4. Resultados e análise
4.5 Considerações acerca de cada professor
4.5.3 Professor P3
Assim como a professora P2, a professora se sente despreparada para aplicar, em sua prática, as metodologias trabalhadas no curso de formação continuada, pois estas metodologias necessitam que o professor tenha muito conhecimento, o qual a mesma afirma não ter. A professora sugere que para a aplicação deste tipo de metodologias seria necessário um curso exclusivo para preparar o professor.
Acredita que a maioria dos professores está presa a uma única forma de ensinar, e a aula expositiva já deixou de ser uma opção, passando a ser um hábito. Esta professora mostra certa acomodação e falta de vontade de mudar.
Isso vai ao encontro do que Grossman (1990) apontou, afirmando que muitos professores, por falta de experiência, acabam por reproduzir os modelos presentes em sua formação inicial, repetindo a maneira como aprenderam quando estavam na situação de seus alunos. No entanto, a autora faz tais observações acerca de professores inexperientes, o que não é o caso da professora em questão, que já trabalha como docente há cerca de 20 anos. Isso nos leva a crer que este modelo foi adotado por ela no início de sua carreira, e desde então a mesma vem realizando sua prática da mesma forma, sem se preocupar em transformar sua prática para atingir uma eficácia maior.
A professora afirma que para que os alunos compreendam o conteúdo, é necessária uma abordagem mais superficial no Ensino Fundamental e mais aprofundada no Ensino Médio. Também afirma que seus alunos não correspondem ao que é apresentado no Currículo, e por isso, não sabe como realizar uma aprendizagem significativa, uma vez que estes não trazem os pré- requisitos necessários para a construção de um novo conhecimento.
Acredita que a Biologia Celular é um dos pilares para o entendimento dos demais conceitos de Biologia. Afirma que para que seus alunos compreendam questões presentes na mídia, é necessário que tenham conhecimentos básicos de Biologia Celular.
Não pretende trabalhar a parte de bioquímica, pois acredita ser muito difícil para seus alunos, e alega que este conteúdo não está mais presente no material didático. Se sente na obrigação de respeitar o Currículo integralmente, esquecendo-se que este documento proporciona ao professor certa flexibilidade, permitindo-lhe adaptar o Currículo à realidade escolar encontrada.
A professora pretende que seus alunos saibam que a unidade básica estrutural dos organismos é a célula e como é sua organização e funcionamento, não ensina conceitos aprofundados sobre a estrutura das organelas, mas sim as funções. Acredita ser importante fazer os alunos compreenderem que a célula está presente em seu corpo e relacionar as funções celulares ao funcionamento do seu organismo. Não trabalha a parte bioquímica, mas entra nos processos de forma que os alunos compreendam para que são realizados.
A mesma aponta que somente não ensinaria algum conteúdo caso não tenha tempo para isso. E declara ter conhecimentos básicos no que diz respeito à Biologia Celular, segundo ela, o que é necessário para o ensino, porém afirma que gostaria de saber mais sobre a parte bioquímica, não para ensinar, mas para conhecer o assunto.
Gosta de estudar acerca da História da Biologia, apresenta conhecimentos relevantes sobre o processo de descobrimento da célula e seus estudos posteriores, e afirma trabalhar este assunto com seus alunos. Acredita que quando o aluno compreende o processo de construção do conhecimento, valoriza o conteúdo.
A professora P3 parece ter ideias contraditórias no que diz respeito à sua formação. Em um momento, afirma que gostaria de estudar mais, de aprender e que seria necessário um curso específico para o uso e aplicação de metodologias diferentes de ensino. Em outro momento, a mesma afirma não estar disposta a estudar e se preparar, pois se considera mal remunerada.
Acredito que haja uma intenção real da professora em se preparar, porém isso lhe é furtado pela desmotivação, advinda da falta de reconhecimento profissional, apontado por ela através das queixas acerca da baixa remuneração oferecida ao corpo docente da Rede Pública de Ensino.
A professora afirma que ao aplicar avaliações que exigem apenas a memorização, seus alunos não apresentam bons resultados, porém, para ela, a preparação de uma avaliação reflexiva é difícil. Isto retrata uma formação não reflexiva, onde a própria professora tem dificuldades em associar os conceitos trabalhados em sala de aula aos eventos do dia-a-dia e de interesse de seus alunos. Ela diz ser capaz de perceber que seu aluno compreendeu determinado conceito quando este consegue realizar as atividades sozinho, associando os eventos, e questionando acerca dos conceitos.
