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Nas  décadas  de  1980  e  1990  teve  início  uma  discussão  intensa  sobre  a  formação  de  professores, devido, principalmente, à emergência do movimento de profissionalização do  ensino e legitimação da profissão docente (busca de um repertório de conhecimentos dos  professores)  (Figueirêdo,  2008).  Até  então,  os  cursos  de  formação  de  professores  se  baseavam no modelo da racionalidade técnica. Sob essa visão, a formação do professor se  constituiria  a  partir  da  aplicação  rigorosa  de  teorias  e  técnicas  científicas  às  situações  práticas (sendo esse modelo também conhecido como aplicacionista) (Diniz­Pereira, 2016)10.  Em função desse contexto (críticas ao modelo aplicacionista e entendimento dos professores  como  sujeitos  de  saberes  e  fazeres)  (Figueirêdo,  2008)  novas  propostas  e  modelos  de  formação de professores surgiram na tentativa de valorizar os saberes docentes.  

Um  dos  modelos  de  formação  de  professores  mais  conhecidos  foi  proposto  por  Schön  (modelo  da  racionalidade  prática),  e  baseia­se  no  conhecimento  na  ação,  ou  seja,  “na  construção  dos  conhecimentos  através  das  situações  mobilizadas  na  prática  e  a  partir  da  reflexão  das  mesmas”  (Silva,  2016).    Segundo  Zeichner  (2008),  do  ponto  de  vista  do  professor, significa que o processo de compreensão e melhoria do ensino deve começar da  reflexão do professor a partir das experiências por ele vivenciadas, pois o saber advindo da  experiência de outras pessoas não é suficiente.  

Para  Pimenta  e  Ghedin  (2002), Schön  demonstra  ter  preocupação  com  a  valorização  da  prática na formação profissional11, uma prática que deve ser reflexiva e que possibilite aos  profissionais a obtenção de respostas frente a situações novas, de incerteza e indefinição. O  modelo de Schön apoia­se no conceito de professor reflexivo e segundo ele,  

       

10 Para mais detalhes sobre o modelo da racionalidade prática, consultar Diniz­Pereira (2014; 2016). 

11 Alguns trabalhos fazem críticas sobre a ênfase dada a prática neste modelo. Para mais detalhes podem ser  consultados  os  trabalhos:  Uma  análise  crítica  sobre  a  “reflexão”  como  conceito  estruturante  na  formação 

docente (Zeichner, 2008), Professor  reflexivo no  Brasil: gênese e crítica de um conceito  (Pimenta & Ghedin,  2002)  e  Da  racionalidade  técnica  à  racionalidade  crítica:  formação  docente  e  transformação  social  (Diniz­ Pereira, 2014). É importante ressaltar que estamos cientes das críticas feitas ao modelo de Schön, todavia o  consideramos  válido  para  fins  dessa  pesquisa,  pois  não  consideramos  que  no  modelo  há  uma  primazia  da  prática em relação à teoria, mas uma concepção dialética entre ambas. 

 

“Os  professores  reflexivos  desenvolvem  a  prática  com  base  na  sua  própria 

investigação­ação  num  dado  contexto  escolar  ou  sala  de  aula,  que  constituem  sempre um caso único. A prática é sustentada em teorias da educação em relação às  quais o professor mantém uma perspectiva crítica. Deste modo, a prática é sujeita a  um  processo  constante  de  vaivém  que  conduz  a  transformações  e  a  investigações  futuras. Este processo desenvolvido pelo indivíduo não é privado, mas público, isto é,  as interrogações surgem num cenário de conversação coletiva que pode ser real ou  em sentido metafórico, como referido por Schön (1987)”(Oliveira & Serrazina, 2002).  De acordo com Schön, existem distinções entre a reflexão na ação, a reflexão sobre a ação e  a reflexão sobre a reflexão na ação. Segundo o autor, o primeiro ocorre durante a prática do  professor, e o segundo quando se faz uma revisão do acontecimento fora do cenário onde  ele ocorreu. A reflexão na ação permite que o profissional se torne consciente a respeito do  seu conhecimento tácito, buscando encontrar possíveis crenças errôneas  e reformular seu  pensamento.  Ainda  segundo  o  autor,  na  reflexão  sobre  a  reflexão  na  ação  o  profissional  realiza uma retrospectiva sobre a ação e sobre os momentos de reflexão na ação, ou seja,  sobre o que ocorreu, quais foram as suas observações e quais foram os significados que ele  atribuiu e pode atribuir ao que aconteceu (Oliveira & Serrazina, 2002)  . 

