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Produtividade e consumo

No documento CURITIBA 2011 (páginas 181-185)

2. TRANFORMAÇÕES SOCIAIS E LUTAS

3.2. QUESTÕES POLÍTICAS E ECONÔMICAS

3.2.3. Produtividade e consumo

Acerca dos efeitos da redução da jornada de trabalho sobre as condições de produtividade e consumo, tem-se que capaz gerar benefícios. O aumento de produtividade pode resultar sistematicamente da diminuição das horas de atividade, de modo que parece haver uma relação inversamente proporcional entre duração e produtividade do trabalho. A manutenção dos salários, por sua vez, tem o potencial de afetar a demanda, ou seja, a diminuição de jornada sem perda salarial aumenta a renda disponível na sociedade e, consequentemente, a demanda por produtos, obedecendo à máxima fordista de transformar os trabalhadores em potenciais consumidores.585

A produtividade do trabalho pode ser incrementada tanto pela modificação das condições técnicas e instrumentais de trabalho, alterando-se as forças produtivas, quanto pela transformação das condições organizacionais e sociais do trabalho.

Enquanto a primeira hipótese depende do grau de desenvolvimento científico e tecnológico da sociedade e do grau de investimentos disponíveis, a segunda esbarra em limites objetivos ligados à capacidade física dos trabalhadores e às normas sociais.

A produtividade do trabalho que possibilita a redução da jornada laboral é fruto

584 DIEESE. Argumentos para a discussão da redução da jornada de trabalho no Brasil sem redução do salário. Nota Técnica n.º 66, de abril de 2008. Disponível em:

<http://www.fenajufe.org.br/encontro6horas/arquivos/notatec66argumentosReducaoJornada%20Diees e.pdf>. Acesso em: 15 de agosto de 2010.

585 DAL ROSSO, Sadi. O debate sobre a redução da jornada de trabalho, p. 47.

precisamente da combinação desses dois elementos, “um de características tecnológicas, outro de características sociais”.586

Foram os ganhos de produtividade originados de cada uma das fases da Revolução Industrial que viabilizaram as mais drásticas reduções nas cargas horárias de trabalho. Conforme explana Jeremy Rifkin, a redução da duração semanal do trabalho de 80 para 60 horas foi fruto dos avanços produtivos do primeiro estágio da Revolução Industrial, no século XIX. Nas primeiras décadas do século XX, do mesmo modo, a transição da tecnologia do vapor para as tecnologias do petróleo e da eletricidade fez com que os suntuosos aumentos de produtividade levassem à redução da carga horária semanal de 60 para 40 horas, em média. Atualmente, quase um século mais tarde, na fase das novas tecnologias virtuais, sugere-se como natural e inevitável a redução da duração semanal do trabalho para índices inferiores a 30 horas.587

Incumbe notar, entre todo o exposto, que o incremento da produtividade pode tanto anteceder quanto suceder a diminuição da jornada. O aumento de produtividade, por um lado, é condição para o tempo de trabalho diminuir. Referido aumento de produtividade, no entanto, pode também acompanhar ou advir da redução do tempo de trabalho588. Daí pronunciar que “a redução da jornada é causa do aumento de produtividade, não apenas consequência”589.

As verificações no sentido de que a redução do tempo de trabalho propicia o aumento da produtividade são tão antigas quanto as primeiras normas voltadas à limitação da jornada laboral. Ainda em meados do século XIX, oportunidade em que a duração diária do trabalho na Inglaterra foi retraída por lei para dez horas, foi possível notar que, ao contrário do que bradava o patronato, o país não sofreu qualquer prejuízo em termos de competitividade, eis que seguiu sendo o mais produtivo do mundo.

Tornou-se constatável a noção de que o aumento do tempo livre possibilita aos trabalhadores a recuperação das forças necessárias ao trabalho mais produtivo590.

586 DAL ROSSO, Sadi. A Jornada de trabalho na sociedade: o castigo de prometeu, p. 432.

587 RIFKIN, Jeremy. Op. cit., p. 244.

588 DAL ROSSO, Sadi. Op. cit., p. 432.

589 DAL ROSSO, Sadi. Op. cit., p. 434.

590 LAFARGUE, Paul. Op. cit., p. 102.

Nesse sentido argumentava Paul Lafargue acerca da premência de redução da carga horária de trabalho:

