5 TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADE EM REDE PSICOSSOCIAL
5.2 TERRITORIALIDADE EM REDE PSICOSSOCIAL
5.2.4 Relação estabelecida com os desafios e possibilidades
5.2.4.2 Profissionais
Apesar da boa relação entre profissionais e gestores, confirmados por ambos,
poucos profissionais relataram a participação nas discussões sobre o planejamento
e aprimoramento da RAPS.
E essa participação, conforme entrevistas está diretamente relacionada à
ligação estabelecida entre os profissionais e o território em rede psicossocial. Os
mais participativos e mais conscientes mostraram disposição e interesse para a
integração da rede realizando atendimentos, encaminhado e acompanhando
periodicamente os usuários, porém, outros mostraram “falta de afinidade” como
desafio para a participação no território em rede psicossocial estudado. Foi
levantado por eles mesmos a dificuldade já citada na contra referência estar ligada à
“falta de interesse” de alguns profissionais.
PROFISSIONAL ABZR 12- “Sim, sim a gente faz todos, a médica
periodicamente ela sempre atende, e é assim, tem alguma necessidade que
eu vejo que não é demanda médica que é mais alguma orientação, questão
da família também eu costumo atender, costumo realizar visitas, o quando
tem algum paciente que teve algum problema especial, os agente
comunitários sinalizam, a gente visita, conversa com a família, outro serviço
que a gente tem aqui é o CRAS, que a gente conseguiu fazer essa
interlocução com as meninas e ai a assistente social, peço pra elas fazerem
as visitas e elas fazem.
PROFISSIONAL ABU 05 –“ [...] eu tive outra dificuldade é até porque,
vamos dizer não é minha praia, o público que eu tenho de HIPERDIA é que
vem só pra ver alimentação saudável e a parte da prescrição médica [...]
nunca também me interessei porque não é uma coisa, como eu te falei não
me atrai, eu posso atender sim, mas não é um público que me atrai, tipo
assim “ eu vou me aprofundar em saúde mental” eu acho bonito quem
gosta, pra mim saúde da mulher é o máximo, entendeu? E cada um sabe o
que realmente, não é menosprezando ninguém, eu acho lindo, mas pra mim
cada um sabe o que gosta o que tem afinidade”.
PROFISSIONAL ABZR 11- “Acho que...Dificuldade é a contra referência, eu
acho que um pouco de desinteresse [...]”.
Diante disso, os profissionais indicaram conforme sua vivência cotidiana com
a rede, as principais dificuldades de integração da rede, como também sugeriram, e
confirmaram quais medidas melhorariam a fluidez da rede psicossocial.
A primeira medida citada de aprimoramento, seria o fortalecimento de uma
medida já ativa que é o matriciamento, tornando as reuniões mais frequentes com o
NASF e CRASS melhorando a resposta e a comunicação, e foram citados várias
vezes ao longo das entrevistas como meio de articulação da rede, como
representado na citação abaixo:
PROFISSIONAL ABZR 11- É isso que eu estou dizendo, eu acho que ainda
é precário, que às vezes a gente procura e não acha. Tem o NASF a gente
procura, marca e a gente encaminha e a gente tinha as reuniões pelo NASF
e eu acho que era mais produtiva hoje não sei porque abrangia mais o PSF.
Às vezes a gente necessita fazer ainda os encontros, também tem o
CRASS que também a gente procura, que a gente acha as respostas às
vezes não, ficamos esperando. Eu acho que tudo a gente tem que fazer sair
da mesa, precisa andar, buscar e a gente quer fazer uma reunião assim.
As reuniões não foram citadas apenas com o NASF, mas também
demonstraram interesse para o aprimoramento de conhecimento através dos
especialistas em saúde mental:
PROFISSIONAL ABU 06 – Gostaria que tivesse mais acesso aos
especialistas, e também fazer um trabalho em grupos, até mesmo que os
especialistas passassem alguma coisa pra gente, isso eu acho que seria
ótimo, sabe por que? A gente trabalharia melhor, saberia um pouco mais, o
que fazer, e diminuiria um pouco a demanda lá no CAPS. Então eu acho
que seria ótimo que fizessem isso com a gente.
