1.1 Experiências históricas de educação de tempo integral
1.1.4 Profic – Programa de Formação Integral da Criança
Entre os anos de 1986 e 1993 o estado de São Paulo teve uma política pública voltada à implantação da educação de tempo integral, chamada de Profic - Programa de Formação Integral da Criança, que pretendia estender o tempo de permanência das crianças pobres na escola, possibilitando a essas crianças condições efetivas de melhoria da aprendizagem. O desenvolvimento dessa política enfrentou muitos desafios internos, dentro da própria Secretaria de Educação do Estado, sendo defendida por alguns e condenada por outros.
O Profic constitui-se na primeira experiência brasileira de educação de tempo integral construída tendo por base parcerias, especialmente do terceiro setor. Além disso, sua idealização deu-se a partir de um trabalho conjunto entre as Secretarias de Estado da Educação, Promoção Social, Trabalho, Cultura, Esporte e Turismo. A adesão ao programa ocorreu de forma voluntária, ou seja, as escolas não foram obrigadas a aderir. Além disso, o programa não previa a construção de prédios, salas e outras estruturas, mas foi pensado para ser implementado nos espaços existentes, conjugando esforços e recursos das diferentes áreas envolvidas. O programa fundamentou-se em determinados aspectos de um estudo realizado pela Fundação Economia de Campinas – Fecamp (1985), que forneceu informações e linhas de ação para a opção pelas medidas adotadas em relação à implantação do Profic.
O Profic tinha como proposta a ampliação do papel da escola, ou seja, não restringindo essa atuação ao papel de instruir os alunos, mas também de proteger as crianças, num sentido amplo, ou seja, da violência, do desamparo circunstancial, da doença, da fome e da pobreza (DI GIOVANNI; SOUZA, 1999, p. 67). Essas preocupações advinham de um período em que as taxas de evasão e repetência eram muito altas, a população estava crescendo muito, especialmente nas cidades, e empobrecendo na mesma proporção. Nas famílias, pais e mães precisavam buscar trabalho para a manutenção da família, sem tempo e nem condições para ajudar as crianças nos estudos e muitas crianças abandonavam a escola para ajudar as famílias com seu trabalho.
O caráter assistencialista do projeto justificava-se, de acordo com os idealizadores, pelas condições precárias em que vivia a população de baixa renda. A escola seria a entidade que de fato poderia interferir na realidade através da realização de um trabalho que teria condições de modificar a situação existente e promover mudanças no sentido de melhorar a vida das pessoas, especialmente das crianças em idade escolar, conforme previam os objetivos do Profic.
gradualmente, de instituição dedicada à instrução formal da infância à formação integral da criança;
- a transformação conceitual e prática da pré-escola, gradualmente, de instituição dedicada à preparação para a alfabetização em instituição dedicada à formação integral da criança;
- a ampliação do período de permanência da criança na escola de primeiro grau, em decorrência dessa transformação;
- estabelecimento, de maneira direta ou indireta, de uma rede de pré-escolas no estado, de modo a atender, de maneira integral e integrada, a crianças até os seis anos de idade;
- a criação de condições para que o período de permanência da criança na pré-escola possa corresponder ao período de trabalho dos pais;
- a criação de condições para que as mães, especialmente aquelas de classes mais pobres, possam estar presentes junto de seus filhos, amamentando-os, se possível, nos dois primeiros anos de vida da criança;
a cooperação com entidades públicas e privadas no sentido de encontrar fórmulas para resolver o problema do menor já abandonado (DI GIOVANNI; SOUZA, 1999, p. 79).
De acordo com Di Giovani e Souza (1999), o projeto previa a intervenção na rede do ensino fundamental em funcionamento, através da implantação da educação de tempo integral nas escolas comprovadamente frequentadas por crianças mais carentes, envolvendo o serviço das demais áreas públicas previstas no projeto, como saúde, esportes e cultura. Além disso, “o estudo prescrevia uma integração das creches e das pré-escolas à rede de ensino fundamental, com a finalidade de unificar o atendimento infantil na faixa de 0 a 14 anos” (p. 77). Seria necessário o envolvimento de muitos órgãos do governo para implementar a proposta, pois em um dos períodos do dia deveriam ser desenvolvidos outros tipos de atividades, desde esportivas, culturais e até assistência médica, além de materiais escolares, alimentação e transporte.
A implantação do projeto carecia de dados estatísticos que possibilitassem o embasamento para as ações que envolveriam a previsão de público que seria atendido em cada modalidade, desde a creche. Para formalizar as parcerias entre a Secretaria de Estado da Educação e demais entidades, foi criado um modelo de convênio, sendo que no primeiro ano de vigência do Profic foram assinados 128 convênios com prefeituras e 102 convênios com entidades assistenciais, atendendo cerca de 200.000 crianças. No auge do programa, cerca de 10% dos alunos matriculados no ensino fundamental foram atendidos, mas apenas parte dos objetivos propostos foi alcançada, pois alguns projetos acabaram não sendo implementados.
Segundo Di Giovani e Souza (1999, p. 83), os dados relativos aos custos e financiamento do programa não são muito precisos, pois são provenientes de diferentes fontes. Os autores afirmam que os recursos do programa originaram-se de três fontes, que seriam: Tesouro do Estado; quota estadual do salário-educação; recursos próprios e do governo federal. Considerando as dificuldades para manutenção da proposta, o programa foi
extinto no ano de 1993 por razões técnicas e políticas.