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CAPÍTULO II – PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA

3.4 Profissão professor: dificuldades e desafios

Entre as questões trazidas pelos entrevistados em relação às dificuldades e desafios enfrentados na Licenciatura em Matemática, destacam-se: a) as dificuldades no início da docência, a falta de preparo para a sala de aula e a aprendizagem com a prática; b) superação das dificuldades dos alunos.

a) As dificuldades no início da docência, a falta de preparo para a sala de aula e a aprendizagem com a prática

A professora Diana não considera ter sido preparada para enfrentar os desafios que se apresentaram no exercício da sua prática docente. Revela que esses desafios variavam de acordo com o nível de ensino em que estava atuando. No ensino fundamental, sua maior dificuldade era lidar com o controle da disciplina dos alunos em sala de aula, devido aos alunos serem, nas suas palavras, “muito agitados”. A sua prática docente revelou que ao longo do tempo era possível diminuir a rigidez no controle disciplinar dos alunos, e durante seus estudos de pós-graduação pôde ter contato com outras informações que possibilitaram a mudança desta postura.

O professor de Matemática tem uma postura rígida, eu fui diminuindo isso ao longo da minha carreira. Fui tentando diminuir um pouco essa rigidez, porque eu vi que ela não dava muito certo em sala de aula, a gente não produzia muito sendo assim. Mas no começo era uma necessidade de se firmar como professor, de ter um domínio da classe. Eu ficava muito presa a isso, então eu tinha muito problema com disciplina, mas porque eu via a disciplina de um jeito muito fechado. Quando eu melhorei esse lado, refleti, enfim, fui me formando, no mestrado, no doutorado, e tendo acesso a outras informações, isso foi mudando um pouco, e essa minha preocupação em relação à disciplina dos alunos foi diminuindo.

Revela, ainda, que a atuação em cursos superiores de graduação apresentou outras dificuldades, pois os alunos estão no curso porque desejam uma formação profissional, são mais maduros, fizeram uma escolha, porém apresentam-se sem os pré-requisitos necessários.

Eu tenho notado isso. Cada vez menos eu tenho recebido alunos com uma formação de matemática básica adequada para seguir num curso de exatas, em um curso que tenha componentes matemáticos ou que dependa do conhecimento matemático básico.

A sua maior dificuldade de atuação neste nível de ensino está relacionada à “criação de uma proposta de aula que possa dar conta dessas limitações que os alunos trazem; dessas deficiências que trazem, e tentar fazer o possível [para dar uma boa aula]”.

Como que eu posso dar uma aula de Cálculo I e efetivamente ensinar os conceitos mais importantes de Cálculo I, Limite, Derivada e Integral e chegar no final do semestre e falar: “Bom esse cara viu, compreendeu Limite, Derivada e Integral”, para uma pessoa que não sabe Função, que não tem conhecimento de cálculo algébrico básico ou mesmo de cálculo numérico? Nas operações fundamentais eles falham, inclusive nisso. Então meu maior desafio tem sido como fazer com que eles entendam coisas do nível de estudo em que eles estão, pois precisariam entender outras coisas de matemática.

Essa dificuldade também é corroborada pelo professor Silvio.

O aluno que chega no ensino médio hoje tem uma bagagem muito menor do que o aluno que chegava na década de 90. Então você tem que primeiro tentar sanar os buracos da formação, e ampliar esse conhecimento deles, para eles conseguirem alcançar o desenvolvimento do cálculo. Na década de 90, você começava o cálculo dando "limite", hoje você começa o cálculo com "pré-calculo", que revisa função e vai aprofundando com o conceito e os tipos de função que trabalha para você conseguir chegar na definição de "limite", desenvolver "limite", desenvolver "derivada".

b) Superação das dificuldades dos alunos

muitas vezes, ao desenvolver suas atividades, o professor do ensino superior se vê diante de alguns desafios com os quais precisa saber lidar. De acordo com a pesquisa exploratória realizada com os alunos matriculados nas duas licenciaturas pesquisadas, e apresentada anteriormente, eles trazem dificuldades para a compreensão dos conteúdos das disciplinas tratadas na graduação, especialmente no que se refere à matemática. Isto porque

de forma geral são alunos da rede pública, quando não pararam seus estudos ao terminar o ensino médio, acabam de um modo geral, por concorrer aos cursos de menor procura e considerados de menor “status”. Entre estes estão, na sua grande maioria, os cursos de licenciatura [...] a grande maioria dos estudantes da licenciatura é oriunda das escolas públicas, com formação científica e cultural deficitária (grifo nosso). Além disso, muitas vezes, em realidade, não pretendia ser professor, mas optou por fazer licenciatura por ser um curso em que ele, em razão do EFM (Ensino Fundamental e Médio) realizado, pode concorrer com mais chance de ingresso no ensino superior (SILVA, p.77, 2014)

Parece-nos que essas têm sido as principais dificuldades dos professores que trabalham com os alunos que se enquadram nesse perfil, no desenvolvimento das suas atividades. Eles são desafiados a encontrar formas de enfrentar e superar as dificuldades encontradas no exercício da docência.

