referências. Nessa dinâmica comparativa entre a oralidade e a escrita, constatei que a primeira versão da história do grupo havia sido relatada pela líder 1 valendo-se de um documento de compra de terras, do ano de 1855, que estava sob sua guarda. Segundo o documento, uma mulher chamada Maria Pereira das Neves comprou uma área de terras do referido descendente de imigrante alemão e a mencionada líder a interpretava como se essa fosse a esposa de Benvindo. Em pesquisa cartorial, constatei que existiram várias mulheres de nome Maria Pereira das Neves na região, inclusive aquela que se tornou a sogra do Benvindo tinha esse mesmo nome. No referido ano, Maria Pereira das Neves, que posteriormente se tornou a esposa do referido ancestral do grupo, tinha apenas 03 anos de idade e, segundo seu atestado de óbito, faleceu em 1932 com oitenta anos. Logo, de acordo com os registros cartoriais, ela nasceu em 1852.44,45
Como mencionei anteriormente, os relatos da memória social são apresentados pelos narradores partindo de suas experiências no presente e entre elas, há que se destacar aquela do engajamento e comprometimento político. Deste modo, a referida trineta do Benvindo, ao relatar sua versão da história de formação do grupo, procurou relacioná-la com a história da família Leppaus. Desde 1982, o grupo tem estreitado suas relações e alianças políticas com essa família,
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Cartório de Registro Civil e Tabelionato - Vila da Barra de Mangaraí (CRCT -VBM), Município de Santa Leopoldina, livro nº 03 de registro de óbitos, folha 58.
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Segundo Barcellos [et al.] (2004), na Comunidade Negra de Morro Alto, o documento referente à doação e à herança da terra “aciona a memória coletiva de tal modo que o passado está permanentemente no cotidiano”. Para o caso de Retiro, não apenas essa afirmativa é real, mas também a de que a memória coletiva acionou a busca, pelo pesquisador, das fontes documentais. De tal modo que oralidade e escrita são entendidas como tendo uma relação de complementaridade.
onde um dos integrantes, Defensor Público no município, tem prestado assessoria jurídica ao grupo. Membros dessa família, assim como a líder 1, narradora da primeira versão da história do grupo, eram filiados ao mesmo partido político, o PSB.46 O pai do referido Defensor Público, já falecido, esteve no topo do poder político local, como prefeito do município. A esposa do referido ex-prefeito proveio, segundo seu filho, de uma família negra que pertencia, conforme sua definição, a um quilombo no município, localizado às margens do Rio da Prata. Esse agrupamento quilombola teve sua unidade social e territorial desintegrada em função do parcelamento e da conseqüente venda de parte da terra.47 O resultado dessas alianças foi, além da assessoria jurídica, a construção de uma creche em Retiro na gestão do referido ex-prefeito, por meio de um convênio com o Governo do Estado. Por mais de uma vez, a partir de 1982, o mesmo Defensor Público, segundo sua definição, prestou assessoria jurídica e política ao povo do
Retiro: primeiro, no decorrer do último conflito de terra enfrentado pelo grupo em meados da
década de 1980; segundo, por ocasião da criação da Associação dos Herdeiros de Benvindo Pereira dos Anjos; terceiro, na elaboração e execução de um projeto relativo à criação de cabras e, posteriormente, no decorrer da segunda fase do trabalho de campo, presenciei sua intervenção em uma reunião solicitada pelo grupo a fim de solucionar impasses internos referentes ao abastecimento de água. Esse impasse será descrito e analisado no capítulo oito.
Na pesquisa de cartório, obtive informações de documentos escritos que se assemelhavam à segunda versão relatada sobre os ancestrais do grupo. Neles, Severiana Maria de Albuquerque, seu marido José Pereira das Neves e seu filho, Gonçalo Pereira das Neves, aparecem como senhores de Benvindo. Os documentos cartoriais consultados revelam a presença de Benvindo, sua esposa, sua mãe e seus primeiros filhos na região de Mangaraí - Antônio, nascido em 1875, e Vitória, nascida em 1876. No registro de nascimento de Victória está escrito que ela nasceu no dia 11/06/1876, sendo seu pai Benvindo e sua mãe Maria Pereira das Neves. No documento está escrito que Benvindo e sua mãe, Vicência, eram escravos de Gonçalo Pereira das Neves,
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Após concluir a segunda fase do trabalho de campo, no decorrer das disputas para as eleições municipais de 2004, a referida trineta informou-me que o citado Defensor Público havia pedido o cancelamento de sua filiação ao PSB e se aliado ao então prefeito, cuja filiação partidária era ao PPS.
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Segundo a narração do citado Defensor Público, o Quilombo do Rio da Prata iniciou-se com escravos fugidos de