CAPÍTULO 3 EXPERIMENTO I
1. INTRODUÇÃO
4.1. Produção de leite e comportamento de pastoreio
O tempo necessário para se ter alterações na produção de leite das vacas pode ser maior do que o tempo que elas ficaram expostas aos tratamentos (seis dias em cada ocupação) e por isso não houve diferença na produção de leite entre tratamentos. A redução da produção em abril e junho ocorreu devido a alteração na composição florística da pastagem.
Uma hipótese que explicaria a tendência das vacas do tratamento carga alta a pastar por mais tempo resultado é a diferença na estrutura e perdas da pastagem. Segundo os resultados de Geith, citado por Voisin (1974), devido à desfolhação progressiva o consumo de pasto em uma única ocupação garante uma dieta com maior quantidade de proteínas digestíveis do que as duas ultimas etapas de três ocupações. Consequentemente, a pastagem tem maior digestibilidade na primeira etapa que nas duas seguintes. O pisoteio e a contaminação com bosta e urina também são responsáveis pela perda de forragem durante o período de ocupação. A diferença do comportamento de pastoreio entre tratamentos ocorreu provavelmente por causa da diferença na estrutura e perdas da pastagem.
As condições estruturais da pastagem variaram em função do tempo de ocupação do piquete. A ocupação de cada piquete durou um dia e meio, ou seja, manhã/tarde/manhã, ou tarde/manhã/tarde. O tratamento baixa carga ficou na mesma pastagem durante as três etapas e o alta carga ficou em pastagem ainda não consumida em cada uma das três etapas. As vacas do tratamento alta carga possivelmente tiveram a sua disposição pastagem com melhor digestibilidade em todas as três etapas de ocupação, enquanto as vacas do tratamento baixa carga só tiveram pasto de qualidade
semelhante ao outro tratamento na primeira etapa de ocupação. Nas duas etapas seguintes é possível que a pastagem das vacas do tratamento baixa carga era estivesse mais contaminada com bosta e urina, mais pisoteada e com menor digestibilidade.
Quando as vacas de ambos tratamentos chegavam da ordenha estavam motivadas a pastar para suprir suas necessidades de consumo de alimento (Fraser e Broom, 1991), por isso não houve diferença entre os tratamentos no primeiro período de pastoreio (duas primeiras horas). No segundo período (3ª e 4ª horas), as vacas do tratamento alta carga ainda tiveram essa motivação, já para as vacas do tratamento baixa carga a alteração na qualidade da dieta determinou menor motivação e, devido a isso, menor tempo de pastoreio. Os resultados sugerem que o uso de altas cargas instantâneas por curto tempo de ocupação pode contribuir para aumentar o tempo de pastoreio.
As vacas, quando têm menor disponibilidade de alimento e de área, como quando estão em altas cargas instantâneas, tendem a otimizar o pastoreio aumentando o tempo de pastoreio (Popp et al., 1997b). A otimização do pastoreio pode ocorrer em função de fatores relativos ao estado fisiológico do animal, ao meio social, às características da pastagem e ao ambiente. No nosso trabalho as vacas observadas estava m em estado fisiológico semelhante, a composição florística da pastagem não foi diferente entre os dois tratamentos. Uma outra hipótese para a variação das atividades de pastoreio pode ter sido devido ao ambiente (fotoperíodo, temperatura e clima) e meio social, principalmente.
A otimização do pastoreio, no tratamento alta carga, deve ter ocorrido devido à competição por alimento, que é característico em animais que desenvolvem as atividades de forma sincronizada e que estejam com o espaço de alimentação restrito (Nielsen,1999; Distel et al., 1995). Segundo Distel et al. (1995), os bovinos são hábeis em perceber o padrão com o qual a comida pode ser obtida e modificam suas preferências (padrão de consumo e espécies) em função disto. A otimização do pastoreio é dada pelo aumento do padrão de consumo ou seja, do número de bocadas por minuto (taxa de bocadas).
No nosso experimento outro fator que afetou o maior padrão de consumo foi o fotoperiodo. A taxa de bocadas foi diferente entre turno e épocas, sendo que, a tarde foi maior que pela manhã, provavelmente por causa do horário em que as vacas geralmente voltavam da ordenha (18:00). Nielsen (1999) citaram que os bovinos no seu ambiente natural eram predados, e estrategicamente, faziam suas refeições no período diurno quando havia menor risco de predação. Rutter et al. (2001) observaram que as vacas
51
consumiram menos trevo à noite devido à preferência por pastar plantas de maior digestibilidade pela manhã e plantas de menor digestibilidade no restante do dia. Essa preferência ocorreu em função do fotoperíodo. No nosso trabalho provavelmente a proximidade com o período noturno induziu o aumento da taxa de bocadas para aumentar a ingestão de pasto já que a noite poderia ser dedicada à ruminação. Segundo Nielsen (1999) a mastigação pode não ser tão importante se o processo de ruminação compensar a pobre mastigação inicial.
