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4 ANÁLISES DOS DADOS

4.2 O DISCURSO DO PROFESSOR SOBRE SI MESMO

4.2.3 O professor é um ser afetivo

Conforme já mencionamos, a análise dos dados nos possibilitou verificar que há, na produção escrita dos professores, uma recorrência bastante significativa de enunciados em que se nota o estabelecimento de uma relação fundamental entre trabalho docente e afetividade. Isto é, foi possível constatar que, para os professores, a dimensão afetiva é parte integrante no processo de ensino e aprendizagem. Desse modo, vejamos:

Quadro 06: Texto retirado do corpus.

“Educação: Humanização ou Tecnologização”.

É notório que, nas últimas décadas, a tecnologia tem avançado de forma considerável e incontestável. A cada dia, podemos observar o surgimento de aparelhos e produtos tecnológicos que “facilitam” a nossa vida.

Entretanto, acreditar que essa tecnologia substituirá o professor em sala de aula é desconsiderar que a essência do processo educativo está centrada na humanização e no compartilhamento sensível dos saberes. O professor é capaz de criar vínculos afetivos que promovem a interação e garantem a construção do conhecimento. O que dizer das máquinas? (entenda aqui, a palavra máquina como sendo a expressão concreta da tecnologia).

A máquina tecnológica não é capaz de acreditar e estimular o potencial de indivíduos, únicos e singulares (esta aparente redundância é proposital, leitor), pois não consegue compreender a pluralidade cultural, não é capaz de expressar sentimentos, de fazer do erro um caminho seguro para o acerto! Como a tecnologia conseguirá formar seres pensantes, sujeitos se ela mesma não o é? Ela é programada, treinada e aperfeiçoada para responder sempre da mesma forma, diferentemente do que se espera da Educação: a formação de sujeitos que estejam aptos para ler o mundo e resolver os mais diversos conflitos que possam existir; e não seres programados, “prontos”, que atendam às expectativas impostas.

Há de se convir que não estou aqui, negando a importância da tecnologia, até porque ela é muito importante no processo ensino-aprendizagem e deve ser utilizada pelo professor como uma ferramenta, no entanto, ela não pode ser vista como mediadora, geradora da Educação, uma vez que ela não é capaz (e nunca será) de compreender a vida subjetivamente e ler um olhar.

Fonte: Elaborado pela autora (2014)

É importante observar que, no texto, sobressai a ideia de que o trabalho docente não se caracteriza como um adestramento, mas sim como um exercício de formação integral do sujeito. Isto é, a percepção que o produtor do texto tem é a de que o professor não é um mero transmissor de conteúdo. O que lhe compete vai além disso, posto que o trabalho educativo é compreendido a partir de uma perspectiva ampla, a da formação humana do indivíduo. Corroborando esse mesmo ponto de vista, temos os enunciados abaixo:

Portanto acredito que durante esse processo, valores são repassados, vivenciados diariamente, utilizando diálogo, o afeto, a troca de experiência torna o ensino humanizado [...] EC386AO16.

[...] É importante citar também os laços afetivos que se somam a esse contexto, pois o professor quando tem postura ética, ainda é um modelo, um exemplo aos olhos do seu aluno. EC389AO37.

Esse conjunto articula e „anima‟ o processo de ensino-aprendizagem. EC390AO38.

[...] a sala de aula é feita de gente e para gente. É o ser humano com sua afetividade, sua sensibilidade às individualidades de seus alunos, a particularidade de cada comunidade em que as escolas estão inseridas que se torna o professor. EC394AO66.

[...] por avançadas que sejam as novas tecnologias, elas jamais substituirão o entrosamento, os laços afetivos criados entre mestres e discípulos, decorrente do convívio entre pessoas que têm alma, sentimentos, sensibilidade, coisas que não estão presentes nas máquinas. EC395AO106.

[...] o professor é fundamental para que existam as relações afetivas, valores, atitudes diante do outro e para contribuir no processo de aprendizagem. EC398AO80.

Quando os alunos chegam na escola, não é apenas conteúdos que eles necessitam. Muitas vezes também, são carentes de apoio, atenção, afeto. Esses fatores desperta o lado humano do professor que é chamado a compartilhar a realidade dos alunos, tendo ao mesmo tempo a tarefa de motiva-los a aprender, a serem curiosos e tonarem-se sujeitos críticos. EC402AO27.

[...] O professor é capaz de criar vínculos afetivos que promovem a interação e garantem a construção do conhecimento. EC408AO11.

