A organização do protocolo foi dividida considerando dois tipos de quesitos: a Questão Central (QC), como guia que conduziu todo processo de revisão; e as Questões de Pesquisa (QP), que direcionaram as buscas mais relevantes e definiram o que deveria ser considerado no processo de revisão:
QC - Como implementar estratégias de ensino inovadoras no processo de alfabetização e letramento digital?
QP1- O que já foi proposto em relação à alfabetização e letramento digital no meio científico?
QP2- De que forma os resultados podem contribuir com a pesquisa?
Após definição das questões e do argumento de buscas, observamos que algumas fontes podem não permitir o uso da busca automática para refinar a pesquisa, por esse motivo, ficou resolvido a estratégia manual x automática.
As pesquisas deverão estar disponíveis gratuitamente na internet em bases de dados científicas, como também devem atender aos requisitos traçados na revisão sistemática. Com as seguintes fontes de pesquisa, apresentados no quadro
Quadro 1 - Fontes de pesquisa
Fonte Acrônimo
Portal de Periódicos CAPES/ MEC CAPES
Scientific Electronic Library Online SciELO
Biblioteca Digital de Teses e Dissertações BDTD
Conferência Internacional sobre Informática na Educação TISE
Workshop de Informática na Escola WIE
Simpósio Brasileiro de Informática na Educação SBIE
Congresso Brasileiro de Informática na Educação CBIE
Revista Brasileira de Informática na Educação RBIE
Revista Novas Tecnologias na Educação RENOTE
Fonte: Autoria própria (2020).
O objetivo principal foi analisar as produções que tinham relação primária com o processo de alfabetização na perspectiva do letramento digital. Definimos então como argumentos de buscas para realizar esse estudo: (“letramento digital” or “cultura digital”) AND (“alfabetização”) AND (“recursos digitais” or “tecnologias digitais”).
Para traçar um panorama dos estudos sobre alfabetização, letramento, letramento e cultura digital e recursos ou tecnologias digitais, fizemos buscas em fontes de pesquisas e, posteriormente, organizamos um protocolo de revisão literária. Foram considerados os principais portais acadêmicos, anais de eventos científicos e revistas na área de Inovação em Tecnologias Educacionais. Nessa perspectiva utilizamos, para refinar as buscas, alguns critérios de inclusão e exclusão para permitir a seleção condizente dos estudos, de maneira que foram pensados os seguintes itens, organizados no quadro 2:
Quadro 2 - critérios de inclusão e exclusão
Critérios de inclusão (C-IN) Critérios de exclusão (C-OUT)
C-IN-1: Trabalhos publicados e disponíveis integralmente em bases de dados científicas;
C-OUT-1: Publicações não sejam direcionadas para a alfabetização e letramento digital, especificamente;
C-IN-2: Trabalhos que estejam disponíveis gratuitamente de forma íntegra para downloads;
C-OUT-2: Trabalhos secundários, ou seja, comentários, análises e crítica baseados nas fontes primárias (pesquisa).
C-IN-3: Estudos produzidos nos últimos cinco anos, ou seja, pesquisas posteriores a 2014;
C-OUT-3: Publicações duplicadas
C-IN-4: Trabalhos que tratem de conceitos de interesse da pesquisa;
C-OUT-4: Pesquisas que não detalham a metodologia;
C-IN-5: Trabalhos escritos em português;
C-OUT-5: Trabalhos que não
apresentam os resultados de forma clara e objetiva.
C-IN-6: Resultados que tragam contribuições aos estudos.
Fonte: Autoria própria (2020).
Tendo como percurso o guia Kitchenham e Charters (2007), seguimos as etapas para selecionar as pesquisas:
● Análise de títulos: eliminar pesquisas que só pelo título fujam das temáticas e/ou dimensões estudadas; (fase 1)
● Análise do resumo: eliminar pesquisas que não tivessem relacionadas aos argumentos de buscas e Questões de Pesquisa; (fase 2)
● Leitura: análise detalhada das pesquisas restantes para excluir as que não atendiam aos critérios de inclusão. (fase 3).
