Pode-se dizer que o conceito de quilombo permaneceu, durante pouco mais de um século após a abolição da escravatura no Brasil, baseado em compreensões frigorificadas, cuja origem remonta aos períodos da colônia e do império. Essas compreensões, cujos resquícios vêm sendo até hoje confrontados por acadêmicos e militantes da causa quilombola, se ancoram em pré-noções baseadas nas ideias de isolamento e fuga, bem como em dualismos que opõem, dentre outros, casa-grande e matas afastadas, as noções de dentro e fora e de trabalho e vadiagem, ao se pensar em quilombos (ALMEIDA, 2002). Entretanto, conforme demonstra Alfredo Wagner Berno de Almeida (2002), essas pré-noções não se confirmam em análises de documentos históricos que, pelo contrário, mostram-nos a complexidade de situações que envolveram e envolvem a formação e as formas de ocupação territorial e de produção das comunidades quilombolas no Brasil.
Almeida (2002) evidencia as diversas situações em que o termo quilombo ultrapassa e rompe com essas noções limitadas e frigorificadas. No que consiste a formação dos quilombos, o autor analisa como os diferentes contextos em que essas comunidades se inserem permitiram com que elas se formassem dos mais variados modos, como por exemplo: por meio da compra de terras por escravos alforriados, cujos herdeiros ainda têm dificuldades para a formalização dos documentos, por diferentes razões, como a falta de organização ou incêndios nos cartórios; por meio de doações de terras por parte dos donos das fazendas na ajuda de captura de outros escravos; pelos escravos terem sido capturados e terem retornado às fazendas e na medida com que estas entraram em decadência, permaneceram no local com as suas roças; por terem pagado a hipoteca das dívidas dos proprietários na promessa de ficarem com as terras, etc.
Segundo o site do Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva - CEDEFES,
grande parte das comunidades quilombolas do estado de Minas Gerais se formou após o decreto de abolição da escravatura em 1888, momento no qual não havia perspectivas
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de emprego e de integração à sociedade nacional para os negros18. Não tendo onde se
estabelecer, muitas famílias acabaram migrando para os grotões, as terras desabitadas ou para as margens das fazendas, algumas poucas receberam terras como doação dos antigos senhores e outras conseguiram comprar pequenas terras nas fazendas onde
trabalhavam. De acordo com informações do site, algumas comunidades também
emergiram devido às frentes de trabalho, como a construção da ferrovia Bahia-Minas, ou, como é o caso da comunidade Paraguai, em Felisburgo-MG, por terem lutado na guerra do Paraguai e ganhado alforria. Além disso, outras comunidades se organizaram por meio da falência de atividades econômicas onde se dispunha de mão de obra escravizada, como é o caso das áreas de mineração na região central e de criação de gado no Norte de Minas.
No que consiste essa última situação, principalmente em relação falência de atividades monocultoras, Almeida (2002; 2008) menciona que o processo de fragmentação e desagregação das grandes fazendas, cujas culturas se desmantelavam devido às baixas de preço e concorrência no mercado internacional, gerou várias situações de acamponesamento por parte de indígenas, escravos e ex-escravos que ali se encontravam. Segundo o autor, essas modalidades de apropriação da terra emergiram em um momento de transição, no qual o poderio do latifúndio sobre essas populações ficou enfraquecido e debilitado. Esses sistemas de apossamento se disseminaram e se consolidaram no país das mais variadas formas, de acordo com as condições específicas desses grupos, o que explica os casos de existência autônoma nos limites das fazendas, no quintal e na própria senzala (ALMEIDA, 2002; 2008).
Contudo, segundo Almeida (2002), entre 1824, com o fim do instituto da sesmaria, até 1850, com a Lei de Terras, não houve um dispositivo legal para se resolver as questões agrárias e muitas sesmarias não foram confirmadas. Além disso, tais situações emergidas dessas formas de desagregação e desmembramentos não foram reconhecidas de forma plena na Lei de Terras de 1850, persistindo como “foco de tensão social”. Em contrapartida, com o não reconhecimento formal dessas posses, diversos imóveis foram recadastrados com registros em cartórios e essas áreas foram “devolvidas” e novamente reconhecidas e tituladas, compreendendo em seus domínios
18 Centro de Documentação Eloy Ferreira – CEDEFES. Disponível em:
http://www.cedefes.org.br/index.php?p=colunistas_detalhe&id_pro=2. Consultado em: 24/10/2014.
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várias situações de ocupação efetiva que foram menosprezadas (ALMEIDA, 2002). Segundo Almeida (2002),
Um quadro de tensões instalou-se de maneira permanente. Esse problema não foi resolvido nem pela abolição da escravatura, 38 anos depois, nem pela primeira Constituição republicana de 1891, persistindo como um móvel de antagonismos sociais e conflitos agudos (ALMEIDA, 2002, p.57).
No que consiste o município de Pompéu-MG, foi informado por um quilombola durante uma entrevista que as fazendas da região praticamente não foram compradas, mas se constituíram a partir da herança das terras de Dona Joaquina. No que diz respeito à constituição da comunidade quilombola de Saco Barreiro, o pouco tempo passado em campo não me permite afirmar exatamente qual ou quais foram os processos que possibilitaram a formação desse grupo. Atualmente, os quilombolas que ainda moram na comunidade, se situam em maioria em uma pequena área, à beira do córrego Pari, onde se concentram um maior número de casas. Outros moradores, entretanto, habitam de forma mais dispersa ao longo do território, inseridos em áreas de fazendas nas quais a maioria trabalhou e/ou trabalha.
De acordo com Mauro, um dos quilombolas com quem conversei, a família
Almeida, que deu origem à comunidade de Saco Barreiro, surgiu no quilombo da
Vereda, que se localizava perto do córrego Curralinho, conforme veremos adiante em um mapa realizado pelos moradores. As histórias em relação ao quilombo da Vereda e à sua formação não ficaram claras, o que não me permite afirmar o contexto de ocupação
da família Almeida na área mencionada, se por meio de fuga, doação19, compra ou
apossamento. Contudo, a partir das histórias que me foram contadas, podemos perceber
que em boa parte da memória da comunidade, a figura do fazendeiro e seus domínios se
faz presente, o nos indica a possibilidade do grupo ter se constituído ao longo do tempo dentro dos domínios dessas fazendas, antigamente pertencidas à Dona Joaquina de Pompéu.
De acordo com o romance de Guimarães (1985) mencionado anteriormente, teriam sido ordens de Joaquina que os escravos se estabelecessem em ranchos
19 Segundo Alexandre Coelho (2013), o bisavô de Wilton teria sido escravo de Dona Joaquina e trabalhava ordenhando vacas e fazendo roças. De acordo com ele, os quilombolas teriam recebido de um fazendeiro chamado Bolivar, possível herdeiro da matriarca, as terras já ocupadas por eles anteriormente, porém não possuíam documentos.
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espalhados às margens dos córregos ou na orla das matas e dos cerrados, cada rancho com seu terreno, nos quais os escravos plantavam suas roças. Apesar da visão romantizada que o livro apresenta sobre a imagem da matriarca, algumas dessas descrições podem nos apresentar indícios sobre alguns dos processos de ocupação da área pelos escravos e seus descendentes, principalmente ao se levar em consideração o estabelecimento da família Almeida às margens do córrego Curralinho e, posteriormente, do Pari, após diferentes processos de expropriação vivenciados pelo grupo.