4. HETEROGENEIDADE ESTRUTURAL: UMA ABORDAGEM CONCEITUAL E EMPÍRICA
4.4 Estudo acerca da heterogeneidade estrutural na estrutura produtiva brasileira
4.4.2 Heterogeneidade estrutural através de dados da estrutura produtiva brasileira
4.4.2.1 Produtividade do Brasil entre setores da economia
O primeiro corte analítico apresentado na Tabela 8 se refere ao estudo da produtividade brasileira entre os setores da agropecuária,serviços e indústria.
Tabela 8: Evolução da produtividade dos setores da economia brasileira
Ano 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Setores Produtividade (VA/PO, cem R$)
Agropecuária 61,70 69,70 76,07 88,16 81,31 69,84 74,10 84,56 98,27
Indústria 349,21 347,00 340,45 366,83 391,67 373,61 392,21 391,88 395,11
Serviços 281,32 279,56 267,70 271,06 267,23 281,01 288,78 306,90 319,89
Total 245,58 247,94 241,41 250,86 251,53 255,45 266,64 282,61 296,20
Fonte:Elaboração própria com base em IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais e PNAD – Pesquisa Nacional a domicílio
Para se ter uma visão mais clara acerca de como a heterogeneidade estrutural se apresenta entre os diversos setores da estrutura produtiva brasileira, a Tabela 9 compara os setores com a produtividade do trabalho total.
Tabela 9: Evolução da produtividade relativa à produtividade total dos setores da economia brasileira
Ano 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Setores Produtividade relativa ao total (VA/PO, cem R$)
Agropecuária 25,12 28,11 31,51 35,14 32,33 27,34 27,79 29,92 33,18
Indústria 142,19 139,95 141,03 146,23 155,71 146,26 147,10 138,66 133,39
Serviços 114,55 112,75 110,89 108,05 106,24 110,00 108,31 108,60 108,00
Total 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00
Fonte:Elaboração própria com base em IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais e PNAD – Pesquisa Nacional a domicílio
Através de tais números, a análise pode ser feita com maior profundidade. Como se pode observar, há alguns fenômenos intrínsecos em tais resultados. O primeiro se expressa através da alta produtividade da indústria, apresentando-se maior que a produtividade média em todos os anos. Isso expressa o que Furtado (1961) apresenta que quando se aumenta a quantidade de capital por trabalhador, a produtividade aumenta. A indústria é por si só um setor aumentador da produtividade do trabalho por ser intensiva em capital e tecnologia. Outro aspecto a se observar referente à indústria é a forte queda da produtividade ocorrida principalmente nos anos de 2007 e 2008, em tempos de discussão acadêmica acerca de um possível processo de desindustrialização tais dados podem auxiliar numa maior compreensão do tema.
O segundo fenômeno se vê nos serviços, com produtividade elevada também. Há no mundo uma tendência da especialização das economias em desenvolvimento nos setores de serviços. Essa especialização traz melhoria da técnica produtiva e da produtividade. Na agropecuária se vê intrínseca uma característica forte do setor, de ser pouco formal e pouco produtiva. Devido à abundância de recursos agropecuários, mesmo sem se ter alta produtividade o setor já representa grande parte do PIB brasileiro, mas os dados evidenciam um setor pouco produtivo com um máximo de 33,18% da produtividade total em 2008.
Quando a tal tabela, outro fenômeno já conhecido se mostrou expressivo. Ao realizá-lo primeiramente com os dados da Relação anual de informações sociais (RAIS) a agropecuária se apresentou o setor mais produtivo. Mas como o PO da RAIS é obtido através das
informações enviadas pelos estabelecimentos, ela só expresso o emprego formal, desta forma, como a agropecuária tende a ser um setor com maior informalidade o PO era baixo e a produtividade muito elevada. Isso foi corrigido ao se extrair o PO da Pesquisa Nacional a Domicílios (PNAD) do IBGE, que ameniza a informalidade da economia.
