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4. O PROCESSO CRIATIVO DOCENTE

4.1. P ROCESSOS DE C RIAÇÃO : NOS MEANDROS ENTRE A POÉTICA VISUAL E A DOCENTE

4.2.1. Processos Trilhados: as histórias e trajetórias do professor

O meu passado define-me juntamente com o meu presente e com o futuro que o passado permite esperar.

Ivor Goodson

Os estudos acerca das histórias pessoal e profissional dos professores têm ganhado força e significativa importância especificamente a partir da década de 80 e vem sendo cada vez mais trabalhada nas pesquisas que abordem o contexto e o cotidiano da prática educativa do docente nas escolas e universidades (NÓVOA, 1992).

A preocupação é compreender como o professor pensa e significa suas práticas a partir das trajetórias pessoais e profissionais, tendo em vista, uma profissão imbuída de valores e desejos, expectativas, angústias, de contínuo trabalho intelectual (que também implica em formação continuada) e, principalmente, de vínculos e relações humanas estabelecidas no contexto pessoal. As histórias de vida dos professores têm como objetivo reposicionar os docentes para o centro de discussões e debates em torno das problemáticas e singularidades de sua profissão, e por isso mesmo, ter o cuidado de não negligenciar os fatores do cotidiano e da vida escolar, a âmbitos meramente racionais e técnicos, reduzindo a profissão docente a um conjunto de “competências e capacidades”, e com isso, “realçando essencialmente a dimensão técnica da acção pedagógica” (NÓVOA, 1992, p.15).

Assim, a pessoa e o profissional do professor não se separam, posto que ambas estão articuladas e sujeitas às inúmeras transformações ao longo da vida. Somos uma pessoa e como tal, vivenciamos situações que direcionam frequentemente nossa forma de agir sobre o mundo (ABRAHAM, 1987). De acordo com a autora, algumas discussões sobre o ser pessoal e profissional do docente, podem ser refletidas através do conceito ou da metáfora do Labirinto. Na mitologia grega, este foi construído pelo arquiteto e escultor Dédalo para que o Minotauro – criatura com corpo de homem e cabeça de touro – permanecesse preso sem possibilidades de sair. Dédalo10 construiu o labirinto com tantos corredores e caminhos sinuosos, obscuros, traiçoeiros, que acabou ficando preso no próprio projeto. Desta forma, o Labirinto ilustra as dificuldades do docente para resolver situações conflitivas nas quais encontra no percurso como pessoa e profissional. A forma labiríntica acompanha o ser humano como símbolo de um caminho difícil de percorrer antes de chegar à meta final. Traduz a ansiedade ante o desconhecido e a necessidade de tomar decisões o tempo todo.

O labirinto representa, portanto, as marcas da vida e da profissão que são expressas nas diversas maneiras de ser do professor. Discute sobre a necessidade de ver nos medos, nas ânsias, na sensação de incompletude, situações extremamente fecundas, pois leva a pessoa a agir e a correr riscos. Seria uma metáfora com sentido dúbio: entre aquilo que buscamos e encontramos, e o que abandonamos; entre aquilo que temos certeza diante das incertezas; entre o

10 A palavra “dédalo” no dicionário significa: “Lugar de difícil acesso; labirinto”. LUFT, Celso Pedro.

próximo passo a ser dado, a próxima curva ou a opção pela inércia; entre aquilo que queremos, que desejamos ser e fazer e sua concretude.

Para isso, as histórias dos professores evocadas a partir das memórias e lembranças sobre diferentes aspectos da vida pessoal na infância e profissional, propiciaram que os mesmos reconhecessem a importância de suas passagens, de suas experiências e conquistas, pois são pessoas e como tais, produzem conhecimentos e trajetórias vividas e ainda por devir, pessoas que sentem, que se alegram e sofrem, que pensam e questionam.

mas o que eu estava pensando é simplesmente que os professores, ao serem reflexivos, saem do aprisionamento de um conhecimento formal particular no qual foram treinados e passam a ter um sentido mais geral de si como pessoas: o professor como pessoa é, no mínimo, tão importante quanto o professor como especialista. Ao olharem para si mesmos como pessoas que vivem experiências, eles se tornam mais felizes e melhores professores porque estarão mais sensíveis à maneira como os estudantes estão experienciando o mundo. Isto os coloca de volta em contato com eles mesmos e , ao assim fazerem, se colocam em contato com os alunos de uma forma melhor. Este seria meu argumento acerca do trabalho de reflexão sobre histórias de vida. (MARTINS; TOURINHO: GOODSON, 2007, p.59).

Na tentativa de aprender uns com as experiências dos outros, cada história partilhada traz um leque de contextos, sentidos, valores, dúvidas e incertezas, através dos fatos que foram lembrados,

na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, ‘tal como foi’, e que se daria no inconsciente de cada sujeito (BOSI, 1994, p.55).

As lembranças do passado são reconstruções de histórias vividas e por isso mesmo, importante para se analisar até que ponto lembramos de momentos e esquecemos de outros. Contudo, rememorar constitui-se numa ação comprometida com as experiências que construímos e nosso olhar e interpretação sobre as mesmas, direcionam ou influenciam significativamente os rumos e trajetórias que construímos ao longo da vida, “rememorar é partir de indagações presentes, para trazer o passado vivido como opção de busca atenciosa, em relação aos rumos a serem construídos no presente e no futuro”. (GALZERANI, 2004, p.295)

Nesse ato de evocar memórias e ressignificá-las, o professor pode pensar em meios e modos de refletir e agir sobre aspectos de suas histórias que nunca havia notado ou percebido antes. Propicia também que um distanciamento sobre suas próprias experiências seja tomado, e assim, analisado sob outro prisma, outro olhar. O pensamento e o devaneio contribuem que fronteiras ou labirintos (desafios, conquistas, possibilidades) antes nunca ou pouco atravessados (por medo ou desconhecimento), sejam enfim, visualizadas, atravessadas ou desejadas,

A medida que eles pensam mais sobre sua história de vida, eles saem desse lugar ao qual estiveram presos e se dão conta das fronteiras que gostariam de atravessar e, ao assim fazer, refletem sobre os tipos de cruzamentos de fronteiras que os estudantes estão atravessando. (MARTINS; TOURINHO; GOODSON, 2007,p.59).

Através das experiências desses profissionais, que não se constitui ou se define apenas nas experiências construídas por longos anos de docência em instituições formais ou informais, mas também, as suas histórias pessoais e a formação e saberes que construíram e vem construindo ao longo da vida, o professor permite que metodologias trabalhadas em sala de aula, estejam relacionadas pelo que confere sentidos à profissão docente e também como reflete e valoriza-se neste contexto.

Sendo assim, pensar a prática pedagógica do professor, levando em consideração sua bagagem e trajetória, significa articular distintos saberes e desafios que engendram o trabalho e a profissão do professor em realidades tão específicas e paradoxais do seu contexto de trabalho. Somado a isso, implica refletir as condições de trabalho e a imersão do profissional no mundo contemporâneo em que vivemos. E nesse processo, abarcaria a formação continuada e a postura crítica e investigativa do professor, já que “a sobrevivência de certos profissionais e até a de sua profissão estão profundamente vinculadas à possibilidade de uma formação contínua” (GARRIDO; PIMENTA; MOURA, 2000, p.89). E essa formação contínua implicaria numa postura distinta e diferenciada que o docente toma diante de seu trabalho como educador.

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