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O PROFESSOR COMO AGENTE DE MUDANÇA

O conjunto de mudanças de longo alcance e consequências imprevisíveis em que as sociedades desenvolvidas se encontram imersas tem alargado o leque de ex- pectativas em relação aos sistemas educativos e ampliado o volume de exigências às escolas e seus professores. Além disso, conseguiram gerar um amplo consenso sobre a importância estratégica da educação para o desenvolvimento harmonioso e integral das potencialidades de cada indivíduo e, por conseguinte, para o desenvolvimento equilibrado e sustentado da própria sociedade.

Por outro lado, essas alterações exigem dos professores uma modificação pro- funda do seu pensamento educativo e uma rutura decidida com determinadas rotinas instaladas. No fundo, um conjunto de decisões imprescindíveis para alterarem as suas práticas educativas e produzirem o que Fullan (2002, p. 17) designa como mudanças educativas produtivas, isto é, aptidões e hábitos necessários para se comprometerem em “contínuas análises e ações corretivas” e conseguirem “sobreviver às vicissitudes de uma mudança planeada e não planeada durante o crescimento e o desenvolvimento”.

É nesse sentido que as políticas educativas têm incidido em temáticas como, por exemplo, autonomia e descentralização, novo modelo de gestão escolar, avaliação do desempenho, desenvolvimento profissional, gestão flexível do currículo, integração curricular, maior abertura da escola ao meio, mudança das práticas docentes, entre outras. Das várias temáticas referidas, a autonomia e a mudança das práticas têm merecido uma atenção especial.

Aliás, uma das ideias fortes dos atuais discursos políticos e educativos é a auto- nomia dos indivíduos, entendida como capacidade de refletir e opinar criticamente, deliberar com racionalidade e participar ativamente em um contexto social mutante e cada vez mais complexo, sem deixar de assegurar a utilização consciente e adequada da liberdade.

Sendo hoje consensual que a educação constitui um dos meios para concreti- zar tais intentos, as políticas educativas e curriculares têm procurado outorgar novas competências às escolas e aos professores, no sentido de redefinirem os seus papéis e de os galvanizar para aderirem às mudanças que urge imprimir a nível profissional.

O reforço da autonomia “é uma condição indispensável ao desenvolvimento cívico e comunitário da escola pública”, não existindo democracia sem autonomia (BARROSO, 2000, p. 3). Ainda que esse desenvolvimento se enquadre em um pro- jeto sociocultural mais amplo, é necessário que se apoie a nível local, o que requer que a escola e, em particular, os professores se assumam como agentes estratégicos de decisão curricular, garantam a promoção das especificidades locais e estimulem a vivência democrática.

Na opinião de Torres (2002), existem três qualidades que qualquer docente deve possuir, dado que são imprescindíveis na construção da sua autonomia profissional, e que descrevemos a seguir: uma referência cultural, uma referência moral e uma refe- rência pedagógica.

O professor como referência cultural – Sendo a escola um espaço em que se contacta, de forma deliberada, com o patrimônio cultural que cada sociedade foi construindo, faz todo o sentido que os docentes possuam uma formação cultural sóli- da. Caso contrário, não estarão preparados para trabalhar com os estudantes o legado cultural que lhes foi confiado socialmente. Essa exigência tornou-se mais visível a partir do momento em que deixou de se pedir aos professores para basearem as suas aulas na transmissão de um conjunto de conteúdos culturais previamente selecionados e se passou a exigir que envolvessem os estudantes na construção dos seus próprios saberes. Hoje é consensual a ideia de que só com professores bem preparados cultural- mente se podem educar pessoas com grande abertura de mente, o que não quer dizer que os professores tenham de ser enciclopédias.

O professor como referência moral – Além de um espaço cultural, a escola é um campo de exercício intensivo de relações que, no seu conjunto, devem contribuir para o desenvolvimento integral, equilibrado e harmonioso de cada indivíduo. Esse

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desenvolvimento deve basear-se na participação, no respeito pelo outro, na partilha de vivências, de experiências e de saberes, bem como na procura de consensos acerca da forma de ver e de atuar no mundo. Constata-se, assim, que a ação dos professores está imbuída de uma clara dimensão moral, que se consubstancia quer por meio das nor- mas de convivência que tem de se desenvolver no âmbito da comunidade educativa, quer do cumprimento das metas educativas que a sociedade outorga à escola.