Quadro 3 - etapas para seleção dos resultados
Base Encontrados Após
refinar dados
Fase 1 Fase 2 Fase 3
CAPES 53 8 5 2 0 SciELO 58 18 5 2 2 BDTD 11 5 5 4 2 TISE 2 (manual) 2 2 2 0 WIE 29 17 1 1 0 SBIE 33 12 6 6 0 CBIE 21 18 5 3 0 RBIE 7 5 3 2 0 RENOTE 83 33 5 3 1 TOTAL 329 139 37 25 5
Fonte: Autoria própria (2020).
A etapa das buscas foi realizada entre 23 de julho de 2020 a 31 de julho de 2020, no qual, foram encontrados 329 resultados sem filtros. Ao seguir os procedimentos para refinar os dados, como delimitar as buscas para os últimos cinco anos, páginas em português, trabalhos completos em cada base de dados selecionadas, obtivemos um total de 139 trabalhos.
Para selecionar as publicações relevantes ao estudo, passamos para as fases descritas anteriormente: na fase 1, em que a seleção foi feita apenas pelo título reduzimos para 37; na fase 2, a análise foi feita pelos resumos e o número passou a ser 25; e por fim, na fase 3, com a leitura detalhada e considerando os critérios de inclusão e exclusão chegamos ao final, com 5 resultados.
Realizamos a avaliação de qualidade (quadro 4), por meio das seguintes questões de critérios de qualidade:
Quadro 4 - avaliação de qualidade
Local Trabalhos
Os trabalhos atendem aos critérios de qualidade? Nota: 0 | 0,5 | 1,0 Critério 1 Há uma declaração clara dos objetivos da pesquisa? Critério 2 Os resultados da pesquisa estão reportados de forma precisa? Critério 3 Os resultados agregaram valor à temática pesquisada? Total SciELO A1 1 1 1 3,0 A2 1 1 0,5 2,5 BDTD D1 1 1 1 3,0 D2 1 1 1 3,0 RENOTE A1 1 0,5 0,5 2,0
Fonte: Autoria própria, 2020
As publicações que não se encaixaram nos critérios e nas etapas de análise foram excluídas da revisão sistemática. As pesquisas selecionadas, passaram por critérios de avaliação de qualidade, para que assim pudéssemos categorizar qual seria o nível de contribuição. Nesta busca sistemática que realizamos das produções científicas sobre os recursos e/ou tecnologias digitais no apoio da alfabetização, na perspectiva do letramento digital, consideramos então a nota máxima apenas para as pesquisas que contemplassem todas as dimensões desse estudo, ou seja, que pudessem agregar valor a todos os argumentos de buscas.
Para a leitura e seleção das produções escolhemos alguns procedimentos: ● Leitura da introdução e conclusão em caso de dúvidas na aplicação dos
critérios;
● Leitura completa dos trabalhos selecionados;
● Verificar se as produções respondem às perguntas levantadas nas questões de pesquisa, critérios de inclusão e avaliação de qualidade;
● Contabilizar os dados construídos a partir da busca, utilizando uma tabela contendo os itens propostos para extração e os resultados obtidos a partir da aplicação de todos os procedimentos necessários;
● Realizar uma descrição e análise das respostas das questões de pesquisa aprovados pós-leitura.
O protocolo da revisão da sistemática, possibilitou a sistematização das produções científicas dos últimos anos. Exploramos as problemáticas, objetos, objetivos, metodologias e resultados, com intuito de elaborar descrições e agrupamentos. Dessa forma, foi possível compreender a importância do estudo para o meio acadêmico, também ajudou a mapear os conhecimentos já produzidos e suas bases teóricas sobre as dimensões estudadas.
