• Nenhum resultado encontrado

Professor e Profeta: movimentos sociais e golpe de 1964

2 A SOCIEDADE DOS CONHECIMENTOS

2.4 As novas escolas seculares e o contexto brasileiro

2.4.3 Professor e Profeta: movimentos sociais e golpe de 1964

Mesmo com os esforços realizados na primeira metade do século XX, a instrução geral ainda estava longe de ser alcançada. Este cenário fomentou o surgimento de movimentos sociais, políticos e culturais que criaram novos traços na docência. Apesar de alguns desses movimentos terem tido relações com Igrejas ou órgãos de Estado, foi da sociedade civil organizada que a docência se viu entendida como ação política, profética, emancipadora, e outros elementos que são comumente associados ao ato de ensinar até hoje como se fosse uma missão predestinada a alguns para mudar a realidade tão dura da época.

São professores voluntários que organizam ações memoráveis em prol da alfabetização do povo, e da ideia de conscientização política ainda recente em um país que tinha inexperiência com um regime democrático. Nessa época a cidade de Natal figurou um importante episódio, conhecido mundialmente como Movimento de Natal, composto pelas Escolas Radiofônicas, Serviço de Assistência Rural e outros movimentos que tinham como característica comum o vínculo com a igreja católica. Os nordestinos, em especial os que viviam no semiárido, migravam para o sul em busca de emprego e melhores condições de vida nos centros urbanos. Os que ficavam, mantinham contato com seus parentes por meio de cartas, que por muitos não podiam ser lidas. A vida no Nordeste era castigada pela seca e controlada pelas oligarquias através de, por exemplo, a compra de votos (voto de cabresto). A Diocese de Natal seguia uma tendência mundial de aproximação das causas dos mais pobres, o Serviço de Assistência Rural ajudava na organização dos trabalhadores rurais na luta por seus direitos,

enquanto as Escolas Radiofônicas tentavam difundir a alfabetização na grande Natal e nas cidades do interior do Rio Grande do Norte (CARVALHO, 2009).

Diferentes dos religiosos jesuítas do período colonial, ou dos religiosos protestantes que atuavam na Europa, as professoras das Escolas Radiofônicas eram leigas, e representavam um catolicismo já imbuído de sentimentos nacionalistas e progressistas. A solidariedade cristã dessas professoras, fez com que elas entendessem que o seu trabalho voluntário não era apenas valioso por matéria de fé, mas por ajudar a emancipar as pessoas da profunda ignorância política, econômica e cultural que viviam. Não havia cobrança por salários nem condições de trabalho, que por sinal eram bem simples como relata Carvalho (2009). Com os mesmos sentimentos caritativos que levou o florescer de grupos religiosos alfabetizadores por todo continente europeu desde o século XVII, os leigos envolvidos nos movimentos sociais brasileiros tinham uma característica política que marcaria o ideário docente brasileiro de uma vez por todas, e inauguraria a educação popular.

Este é apenas um exemplo entre muitas outras ações que se sucederam pelo Brasil, tendo em vista ajudar os mais necessitados alfabetizando e organizando grupos politicamente. É desta conjuntura que surge Paulo Freire, sem dúvida, o maior nome brasileiro na área da educação até os dias de hoje. Seus escritos são lidos nas principais faculdades de educação do mundo, e tudo começou em meio ao desejo de grupos ligados à Igreja Progressista das décadas de 1950 e 1960. Um dos seus atos mais lembrados, as 40 horas de Angicos, denuncia um sistema educativo que não consegue ver a realidade do alunado da época, centraliza o ensino- aprendizagem no verbalismo do professor, e se exime de formar politicamente o povo para exercer sua vida enquanto sujeitos da sociedade (FREIRE, 2013).

