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Processos Presentes na Tarefa de Identificação Perceptual

8 TAREFA DE IDENTIFICAÇÃO PERCEPTUAL

8.1 Processos Presentes na Tarefa de Identificação Perceptual

De acordo com Grainger e Jacobs (1996), a tarefa de identificação perceptual distingue-se da tarefa de decisão lexical, porque, na primeira, não estão operativas as estratégias deadline e de adivinhação rápida que costumam afetar o desempenho dos participantes na tarefa de decisão lexical. Isso ocorre porque na tarefa de identificação perceptual não existem respostas negativas e sendo assim, não é necessário se estabelecer qualquer deadline para essas respostas. A estratégia de adivinhação rápida também não é efetiva, porque os participantes não devem emitir uma resposta positiva (do tipo “sim” quando o estímulo é uma palavra), mas sim, identificar, efetivamente, qual foi o estímulo apresentado. Destarte, na análise de Grainger e Jacobs (1996) a principal forma que um participante tem para responder na tarefa de identificação perceptual é por meio do processo de identificação lexical. Como o modelo DRC (Coltheart & cols., 2001) incorpora os mesmos mecanismos do modelo de Grainger e Jacobs (1996), pode-se considerar que o modelo DRC também preveja que na tarefa de identificação perceptual o processo de identificação lexical seja bastante saliente.

Embora possa fazer sentido considerar que o processo de identificação lexical é um dos mais salientes na tarefa de identificação perceptual, nos estudos discutidos no capítulo „Revisão da Literatura‟, levantou-se a hipótese de que essa tarefa também pode ser suscetível a estratégias. Isso poderia ocorrer porque na maioria dos estudos discutidos (Grainger & Jacobs, 1996; Grainger & Segui, 1990; Sears & cols., 1999; e em quase todos os experimentos de Snodgrass & Mintzer, 1993) não havia um tempo limite para a resposta dos participantes e assim, eles tinham bastante tempo para poder tentar “adivinhar” qual era a palavra mais compatível com o estímulo que viram. Além disso, como nesses estudos a

resposta consistia em digitar qual era a palavra que tinha sido apresentada, existe a possibilidade de que processos relacionados à grafia das palavras possam afetar de alguma forma a resposta dos participantes (lembre-se que o interesse principal dos pesquisadores é a leitura). Tendo essas considerações em mente, o presente experimento fez uso de uma tarefa de identificação perceptual tomando os seguintes cuidados: estabeleceu um limite de tempo (3 segundos) para a resposta dos participantes; e, a resposta requisitada consistia em dizer em voz alta qual era a palavra que tinha sido apresentada. Dessa forma, pode-se esperar que qualquer tentativa sofisticada de adivinhação dos estímulos será reduzida, porque os participantes terão um tempo limite para responder. Além disso, ao requisitar respostas vocais, esse experimento não só evita que processos relacionados à grafia das palavras possam afetar os resultados, como também, garante maior possibilidade de comparação com os experimentos dos capítulos anteriores, uma vez que todos empregaram respostas vocais. Cabe ressaltar que se optou por utilizar uma tarefa de identificação perceptual tradicional (standard perceptual identification task) nesse experimento porque apenas dois estudos utilizaram essa tarefa e apresentaram resultados relativamente conflitantes (Grainger & Jacobs, 1996; Sears & cols., 1999), sendo assim, parece importante investigar se os efeitos de N e NF podem ser generalizáveis para essa tarefa também. Por fim, é importante ressaltar que em versões padrão (como a adotada nesse estudo) da tarefa de identificação perceptual a porcentagem de erros constitui-se muitas vezes como a única variável dependente. Isso ocorre porque, como o objetivo é que a tarefa seja bastante difícil, procura-se fazer com que os participantes tenham porcentagens de erros próximas de 50% (Grainger & Jacobs, 1996; Sears & cols., 1999) e como é de praxe a exclusão do tempo de reação de respostas que resultaram em erros, muitos escores são excluídos, impossibilitando a análise do tempo de reação por condição experimental. O fato da variável dependente, nesse experimento, ser a porcentagem de erros, tem vantagens e desvantagens, porque, se por um lado, pode dificultar comparações

com os outros experimentos (uma vez que os efeitos terão métricas diferentes), por outro, pode ajudar a estabelecer a generalidade dos efeitos de N e NF em uma variável dependente diferente, o que é sempre bom (Kantowitz, Roediger III & Elmes, 2006).

