CAPÍTULO 2: ESTUDO DO PROCESSO EXPERIMENTAL “II ENCONTRO
2.6 PROCURANDO O “ESTADO DE PALHAÇO”
Este processo específico realizado no segundo dia foi direcionado principalmente ao trabalho com exercícios bioenergéticos, exaustão e uso do nariz vermelho como instrumentos que tentariam facilitar um estado ampliado de consciência psíquico-corporal.
Esta dita condição de ampliação de consciência, como já foi mencionado no primeiro capítulo, foi intitulada no contexto da oficina como “estado de presença” ou “estado orgânico” do palhaço. Aqui, os exercícios bioenergéticos, a exaustão e o uso do nariz
49 Por exemplo, Nelson Antônio descreveu as cinco “dimensões de si mesmo” assim: “O Professor: filósofo, gozador, irônico; o Feirante: malandro do bem, que rouba dos ricos pra dar pros pobres; o Namorador: tem muitas namoradas e vive para isso; o Hacker Zen: que quer preservar a vida humana; o Dr. Cinema: trabalha muito fazendo filmes”.
vermelho foram utilizados como ferramentas, com o objetivo de promover e gerar este “estado”. A prática destas atividades integrou momentos nos quais os participantes foram incentivados a perceber seus próprios limites em relação às sensações corporais agradáveis e desagradáveis, e também foram encorajados a expressar o próprio prazer ou desconforto que os exercícios provocavam.
Para isto, tanto no exercício básico de aterramento como no exercício bioenergético que consiste em formar um arco com as costas (mantendo respiração abdominal enquanto a cabeça e queixo apontam para frente), a orientação dada foi a de permitir que acontecessem as vibrações geradas pela postura, e tentar expressá-las através de sons que também permitissem vibrar o corpo e as cordas vocais. A sugestão consistiu em manter o exercício (sem se machucar), mesmo se este gerasse reações involuntárias causadas pelas tensões incômodas ou pela angústia produzida pela posição dolorosa.
Sobre este assunto, Lowen (1982) propõe uma condição natural do organismo para se direcionar em procura do prazer:
A meta essencial da vida é o prazer e nunca a dor. Esta é uma orientação biológica porque, a nível corporal, o prazer proporciona o bem-estar do organismo, e a própria vida. Como sabemos, a dor é vivida como ameaça à integridade do organismo e então nos abrimos e saímos em busca de algo, espontaneamente, cuja natureza é o prazer. (LOWEN, 1982, p.118)
O interesse central do procedimento com exercícios bioenergéticos, explorando caminhos para o “estado de presença”, baseia-se na ampliação da capacidade de expressão dos sentimentos associados tanto ao prazeroso como ao desagradável. Segundo a Bioenergética, nossa personalidade se funda no fato de que como somos seres biológicos, tendemos a procurar prazer e evitar a dor. Para Lowen (1984, p.61), a dor faz com que a pessoa fique consciente do seu corpo por certo tempo; entretanto, tão logo a dor seja esquecida, o prazer do seu alívio desaparece.
Considero que o intuito de ampliar a capacidade de sentir e expressar o próprio prazer ou mal- estar constitui uma característica comum entre os objetivos da Psicoterapia Bioenergética e os objetivos desta proposta de palhaço bioenergético, com relação ao “estado”. Baseio-me na ideia colocada por Lowen (1984) de que, com as pressões do ego, no sentido de alcançarmos
sucesso e status rapidamente, perdemos consciência de nossos corpos, reduzindo sua mobilidade e espontaneidade. A este respeito, ao falar da terapia, manifesta que:
A rigidez física e caracterológica resultante de tensões musculares crônicas se desenvolve a partir da necessidade de suprimir sensações dolorosas. Obviamente ninguém pretende suprimir sensações agradáveis. Quando as tensões musculares crônicas são liberadas durante a terapia bioenergética, deve-se esperar que lembranças e sensações dolorosas venham à consciência. A capacidade de cada paciente para aceitar e tolerar essas sensações dolorosas determinará sua capacidade para vivenciar o prazer. O dito popular “não existe prazer sem dor” passa assim a significar que a capacidade de vivenciar o prazer está relacionada com a capacidade de sentir dor em situações de perturbação (LOWEN, 1984, p.62).
O autor aponta que a repressão de sensações também é produzida por tensões musculares crônicas que restringem e limitam a mobilidade do corpo. Por este motivo a aplicação de exercícios bioenergéticos neste contexto artístico pretende liberar tensões musculares; é de se esperar que sejam tornadas conscientes lembranças e sensações tanto prazerosas como dolorosas. A diferença com a terapia reside em que na oficina de palhaço não são analisadas essas lembranças ou sensações; elas são incentivadas a encontrar formas corporais criativas de serem expressas.