A ocorrência de maior taxa de bocadas em setembro foi provavelmente porque em novembro/00 havia maior participação de grama nativa na pastagem do que em setembro e por observação visual o azevém em novembro estava mais fibroso e estava sementeando mais cedo, como pode ser visto na figura 17 dos anexos. Em setembro/01 havia maior contribuição de azevém na pastagem tornando o pasto mais tenro que em novembro/00. O pastoreio de plantas com maior massa e com maior quantidade de fibra demandam maior mastigação e acarreta menor taxa de bocadas. Nossos dados corroboram com os resultados encontrados por Rutter, et al. (2001), que observou o comportamento ingestivo de novilhas em monoculturas de azevém e trevo branco. Segundo os autores a quantidade de massa apreendida por bocada na gramínea demandou mais mastigação que no trevo.
Em relação ao consumo de pasto por tratamento, pode-se fazer uma estimativa. O consumo de pasto é dado pelo produto do tempo de pastoreio multiplicado pela taxa de bocadas multiplicado pela massa de pasto por bocada. Não houve diferença entre a taxa de bocadas (número de bocadas por minuto) para ambos os tratamentos (BC=45,7
± 1,36; AC= 45,6 ± 1,36 bocadas/min). Assume-se que a massa apreendida por bocada foi igual em ambos tratamentos já que não houve diferença na composição florística da pastagem entre os tratamentos e que segundo Klapp (1971), as vacas consomem uma média de 3g de pasto verde por bocada. O tempo de pastoreio não foi diferente no primeiro período (duas primeiras horas) (BC=99,6, AC=94,9 ± 2,95min), mas foi no segundo período (3ª e 4ª horas) entre os tratamentos (39,25vs50,50 ± 2,95min), dessa forma o tempo de pastoreio foi maior para o tratamento alta carga (145,4 vs 138,8min), Onde o consumo foi de 19,87 kg de pasto verde nas oito horas de observação (60,57% do tempo pastando), enquanto que para o tratamento baixa carga o consumo foi de 19,03 kg (57,83% do tempo pastando). Considerando-se que as vacas pastam em média oito horas por dia (Voisin, 1974; Fraser e Broom, 1990), o consumo de pasto verde para
o tratamento alta carga seria de 41,50 kg de pasto verde ou 8,3 kg de matéria seca. No tratamento baixa carga o consumo seria de 39,64 kg de pasto verde ou 7,9 kg de matéria seca. Segundo esta estimativa o tratamento alta carga permite maior consumo que o tratamento baixa carga.
Em relação ao tempo gasto ruminando, no primeiro período não houve diferença entre os tratamentos , já no segundo período as vacas do tratamento alta carga ruminaram por menos tempo que as vacas do tratamento baixa carga. Uma hipótese que explica esse resultado é a diferença na estrutura da pastagem. Como mostra Voisin (1974), a digestibilidade da pastagem na segunda e terceira etapa de ocupação é menor que a digestibilidade em uma única ocupação. A ingestão de material fibroso e, portanto, de menor digestibilidade, determina maior tempo gasto em ruminação (Rutter et al. 2001). Gibb et al. (1997) mostram que quando as vacas pastaram em uma área em que a altura da pastagem e densidade eram maiores que a altura e densidade ideais para o pastoreio, ocorreu redução no padrão de consumo e as vacas foram incapazes de estender seu tempo de pastoreio devido ao maior requerimento para ruminação. Nesse trabalho o pasto de maior altura estava em estágio fenológico mais avançado que o ideal para o consumo e portanto mais fibroso com maior necessidade de ruminação para digestão.
Devido a desfolhação progressiva na ocupação da área medida por Geith, citado por Voisin (1974), no nosso trabalho, na segunda e terceira etapas de ocupação do tratamento baixa carga, também a estrutura da pastagem era de característica mais fibrosa e justifica-se, portanto, a razão das vacas deste tratamento gastarem mais tempo ruminando do que o tratamento alta carga, que teve acesso durante as três etapas de ocupação a pasto de melhor qualidade.
No tratamento alta carga, embora possa ter havido menor disponibilidade de pasto por animal, o que pode ter gerado maior competição entre os animais, não houve, no período de observação, redução de atividades essenciais como as relativas ao ócio (deitada e em pé parada). No segundo período de pastoreio as vacas do tratamento alta carga ficaram menos tempo em pé paradas que as do baixa carga por causa, ainda, do tempo gasto pastando.
Pela manhã, as vacas de ambos tratamentos pastaram mais, e ficaram mais tempo em pé paradas que a tarde. A tarde as vacas ficaram mais tempo ruminando e mais tempo deitadas. A distribuição das atividades no período estudado ocorreu sem grandes diferenças do comportamento natural. Um dos fatores que interferem no
53
pastoreio é a temperatura e durante nosso experimento não houve variação da temperatura a extremos que levassem as vacas a alterar seu comportamento de pastoreio. Pela manhã as vacas tiveram mais tempo disponível sob a luz o que pode ter resultado nessa diferença entre manhã e tarde. Os resultados encontrados por Gibb, et al. (1998) corroboram os nossos. Os autores também observaram um aumento no padrão de consumo devido à aproximação do crepúsculo e menor tempo gasto pastando após o anoitecer do que sob a luz do dia.