3. Eficiência visual vs Deficiência visual
3.5. Inclusão e Acessibilidade
3.5.2. Produtos de apoio
Os produtos de apoio, anteriormente conhecidos por ajudas técnicas, constituem meios de integração das pessoas com deficiência, podendo consistir em equipamentos simples ou complexos. Estes produtos encontram-se internacionalmente organizados e classificados com um código ISO que normalmente acompanha a prescrição dos equipamentos e da reabilitação. Pode encontrar-se uma lista homologada de produtos de apoio na página oficial do Instituto Nacional de Reabilitação (INR, IP, 2012), complementada pelo Catálogo Nacional de Ajudas Técnicas, entre as quais se destacam os produtos de apoio para o desenvolvimento de competências, para comunicação alternativa e aumentativa, para orientação, para ver, para o desenho e a escrita e para a leitura.
Entre os diversos produtos de apoio disponíveis, destacam-se os seguintes equipamentos destinados às pessoas cegas (INR, 2012):
(1) os produtos de apoio para o treino de competências, nomeadamente os materiais para o desenvolvimento das competências da leitura e da escrita;
(2) os produtos de apoio para o treino de comunicação alternativa e aumentativa, tais como para o treino de alfabeto tátil, para o treino do Braille e para treino de símbolos táteis que excluam o Braille;
(3) os produtos de apoio para orientação, especificamente as bengalas táteis (as chamadas bengalas brancas), os cães-guia (cuja legislação nacional foi já mencionada), a pulseira para orientação e outros materiais de orientação podotátil (como mapas e diagramas em relevo);
(4) os produtos de apoio para ver, por exemplo, os óculos, lentes e sistemas de lentes para ampliação, produtos para expandir e direcionar o ângulo de visão ou sistemas vídeo de ampliação de imagem8;
(5) os produtos de apoio para desenho e escrita, tais como os dispositivos para desenho9 e escrita manual, pranchas para escrita, esboço e desenho, réguas de assinatura, chancelas e pautas de escrita, equipamentos de escrita de Braille de forma manual (o reglete, régua para escrever Braille, e a punção, instrumento de furar), papel/plástico especial para escrita, blocos de notas portáteis para Braille e software para processamento de texto e para desenhar e pintar;
(6) e, finalmente, os produtos de apoio para leitura, nomeadamente os materiais em Braille, de leitura falados, em carateres ampliados ou por carateres e os materiais para leitura táctil; neste sentido, Neves (2014: 124) refere os livros multiformato que, para além das habituais ilustrações e do texto, oferece igualmente pictogramas, audiolivro e videolivro com LGP.
A complementar esta listagem, na página oficial de Ataraxia (2014), empresa dedicada à tecnologia direcionada para a deficiência visual, pode verificar-se que o enfoque recai sobre as dimensões da orientação e da leitura, sendo que estes produtos de apoio se fundamentam em equipamentos que permitem a audição de informação escrita, a utilização do tato por meio de diversos materiais táteis e a leitura e escrita em Braille. Resta ainda referir outros produtos para o apoio da vida quotidiano, nomeadamente os relógios e despertadores (falantes, táteis e para baixa visão), calculadoras falantes, auxiliares médicos (ex.: termómetros, medidores de tensão arterial, organizador semanal de comprimidos), utilidades (como diversos tipos de balanças, fitas métricas, medidas indicadoras do nível de líquidos, organizador de meias, entre outros) e jogos adaptados.
Retomando a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, afigura-se necessário compreender o que se entende por comunicação:
«Comunicação» inclui linguagem, exibição de texto, braille, comunicação táctil, caracteres grandes, meios multimédia acessíveis, assim como modos escrito, áudio, linguagem plena, leitor humano e modos aumentativo e alternativo, meios e formatos de comunicação, incluindo tecnologia de informação e comunicação acessível. (DR, 2009: 4919)
De acordo com esta convenção, a comunicação abrange uma diversidade de aspetos, alguns dos quais foram já mencionados. Para além disso, para escrever à mão, as pessoas cegas têm à sua disposição a pauta e a punção, complementada posteriormente com a máquina de datilografia Braille
8 Convém mencionar a OrCam, um computador de bolso com uma câmara sensível que é colocada num par de óculos, destinado essencialmente a pessoas com baixa visão. Aquando do momento em que a câmara é apontada para o que o usurário pretende ver, “o dispositivo faz uma leitura em tempo real e descreve-o através de um auricular discreto de condução óssea” (Pires, 2014: 65).