[...] as novas tecnologias não pensam, não falam e não têm capacidade de interagir emocional e

afetivamente com crianças, jovens e adultos porque não têm sentimentos. EC409AO101.

O contato e o exemplo pessoal, a afetividade e a socialização que acontece entre o professor e seus alunos nunca poderão ser substituídas e trocadas pela impessoalidade das máquinas. EC410AO102.

Pelos enunciados acima, podemos afirmar que, para esses professores, a afetividade e o afeto são elementos essenciais que integram o trabalho educativo. Ao assumir essa perspectiva,

o discurso dos professores se alinha a outras vozes que também defendem que “ensinar exige querer bem aos educandos” (FREIRE, 1999, p. 159). Nesse mesmo sentido, Tassoni (2000, p.25) observa que “a escola, enquanto espaço legítimo para promover a apropriação da

experiência culturalmente acumulada, deve levar em conta que os aspectos cognitivos e afetivos

são indissociáveis e proporcionar o desenvolvimento do indivíduo na sua totalidade”.

É importante ressaltar que o educador brasileiro Paulo Freire, em sua obra Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, enfatiza a importância da afetividade e do bem querer no desenvolvimento da prática docente. Dessa forma, reflete:

[...] que esperar de mim, se como professor, não me acho tomado por esse outro saber, o de que é preciso estar aberto ao gosto de querer bem, às vezes, à coragem de querer bem aos educandos e à própria prática educativa de que participo (FREIRE, 1999, p. 159).

Como podemos notar, para ele, dentre os saberes necessários à prática docente, está o reconhecimento de que a dimensão afetiva é essencial no desenvolvimento do trabalho educativo. Sendo assim, podemos afirmar que, no discurso dos professores, esse saber emerge de maneira explícita, como atesta o seguinte enunciado:

Também não pode esquecer o componente da afetividade, que a máquina por mais moderna que seja não pode oferecer ao aluno. [...] No ambiente escolar, pode ser construída uma relação de cuidado, onde existe reciprocidade, confiança, afetividade e respeito entre o professor e o aluno. Dessa forma, percebe-se o outro como um ser „humano‟ com emoções e sentimentos, levando em conta esses elementos no processo ensino- aprendizagem. EC385AO42.

Além de Paulo Freire, outros estudiosos também reconhecem a importância da afetividade no processo de ensino e aprendizagem. Henri Wallon, Georges Snyders e Vygotsky, por exemplo, são pesquisadores que atribuem à afetividade um papel fundamental no processo de desenvolvimento cognitivo da criança. Dessa forma, para Wallon ( apud Leite e Tassoni,2006, p.08), “[...] a criança acessa o mundo simbólico por meio das manifestações

afetivas que permeiam a mediação que se estabelece entre ela e os adultos que a rodeiam”.

Segundo Melo (2012, p. 147), Wallon compreende que “a dimensão afetiva ocupa lugar central tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto na construção do

conhecimento [...]”. Sendo assim, ela conclui que “[...] não podemos desconsiderar o papel da

afetividade em nenhum momento. Ela deve estar presente em qualquer segmento da

educação, mesmo que de forma diferente dos anos iniciais de escolarização”.

Já Snyders, em sua obra Alunos felizes, enfatiza a necessidade de a escola olhar o indivíduo em sua totalidade, considerando a inter-relação entre o afetivo e o cognitivo. Conforme suas palavras,

[...] de todos os conhecimentos, da geografia à matemática, esperam-se ressonâncias afetivas. Todos sabemos que, para o aluno, o conhecimento é trazido pelo afetivo: ele aprende realmente bem o que o cativa, numa atmosfera de aula que lhe parece segura, com um professor que sabe criar afinidades[...] (SNYDERS, 1993, p. 92).

Por sua vez, Vygotsky defende a ideia de que a compreensão do pensamento humano só é possível se se levar em consideração sua base afetivo-volitiva, posto que, para ele, “as

dimensões do afeto e da cognição estão desde cedo relacionadas íntima e dialeticamente”

(SILVA, 2008, p. 136). Para a Psicologia histórico-cultural, o sujeito é resultante do desenvolvimento de processos físicos e mentais, cognitivos e afetivos.

