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O professor do segundo segmento de Eaja

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CAPÍTULO II A ESPECIFICIDADE DOS SABERES DOS PROFESSORES

2 O professor do segundo segmento de Eaja

Após essas considerações que buscaram situar a educação de jovens e adultos na Rede Municipal em uma perspectiva histórica, buscou-se conhecer, mais de perto, o professor que atua nessa modalidade de ensino. Dos professores pesquisados, um total de oito, quatro são do sexo masculino e quatro, do feminino, estão na faixa etária de 29 a 53 anos, e quatro deles têm filhos. Sete utilizam-se de carros e motocicletas para locomoverem-se de casa para escola. O tempo de trabalho na rede e na Eaja varia de cinco a trinta anos. O ingresso desses professores na Eaja se deu por diversas razões, predominando, as razões de ordem financeira. Cinco enfrentam jornada de trabalho tripla e, três, dupla. Para esclarecer essa última informação, deve-se acrescentar que nenhum dos professores pesquisados fez opção pelo turno, ou seja, os motivos que os levaram ao noturno estão relacionados diretamente às suas dificuldades financeiras, oriundas da baixa remuneração salarial obtida com o trabalho diurno. Logo, a remuneração do trabalho noturno funciona para o professor como complemento da remuneração obtida com o trabalho diurno, ambos fundamentais para a garantia da sobrevivência.

A falta de condições objetivas sustentadoras de uma opção pelo trabalho com a Eaja remete aos estudos já elaborados por alguns autores que se ocupam e se preocupam com a EJA Carvalho (1994); Machado (2001b) e outros. Ancorando-se em reflexões desenvolvidas nesses estudos, pode-se afirmar que falta de opção pela educação de adolescentes, de jovens e

de adultos talvez possa constituir-se em um elemento que dificulta o bom desempenho tanto do professor quanto o dos alunos dessa modalidade. Machado (2001b) em seus estudos identificou a necessidade de o professor do noturno “encarar as especificidades deste turno, defendendo-as e buscando se qualificar [como] um profissional que atua numa modalidade diferenciada” (Machado, 2001b, p. 53). Somente por essa via, aponta a autora, é possível desenvolver propostas pedagógicas no interior da escola comprometidas com a educação do público que as freqüentam. Esse entendimento também levou um dos entrevistados a afirmar que “o fim do turno noturno parece ser o fim da educação” (Professor-8, 2006, p.12).

Apenas um dos oito professores pesquisados tem formação em magistério, os demais em cursos técnicos e profissionalizantes49. Todos têm formação em nível superior cinco realizaram seus cursos em universidades federais, e três em universidades particulares50. Seis deles possuem cursos de especialização51. Em nenhum desses cursos houve momentos de formação específica para atuação em Eaja.

Quatro entrevistados apontaram a Jornada Pedagógica52 como o único momento de formação institucional, e dois apontaram o Grupo de Trabalho de Currículo (GT-Currículo) da SME. Os demais não indicaram qualquer tipo de formação.

Cabe acrescentar, que fazer uma especialização em Eaja, voltada especialmente para o profissional da segunda fase do ensino fundamental, ainda é um desafio, pois as oportunidades oferecidas pelas universidades locais e de outros lugares são praticamente

49 Dois cursaram o colegial, um fez Secretariado, dois fizeram Cientifico, um formou-se em contabilidade e em

agrimensura, um em contabilidade, e outro em magistério.

50 Os cursos feitos pelos entrevistados foram: Licenciatura Plena em Matemática, Educação Física, História,

Ciências Biológicas, dois fizeram Licenciatura em Português-Inglês, Geografia, Artes Visuais (licenciatura e bacharelado).

51 Formação sócio-econômica, Alfabetização, Atividade Física Adaptada à Saúde, Informática na Educação

Diversidade Lingüística, Educação Brasileira.

52 A jornada pedagógica teve início em janeiro de 2002. Esse evento inicialmente foi concebido para fazer a

acolhida dos profissionais da educação de SME de Goiânia na abertura do ano letivo e contemplava momentos teóricos e práticos. No primeiro momento, a abertura fazia-se com show musical e havia palestras com grandes conferencistas renomados. Para os idealizadores da jornada a atividade cultural é essencialmente formadora, por isso, nesse evento ocorrem várias atividades culturais como apresentação de peças de teatro, grupos de danças e outros. O segundo momento era reservado à troca de experiência com oficinas interativas e contemplativas do trabalho realizado pelos professores nas instituições educacionais da SME de Goiânia. Como a jornada consistia em espaço fundamentalmente de formação e de trocas de experiências,a comissão da SME responsável pelo evento mapeava as experiências pedagógicas exitosas da RME que eram selecionadas mediante projeto escrito e fundamentado, inscrito para apresentação no evento. O objetivo era integrar os funcionários do corpo administrativos (merendeiras, serventes, o pessoal das secretarias) e pedagógico (professores, coordenadores e diretores) das escolas e não tinha caráter convocatório. Teve uma boa avaliação dos profissionais da educação, o que resultou em outra reedição em julho do mesmo ano. Na gestão 2001 - 2004 esse evento acontecia em janeiro e em julho, a partir de 2002 sempre no inicio de semestre, perfazendo um total de dois eventos por ano. As jornadas foram muito bem avaliadas pelos profissionais da educação ela continua acontecendo na atual gestão. (Entrevista concedida em 08 de agosto de 2007, por Aurora Fidelis).