Quadro 5 - Referências dos artigos selecionados
Fonte Tipo Referências das produções lidas
SciELO Artigo
(A1)
GLÓRIA, J. S., & FRADE, I. C. (Jul/Set de 2015). A alfabetização e sua relação com o uso do computador. Educação em Revista, v.31, p. 339-358.
Artigo (A2)
PINHEIRO, Regina Cláudia. Conceitos e modelos de letramento digital: o que escolas de ensino fundamental adotam?. Ling. (dis)curso, v. 18, n. 3, p. 603-622, dez. 2018.
BDTD Dissertação
(D1)
VASCONCELOS, Rebecca Schirmer de Souza.
Práticas multimodais no aplicativo WhatsApp: apropriação da cultura escrita digital por crianças em processo de alfabetização. 2019. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Educação - Conhecimento e Inclusão Social) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.
Dissertação (D2)
REIS, Alexandre, Mariana dos. Um estudo sobre objetos digitais de aprendizagem no processo de alfabetização e letramento. 2017. Dissertação (Docência para a Educação Básica), Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2017.
RENOTE Artigo
(A2)
AZEVEDO, D. S.; SILVEIRA; A. C.; LOPES, C. O.; AMARAL, L. d., GOULART, I. d.; & MARTINS, R. X. (2018). Letramento digital: uma reflexão sobre o mito dos “nativos digitais". Revista Renote Novas Tecnologias na Educação, V. 16.
Fonte: Autoria própria (2020).
Após selecionarmos as pesquisas que respondiam as questões e critérios deste protocolo de revisão sistemática, fizemos uma descrição, de cada trabalho destacando as contribuições e caminhos mais próximos ao nosso objeto de estudo.
O artigo de Glória e Frade (2015), foi selecionado por atender a todas as dimensões estudadas nesta pesquisa, principalmente, no que diz respeito ao uso das tecnologias, letramento digital, cultura escrita e gêneros textuais, que classificam como virtuais, na fase de alfabetização. As autoras desenvolveram uma pesquisa de natureza qualitativa, por meio de uma intervenção. Utilizando como principais referenciais: Soares (2002); Street (2009); Chartier (1997, 2008); Gómez (2003); Molinari e Emília Ferreiro (2007); Isabel Frade (2006); Marcuschi (2009). Nas
análises consideram que a falta de estrutura na escola, especificamente na alfabetização, pode diminuir as experiências que os alunos precisam na escrita com gêneros textuais digitais, tendo em vista, que já fazem uso no cotidiano.
Já o artigo de Pinheiro (2018), contribui de maneira significativa com a revisão literária no que diz respeito ao letramento digital, escrita e uma tecnologia digital em específico na alfabetização. A pesquisa quali-quantitativa, recorreu ao estudo de caso como método, enfatiza que apesar dos dados terem sidos verificados numericamente, foram analisadas as particularidades individuais. Destaca as referências de: Street (1984; 2003), Scribner e Cole (1991), Kleiman (1995; 2014), Cavalcante Jr. (2003), Buzato (2003; 2007), Ribeiro (2006), Xavier (2011) e Borges (2017). Nas análises afirma que as tecnologias muitas vezes são utilizadas para mascarar as mesmas metodologias, e que é preciso implantar políticas públicas que verifiquem o nível de letramento digital dos alunos, uma vez que só o acesso às tecnologias digitais não é suficiente. Como também considera a escrita como base dessas práticas que se apoiam em um modelo autônomo de letramento.
A dissertação de Vasconcelos (2019), responde a todas questões de pesquisa e critérios de qualidade desta pesquisa. Contribuiu para a revisão literária, no que diz respeito, à alfabetização, letramento digital, apropriação da cultura escrita digital, produção escrita e textos multimodais. Têm como base teórica: Prensky (2001); Takaki (2012); Ferreiro (2005); Alves-Mazzotti (1991); Araújo (2013); Bakhtin (2003); Bourdieu (1977); Chartier (1994, 2009, 2014); Coscarelli (2005, 2016); Frade (2014); Goody (2012); Morais (2012); Rojo (2012); Soares (2014, 2016, 2017); Smolka (1993); Snyder (2002); Street (2010, 2014); Takaki, (2012); e Xavier (2018). Realizou um estudo qualitativo e uma intervenção, para interagir com os alunos de maneira mais ativa. Constata na análise que as crianças na fase de alfabetização estão cada dia mais imersas nas práticas digitais e que isso eleva seus níveis de letramento digital.