O discurso produzido pelos professores vai ao encontro dessas perspectivas, quando eles se pronunciam:

[...] Em todos os níveis de ensino a figura do professor sempre foi imprescindível para o desenvolvimento do educando, seja no âmbito da cognição ou da afetividade. [...] é preciso atentar para o fato de que toda criança necessita de orientação para se educar e de amor e carinho para se desenvolver emocionalmente, por isso a intervenção docente é tão importante. EC393AO6.

[...] A presença dele é imprescindível, pois educar não é só transmitir conteúdos e técnicas novas. Educar é, junto a tudo isso, transmitir bons modos, carinho, afetividade. E isso máquina não faz. EC384AO15.

[...] o calor humano, a disposição, o carisma do professor presente na sala de aula, jamais serão substituídos, pois a afetividade encontrada nas relações humanas, nenhuma tecnologia irá substituir e sem essa afetividade torna-se inviável a construção do saber. EC405AO107.

[...] só um ser humano é capaz de interagir, despertar sentimentos, crer e apostar no outro [...] na troca indispensável ao aprendizado, coisa que „máquina‟ nenhuma conseguiria, já que desprovida de sentimentos, apenas aponta, sem ouvir, sem interagir e sobretudo sem amar. EC406AO89.

[...] uma máquina jamais substituirá o calor humano, o carinho, a atenção, a troca de experiências do professor para com o aluno e vice-versa. Nós precisamos, para nos construirmos como seres humanos, de referenciais e nada substitui a experiência humanitária. EC407AO93.

Com efeito, para Melo (2012, p. 144), a afetividade não só permeia toda relação professor-aluno, mas “está presente nas decisões pedagógicas entre o sujeito e o objeto de

conhecimento”. Desse modo, ela defende que se pense o processo de ensino e aprendizagem

considerando-se a afetividade e não somente a dimensão cognitiva, posto que “sabe-se, hoje, que a afetividade é parte integrante de todo este processo. Aprende-se melhor quando se considera os aspectos afetivos nas relações”.

Retomando Paulo Freire, Gadotti (2003, p. 55) sustenta que “[...] a razão competente

deve ser uma „razão molhada de emoção”. E acrescenta: “[...] o papel das emoções no processo de aprendizagem é decisivo: razão e emoção não são instâncias separadas no ser que

aprende. A emoção é parte do ato de conhecer”.

Nesse mesmo sentido, Almeida (1999 apud Leite e Tassoni, 2006, p. 13) observa que,

embora o compromisso da escola seja com a transmissão/produção de conhecimento, “[...] as

relações afetivas se evidenciam, pois a transmissão do conhecimento implica necessariamente, uma interação entre pessoas. Portanto, na relação professor-aluno, uma

relação de pessoa para pessoa, o afeto está presente”.

Ao discutir a formação do professor como compromisso político, Kincheloe (1997) propõe que, na sua prática docente, esse profissional leve em consideração a dimensão afetiva dos alunos, trabalhando aspectos emocionais e lógicos tanto dos educando quanto deles

mesmos. Para o autor, “[...] nos diálogos que eles e seus alunos criam, a reflexão emocional é

encorajada. Na sua autenticidade, os diálogos não abrem mão das expressões emocionais,

como humor, compaixão, empatia e indignação” (KINCHELOE, 1997, p. 207).

Percebemos, então, que uma educação pautada no diálogo, nos moldes da pedagogia freireana, não pode desconsiderar sua dimensão afetiva, mas valorizar os traços de afetividade manifestados no contexto da sala de aula, integrando-os ao processo formativo de alunos e professores.

Concluindo, podemos afirmar que, a despeito da tradicional valorização da dimensão cognitiva em detrimento da afetiva no espaço escolar, os dizeres dos professores nesta pesquisa revelam que, para eles, a afetividade assume um papel relevante no desenvolvimento do processo educativo, coincidindo, assim, com outras vozes que também reconhecem sua máxima importância na relação professor-aluno. Exemplo disso é o que assevera Gadotti (2007, p. 56):

[...] na docência ser e saber são indissociáveis. Nossa tradição clássica da educação, porém, evita a todo custo, conectar nossos afetos com a nossa razão. Paulo Freire [...] insistia muito nesse ponto. A educação não deve ser um processo de formação de cidadãos úteis ao estado, ao mercado ou à sociedade. A educação responde pela criação da liberdade de cada ser, consciente, sensível, responsável, onde razão e emoção estão em equilíbrio e interação constante.

Ou seja, muito embora tradicionalmente a racionalidade tenha marcado a perspectiva do trabalho educativo, a afetividade é considerada fundamental no processo de construção do conhecimento.