no Desenvolvimento Comunitário
Mapa 3 – Identifi cação da mancha fl orestal do parque Natural Obô na ilha de São Tomé
1.2.3. Procurando compreender os impactos do turismo
A implicação das ONGs santomenses no turismo é um fenómeno recente, e torna- se difícil avaliar os impactos das actividades por eles operadas. De facto, ao longo do tempo, as ONGs previram poucos mecanismos de seguimento e avaliação dos impactos, tanto ambientais como sócio-económicos, das actividades turísticas. No entanto, existem alguns dados de frequência e indicações por parte dos promotores, embora subjectivas, que nos permitem deduzir impactos destas actividades.
Segundo os relatórios da MARAPA, o projecto Jalé Ecolodge teve impactos econó- micos directos signifi cativos na economia local das comunidades vizinhas, sendo 80% das despesas do acampamento realizadas localmente. Os efeitos positivos deste input na loca- lidade, embora difi cilmente quantifi cáveis, são reais e tem contribuído certamente para a melhoria das condições de vida dos funcionários e dos prestadores de serviço do acam- pamento. Em relação aos fundos benefi ciários dos lucros do projecto, a MARAPA apurou que, com um volume de negócios com cerca de 15.000€ anuais, o projecto apenas geriu, entre 2005 e 2007, um total de 1.400€ a favor do Fundo de Autonomização do Programa de Protecção das Tartarugas Marinhas, representando 5% do custo total do programa para uma temporada em São Tomé e Príncipe. Um montante equivalente foi gerido a favor do Fundo de Apoio aos Projectos Sociais em Porto Alegre. Este foi usado pela comunidade em algumas ocasiões, mas os problemas de organização da Associação benefi ciária (Associação Iogô) impediram o uso deste fundo, até hoje. A partir de 2007 em diante, o acampamento deixou de gerir lucros e não participou no aprovisionamento destes fundos. Na Casa Tatô, os dados disponíveis de frequência não permitem apreciar o impacto económico das visitas na localidade. No entanto, a existência do centro têm evidenciado bons resultados de sensibilização da população sobre a protecção destas espécies, numa zona do litoral bastante procurada pelos caçadores de tartarugas. Utilizado pela ONG MARAPA como centro logístico nas suas campanhas de sensibilização da população, a Casa Tatô é hoje
reconhecida a nível nacional como uma ferramenta importante no processo de mudança dos comportamentos.
Os relatórios do projecto da Associação Monte Pico no Jardim Botânico de Bom Sucesso mostram que o Jardim é sem dúvida um dos maiores atractivos turísticos da ilha. Em 2007, recebeu um total de 1.266 visitantes que deixaram aproximadamente 700€ de doação, sendo que, até ao presente, a doação voluntária e as vendas na loja são as únicas fontes de receita do Jardim. Em 2008, até ao mês de Agosto, o Jardim tinha recebido 1.279 visitantes e arrecadado um total de 1.200€ em doações. Infelizmente, este resultado encorajador é ainda muito insufi ciente, pois o orçamento anual está avaliado em 35.000€. Apesar dos fracos resultados económicos, a actuação da Associação Monte Pico no Jardim teve um impacto muito positivo, por ter permitido manter este espaço de interpretação em boas condições de conservação até a sua recuperação pela Direcção do Parque Natural Obô.
No que respeita à Natcultura e à Associação RoçaMundo, não foi possível proceder a uma avaliação, visto que a Natcultura não dispõe de dados actualizados sobre os resul- tados da sua actividade turística. Segundo Nora Rizzo, a escola têm apoiado muitos alunos a encontrar emprego em empresas que reconheceram as suas capacidades técnicas. Em relação à Associação RoçaMundo, não tivemos acesso a dados relativos aos impactos dos projectos. Intimamente ligados aos resultados da iniciativa privada da Roça de São João, os resultados da Associação não foram ainda divulgados ou avaliados.
Apesar das crises e das difi culdades conjunturais enfrentadas pelo sector nos últimos dez anos, podemos dizer que o desenvolvimento do turismo em São Tomé e Príncipe entrou em fase de consolidação. Nos últimos anos tem-se observado uma proliferação de pequenos hotéis na cidade e de agências prestadoras de serviços diversos. Mas apesar de alguns exemplos isolados, as empresas de iniciativa privada ainda não se mostraram comprometidas com os aspectos ambientais e sociais da sua actividade. Por outro lado, apesar de terem identifi cado o turismo como um eixo estratégico de desenvolvimento, as autoridades santomenses apenas têm acompanhado de longe este crescimento, bem como as iniciativas implementadas a nível nacional. A instabilidade política conjugada com o bloqueio da indústria aérea, fez com que poucas discussões nos últimos anos realmente dessem lugar à implementação de acções concretas.
Preocupadas com os objectivos de preservação do património natural e cultural e de desenvolvimento local, algumas ONGs souberam aproveitar, nos anos 1990 e 2000, opor- tunidades interessantes junto de entidades de cooperação internacional para se lançar na aventura do turismo sustentável. Inicialmente voltados para a capacitação dos seus técnicos e dos actores locais, os projectos rapidamente evoluíram em serviços completos destinadas a gerir receitas complementares para as ONGs. Reforçadas por algumas expe- riências bem sucedidas, começaram a participar e mesmo a provocar debates na socie- dade civil sobre o desenvolvimento do sector, e sobre o papel dos diferentes actores na procura de formas mais sustentáveis de actuação. Mas os resultados são ainda limitados e o sector do turismo não revelou todo o seu potencial a favor das acções de conservação e
de desenvolvimento das ONGs nacionais.
Basicamente, podemos considerar dois posicionamentos para as ONGs neste sector: Como operadores turísticos, organizam e vendem os seus próprios serviços. Neste caso, algumas ONGs têm acordos com revendedores locais, agências receptoras ou outros operadores, conseguindo alcançar volumes de negócios consequentes. Mas de forma geral, a importância destes produtos no mercado turístico nacional é mínima e os lucros muito insufi cientes em comparação com os produtos dos operadores privados. De facto, muito existe para ser feito com o objectivo de diversifi car a oferta das ONGs e melhorar a integração das suas iniciativas nos pacotes oferecidos e vendidos no exterior.
Como actores do desenvolvimento do turismo, as ONGs encontram-se no início de um caminho ainda longo na busca da sustentabilidade. De facto, ainda não se posicio- naram de maneira efi ciente, ou mesmo sufi ciente sobre estas temáticas, nomeadamente no que respeita à protecção e à valorização do património turístico das ilhas, à sensibilização sobre as práticas responsáveis de turismo, à medição e avaliação dos impactos da activi- dade, à certifi cação do turismo, etc.
De qualquer forma, o trabalho obtido nos últimos anos por estas entidades é louvável e permitiu criar laços contínuos tanto com os actores institucionais como com os grupos comunitários. Embora de forma desigual, as ONGs têm dado um grande contributo para o desenvolvimento do turismo no país, sendo cada vez mais os exemplos a seguir por outros grupos. As suas acções ecoam no espaço e no tempo, fazendo-nos acreditar que, por certo, estão no bom caminho.