inexistentes; existem todavia iniciativas em disciplinas na graduação, em projetos de extensão53. É redundante, mas não desnecessário dizer, esse fato, como condição objetiva concreta, torna quase impossível a manutenção de um processo de formação permanente. Conseqüentemente, os professores que almejam se especializar acabam buscando outros cursos, e a formação específica acaba se resumindo aos momentos propiciados pelas Jornadas Pedagógicas da SME e a um ou outro encontro, conforme informaram os sujeitos desta pesquisa..

Em relação a outros aspectos da formação permanente de todo e qualquer profissional, isto é, leituras pertinentes a essa formação, cinco dos professores pesquisados afirmaram nunca ter lido sobre a EJA, e três deles sequer conhecem a Proposta Pedagógica da SME para Eaja.

A não-opção pelo trabalho com a Eaja e a falta de informação e conhecimento sobre essa modalidade de educação fazem com que o trabalho desenvolvido com Eaja se realize sem clareza dos princípios que deveriam fundamentar este tipo de prática pedagógica. Em que pesem suas razões, vale dizer que essa constatação, feita pelos estudos de Machado (2001b) e outros pesquisadores, e afirmada por esta pesquisa, reforça a necessidade de os professores conhecerem as nuances que permeiam essa modalidade, que demanda compromisso profissional com o ensino noturno. A qualificação profissional, o conhecimento da modalidade com a qual se trabalha pode ser o início do enfrentamento das questões pedagógicas e administrativas muitas vezes, existentes no trabalha da Eaja, dificultando o aparecimento de referenciais próprios para essa modalidade.

Contraditoriamente, todos os professores pesquisados disseram contemplar-se no Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola em que atuam as especificidades da Eaja: “algumas atividades são colocadas no PPP, mas, infelizmente não acontecem, às vezes é por conta do tempo, ou por que a gente esquece e a coordenadora não cobra, e o tempo passa”. (Professor 7, p. 5) As atividades são aquelas “comemorativas, como folclore”. O mesmo entrevistado admitiu que “se todos estivessem motivados a fazer um trabalho diferenciado,

53 A UCG contempla no currículo de pedagogia essa modalidade, porém voltada para a alfabetização, e a UFG

oferece curso livre em EJA. Em seu projeto de extensão, a UFG oferece e formação continuada disciplina no Núcleo Livre e estágio em EJA e Grupo de Estudos de Eaja (Geaja), abertos aos interessados nas questões relacionadas a Eaja. A Faculdade Araguaia oferece uma disciplina no currículo da pedagogia, a Faculdade Alfa oferece estágios em EJA para os alunos de Pedagogia. No I Seminário de Formação de Professores de Jovens e Adultos, realizado em Belo Horizonte em maio de 2006, já se enfatizava a necessidade de propor a formação nas licenciaturas em EJA, tanto que foi elaborado um encaminhamento acerca do “desenvolvimento de pesquisas inter-universidades sobre temas ligados à formação de professores. Em particular as que envolvam demandas urgentes: formação de profissionais das licenciaturas para atuação na escolarização pós- alfabetização de adultos; aspectos psicológicos, lingüísticos e culturais da aprendizagem dos alunos da EJA (...)”. e outras ( Belo Horizonte, FE/UFMG, 2006, p. 6).

acho que a Eaja ia para frente”. Um outro assim se manifestou: “Nós sempre procuramos incluir no PPP atividades que sejam mais prazerosas para eles [alunos]”. (Professor 6, 2006, p. 5).

Confrontando as propostas dos PPPs das escolas em que se encontram os sujeitos dessas pesquisas com as suas falas, percebe-se que eles registram no PPP apenas ações rotineiras do cotidiano da escola, como por exemplos: o dia do estudante, o dia dos pais e outras atividades semelhantes, que muitas vezes, nem acontecem no turno noturno. Parece que a especificidade da Eaja é contemplada no PPP somente para seguir o ritual oficial exigido pela SME. Não se identificou nenhuma ação pedagógica diferenciada relacionada ao trato com o conhecimento priorizando os alunos dessa modalidade. O PPP ainda não é parte constituinte da prática político-pedagógica da escola, isto é, sua efetivação ainda precisa ser buscada.

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