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PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS COMUNICACIONALMENTE EFICAZES

Arménio Rego

Universidade de Aveiro, Portugal

Resumo

O artigo retoma as investigações de Rego (2000) e visa testar o grau em que os com- portamentos aí estudados: a) são valorizados pelos estudantes e professores; b) represen- tam potenciais contributos para os incrementos da qualidade do processo ensino-aprendizagem. A amostra é constituída por 397 indivíduos: 187 são docentes em 5 instituições de ensino superior portuguesas, e 210 são estudantes universitários. Todos foram convidados a descrever os comportamentos de um antigo professor à sua escolha, e a atribuírem-lhe uma cotação global de eficácia comunicacional. Os resultados sugerem o seguinte: a) as cinco categorias comportamentais abordadas explicam cerca de 80% da variância na cotação global de eficácia; b) professores e estudantes expressam concepções bastante semelhantes acerca do significado do “bom comunicador docente”; c) no entanto, os professores são mais sensíveis do que os estudantes à preparação e organização das aulas, o inverso ocorrendo com o comportamento de apoio e a facilitação da comunicação. O artigo aponta algumas avenidas de investigação que outros investigadores poderão per- correr.

PALAVRAS-CHAVE: Eficácia comunicacional, qualidade, processo ensino-aprendizagem, ensino superior.

Introdução

O acto docente é, na sua essência, comunicacional. O que significa, então, ser um professor universitário comunicacionalmente eficaz? Quais os comportamentos que dele se esperam? Estas indagações não se compagi- nam com respostas “receituárias”. Não há sequer razões para presumir que é possível alcançar modelos de aplicação universal em que os docentes do ensino superior possam inspirar-se para actuarem mais eficazmente na sua vida pedagógica. Há, todavia, alguns elementos na literatura e dados empíricos que permitem aproximações ao tema. Por exemplo:

Morada (address): Arménio Rego, Universidade de Aveiro, Campus Universitário de Santiago, 3810 –193 Aveiro, Portugal. E-mail: [email protected]

a) Alguma literatura atinente à qualidade no ensino superior (Ellington e Ross, 1994; Helms e Key, 1994; Rowley, 1996; Horsburgh, 1999), às avaliações pelos estudantes da eficácia dos docentes e da qualidade educacional (Stringer e Irving, 1998; Marsh et al., 1998) sugere um elenco significativo de comportamentos docentes com potenciais efeitos positivos sobre os estudantes e, globalmente, sobre o processo de ensino-aprendizagem. Se procedermos a uma leitura cuidadosa destes comportamentos, verificaremos que são numerosos os que denotam cariz comunicacional. Citam-se ilustrativamente o feedback pontual e justo da aprendizagem, o entusiasmo e dinamismo, o espírito de diá- logo e práticas reflexivas partilhadas, a actuação amistosa do docente, o humor na apresentação das matérias, o encorajamento da discussão, as aulas estimulantes e desafiantes, a preparação dos materiais de lec- cionação, a clareza das explicações.

b) Rego e Sousa (2000) realizaram pesquisa exploratória recorrendo à metodologia dos incidentes críticos. Verificaram que os estudan- tes universitários tendem a valorizar fundamentalmente a abertura do professor ao diálogo, a linguagem clara e simples, a ilustração da matéria com exemplos práticos, a cortesia e o exercício da actividade lectiva que não se baseia exclusivamente na leitura dos textos.

c) Dessa plataforma exploratória, Rego (2000) aventurou-se na elabora- ção de um questionário estruturado de medida da eficácia comunica- cional docente, tendo descortinado quatro dimensões: o

comportamento empático(actos comunicacionais de proximidade, par-

ticipação e empenho; simplicidade e atractividade da linguagem; apoio sócio-afectivo), a conscienciosidade pedagógica (preparação da aula, sua estruturação e organização, competência “técnica” do docente), a

cortesia(delicadeza e respeito pelos estudantes) e a (não)leitura exclu-

sivade textos.

d) Nessa investigação, Rego também verificou que estas 4 dimensões eram fortemente valorizadas pelos estudantes, mas igualmente pelos professores que eram convidados a reflectir sobre um antigo mestre à sua escolha. Para professores e estudantes, o professor comunicacionalmente eficaz é o que expressa orientações bem vin- cadas naquelas 4 categorias comunicacionais. Esta convergência de concepções confere robustez aos resultados, e sugere que pode-

mos estar perante episódios e categorias comportamentais de clara relevância para o fomento da qualidade do processo ensino-apren- dizagem.

Este artigo representa uma extensão do trabalho de Rego (2000). O seu objectivo fundamental é o de testar se os resultados empíricos por ele obtidos são replicáveis. Mais especificamente, far-se-á luz adicional sobre as concepções de estudantes e professores acerca do perfil do professor universitário comunicacionalmente eficaz. Adicionalmente, será aprofun- dado o estudo da importância que os inquiridos atribuem à dimensão cor- tesia. Este aprofundamento justifica-se pela razão que a seguir se aponta: a) Rego verificou que a cortesia, embora se correlacionasse positivamente com o nível de eficácia comunicacional docente, não expressava poder preditivo do mesmo quando era conjugada na regressão com as res- tantes variáveis.

b) A um primeiro olhar, esta evidência poderia fazer supor que a cortesia representa uma variável negligenciável para efeitos de eficácia comuni- cacional. Sucede que há argumentos verosímeis para presumir que essa suposição é precipitada.

c) Na verdade, é plausível que um professor com fortes orientações para as outras dimensões comportamentais veja afectada negativamente a sua eficácia comunicacional se for descortês. Formulando o enunciado de outra forma: é presumível que a descortesia mitigue os efeitos positi- vos das outras três categorias.

d) Mas outras hipóteses podem ser aventadas. Por exemplo: será que a descortesia reforça os efeitos negativos das fracas pontuações nas res- tantes categorias? E a cortesia reforçará os efeitos positivos das fortes orientações nas outras três categorias?

Por conseguinte, o presente estudo prossegue dois objectivos inter-relacio- nados. Primeiro: testar o grau em que os professores e estudantes convergem nas suas concepções acerca dos factores de eficácia comunicacional aventa- dos por Rego (2000). Segundo: investigar se a cortesia interfere na eficácia comunicacional docente através do modo como se combina com as restantes categorias comportamentais.

Metodologia