A grande experiência inglesa está aí para ser vista, bem como a de alguns capitalistas inteligentes, a ela demonstra que, para potenciar a produtividade humana, é preciso reduzir as horas de trabalho e multiplicar os feriados – mas o povo francês não se convenceu disso ainda. Contudo, se uma miserável redução de duas horas aumentou, ao longo de dez anos, quase um terço a produção inglesa, que passo vertiginoso não imprimirá à produção francesa uma redução legal da jornada de trabalho para três horas? Será que os operários não compreendem que, sobrecarregando-se de trabalho, estão esgotando suas forças e as de sua prole? Que, desgastados, se tornam inválidos para o trabalho antes do tempo? Que, absorvidos, embrutecidos por um único vício, já não são homens, mas pedaços humanos? Que estão matando em si mesmos todas as belas faculdades humanas para deixar em pé, luxuriante, apenas a loucura furibunda do trabalho?591

Além, portanto, de explanar-se que a redução da jornada de trabalho não acarretaria aumento de custos nocivo ao empregador ou à competitividade internacional, nota-se que um manifesto aumento de produtividade resulta sistematicamente da diminuição das horas de atividade, o que sugere uma relação inversamente proporcional entre duração e produtividade do trabalho. O trabalho desenvolvido longamente leva à fadiga física e psíquica592, o que acarreta queda do rendimento, acúmulo de ácido lático no organismo e a consequente insegurança do trabalhador.593

No que concerne ao aumento do consumo ocasionado pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial, tem-se que, com mais tempo livre e instituído de maior poder de compra, o trabalhador ganha acesso a serviços de lazer, cultura, esporte, estética e outros, de modo a aumentar a demanda de produtos e também de empregos no setor de serviços.

591 LAFARGUE, Paul. Idem, p. 102-103.

592 “Demonstrou-se, assim, que a força muscular do operário é, em média, na quarta hora de trabalho, 8,04% inferior à da primeira hora; na oitava hora essa redução atinge 15,02%, e na nona hora a diminuição corresponde a 15,45%. Além disso, as investigações relativas à atenção do trabalhador durante o curso da jornada demonstram que a reação vai se tornando mais lenta, exigindo mais tempo para fazer o mesmo trabalho devido à fadiga. O tempo incluído nas jornadas longas é corroído pelo efeito dos rendimentos decrescentes do trabalho. Quanto mais se prolonga a jornada, mais horas limites apresentam resultados decrescentes.” SMANIOTTO, João Vitor Passuello. Op. cit., p. 124.

593 DAL ROSSO, Sadi. O debate sobre a redução da jornada de trabalho, p. 52-53.

O aumento estrondoso na produtividade ao longo das últimas décadas cria uma necessidade crescente de consolidação da demanda. Ao sujeitarem-se os trabalhadores a longas jornadas, por um lado, e ao desemprego, por outro, surge o problema do déficit de consumo, como já notava Paul Lafargue:

Diante dessa dupla loucura dos trabalhadores, que é matar-se com um trabalho excessivo e vegetar na abstinência, o grande problema da produção capitalista não é mais encontrar produtores e redobrar suas forças, mas descobrir consumidores, excitar seus apetites e neles criar falsas necessidades.594

Para o mesmo autor, a resistência patronal contra a implantação de menores semanas de trabalho deve ser revista diante da premência de fazer os operários consumidores dos produtos por eles mesmos produzidos, como forma de se abrandar a

“distância entre a superprodução de bens e serviços e o declínio do poder aquisitivo do consumidor”595. Conforme elucida Josué Pereira da Silva:

(...) redução do dia de trabalho e o consequente aumento do tempo livre de cada trabalhador dariam impulso ao desejo de consumo, já que dispondo de mais tempo livre o trabalhador passaria a incorporar novas necessidades. E estas últimas, para serem atendidas, exigem maior quantidade e variedade de produtos, que só podem ser obtidos mediante aumento da produção. A produção, por sua vez, para crescer e atender a essas novas necessidades do mercado, precisa de mais mão de obra e essa demanda adicional de mão de obra contribui para reduzir o desemprego. (...) a diminuição nas horas de trabalho poderia ser benéfica para o próprio sistema pois contribuía para alimentar o circuito da acumulação através do aumento do consumo.596

Além de parece viabilizar o aumento da produtividade, garante demanda e consumo aos frutos desta produção. Mais uma vez sugere-se viável a redução da jornada de trabalho, benéfica não apenas aos trabalhadores, mas à economia em geral597, o que, no atual contexto histórico, parece ser efetiva maneira de se assegurar o acesso à cidadania para um maior número de brasileiros, em grande parte “excluídos”

em razão da ampla ausência de renda.

594 LAFARGUE, Paul. Op. cit., p. 96.

595 RIFKIN, Jeremy. Op. cit., p. 252.

596 SILVA, Josué Pereira da. Op. cit., p. 76-77.

597 SILVA, Josué Pereira da. Idem, p. 86.

A retração da duração legal do trabalho, assim, colocaria a coletividade à frente do reconhecidamente falido individualismo que caracterizou as relações políticas e econômicas ao longo das últimas décadas.

No documento CURITIBA 2011 (páginas 181-185)