A dissertação de Reis (2017), contribui para a revisão literária em todos os argumentos de buscas: de alfabetização, letramento digital e tecnologias digitais. Assim, responde e colabora com a nossa pesquisa e responde às questões de pesquisa e critérios de qualidade. Utilizaram no seu percurso a pesquisa qualitativa, com desenvolvimento interventivo e participante. Como principais referenciais teóricos utilizou: Levy (1993); Kenski (1998; 2003); Cruz (2008); Palfrey e Gasser (2011) e Sibilia (2012; 2015); Soares (1985; 1998); Carvalho (2005); Albuquerque
(2007); e Xavier (2002). O trabalho articula a prática pedagógica e o uso das tecnologias digitais, especificamente na alfabetização, também aos aspectos relacionados às políticas públicas, infraestrutura e formação docente.
O artigo de Azevedo et al. (2018), contribui para esta revisão literária, pois, atende as questões de pesquisa em todos os critérios de avaliação e dimensões, no que se refere, a cultura digital, letramento digital e suas habilidades e tecnologias digitais. A pesquisadora trata o tema de maneira conceitual, por meio de um estudo bibliográfico. De cunho qualitativo e bibliográfico, reflete sobre as implicações das TDIC na leitura e escrita na fase de alfabetização. Utilizou como referenciais: Britto (2003); Dias (2009); Freitas (2010), Fajardo, Villalta E Salmerón (2016); Kirkwood E Price (2005); Lévy (1999); Lima (2008); Margaryan, Littlejohn E Vojt (2011); Moran (2007, 1998); Pereira e Maciel (2017); Prensky (2001); Ribeiro (2012); Rojo (2009); Silva (2005); Soares (2001, 2002); Tornero e Varis (2018); Xavier (2018). A pesquisa afirma que uso das tecnologias de maneira automática não é suficiente para que o sujeito seja capaz de analisar as implicações sociais da cultura digital.
Os resultados das pesquisas enfatizam que as crianças estão imersas no mundo digital, evidenciam a falta de estrutura das escolas, refletem sobre como as tecnologias podem ser mais que ferramentas no processo de ensino, além de destacarem a importância das políticas públicas para implementar a cultura digital na educação.
Respondendo à questão central, as pesquisas selecionadas apresentaram possibilidades que foram consideradas na intervenção. Porém, não nos dão parâmetros para compreender como implementar estratégias de ensino na alfabetização, em uma perspectiva do letramento digital.
Os dados analisados relacionados as questões de pesquisa, indicam uma escassez de pesquisas, tais como: teses, dissertações e artigos de pesquisas, que visam especificamente o processo de alfabetização com tecnologias, na perspectiva do letramento digital. Por outro lado, há um crescimento das produções científicas dos trabalhos relacionados à letramento digital, especialmente no ensino superior, nas áreas de letras e saúde, ensino fundamental anos finais (6º ao 9º ano) e ensino médio (1º e 3º ano). Como também:
confirmam que as crianças estão imersas no mundo digital;
evidenciam que a falta de estrutura das escolas, pode diminuir as experiências que os alunos precisam na escrita com gêneros textuais digitais;
refletem sobre como as tecnologias podem ser mais que ferramentas no processo de ensino;
destacam a importância das políticas públicas para implementar a cultura digital na educação;
constatam que as tecnologias muitas vezes são utilizadas com as mesmas metodologias tradicionais.
A revisão sistemática foi de extrema importância para compreender o contexto atual da produção acadêmica, reafirmando a importância do objeto de pesquisa para o meio científico na atualidade.