9 No contexto dos dispositivos de desenho, refere-se a caneta para cegos “Le Mani” (i.e. ‘as mãos’ em italiano) criada pelo ilustrador Filippo Fiumani, que permite escrever com muita precisão e com um traço em relevo constante, ou seja, “através de uma ponta que funciona como uma agulha movida por um pequeno motor ligado a uma tomada elétrica” (Pires, 2014: 55).
(como a Perkins Brailler), a impressora Braille (ex.: Thiel-Interpoint), o BrailleNote ou NoteTaker e a linha Braille para computadores. Com os desenvolvimentos ao nível das novas tecnologias, podem ainda adaptar-se o scanner, o OCR ou o livro áudio às necessidades das pessoas cegas. De referir ainda a caneta para desenho em alto-relevo M/H 1.0.
Alegre (1995) apresenta uma síntese de algumas destas tecnologias:
Voz sintética – Transmite oralmente a informação que está no écran. Obtém-se através de software para leitura de écran (screen reader) instalado em computador equipado com placa de som e colunas ou na sua falta com sintetizador de voz.
Linha ou terminal braille – Equipamento electrónico ligado ao computador por cabo, que possui uma linha régua de células braille, cujos pins se movem para cima e para baixo e que representam uma linha de texto do écran do computador. O número de células da régua pode ir de 20 a 80.
NoteTaker braille – Equipamento portátil que permite escrever com teclas braille, ouvir e/ou ler o
que se escreveu, armazenar informação, descarregar a informação para o computador e ser ligado a uma impressora a tinta ou braille para imprimir o que se pretenda. Ligado ao computador, pode ser usado como sistema de output de voz ou de braille, consoante seja um NoteTaker equipado com voz ou com linha braille ou com ambas as possibilidades. Pode ter calculadora, relógio, etc. Impressoras braille – Imprimem em braille, um texto escrito no computador em caracteres normais.
Scanners – Permitem a digitalização de texto e imagens, isto é, transforma-os em informação que
pode ser lida e alterada no computador.
OCR – Software de reconhecimento de caracteres que transforma a imagem digitalizada pelo scanner em texto editável.
Circuito fechado de televisão (CCTV) ou Lupa TV – Permite ler, com um grande leque de escolha de grau de ampliação, cor e tipo de fundo, texto manuscrito ou impresso, ver imagens, objectos ou pequenos animais, escrever e realizar tarefas minuciosas como fazer renda ou coser botões. Pode estar equipado com uma câmara apenas para visão de perto ou ter uma 2ª câmara apontada para longe.
Programas de Ampliação – Software que amplia a informação que aparece no monitor do computador.
Podem ainda referir-se o sistema LIDA – Sistema de Livro Digital Acessível, criado pela Fundação Dorina Nowill para Cegos, no Brasil, que permite o acesso a livros digitalizados por meio de vozes digitais – e o DAISY (Digital Accessible Information System), consórcio de organizações que coordena recursos ao nível mundial, contribuindo também para sistemas de leitura, nomeadamente na passagem dos livros analógicos para os livros digitais (Digital Talking Books). Mais recentemente, a organização Action for Blind People (2015)10, que trabalha em colaboração com o RNIB do Reino Unido, apresentou um protótipo ainda em fase experimental do primeiro tablet para cegos. Segundo eles, este será um “Braille device that allows users to upload text files, such as novels, using a USB stick. The text then appears in Braille via small physical ‘bubbles’ that rise and fall on demand”. A cofundadora, Kristina Tsvetanova, reconhece que a tecnologia é maioritariamente inacessível e que este tablet poderá representar a solução para livros de grande extensão, como é o caso dos manuais.
10 Cf. https://www.actionforblindpeople.org.uk/your-community/blogs/ed-lyon/introducing-the-world-s-first-tablet-for-the- blind/ (acedido 22.01.2015).