Tendo-se essa tarefa de identificação perceptual em mente, pode-se agora passar para as predições do modelo DRC (Coltheart & cols., 2001) relativas a essa. Na prática, como o processo de identificação lexical deve ser saliente nessa tarefa, pode-se esperar que N e NF devam apresentar efeitos semelhantes aos apresentados na tarefa de leitura em voz alta do tipo

Go/NoGo. Isso é, pode-se esperar um efeito inibidor de NF e um efeito nulo de N.

8.2 Método

8.2.1 Participantes

Participaram desse experimento 32 alunos do curso de Psicologia da UFAL, sendo essa uma amostra de conveniência. A média de idade dos participantes foi de 21 anos e 2 meses (desvio padrão de 5 anos e 9 meses), sendo 24 do sexo feminino e 8 do sexo masculino.

8.2.2 Material

Os estímulos experimentais consistiram de 64 palavras que atenderam a uma manipulação fatorial 2 x 2 de N e NF, sendo controladas as seguintes características: freqüência de ocorrência (em média 10 ocorrências por milhão de palavras); número de sílabas (todas dissílabas); grau de correspondência no mapeamento grafema-fonema (todas regulares); classe gramatical (todas substantivos); natureza do fonema inicial (pareados entre as condições experimentais); e, número de vizinhos transpostos (apenas 1 por condição experimental). Essas 64 palavras foram subdivididas em quatro listas (pareadas pela natureza do fonema inicial e pela freqüência de ocorrência média) que foram cruzadas entre as quatro condições experimentais. Por fim, a ordem de apresentação das listas foi contrabalanceada entre as quatro condições experimentais, de forma que cada participante foi exposto a apenas uma lista por condição experimental, configurando, assim, um total de 16 palavras (mais detalhes podem ser obtidos no capítulo „Método‟). Para essa tarefa não foram necessários outros estímulos. No entanto, esse experimento contou também com 12 palavras que foram utilizadas na sessão de treinamento. Esses estímulos tinham características semelhantes às das palavras utilizadas na sessão experimental. Assim sendo, cada participante foi exposto a doze palavras na sessão de treinamento e a dezesseis palavras na sessão experimental.

8.2.3 Procedimentos

Os participantes foram testados individualmente em uma sala cedida pela UFAL, onde foram recebidos e instruídos por um colaborador do pesquisador quanto aos procedimentos. O instrumento utilizado para o teste foi um computador de arquitetura compatível à IBM-PC e o

software utilizado para a apresentação dos estímulos e coleta dos dados de tempo de reação e

porcentagem de erros foi o DMDX (Forster & Forster, 2003). O participante se acomodava na cadeira, ficando a uma distância aproximada de 40 centímetros da tela do computador, dependendo de sua postura. Após se acomodar, o colaborador pedia ao participante para falar algumas palavras com a finalidade de calibrar o microfone e então o instruía a ler as instruções experimentais na tela do computador. As instruções foram as seguintes: “Nesse teste, é necessário que você preste muita atenção. Esse símbolo + indicará onde você deve olhar. Logo depois, esse símbolo: ##### aparecerá brevemente na tela. Em seguida, uma palavra aparecerá muito rapidamente, sendo coberta pelo símbolo ##### e depois por ??????. Você deve tentar dizer qual era a palavra o mais rápido que puder. Aperte o ENTER para iniciar o treinamento”. Após ler essas instruções o participante tinha a oportunidade de redimir quaisquer dúvidas antes de iniciar a sessão de treinamento ou logo após essa, porém, antes de iniciar a sessão experimental.

Os estímulos foram apresentados em uma configuração de tela de 640x480 pixels, na fonte „fixedsys‟ de tamanho 10 e em letras capitulares, sendo a cor da fonte branca e o fundo azul. A exposição dos estímulos teve a seguinte dinâmica de apresentação na sessão experimental: uma marca de fixação (+) aparecia na tela por 500ms e depois desaparecia deixando a tela sem estímulos por 500ms; aparecia então uma máscara (######) que durava 500ms, sendo apagada e imediatamente seguida pela apresentação da palavra alvo que durava

60ms; então a palavra alvo desaparecia sendo imediatamente substituída por uma máscara (######) que durava 500ms; por fim, a máscara era substituída por sinais de interrogação (??????) que duravam até o tempo limite para uma resposta (3 segundos contados a partir da apresentação da palavra alvo). O participante devia dizer em voz alta qual era a palavra apresentada em até 3 segundos. A sessão de treinamento seguiu a mesma dinâmica, porém contou com feedback quanto à resposta dada. Além disso, o tempo de apresentação da palavra alvo na sessão de treinamento iniciou em 100ms, decrescendo em 20ms a cada duas tentativas até atingir o piso de 60ms nas 8 tentativas finais do treinamento. A finalidade desse procedimento foi facilitar a familiarização do participante com o tempo de apresentação das palavras alvo. O tempo total de testagem, incluindo as sessões de treinamento e experimental, foi de, aproximadamente, 4 minutos por participante.

