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CAPÍTULO 4 – RESULTADOS E ANÁLISES

4.2 Livros didáticos de Física como elementos da cultura escolar

4.2.3 Processos seletivos

Outro aspecto que converge nas respostas apresentadas pelos professores

participantes da pesquisa como sendo de fundamental importância para a escolha

do livro didático de Física se refere ao papel dos processos seletivos de acesso ao

ensino superior. A sua presença nos relatos dos professores indicou que estes

processos influenciam e, de certo modo, condicionam a escolha dos livros.

Em linhas gerais, verifica-se que a adequação dos livros didáticos de Física

àquilo que é exigido por distintos processos de seleção se coaduna com as

orientações curriculares vigentes em cada país, e, neste sentido, reforça a noção de

que os livros são considerados, pelos professores pesquisados, como elementos da

cultura escolar.

Foi possível perceber que os professores convergem quanto à importância

destes processos para a escolha de seus livros, conforme se pode verificar nos

seguintes posicionamentos:

(...) o primeiro ponto a gente tenta, assim, por exemplo, no estado em si, o foco, o foco maior é o ENEM, então, eles mandam a gente escolher o material que contemple os conteúdos que estão presentes no ENEM. (...) a primeira prioridade é essa, é ver se aquele livro didático está dentro da programação do ENEM, que o ENEM cobra. Se tem questões de vestibulares, se tem, se, como é que é a questão, é, como é que tá distribuído este conteúdo (B03E)

(...) escolhemos o livro que estava mais adaptado a essa, a essa condição, né, a estas duas condições, atendendo (...) tanto o aspecto da física, quanto, o desenvolvimento, o modelo matemático, (...) o instrumental matemático, melhor dizendo, e, também pensando já no terceiro grau, né, no, que o aluno vai enfrentar um vestibular. Então, também aliando neste aspecto (...) tentando fazer um link com, com o vestibular. (B14E)

A proposta pedagógica [dos livros didáticos] deve estar adequada aos assuntos mais necessários aos vestibulares e ENEM. (B16Q)

Para os alunos interessados em ingressar no Ensino Superior (grande parte dos alunos (...) ingressa [na escola] com este objetivo, embora este não seja o foco da nossa formação), há uma boa quantidade de exercícios de ENEM e vestibulares. (B17Q)

Os manuais selecionados têm em vista o prosseguimento de estudos dos alunos por isso devem apresentar um nível científico e de desenvolvimento acima da média (P13Q)

(...) o manual é importante pra disciplina, não é? Pra estudar e acompanhar a matéria em casa, não é? Pra ver algumas imagens também quando tá a estudar, e geralmente eles trazem também coisas para que escolham o que estudar em casa, e, depois como há um exame nacional no final do décimo primeiro, eles têm que guardar o manual até fazer o exame, tem que estudar sempre a matéria, né? Não só os cadernos e apontamentos que têm, mas também por a matéria que tá no manual. (P05E)

(...) a nível do secundário a preocupação passa essencialmente por, ahn, pela qualidade científica do manual, por, exatamente por que eles estão sujeitos a um exame. (...) o Ministério da Educação é quem elabora e nós temos que seguir aquele programa, porque os nossos alunos do ensino secundário, por exemplo, são sujeitos a um exame nacional. (...) aquele programa tem a ver com esse exame nacional, nós temos que cumprir aquelas, aqueles conteúdos, não é, para depois o aluno poder ser avaliado a nível nacional por esse exame.

Em Portugal o sistema de acesso ao ensino superior público se delineia

desde os anos de estudo no nível secundário, com a matrícula em disciplinas

especificamente relacionadas com a área de futura pretensão do estudante. Ao final

(P06E)

Considerando que os processos seletivos de acesso ao ensino superior,

tanto no Brasil quanto em Portugal, são importantes aspectos para a escolha dos

livros didáticos de Física, cabem algumas diferenciações sobre o modo como

ocorrem estes processos seletivos nestes dois países.

do ensino secundário o estudante realiza um exame de conclusão, especificamente

nas disciplinas que cursou, sendo que a nota obtida corresponderá a uma

porcentagem determinada, e que varia de universidade para universidade

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.

No Brasil, diferentemente, ocorrem distintos processos seletivos mais

globais, que avaliam o estudante em todas as componentes curriculares do ensino

secundário, sendo a maioria destes processos, quando existem, organizados pelas

próprias instituições de ensino superior. Porém, após a transformação do Exame

Nacional do Ensino Médio (ENEM) em um processo de seleção ao ensino superior,

tem havido desigualdades e até mesmo incompatibilidades entre as exigências dos

distintos processos seletivos e a organização curricular no nível das escolas. Isto se

repercute sobre a forma como alguns professores brasileiros consideram a questão

da importância dos processos seletivos para a escolha dos livros didáticos de Física:

Hoje em dia existe uma "corrida do ouro" para que os livros contenham principalmente questões relativas ao ENEM. Tem que estar de acordo com os PCNS. E isso fica claro nas capas. Um tempo atrás deveria haver questões do Vestibular. (B01Q)

Eu acho que a gente deveria ter uma liberdade melhor, até porque, no caso do meu estado, né, a gente tem um problema de programa, por exemplo, nós temos que atender o anseio do aluno em relação ao ENEM e o [processo seletivo específico]. Só que o programa do [processo seletivo específico] ele não é em concordata com a programação do ENEM, é muito diferente. (...) é um jogo aí que é, é complicado. Se o cara conseguisse mudar o ENEM... a estruturação dele, aí eu acho que você conseguiria ter um leque melhor pra trabalhar com o livro. (...) Se eu escolher um livro que atenda só o anseio do [processo seletivo específico] eu vou fazer com que esse aluno vá mais fraco pro ENEM, pelo contrário, se eu escolher um livro que atenda as características do ENEM, eu, ele vai ter dificuldade no [processo seletivo específico]. (B03E)

(...) ele [o processo seletivo] tem um outro currículo. Então é aquele antigo, que, mecânica, e depois é... depois é óptica, é... dilatação, depois eletricidade, magnetismo, quântica, aí, mas, é, ele segue isso aí direitinho. E tem o processo que é seriado

Por outro lado, verificou-se que, para um sujeito, o livro didático se adéqua

tanto ao processo seletivo específico de sua região, quanto ao ENEM:

, então cobra realmente, no primeiro mecânica, no segundo, óptica e dilatação, no terceiro... (B10E)

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De acordo com o portal na internet da Direcção-Geral do Ensino Superior, órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior: “A candidatura ao ensino superior público é feita anualmente através de um concurso nacional organizado pela Direção-Geral do Ensino Superior. O concurso nacional realiza-se no final do ano letivo e organiza-se em três fases, nos termos do calendário anualmente aprovado. A direção de todo o processo relacionado com avaliação da capacidade para a frequência, bem como com a fixação dos critérios de seleção e seriação dos candidatos à matrícula e inscrição no ensino superior, compete à Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior”.

(link:http://www.dges.mctes.pt/DGES/pt/Estudantes/Acesso/ConcursoNacionalPublico/OConcursoNac ional/)

(...) na escola o foco mesmo é a universidade federal, em primeiro lugar, e em segundo lugar, o ENEM, né? Então, mas o foco mesmo é a universidade federal. (...) eu acho que o livro, assim, o último que gente escolheu, atende, tanto em termos de conteúdo, quanto em termos de exercícios, experimentos, sugestões de pesquisas