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Crispin Pinheiro, casado, industrialista, domiciliado em Santa Maria, estabelecido com a “Fábrica de Massas Farias”, sediada na rua Dr. Pantelão n°129. Alega que João Pereira, brasileiro, solteiro, foi admitido na empresa por seu proprietário antecessor Arlindo Farias, continuando a trabalhar no mesmo ramo após a troca de proprietário. Que assim, conta João Pereira com mais de dez anos no serviço, recebendo um salário mensal de CR$: 260,00, além de residir na própria fábrica.

O trabalhador que passa a residir no mesmo ambiente de trabalho passa a ter uma complexidade maior para o seu entendimento. Se percebermos, a dependência desse indivíduo, que acaba aceitando situações salariais trabalhistas que afrontam as leis trabalhistas por morar no local onde trabalha. Vendo essa situação como uma espécie de “favor” por parte do empregador. Fazendo assim com que se torne menos corriqueira a utilização do meio jurídico. Por outro lado, residir no local de trabalho faz com que exista uma maior facilidade na organização sindical dos trabalhadores, facilitando reuniões entre os membros. Porém, o caso citado aqui não dá indícios de outros trabalhadores que viessem a morar no local, ou de representação sindical do trabalhador.

No entanto, para a demissão do mesmo é necessário acionar a justiça do trabalho devido ao fato de que quando realizado o balanço da empresa, notou-se que várias notas não teriam sido pagas pelos consumidores e que João Pereira era o responsável pela entrega e por cobrar os devedores.

Os comerciantes que compraram o produto afirmaram de forma unânime terem pagado em imediato à aquisição do produto o seu valor. Assim, o reclamado se apropriou das notas e dos valores pagos pelos mesmos de forma indevida. Cometendo assim “falta grave”, prevista no artigo 482 da Consolidação das Leis do Trabalho, resultando em demissão por justa causa para rescisão do contrato de trabalho. A falta grave teria sido realizada pelo reclamante, que teria furtado da empresa e logo após ser descoberto, teria abandonado o emprego. Na ata de conciliação e julgamento, relatada pelo juiz, explana o procurador do reclamante a situação nas seguintes palavras “a tremenda carência que assoberba a classe pobre, desnorteou esse empregado honesto, que tanto contribuiu para a prosperidade da firma”.

A explicação dos acontecimentos traz a hipótese levantada pelo reclamante, que a precária situação de pobreza da população levaria a atos desonrosos, como o citado no processo. Logo após essa fala, o juiz propôs mais uma vez a conciliação entre as partes, que foi negada por ambos. Por fim, a decisão do juiz, foi favorável à demissão do empregado, devido a sua falta grave.

Waldo Wesendong, brasileiro, casado, ajustador, residente na Rua Castro Alves, n° 62 no município de Santa Maria, requer da empresa Dahane Conceição & Cia os salários correspondentes ao prazo do aviso prévio. Sendo empregado da empresa de 3 de abril de 1944 a 24 de fevereiro de 1945, quando foi bruscamente demitido sem receber o aviso prévio. Recebia a quantia de CR$: 30,00 diários e lhe eram pagos quinzenalmente e que fundamenta sua reclamação no artigo 487da CLT.

Que assim sendo, a devida reclamação avulta a quantia de CR$: 900,00 e custas. Em 18 de junho de 1945 realizou-se a audiência entre as partes. Compareceram ambas as partes, que primeiramente não aceitaram conciliação (acordo). Após a apresentação dos termos do reclamante e do reclamado, mais uma vez, o juiz propôs um acordo que foi negado por ambas as partes. Por fim, o ganho de causa foi dado ao reclamante, obrigando a empresa reclamada a pagar a quantia de CR$: 900,00 solicitada inicialmente por parte do reclamante.