8.3 Resultados

Devido a um erro de digitação a palavra estímulo „ÁSIA‟ ficou sem o acento agudo („ASIA‟) e, portanto, foi excluída das análises estatísticas realizadas. Nesse experimento, a variável dependente é a porcentagem de erros cometidos e, conseqüentemente, não foi efetuado o cômputo do tempo de reação por condição experimental. No entanto, foi possível o cômputo da média geral do tempo de reação dos participantes que foi de 1007,16ms, com um desvio padrão de 222,38ms (utilizou-se o método das medidas semi-restringidas para lidar com a distribuição positivamente assimétrica do tempo de reação, o que resultou na alteração de 4% dos escores e em uma distribuição normal do TR: Kolmogorov-Smirnov Z = 0,67, p > 0,75). No que diz respeito à porcentagem de erros, os participantes apresentaram uma média

geral de porcentagem de erros de 32,47%, com um desvio padrão de 26,76%, sendo essa uma distribuição normal (Kolmogorov-Smirnov Z = 0,838, p > 0,48). A Tabela 13 apresenta as estatísticas descritivas da porcentagem de erros por condição experimental para uma manipulação fatorial 2 x 2 de N e NF.

Tabela 13 – Média e Desvio Padrão da porcentagem de erros na tarefa de identificação perceptual

N1 N2

NF1 NF2 NF1 NF2

Média 31,25 39,06 21,88 37,50

Desvio Padrão 35,36 34,16 28,93 35,04

Nota. N1 = apenas 1 vizinho ortográfico; N2 = 4 ou mais vizinhos ortográficos; NF1 = sem vizinhos ortográficos de maior freqüência de ocorrência; NF2 = um vizinho ortográfico de maior freqüência de ocorrência.

Uma análise de variância do tipo 2 x 2 para um design de medidas repetidas tendo como variável dependente a porcentagem de erros foi desenvolvida de acordo com as recomendações de Pollatsek e Well (1995) e conforme discutido no capítulo „método‟. Essa análise indicou que o efeito principal de N foi facilitador e estatisticamente significante [F(1,30) = 4,31; p = 0,047]. Isto é, as palavras com muitos vizinhos ortográficos foram reconhecidas de forma mais precisa (5,5%) do que palavras com poucos vizinhos ortográficos (porcentagem de erros média de 29,69% e 35,16%, respectivamente). Além disso, também se observou que o efeito principal de NF foi inibidor e estatisticamente significante [F(1,30) = 11,11; p < 0,01], ou seja, os participantes apresentaram, aproximadamente, 12% a mais de erros nas palavras com vizinhos de maior freqüência de ocorrência em relação às palavras sem vizinhos de maior freqüência de ocorrência (porcentagem de erros média de 38,28% e 26,56%, respectivamente). A análise de variância não indicou uma interação estatisticamente significante entre os fatores N e NF (p > 0,35).

8.4 Discussão

Nesse experimento, NF apresentou um efeito inibidor mais geral do que o observado na tarefa de leitura em voz alta do tipo Go/NoGo. Esse efeito mais geral de NF no presente experimento se coaduna com a hipótese levantada de que, devido a algum tipo de erro de medida e/ou por ser uma tarefa menos poderosa, a tarefa de leitura em voz alta do tipo

Go/NoGo falhou em detectar o efeito geral de NF. Um dos argumentos levantados foi o de

que como as palavras com um vizinho ortográfico, sendo esse vizinho de maior freqüência de ocorrência, apresentaram uma maior porcentagem de erros, isso pode ter afetado a precisão de medida do tempo de reação nessa condição, prejudicando a detecção de um efeito mais geral de NF. Observando-se a porcentagem de erros no presente experimento, pode-se observar que esse apresentou o mesmo padrão. A condição em que as palavras tinham apenas um vizinho ortográfico, sendo esse de maior freqüência de ocorrência, foi a que apresentou a maior porcentagem de erros: 39,06%. Porém, como a variável dependente, nesse experimento, foi a porcentagem de erros, esse foi capaz de detectar o efeito mais geral de NF. No entanto, é importante ressaltar também que, embora o efeito inibidor de NF tenha sido geral, ele foi mais acentuado quando as palavras tinham muitos vizinhos ortográficos (produzindo, aproximadamente, 16% a mais de erros) do que quando essas tinham apenas um vizinho ortográfico (produzindo, aproximadamente, 8% a mais de erros). Assim sendo, talvez não seja justo excluir de todo a possibilidade de interação entre N e NF e reservar a resposta a essa questão para o capítulo „Meta-Análise e Discussão Geral‟, onde se pode comparar o padrão de efeitos de NF quando as palavras têm poucos e muitos vizinhos ortográficos nos diferentes estudos realizados com falantes do português brasileiro.