Segundo Paulo Freire, reflexão é o movimento realizado entre o fazer e o pensar, e entre o  pensar e o fazer. De modo que, o constante exercício da reflexão constitui uma orientação  para  a transformação da  prática docente  (Silva &  Araújo,  2005).  Nesse sentido,  Oliveira e  Serrazina (2002), afirmam que a reflexão permite que o professor reveja acontecimentos e  práticas, de modo que uma prática reflexiva pode proporcionar a oportunidade para o seu  desenvolvimento profissional.  

Pensando  nessa  perspectiva,  da  importância  da  formação  de  professores  reflexivos,  é  necessário  discutir  maneiras  de  desenvolver  a  habilidade  reflexiva  na  formação  docente  inicial, principalmente pelo fato de que vivemos em cenários que não cultivam essa prática  (Pimenta & Ghedin, 2002). Alguns pesquisadores (por exemplo, Ambrosio, 2013; Hernández,  2007; Paulson et al., 1991; Rezende, 2010; Torres, 2007; Villas Boas, 2005) vêm apontando o  portfólio como um instrumento de aprendizagem que promove a reflexão. 

O  portfólio  constitui  um  instrumento  de  aprendizagem  importante,  pois  favorece  o  desenvolvimento da capacidade de reflexão, autoavaliação e aprendizagem, permitindo que  os  professores  em  formação  possam  melhorar  seus  desempenhos  (Torres,  2007).  O  portfólio, além de possibilitar a avaliação reflexiva, é utilizado na formação inicial como uma  metodologia que tem por objetivo implementar e favorecer os processos de reflexão sobre a  prática pedagógica, possibilitando um registro contínuo do progresso, das aprendizagens e  experiências  do  professor  em  formação,  resultantes  das  atividades  exercidas  durante  um  período (Rodrigues, 2009).  

O portfólio permite que o professor em formação desenvolva habilidades como a reflexão e  autoavaliação,  assim  como  a  realização  de  análise  crítica,  principalmente  ao  selecionar  as  evidências  de  aprendizagem.  Além disso,  o portfólio como instrumento de avaliação  tem sido  utilizado  como  um  grande  potencial  para  associar  currículo  e  práticas  pedagógicas,  visando o desenvolvimento metacognitivo. De forma que, é importante que o professor em  formação  seja  capaz  de  monitorar,  compreender,  refletir  sobre  o  seu  conhecimento,  de  modo que ao ter consciência do seu estado de conhecimento, possa estabelecer objetivos  de aprendizagem (Villas Boas, 2005). 

Çimer (2011) também afirma que o portfólio é um instrumento importante por direcionar e  melhorar  a  aprendizagem  dos  professores  em  formação.    O  portfólio  direciona,  pois  o  professor  em  formação  deve  estar  atento  a  todas  as  atividades  realizadas,  ser  crítico  ao  selecionar  as  evidências  de  aprendizagem,  compreender  quais  são  suas  dificuldades,  seu  progresso, realizando sempre reflexões sobre todas as experiências vividas. Ainda segundo a  autora, o portfólio pode mudar hábitos de estudos irregulares dos professores em formação  para hábitos que promovem a aprendizagem e atitudes positivas em relação à mesma.   Çimer (2011) ainda enfatiza que, para se obter resultados positivos na utilização do portfólio,  é  necessário  que  os  professores  em  formação  recebam  orientação  quanto  a  forma  de  elaborar  o  portfólio,  por  ser  um  instrumento  que  é  pouco  utilizado,  que  necessita  de  autorreflexão e por não ter tantas regras quanto a forma de ser elaborado. Por exemplo,  várias evidências de aprendizagem podem ser utilizadas, como citadas anteriormente, o que  pode fazer com que o professor em formação fique confuso quanto a seleção de evidências. 