Fazendo referência às sensações percebidas no segundo dia de trabalho, um dos participantes assinalou:
São exercícios simples que tem um grau de intensidade muito grande, então são força e flexibilidade que eu senti. Nessa questão da dor, que chegava a uma exaustão, um prazer; isso elevou muito a questão com minha conexão com o cosmo, um processo que com certeza dilata, é uma dilatação corporal e de alma. (LOPES, 2011, p.2)
No trabalho de exaustão corporal, constituído por movimentos e deslocamentos intensos, a aplicação da recomendação de expressar o prazer e a dor foi integrada à sugestão de explorar ao máximo a capacidade de extravasar energia e sentimento. Aqui foram utilizados movimentos corporais sem interrupções durante um tempo considerável, para atingir um “estado de presença” energética diferente da habitual. A colocação (e uso subsequente) do nariz foi utilizada como elemento que identifica e facilita uma condição corporal expressiva inerente ao estado alterado de consciência, que, na oficina, foi chamado também de “estado de graça”50
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50 Termo utilizado para significar um estado de ser e não uma forma de “se fazer o engraçado”. Tomado das oficinas realizadas com Alexandre Luis Casali.
Tomando como referência os trabalhos desenvolvidos com o grupo Seres de Luz e com Alexandre Casali, essa sequência pretendeu chegar à etapa de colocação do nariz como um momento crucial e intenso, tomando o uso do nariz como símbolo do “nascimento” de uma nova forma de ser, estar e perceber o mundo.
Teve um momento que foi tão forte pra mim, no momento de colocar o nariz de palhaço, meu coração pulsava no nariz! Isso pra mim foi um negocio tão mágico, tão incrível, de, nossa, eu consegui deslocar o meu coração pra ponta do meu nariz! E acho que isso só poderia mesmo ter acontecido pelo processo bioenergético, pela própria proposta que foi colocada (LOPES, 2011, p.3).
Desenvolvendo um pouco mais o conceito de “estado de presença”, Ricardo Puccetti (2009, p.122), ao falar da sua metodologia de treinamento energético, comenta que a dilatação da presença física, que mais tarde será a “presença cênica”, é o produto do desenvolvimento de uma maneira própria de liberar impulsos físicos e de se manter num estado de prontidão e concentração que conecta a pessoa interna e externamente. Sobre isso, ele comenta:
A partir do momento em que esse “estado de presença” se torna mais palpável para os aprendizes, entramos no universo do palhaço propriamente dito e passamos a experimentar o “estado de palhaço”. [É] um estado de afetividade, de vulnerabilidade, é levar ao extremo a conexão consigo mesmo, é o “saber se ouvir”. É tão importante quanto o saber estabelecer a relação com o “fora”, com o elemento externo: o parceiro, os objetos de cena, as pessoas do público (PUCCETTI, 2009, p.123).
Tais afetividade e vulnerabilidade somadas à ideia de “levar ao extremo a conexão consigo mesmo” e a capacidade de “escuta interna”, são aspectos que, segundo Puccetti (2009), caracterizam esse “estado de palhaço”. Nesse sentido, pode-se estabelecer um paralelo entre estas características e algumas condições psíquico-corporais provocadas pelas propostas de exercícios bioenergéticos tanto dentro como fora da terapia.
A este respeito, um dos participantes manifestou suas percepções sobre o trabalho realizado: É algo muito profundo, você está em graça com você mesmo e com os outros, com o mundo, você está ali pra se dar, e pra receber de forma alegre, de forma prazerosa. Você está sentindo aquele prazer de se dar e de receber energia, está ali aberto pra tudo. Digamos, aquilo das vibrações, consegui compreender várias coisas, coisas espirituais, emocionais, em meu corpo, que facilitam justamente na arte do palhaço. Eu acredito, me facilitou muito a arte do palhaço, a chegar no estado de graça, os exercícios, o alongamento, os exercícios bioenergéticos, os exercícios de palhaço. Pra mim foi tudo uma coisa só. (BARBOSA, 2011, p.1)
A intenção dos exercícios corporais e de imaginação, somada à utilização do nariz vermelho, foi a de entrar em sintonia com o que Juliana Leal Dorneles (2009) chama de estado de “bobagem criativa”. No pensamento desta pesquisadora,
[...] o artista que acessava este estado na iniciação poderia acessá-lo mais facilmente no decorrer do processo (caso resolvesse seguir a carreira de palhaço) e poderia inclusive ser tomado cotidianamente por esse estado de produção da bobagem, passando a vivê-lo como hábito na própria vida (DORNELES, 2009, p.25).
Apesar das limitações físicas de uma participante e da heterogeneidade do grupo, percebi que se estabeleceu um bom nível de integração e entrega ao processo. O nível de envolvimento ou sintonia com esta proposta foi diferente para cada um dos participantes, é claro. Para alguns, era a primeira vez que trabalhavam de forma tão intensa, enquanto que outros já tinham alguma experiência em trabalhos corporais e de teatro. Ainda assim, de forma geral, considero que a sequência de colocação do nariz a partir dos exercícios bioenergéticos e a exaustão foram fundamentais para uma aproximação ao “estado de bobagem criativa”; e que este serviria de experiência basilar para continuar com a construção da proposta nos próximos encontros; e, por que não, para adotá-lo na vida cotidiana.