A principal diferença entre a tarefa de identificação perceptual e a tarefa de leitura em voz alta do tipo Go/NoGo encontra-se no efeito de N que foi nulo no experimento do capítulo 6 e facilitador no presente experimento. Porém, uma observação cuidadosa do efeito facilitador de N na tarefa de identificação perceptual indica que esse efeito foi muito mais forte nas condições em que as palavras não tinham vizinhos ortográficos mais freqüentes (produzindo, aproximadamente, 9% a menos de erros) do que nas condições em que as palavras tinham vizinhos ortográficos mais freqüentes (produzindo, aproximadamente, apenas 2% a menos de erros). Ora, se for considerado o efeito de N, apenas nas condições em que as palavras não tinham vizinhos ortográficos mais freqüentes, pode-se perceber que, mesmo na tarefa de leitura em voz alta do tipo Go/NoGo, esse efeito apresentou uma tendência facilitadora de, aproximadamente, 23ms. Assim sendo, pode ser que a tarefa de identificação perceptual, por ser uma tarefa mais difícil, talvez tenha sido mais poderosa em detectar os efeitos de N e NF do que os outros experimentos desse estudo.

Tendo essas considerações em mente, pode-se dizer que os resultados desse experimento e os resultados da tarefa de leitura em voz alta do tipo Go/NoGo são, pelo menos, razoavelmente compatíveis. Destarte, o presente experimento traz evidências convergentes de que, em condições nas quais o processo de identificação lexical é saliente, o efeito de NF é inibidor. O efeito de N é mais difícil de precisar porque variou de nulo a facilitador nos experimentos dessa tese e foi inibidor nos experimentos de Justi e Pinheiro (2006; 2008). Uma diferença entre as tarefas dessa tese e as dos estudos de Justi e Pinheiro é que, nessa tese, as respostas exigiam uma resposta vocal e conseqüentemente, processos envolvidos na produção dos fonemas necessários à pronúncia de um estímulo, necessariamente, estão envolvidos nas tarefas de identificação perceptual e leitura em voz alta do tipo Go/NoGo que foram utilizadas.

No que diz respeito à compatibilidade entre os resultados dessa tarefa de identificação perceptual e as predições do modelo DRC (Coltheart & cols., 2001), pode-se dizer que o efeito inibidor geral de NF está de acordo com o modelo DRC, ficando em aberto apenas se esse é mais acentuado ou não nas condições em que as palavras têm muitos vizinhos ortográficos. Já o efeito facilitador de N é mais difícil de ser explicado pelo modelo, porque o esperado seria um efeito nulo ou, até mesmo, um efeito inibidor fraco. No entanto, talvez esse efeito não seja tão difícil assim de ser acomodado pelo modelo, uma vez que a tarefa envolve leitura em voz alta e dessa forma, a reverberação da ativação proveniente do léxico ortográfico ao nível das letras e a ativação repassada pelo léxico de output fonológico ao nível de fonema poderiam, em conjunto, reverter o efeito inibidor do mecanismo de inibição lateral que, no caso de palavras sem vizinhos ortográficos mais freqüentes, já se esperava ser fraco ou nulo. Dessa forma, a explicação para um efeito facilitador de N dependeria da força das conexões entre o léxico ortográfico e o nível da letra e entre o léxico de output fonológico e o nível de fonema. Se a força dessas conexões for razoável, elas poderiam reverter o efeito do mecanismo de inibição lateral. Isso não afetaria o efeito de NF, porque um único vizinho ortográfico, mesmo que mais freqüente, enviaria pouca ativação para outros níveis do modelo, por se tratar de uma única fonte de informação (já palavras com muitos vizinhos ortográficos teriam várias fontes de informação ativando unidades em comum em diferentes níveis do modelo). Se essa hipótese estiver correta, é de se esperar que o efeito de N, mas não o de NF, seja modulado também pelo tipo de resposta envolvida na tarefa, porque tarefas que impliquem em uma demanda mais forte a processos fonológicos (como gerar os fonemas necessários à pronúncia de um estímulo) se beneficiariam mais da ativação repassada pelo léxico de output fonológico ao nível de fonema e esse processo é mais sensível a N do que a NF. Essa hipótese será avaliada no capítulo „Meta-Análise e Discussão Geral‟.