Freire (2013) denunciou o que chamou de “educação bancária” que via os alunos como depósitos de conteúdos que, na maioria das vezes, não tinham valor para a vida dos discentes, em especial dos mais pobres a quem ele dedicou o seu trabalho, que ficou conhecido como “método Paulo Freire”, que consistia em dar à escolarização outro sentido diferente daquele de formar trabalhadores, mas sim sujeitos da história. Seu pensamento logo foi considerado filosofia, e se torna referência nacional e internacional como comenta Ghiraldelli Jr:

[...] A maneira como Freire trabalhou essas ideias foi extremamente original, de modo que em nosso país se criou um pensamento pedagógico novo que, uma vez com Freire no exílio, se espalhou como uma pedagogia para os movimentos populares do terceiro mundo. (GHIRALDELLI JR, 2009, p. 106)

Como cita Ghiraldelli Junior no trecho anterior, Paulo foi exilado e permaneceu fora do país por 16 anos graças a uma nova ditadura que se instalou no Brasil em 31 de março de 1964, sob o pretexto de que havia um “risco” do comunismo se instaurar e tomar o poder do governo brasileiro. Avaliando o comunismo como algo negativo e que deveria ser combatido, as forças armadas assumem o controle do Estado e interrompem o andamento de movimentos sociais, perseguem lideranças sindicais, censuram a livre circulação da informação e determinam novas políticas para a educação.

Esse golpe civil-militar de 1964 descontinuou uma série de iniciativas como os Centros de Cultura Popular (União Nacional dos Estudantes), Movimento de Cultura Popular, a Campanha de Pé no Chão, e o recém-criado Movimento de Educação de Base. Depois do sucesso das escolas radiofônicas da então Diocese de Natal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com apoio do Governo Federal cria o MEB para atuar em todo Brasil em especial no meio rural e onde os índices de analfabetismo eram altos. Sob a acusação de ser um fenômeno comunista, esse e outros movimentos foram proibidos, tendo os seus membros perseguidos e presos. A campanha “De pé no chão também se aprende a ler” em Natal foi acusada de “movimento educacional nitidamente subversivo”, quando na verdade, tinha sido uma saída de baixo custo para a cidade, objetivando a alfabetização das crianças pobres da capital potiguar, já que não havia recursos para construção de escolas.

O clima de controle do que poderia ser ensinado e como deveria ser ensinado permanece durante todo o regime. As universidades foram duramente atacadas para que não se tornassem “centros propagadores da cultura maléfica do comunismo”. Mesmo sem haver movimento algum de resistência, universidades foram invadidas e destroçadas no intuído de destruir qualquer sinal da “praga ideológica” (GERMANO, 2005). A formação de professores, embora não tenha sido uma pauta específica do regime, se molda aos novos desejos educativos do Estado que eram de formar o cidadão favorável ao regime (controle político ideológico em todos os níveis de educação); relação direta com a “teoria do capital humano” responsabilizando o indivíduo pelo seu sucesso (foi um cenário de declínio do estado de bem-estar social); sucateamento da escola pública; e desvalorização da profissão docente.

Os investimentos em educação nessa época continuaram os mesmos de tempos passados. Menos de 5% do Produto Interno Bruto era usado pelo Ministério da Educação, e determinados serviços eram de responsabilidades dos Estados ou Municípios. Na década de 1980 o nível de urbanização criou uma demanda escolar 40% maior que a da década anterior. Sem investimentos, as escolas públicas estavam sucateadas, o magistério em situações precárias de trabalho, e não havia, de forma generalizada, sinais de mudança das concepções de ensino e

prática docente. No Nordeste, por exemplo, mais de 30% dos professores primários tinham apenas terminado o 1ª grau, desqualificando o debate sobre metodologias, fundamentos e experiências inovadoras (GERMANO, 2005). A escola era o lugar da reprodução e o professor protagonizava esse sistema.

No fim do regime militar, e início da redemocratização do país, o magistério estava no seu ápice de desvalorização, em especial o do ensino primário. O professor, símbolo de intelectualidade do início da república, era agora qualquer um que soubesse ler e escrever. Os salários eram baixos, a formação não tinha avanços teóricos e metodológicos, e a ideia de “estudar, trabalhar e ficar rico” não era compatível com a profissão docente, levando o ofício a ser assumido por quem não tinha outra opção. É a definição da docência como profissão majoritariamente feminina, que entre outras questões complexas (iniciação a vida política, possibilidade de divórcio, necessidade de complementar a renda familiar etc.), enfrenta os debates levantados pelo movimento de redemocratização, avanço do capitalismo e a nova vida urbana do fim da década de 1980.