Mais do que um assunto técnico, o ensino é um ofício essencialmente moral. Por isso, é no sentido do compromisso com determinados valores e da tomada de consciência do papel interventivo que deve desempenhar que falamos do professor como uma referência moral. Um comportamento que deve ter em conta os dilemas éticos e morais com que se confronta diariamente e que deve aprofundar o compro- misso com valores tais como justiça, responsabilidade, honestidade, imparcialidade, respeito, solidariedade, confiança, entre outros.

O professor como referência pedagógica – Neste domínio, espera-se que o professor se assuma como um profissional reflexivo, capaz de se (auto)questionar so- bre os métodos, estratégias, recursos e modalidades de avaliação a que recorre, de refletir sobre as suas práticas escolares quotidianas e de fundamentar as decisões que toma quando idealiza e promove situações de ensino-aprendizagem. Convém lembrar que, para o processo reflexivo ser profícuo, este deve ser realizado em equipe, o que propicia debates e partilha de experiências com colegas. Além disso, facilita a conce- ção e realização de projetos curriculares integrados2 na escola, uma metodologia de

trabalho que, além de facilitar a organização de ensino e da aprendizagem de uma for- ma mais coerente e com mais sentido para os alunos, estimula o recurso a pedagogias mais ativas por parte dos professores na realização das tarefas escolares.

As posturas referidas são reconhecidas como elementos estruturantes da auto- nomia do professor e fazem parte de um perfil profissional a ser desenvolvido pelo coletivo docente, um perfil imprescindível para se poderem transformar e melhorar as práticas curriculares e, por consequência, o ensino e a aprendizagem.

Todavia, existe ainda mais uma qualidade que os docentes da atualidade devem possuir e que Rego (2013a, p. 202) identifica como docente “globalmente competen- te” para se referir a um profissional que tem um conhecimento razoável das “dimen- sões internacionais que podem vincular-se à sua área de conhecimento”, possui “des-

2 Sendo da esfera de competências dos professores, o projeto curricular é um instrumento valioso na estruturação do ensino, uma vez que favorece o desenvolvimento de capacidades e hábitos de negociação e propicia a implementação de práticas democráticas nas escolas.

trezas pedagógicas que lhe permitem ensinar a reconhecer estereótipos e a respeitar outros pontos de vista” e estabelece compromissos que conseguem fazer com que “os estudantes cheguem a ser cidadãos responsáveis em suas comunidades”.

Esses docentes, que se enquadram em uma perspetiva claramente cosmopolita, sabem que “as novas gerações precisam de professores com uma visão ampla acerca do que podem fazer em prol da sua autêntica inclusão num mundo global e aberto” (REGO, 2013a, p. 202). Tais professores, que veem no cosmopolitismo uma possível solução para grande parte dos problemas gerados pela globalização e por outras forças de grande amplitude, defendem a inclusão da educação intercultural no currículo, esforçam-se por interpelar a complexidade e a incerteza, recorrem a metodologias de trabalho que privilegiam a investigação-ação e a análise narrativa procurando, assim, formas de pensar mais holísticas (REGO, 2013a). No fundo, acreditam que, abando- nando a sua posição conservadora a favor de uma postura de mudança, conseguem atenuar a fragmentação do conhecimento e da aprendizagem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em jeito de balanço final, importa reafirmar que, em termos sociais e educati- vos, vivemos imersos em um mundo cada vez mais interdependente, assolado por um vendaval de transformações até há bem pouco tempo inimaginável, colocando-nos em um cenário de profunda incerteza, repleto de desafios complexos, que exige dos professores uma atitude fundamentada e responsável, bem diferente da que têm assu- mido até os dias de hoje.

Entramos em uma nova era que nos compele, enquanto docentes, a uma pro- funda reorientação cultural, moral e pedagógica, imprescindível para nos tornarmos

globalmente competentes e conseguirmos lançar novas e estimulantes experiências educativas. Um conjunto de experiências necessárias para desenvolver o nosso pensa- mento crítico, aperfeiçoar as nossas destrezas linguísticas e comunicativas, ampliar as nossas competências tecnológicas e melhorar as nossas capacidades para trabalhar em equipe. No fundo, um conjunto de aspectos inerentes a uma sociedade cosmopolita como aquela em que nos inserimos atualmente.

Mas, se todo esse processo de mudança carece de um suporte legal, só consegui- do por um conjunto de políticas, educativas e curriculares, que criem condições para se poderem concretizar as mudanças referidas, ele acabará por ser inútil se não contar com a vontade e determinação de cada docente para se empenhar na construção de um mundo mais justo e mais aprazível para os nossos jovens.

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REFERÊNCIAS

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APRENDIZAGEM DA DOCÊNCIA EM ESPAÇOS