Segundo  Silva  e  Sá  Chaves  (2008),  o  portfólio  é  um  instrumento  que  serve  como  suporte  para  avaliações  tanto  somativas  quanto  formativas,  mas  especialmente  para  avaliações  formativas,  pois  permite  que  o  professor  em  formação  avalie,  por  exemplo,  conflitos  cognitivos,  afetivos  e  psicomotores,  garantindo  o  desenvolvimento  dos  níveis  de  consciência.  Nesse  sentido,  Villas  Boas  (2005)  afirma  que  a  adoção  do  portfólio  como  procedimento de avaliação em cursos de formação de professores pode ser justificado por  três  aspectos:  a  construção  e  domínio  dos  saberes  da  docência;  a  união  entre  teoria  e  prática,  e  a  construção  da  autonomia.  Çimer  (2011)  também  aponta  considerações  nesta  perspectiva. Para a autora, durante o processo de elaboração do portfólio, é extremamente  necessário que o professor em formação seja supervisionado e orientado continuamente, de  forma que se obtenha êxito na utilização do portfólio. Nesse sentido, a autora afirma que existem  dois  componentes  do  processo  do  portfólio  que  o  fazem  ser  uma  ferramenta  de  aprendizagem valiosa: a autorreflexão e o contínuo feedback do professor orientador. 

 A  orientação  quanto  à  elaboração  do  portfólio  é  importante,  pois  falhas  como  a  não  compreensão  dos  objetivos  do  portfólio,  podem  comprometer  a  eficiência  desse  instrumento de aprendizagem. Algo fundamental que pode evitar essas falhas é a reflexão,  que acontece na mediação do professor formador ao professor em formação, o que deve  acontecer em vários momentos ao longo do período de um curso ou disciplina, de forma a  ampliar e diversificar o olhar do professor em formação  (Zanellato, 2008).  

Segundo Collins (1992), o portfólio tem um grande potencial e as pesquisas sobre portfólios  podem  ajudar  os  educadores  a  compreenderem  as  diversas  formas  de  se  utilizar  esse  instrumento, a fim de promover a aprendizagem. Deve se levar em consideração a finalidade  do portfólio, a estrutura e a autenticidade, de maneira a proporcionar a oportunidade de  usar essa ferramenta da melhor forma.  

Mais pesquisas empíricas sobre a utilização dos portfólios são necessárias, de modo a avaliar  seu impacto no ensino e aprendizagem. O processo e o critério de reflexão devem ser mais  explícitos  para  os  alunos,  tomando  cuidado  para  não  correr  o  “risco  de  instrumentalizar  reflexões do aluno, e, portanto, dificultar processos frutíferos de procurar e refletir sobre os  próprios critérios, o que parece relevante de uma perspectiva metacognitiva” (Qvortrup &  Keiding, 2015).  

Nesse  sentido,  entendemos  que  o  portfólio  constitui  um  instrumento  que  oferece  a  oportunidade  de  avaliar  e  refletir  sobre  o  progresso  dos  professores  em  formação.  Ele  possibilita a realização da autorreflexão por parte do estudante, de forma que ele aprende a  aprender. Permite que a avaliação considere o trabalho não de forma pontual, mas avalie o  processo de ensino vivenciado e a evolução dos conhecimentos. Por esses e outros motivos  já  citados,  consideramos  que  o  portfólio  constituiu  um  método  de  avaliação  e  reflexão  fundamental  para  monitoração  do  curso  de  formação  inicial  e  formação  de  professores  reflexivos.  

Na  pesquisa  desenvolvida  consideramos  portfólio  o  conjunto  de  textos  produzidos  por  professores em um curso de formação inicial em que eles deveriam escrever e refletir sobre  suas  próprias  ideias. O  ato de  reflexão sobre  o pensamento,  sentimento e  a  própria aprendizagem  poderia  favorecer  o  desenvolvimento  de  habilidades  metacognitivas  ao  auxiliar os professores em formação a se autoavaliarem e pensar no que aprenderam e não  aprenderam nas atividades do curso. Esse processo de exame dos próprios pensamentos é  importante para auxiliar professores que estão aprendendo temas e conceitos complexos,  como os do curso de formação aqui apresentado. 

CAPÍTULO 3: A PESQUISA