Referente a isso IPEA (2011) apresenta:
Enfim, o último nível de dificuldades a ser considerado é o relativo aos aspectos instrumentais, notadamente os percalços encontrados na medição, ou quantificação, da produtividade do trabalho na estrutura econômica como um todo. Muitas das questões relativas tanto à quantificação da produtividade do trabalho quanto ao que de fato ela representa já foram anteriormente debatidas (SALM, SABÓIA e CARVALHO, 1997; CONSIDERA, 1998). Resta ainda uma questão que é crucial para que se represente a economia como um todo e que, em certa medida, tem sido evitada nos estudos sobre a HE: a economia informal ou, como denominado em Schneider, Buehn e Montenegro (2010), the shadow economy. O termo refere-se ao conjunto de atividades da economia que contribui para a formação de seu produto interno bruto (PIB) e ocupa parcelas significativas da população e que não faz parte, por diversos motivos, dos registros oficiais dos governos. Uma vez que os estudos utilizam-se fundamentalmente de dados estatísticos colhidos por entidades governamentais, a despeito do esforço destas em criar bases de dados que incluam estas atividades, grande parte delas ainda permanece oculta. Segundo estes autores, a
shadow economy representa cerca de 39% do PIB brasileiro. Não há, portanto, como
pretender construir uma representação da estrutura econômica do país sem, de algum modo, incorporar estas atividades. Evidentemente, as dificuldades para fazê-lo são de grande monta. Todavia, nestes estudos, alguns esforços no sentido de construírem-se mecanismos de superação das dificuldades instrumentais colocadas estão sendo feitos e espera-se que, ao final, parte representativa das informações a elas relativas tenha sido adequadamente capturada ou estimada. (IPEA, 2011, pg. 12)
Outra forma interessante de análise da heterogeneidade entre os setores é, como se apresenta na Tabela 10, a análise referente ao setor mais produtivo. Fixando-se a indústria (setor mais produtivo) como 100, é possível se observar o quanto por cento cada setor, inclusive a produtividade nacional média, tem em relação ao setor mais produtivo.
Tabela 10: Evolução da produtividade relativa à produtividade maior dos setores da economia brasileira
Ano 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Setores Produtividade relativa ao setor mais produtivo (VA/PO, %)
Agropecuária 17,67 20,09 22,34 24,03 20,76 18,69 18,89 21,58 24,87
Indústria 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00
Serviços 80,56 80,57 78,63 73,89 68,23 75,21 73,63 78,32 80,96
Total 70,33 71,45 70,91 68,39 64,22 68,37 67,98 72,12 74,97
Fonte:Elaboração própria com base em IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais e PNAD – Pesquisa Nacional a domicílio
É possível verificar que, durante todo o período estudado, a agropecuária não logrou alcançar nem 25% da produtividade da indústria, enquanto o setor de serviços apresenta relativo crescimento, após queda, chegando a alcançar 80,96% da produtividade da indústria.
A heterogeneidade apenas é estrutural se ela se reproduz no tempo, por tal razão o Gráfico 2 é inserido.
Gráfico 2: Evolução da produtividade dos setores econômicos brasileiros de 2000 a 2008
Fonte:Elaboração própria com base em IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais e PNAD – Pesquisa Nacional a domicílio
Nele se apresenta a evolução das produtividades do trabalho dos três setores e total. Durante a década de 2000, até o ano de 2008 as evoluções das produtividades foram relativamente constantes, não se apresentando nenhum setor com clara mudança estrutural
tendendo a quebrar sua tendência produtiva. Por tal maneira se conclui que não está se rumando à convergência, mas apenas se reproduzindo o padrão vigente setorial brasileiro.
4.4.2.1.1 Análise da produtividade do Brasil entre setores da economia: um balanço
A conclusão acerca da análise da produtividade do trabalho por setor da economia brasileira é que: os setores são heterogêneos produtivamente, onde a produtividade da agropecuária não chega, durante o período estudado, nem a 25% da produtividade da indústria. O setor de serviços conseguiu beirar os 80% da produtividade da indústria, mostrando produtividade significativa e relativamente homogênea em relação à indústria. Ou seja, o setor agropecuário apresenta maior divergência produtiva em relação aos outros setores.
A heterogeneidade produtiva setorial é estrutural, pois se perpetua no tempo. Na análise temporal de 2000 a 2008 não se observou nenhuma quebra no padrão produtivo dos setores com leves altos e baixos produtivos ao longo do tempo. Nenhum dos setores analisados ensaiou aumento expressivo da produtividade fomentando uma possível convergência.