Aristides Flores, brasileiro, casado, operário, residente no “Parque da Aviação”, 7° Distrito do município de Santa Maria, notifica Carlos Denardin, brasileiro, solteiro, comerciante, residente na Avenida Ipiranga n°234, a responder na Justiça do Trabalho os seguintes termos: que no início de maio de 1945 empreitou com o reclamado aumentar a perfuração de um poço e calçá-lo no valor de CR$: 8,00 o palmo de perfuração e CR$: 5,00 o calçamento. Que após a perfuração de 2 metros e 32 palmos, o reclamante recusou- se a efetuar o pagamento do valor contratado.

Assim, o reclamante solicita que lhe seja paga a quantia de CR$: 244,00 e custas, fundamentada no artigo 442 e 457 da consolidação das leis do trabalho em vigor. Em 3 de agosto de 1945 o reclamado Carlos Denardin compareceu ao fórum do município para efetuar o pagamento do valor solicitado, CR$:244,00 mais CR$23,00 de multas, antes mesmo da realização da audiência. Nesses termos o juiz deu a reclamação como encerrada.

João Candido Marques, com 42 anos de idade, solteiro, natural de Santa Maria, padeiro de ofício, iniciou seu trabalho na empresa em oito de janeiro de 1933 até maio de 1940, e que após essa data trabalhou como quadrista até 11 de fevereiro de 1944 e notifica a empresa por demissão injusta e falta de aviso prévio. Audiência realizada no dia 25 de maio de 1945 na cidade de Santa Maria, tendo comparecido ambas as partes. A empresa Reunidas apresentou suas testemunhas João Iraeat, Percival da Silva Oliveira. Após a leitura dos autos, foi proposta pelo juiz conciliação, que não foi aceita pelas partes envolvidas. A empresa reclamada acusa João Candido de falta grave em seu ambiente de trabalho.

Figura 9 - Carteira profissional João Cândido

Fonte: Centro de Memória Regional da Justiça do Trabalho de Santa Maria

A figura 9, mostra ainda a Carteira de Trabalho do indivíduo, em que demonstra alguns dados informativos do trabalhador. Como cor, altura, cabelo, barba, cor dos olhos. Formando um grupo de informações físicas do indivíduo, que vão caracterizá-lo. A criação do Ministério da Indústria e Comércio durante os primeiros anos de Vargas no

poder propiciou a criação de um novo departamento, o Departamento Nacional do Trabalho20. Entre as várias reformulações do DNT, a que cabe ao recorte da pesquisa, e interfere na organização dos trabalhadores do período, conforme o disposto no CPDOC, o Decreto-Lei nº 5.092, de 15 de dezembro de 1942.

reorganizou o DNT, subdividindo-o, para o desempenho das tarefas de previdência social e de estudo, coordenação e fiscalização da proteção ao trabalho, nos seguintes órgãos: Serviço de Identificação Profissional (SIP),

20 Disponível em: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/departamento-nacional-

do-trabalho-dnt>. Acesso em: 21 set. 2016. Somente em 1931, quando se organizou o recém-criado Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, foi efetivamente instalado um novo departamento nacional do trabalho, chefiado por uma diretoria geral e subdividido nas seções de organização, higiene, segurança e inspeção do trabalho, e de previdência social.

Divisão de Organização e Assistência Sindical (DOAS), Divisão de Fiscalização (DF) e Divisão de Higiene e Segurança do Trabalho (DHST).

Figura 10 - Dados informativos do trabalhador

Fonte: Centro de Memória Regional da Justiça do Trabalho de Santa Maria

Após a apresentação dos litigantes na audiência, realizada no dia 11 de setembro de 1946, a sentença homologada, foi vitorioso para o reclamante, fazendo com que a empresa reclamada deverá reintegrar o funcionário ao seu antigo ofício, pagando ao mesmo o valor pedido no início da reclamação, além do pagamento de multa e custas. Por fim, uma das “jogadas” das empresas para não necessariamente cumprir com todo o acordado durante o processo era de reintegrar o trabalhador a sua antiga função, mantendo-o atrelado ao seu local de trabalho.