A professora tem dificuldade para responder algumas questões do CoRe, principalmente no que se refere às questões sobre o que a influencia ao preparar suas aulas, seja no âmbito cognitivo ou outros fatores (questões 5 e 6). Isto revela que esta professora não considera os aspectos cognitivos, bem como outros fatores de seu contexto, ao preparar e aplicar suas aulas e atividades.
Certamente esta desatenção dada aos interesse e anseios dos alunos, bem como seu cognitivo e seu contexto refletem na falta de interesse dos alunos pelo que está sendo trabalhado em sala de aula.
A mesma conhece algumas dificuldades de seus alunos, percebe que estes não conseguem ler e analisar imagens e textos, bem como não são capazes de fazer as abstrações necessárias para o entendimento de conceitos como o da Biologia Celular. Têm dificuldades com as palavras utilizadas nas aulas e dificuldades em imaginar os contextos das descobertas e eventos históricos.
Ela se queixa da falta de pré-requisitos de seus alunos, e considera um desperdício ensinar determinados conteúdos nas turmas em que leciona, pois
seus alunos não são capazes de entender. Afirma que os mesmos não têm interesse em aprender, por serem alunos do período noturno de uma região periférica da cidade, e trabalharem durante o dia, e diz que seus alunos não veem importância nas aulas, apenas querem concluir os estudos.
Esta professora se queixa de trabalhar em uma escola de uma região mais pobre, onde os valores são diferentes, e o contexto em que os alunos vivem não é o mesmo da professora, talvez por isso hajam tantos conflitos.
A professora afirma utilizar diversas estratégias com seus alunos, como o uso de equipamentos multimídia, recursos de áudio e visual, para chamar a atenção dos alunos ao que está sendo trabalhado.
Também afirma que gostaria de utilizar a sala de informática de sua escola, mas a atual estrutura da mesma não permite o desenvolvimento de atividades. A professora tem ideias bastante criativas para a aplicação de algumas atividades, mas não costuma aplicar. Gosta de falar de conteúdos que consegue relacionar com o dia-a-dia dos alunos, mas não o faz com todos os assuntos.
A mesma não acha que a aula de Biologia ideal deve ocorrer em um laboratório, mas sim a possibilidade de discutir os assuntos com os alunos, porque nas atividades práticas, muitas vezes os conceitos e conhecimentos não podem ser percebidos completamente. Gostaria de ter uma estrutura com equipamentos de multimídia prontos para usar.
Em suas aulas, a professora pede que os alunos coloquem respostas de exercícios na lousa, mas afirma que caso não estejam certas as respostas, ela não permite que sejam colocadas. Isto vai contra a reflexão dos conhecimentos, uma vez que a mesma só permite que as respostas corretas vão para a lousa, o que nada mais é do que uma cópia, irrefletida. Por outro lado, caso as respostas sejam colocadas, mesmo com conceitos errados, é possível discutir com os alunos o por quê da resposta estar errada, o que deve ser modificado, o que não ficou claro diante do assunto tratado.
A professora P3 acredita ser obrigatório seguir o Currículo, esquecendo- se que o mesmo traz em seu conteúdo o alerta da possibilidade do professor adequar aquilo que está previsto às necessidades e realidade específica da escola em que trabalha.
Esta professora afirma que não vai buscar aprender, se atualizar, estudar, para receber o salário de mil reais, que, de acordo com ela, é a remuneração do profissional docente. Esta colocação mostra que, para ela, o professor buscaria melhorar como profissional caso recebesse uma quantia maior, o que demonstra reconhecimento de seu papel na sociedade. Esta situação, exposta pela professora P3, pode estar de acordo com o que a professora P2 colocou, quando afirma que o professor tem conhecimento do que pode realizar, mas simplesmente não o faz, trabalhando conceitos muito básicos e simplificados com seus alunos.
De uma forma geral, concluímos que P3 apresenta conhecimentos bastante simples acerca do conhecimento do conteúdo específico. Seus trechos que representam conhecimento pedagógico geral refletem que a mesma sente-se despreparada e revela diversas contradições em seu discurso.
A professora P3 parece conhecer o contexto em que trabalha, no entanto, subestima os estudantes, atribui o insucesso de seus alunos à falta de pré-requisitos para a compreensão. Demonstra uma relação conflituosa com seus alunos, acomodada, trabalhando apenas o básico.
O conhecimento pedagógico do conteúdo é revelado de uma forma contraditória, por um lado afirma reproduzir as mesmas práticas, às quais está habituada, e por outro, há momentos em que afirma utilizar novas metodologias de ensino.