3.2 Violação aos Direitos Sociais dos(as) Trabalhadores(as) Haitianos(as) – Trabalho,
3.2.1 Processos Trabalhistas em São Gabriel do Oeste
As Reclamações Trabalhistas de São Gabriel do Oeste (MS) contra FBS Construção Civil e Pavimentação S.A. e Aparecida Farias Cançado ME, conhecidas como FBS e GLOBAL Construtora estão relacionados no anexo 5.
11 O Ministério Público do Trabalho atuará como fiscal da lei (custos legis) quando o art. 83 e incisos da Lei
Complementar nº 75/93 expressamente dispõe sobre a atuação do parquet em causas de interesse público (BRASIL, 1993).
Das buscas feitas no PJe, TRT 24º Região12, foram localizadas 4 reclamações trabalhistas e 1 ação cautelar. Esta última tramitou sob o processo nº 0024493- 13.2014.5.24.0081, na Vara do Trabalho, em São Gabriel d’Oeste, distribuído em 30.09.2014, a fim de evitar que os 10 haitianos que residiam em um alojamento concedido pelas empregadoras fossem despejados, em razão da rescisão indireta.
A síntese fática da ação cautelar é: os migrantes foram trazidos pelo Sr. Rodrigo para São Gabriel do Oeste por contratação verbal com promessas de salários de R$ 800,00 a R$ 1.300,00; era fornecida comida (marmitas), moradia em um alojamento conhecido como Carandiru em Bandeirantes, aproximadamente 100 km de distância do local de trabalho na BR 163 (protocolo ID num. 8e02797, p. 2), em São Gabriel do Oeste.
O alojamento também está descrito e as condições de habitação se resumem em:
[...] dois cômodos de aproximadamente 4m² cada, onde 10 pessoas dividem 5 colchões, sendo 3 de solteiro e 2 de casal [...] há apenas 2 (dois) banheiros, sem atender a quantidade de pessoas que o usam, sem local adequado para os trabalhadores lavarem as mãos e escovar os dentes (Processo nº 0024493-13.2014.5.24.0081, protocolo ID num. 8e02797, p. 2).
A situação foi denunciada ao Ministério Público do Trabalho, por 8, dos 10 haitianos, e, deste grupo, apenas 1 falava/compreendia a língua portuguesa. O Procurador responsável pelo caso foi Cícero Rufino Pereira, que aclara, por meio de um informativo no jornal local, que os haitianos foram trazidos de Cuiabá (MT), onde estavam trabalhando em construções de obras da Copa do Mundo de Futebol; após a conclusão das obras em Mato Grosso, foram convidados a virem trabalhar em São Gabriel d’Oeste com promessas de salários de R$ 1.600,00, incluso moradia e alimentação (CAMPO GRANDE NEWS, 2014).
Não foi possível ter acesso aos atos administrativos realizados pelo MPT, as informações que constam afirmam que, após ato deliberado do Procurador, os haitianos foram encaminhados para um hotel em Campo Grande, contando com o apoio do Fórum de Trabalho Decente e lá permaneceram até a audiência das reclamações trabalhistas (CAMPO GRANDE NEWS, 2014). A ação cautelar foi arquivada em 13.10.2014, sem sentença reconhecendo o mérito do pedido em razão da atuação do MPT extrajudicialmente.
Paralelamente, o interregno temporal da distribuição da ação cautelar, em 30.09.2014, e o arquivamento, em 13.10.2014. Em 07.10.2014, foram protocoladas as 4 reclamações trabalhistas versando sobre: data da admissão, função, salários, jornada de trabalho e ambiente
12 BRASIL. PJe TRT 24. Disponível em: <https://pje.trt24.jus.br/primeirograu/login.seam>. Acesso em: 20 fev.
laboral. A causa de pedir e pedido foram: adicional de insalubridade, horas extras, intervalo intrajornada, descanso semanal suprimido, dispensa arbitrária e dano moral.
As empregadoras apresentaram defesa impugnando os pedidos da inicial, mas, nas audiências designadas para 15.10.2014, firmaram um acordo judicial e ajustaram o pagamento das verbas trabalhistas, rescisórias, custas, multas e tributos oriundos da relação contratual. Sendo que ficou estabelecido em todos os processos nas atas de audiências que “o pagamento será repassado ao trabalhador, por seus patronos, na sede do MPT, em Campo Grande-MS, até às 15 horas do dia 17.10.2014, em espécie”.
A situação em análise repercute na clara violação ao artigo 7º da CRFB/88 que diz:
Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
I - relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos;
II - seguro-desemprego, em caso de desemprego involuntário; III - fundo de garantia do tempo de serviço;
[...]
XXI - aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei; (BRASIL, 1988).
As condições impostas pelas empregadoras FBS e GLOBAL Construtora resultam concretamente na violação dos direitos mínimos previstos na legislação em vigor. O trabalho degradante vai muito além das condições sub-humanas de trabalho, são demonstrações fáticas de ausência de instalações sanitárias, alojamento inabitáveis ou em condições precárias. É a negação do direito ao trabalhador de moradia adequada, saúde e higiene (AIRES; MESQUITA, 2017).
O meio ambiente laboral degradante sujeita pessoas à humilhação e à exploração, diante de sua vulnerabilidade econômica e geográfica, como trabalhador(a) migrante, além da dificuldade com o idioma, tendo por finalidade a promoção do lucro perante a eminente necessidade de sobrevivência (MTE, 2011).
Nas tabelas da RAIS – anexo 2 –, não consta nos registros laborais de 2014 a contratação da mão de obra haitiana, muito pelo contrário, somente em 2016 (dados relativos ao ano de 2015), aparece 1 registro no sistema vinculando formalmente o trabalhador migrante à atividade de armazenamento.
A promoção do trabalho decente é um compromisso vinculado à OIT e ao antigo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que tem por intuito direcionar a atividade fiscal. No
caso de São Gabriel do Oeste, o membro do Ministério Público atuou como fiscal da lei, administrativamente, a fim de vindicar o mínimo aos trabalhadores migrantes.
Isso não significa dizer que o Empregador terá por responsabilidade suprir todas as necessidades subsistenciais dos empregados, mas assegurar-lhes o mínimo em consonância ao que lhe fora ofertado na contratação da mão de obra. Alocar 10 pessoas em 2 cômodos de 4m² é no mínimo a negação ao trabalhador há uma moradia decente.
Outrora, situação semelhante ocorreu na capital do estado, Campo Grande, e a via eletiva para cobrar os direitos dos trabalhadores foi a Ação Civil Coletiva que será analisada no capítulo seguinte.