Para os sujeitos desta pesquisa, a visão que eles têm dos alunos com os quais trabalham não é muito positiva. Pimenta e Anastasiou (2002, p. 230-231) fizeram a relação de alguns problemas apontados por docentes de instituições de ensino superior em relação a seus alunos:

Falta de interesse, de motivação ou de comprometimento com a própria aprendizagem; passividade; individualismo.

Interesse na nota e em passar de ano e/ou obter diploma; Falta de disciplina, hábitos de estudo insuficientes;

Nível de conhecimento ou pré-requisitos insuficientes para acompanhar a graduação;

Dificuldades na interpretação, redação, leitura; Dificuldade de raciocínio, falta de criticidade;

Alta heterogeneidade em cada classe e diversidade de maturidade geral.

Para os sujeitos da pesquisa:

(...) a minha dificuldade não era de formar uma aula, mas criar uma proposta de aula que pudesse dar conta dessas limitações que eles trazem, dessas deficiências que [os alunos] trazem [para o ensino superior]. Até hoje tem sido a minha maior dificuldade, (...). Meu maior desafio é como fazer que eles entendam coisas do nível em que eles estão da graduação (Professora

Martha).

Com raras exceções os alunos que procuram a licenciatura são oriundos da escola pública com pouca formação. Sofrem bastante, pois o curso é “pesado” e [demanda] muito empenho e dedicação. (Professor Thiago).

Na verdade, a gente já sabia que ia receber alunos com dificuldade, a gente sabia que teria defasagem, (...) a gente sabe que no fundo muitos não sabem matemática - sabem técnica, sabem cálculo passo a passo, mas não o pensar matemático. E isso é muito frequente (Professora Diana).

(...) a gente tem trinta por cento de alunos que quase não têm defasagem, mas tem setenta por cento com muita defasagem (Professor Silvio).

Apesar de os problemas apontados por Pimenta e Anastasiou (2002, p. 230-231) estarem relacionados, principalmente, aos alunos do período noturno, pudemos perceber que também os alunos do curso matutino, período em que a IES pública oferece seu curso de licenciatura, apresentam, em geral, as mesmas dificuldades.

Vários podem ser os motivos que explicam o não acompanhamento dos alunos na disciplina, desde a organização da vida universitária, que é diferente da educação básica, até as dificuldades que trazem em relação aos conteúdos do ensino médio que, se não forem trabalhadas no curso poderão impedir esses alunos de concluir o curso, ou ainda formar mal o professor.

Para Silva e Kawamura (apud Santos, 2012, p.11), esses são motivos que desgastam os estudantes e os envolvem em dificuldades.

Essas dificuldades incluem, muitas vezes, o necessário desenvolvimento das habilidades para o estudo e o aprendizado, diferentes daquelas características do ensino médio. Ou requerem, também, a superação de deficiências prévias em suas formações, uma vez que repetências sucessivas levam ao comprometimento da autoestima. Dificuldades de relacionamento aluno e professor e aluno e aluno são também marcantes nessa categoria, na medida em que promovem situações necessárias à formação. Alguns desses aspectos são fontes frequentes de desmotivação e se transformam facilmente em causa de evasão.

Os docentes que atuam nos cursos de graduação devem detectar o perfil dos seus alunos e propor ações de superação dessas dificuldades. Silva (2014) nos ensina, apoiada em Pimenta e Anastasiou (2002, p.235), que a docência deve empreender esforços para proporcionar aos alunos que apresentam “lacunas de conhecimento, as condições necessárias para que possam avançar”.

Nem sempre, porém, as ações propostas pelos professores surtem o resultado almejado, pois muitas vezes elas dependem de variáveis que por vezes fogem do seu controle. Vejamos, então:

Há alunos que não têm o hábito do estudo. Há alunos que chegam na universidade com péssimos hábitos, inclusive o de faltar em dias de chuva. A universidade, o curso faz o que pode (Professor Thiago).

Em relação à ação proposta pela Professora Diana, o Remateba, a professora revela que não conseguiu manter a regularidade do curso, provavelmente por ser oferecido aos sábados, chegando ao final com poucos alunos.