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Procriação Medicamente Assistida Post Mortem

7. Aspetos éticos

7.2. Procriação Medicamente Assistida Post Mortem

mais anos de idade; podem também obter informação de eventual existência de impedimento legal a casamento futuro.

Podíamos também discutir outros temas importantes ao nível bioético como a gestação de substituição, o diagnóstico genético pré-implantação, o turismo de procriação medicamente assistida, o destino do embriões e gâmetas crio preservados ou mesmo o uso destes para investigação científica, mas isso seria alargar em muito o âmbito desta tese que se foca essencialmente na PMAPM.

É essencial estarmos conscientes do quanto é relevante a existência de órgãos como CNECV ou mesmo do Comité Ético da ESHRE. Algumas dessas razões aparecem enumeradas, por exemplo, no Parecer 87/CNECV/2016 “(...) As principais razões que os determinaram estão hoje presentes de maneira reforçada: o contínuo desenvolvimento e aperfeiçoamento das técnicas; o aumento da taxa de infertilidade/esterilidade sugerido pelo indicador indireto do aumento da idade média da mãe ao ter um filho; a complexidade das questões éticas suscitadas; a insuficiência e imperfeições da atual legislação.”

não pode ser um prémio ou substituto da pessoa que faleceu por isso é aconselhável que estas situações só possam ser realizadas pelo esposo sobrevivente em acompanhamento psicológico e não por outros elementos da família do falecido como, por exemplo, os pais (Ethics et al., 2006).

A ESHRE não discrimina o género do cônjuge falecido havendo a possibilidade de o pedido partir do cônjuge sobrevivente sendo este homem ou mulher. Apenas refere que no caso da PMAPM ser requisitada pelo marido da falecida, a situação ser mais delicada porque é necessário recorrer a uma gestação de substituição o que pode trazer danos psicológicos para a criança nascida. Acredita-se ainda que a morte de uma mãe cause mais danos para a criança que a morte do pai (Ethics et al., 2006).

7.2.1. Questões éticas levantadas pela Lei n.º 72/2021, de 12 de novembro (alteração da Lei n.º 32/2006)

A Lei portuguesa consigna apenas a possibilidade de a esposa utilizar o esperma do marido falecido ou embriões congelados.

Esta é uma clara situação de desigualdade de circunstâncias, de violação do princípio de justiça. O marido deve ter o direito de realizar o projeto parental consentido que eventualmente terá iniciado com a esposa. É certo que estas situações são raras e não tão bem aceites quer ao nível social quer ao nível pessoal. Sabe-se que a maioria dos casais aprova a colheita de gâmetas (72-85%) sendo mais comum os homens (85%) permitirem esta técnica do que as mulheres (72%) (Nakhuda et al., 2011). A verdade é que ao alargarmos o âmbito da PMAPM a cônjuges sobreviventes masculinos teríamos de alterar dois artigos da Lei n.º 32/2006, a da procriação póstuma e da gestação de substituição já que esta última apenas se aplica a casos de ausência de útero, de lesão ou de doença deste órgão ou outra situação clínica que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez da mulher.

Em Portugal, todavia, a Lei n. º 9/2010 veio permitir o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo como disposto:

“A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da

Artigo 2º

Alterações ao regime do casamento

Os artigos 1577.º, 1591.º e 1690.º do Código Civil passam a ter a seguinte redação:

«Artigo 1577.º [...]

Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.”

Devendo-se acrescentar que esta mesma lei veio a ser alterada pela Lei n. º 2/2016, de 29 de fevereiro:

“Artigo n.º 3

Alteração à Lei n.º 9/2010, de 31 de maio

Os artigos 3.º e 5.º da Lei n.º 9/2010, de 31 de maio, que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, passam a ter a seguinte redação:

Artigo 3.º (...)

1 - O regime introduzido pela presente lei implica a admissibilidade legal de adoção, em qualquer das suas modalidades, por pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo.

(...)

Todas as disposições legais relativas ao casamento, adoção, apadrinhamento civil e outras relações jurídicas familiares devem ser interpretadas à luz da presente lei, independentemente do sexo dos cônjuges.”

Se a Lei portuguesa permite o casamento e adoção por casais do mesmo sexo, voltamos a um tema já discutido anteriormente que é o de alargar o âmbito da PMA a casais homossexuais masculinos e alargar também o âmbito da PMAPM a casais de homossexuais masculinos e femininos. Se o casamento ou união de facto quer homossexual quer heterossexual são considerados legais, o porquê de apenas um tipo de projeto parental ser consentido?

A Lei respeitante à PMAPM, neste momento parece não respeitar todos os princípios éticos como o são:

- Princípio da Autonomia: na impossibilidade de outorgar o direito universal de reprodução;

- Princípio de Beneficência e Não Maleficência: na impossibilidade de ver-se cumpridos os últimos desejos de futuros pais. E ainda se há possibilidade de adoção de crianças por casais do mesmo sexo é porque o bem-estar destas (principalmente, o psicológico) não está ameaçado como é mencionado em numerosos artigos referentes ao impacto de se ser criado numa família que não a heteronormativa; por este motivo é defensável aplicar-se o mesmo conceito a crianças nascidas de projetos parentais conaplicar-sentidos de casais homossexuais;

- Princípio de Justiça: discriminação de um indivíduo baseado quer no sexo quer na sua orientação sexual.

Por conseguinte, e sem prejuízo de uma análise mais aturada que as limitações desta tese não permitem, deverão ser ponderadas três alterações da Lei n.º 32/2006:

A - Alteração do artigo n.º 6 que concerne os beneficiários de técnicas de PMA, podendo recorrer a estas casais de sexo diferente ou os casais de mulheres e homens, casados ou que vivem em condições análogas às dos cônjuges, bem como todas as mulheres e homens independentemente do estado civil e da respetiva orientação sexual;

B - Alteração do artigo n.º 8 que concerne a gestação de substituição, em que a celebração de negócios jurídicos de gestação de substituição só é admissível a título excecional e com natureza gratuita, nos casos de casais homossexuais masculinos ou em casais heterossexuais com situações clínicas de ausência de útero, de lesão ou de doença deste órgão ou outra situação clínica que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez da mulher como o é o eventual falecimento desta.

C - Alteração do artigo n.º 22 que concerne a inseminação post mortem, de forma a concretizar um projeto parental claramente estabelecido e consentido, e decorrido o prazo considerado ajustado à adequada ponderação da decisão, é lícito, após a morte do cônjuge ou do unido de facto:

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