Nesse processo de capacitação foi citado pelo profissional CAPS 08, também
outros pontos de atenção para o CAPS, capacitando os profissionais do CAPS, na
detecção precoce de outras patologias clínicas e encaminhamento adequado, para
“costurar a rede” em todos os sentidos, citando como exemplo, uma experiência:
PROFISSIONAL CAPS 08- Tivemos um enfermeiro aqui pra discutir essa
questão da Hanseníase, então, como é que a gente identifica isso aqui
dentro dos nossos serviços? Os nossos usuários daqui que apresentam,
como é que a gente pode estar referenciando? Tentando acionar as outras
unidades de saúde pra que eles possam de alguma forma ofertar um
cuidado? Como é que a gente referencia? Então pra gente não ficar aqui tão
fechadinho no nosso casulo de que só é saúde mental, porque é uma crítica
que eu faço também, às vezes a gente acha que a unidade de saúde da
família não se preocupa com saúde mental, as vezes acha que a gente se
preocupa apenas com isso, não apenas no sentido que é pouco, mas que a
gente também às vezes não atenta pra essas questões, uma pessoa que
está aqui que tem hanseníase, o que é que a gente faz? Cuidar da
hanseníase é também cuidar da saúde mental dessas pessoas, que
sabe-se lá que impacto vai ter na vida emocional dessa pessoa estar com
hanseníase, enfim.
Os profissionais do CAPS demonstram iniciativa e busca constante de
superação das dificuldades encontradas, como exemplificado a seguir:
PROFISSIONAL CAPS 08 – “[...] a gente tenta atravessar essas
dificuldades usando a criatividade, só que também não dá pra isso o tempo
inteiro ficar tirando coelho de cartola, mas que a gente vem tentando e acho
que a gente vem conseguindo superar sim. Apesar dessas dificuldades, a
gente tem uma coordenação aqui no CAPS, uma equipe que se mobiliza e
com atenção que também não fica muito esperando as coisas acontecerem,
“futuca”, vai lá na secretaria tentar conseguir e tem dado resultados bons.
As dificuldades que a SAMU demonstrou relaciona-se à segurança dos
profissionais, pois atendem aos usuários, na maioria das vezes com agitação
psicomotora e por vezes com heteroagressividade, tendo por rotina acionar como
apoio a Guarda Municipal ou a Polícia Militar e por vezes não recebendo este apoio.
Há relatos de que apesar das dificuldades vivenciadas, na maioria das vezes há
êxito na abordagem e transporte do usuário:
PROFISSIONAL SAMU 09– Bom às dificuldades que a gente encontra
mais pra lá (local do atendimento) é a parte da segurança da gente,
normalmente quando a gente vê uma ocorrência dessa a gente tem que
solicitar o apoio ou da Guarda Municipal ou da PM, a gente tem que
resguardar a segurança da gente em primeiro lugar.
PROFISSIONAL SAMU 10 -“ A dificuldade é que às vezes a gente não tem
o apoio da PM pra ajudar-nos a recolher esse paciente, mas, na maioria das
vezes dá tudo certo(risos)”
A atenção básica, diante da dificuldade para conseguir os atendimentos
específicos como consulta psiquiátrica, e exames de acompanhamento,
considerando a demanda maior que a oferta, a espera para receber os exames,
transporte e acesso aos medicamentos, é cumprida com os profissionais às vezes
utilizando o próprio carro para visitar os pacientes, havendo em todas as unidades o
atendimento clínico com renovação de prescrição. Sugerem o atendimento
psiquiátrico especializado ao menos uma vez por mês na zona rural, para facilitar o
acesso dos usuários ao serviço especializado. E foram realizados elogios ao serviço
do CAPS:
PROFISSIONAL AB 04 – Bom as facilidades são menos e as dificuldades
são mais. Quando um paciente precisa de um atendimento a doutora vem,
ele vem pro atendimento, a doutora solicita um exames e esses exames
eles chegam com três meses quando é laboratorial, eletrocardiograma e
tem alguns que nunca chegam que é ultra som, ultra, transvaginal e as
outras ultra sons. Muitas das vezes o usuário tem que pagar pra poder fazer
o exame, ou então ficar esperando anos e anos.
PROFISSIONAL ABZR 12- Eu vejo aqui no município que o CAPS funciona
direitinho o serviço e que oferece todos os recursos necessários, o fluxo
funciona bem, agora assim, como dificuldade é quando está com pouco
psiquiatra ,então assim, ficou um pouquinho complicado, outra dificuldade
que a gente faz a referência não volta a contra referência, então a gente não
sabe o que foi feito no paciente então assim eu acho que é uma das
dificuldades, outra dificuldade aqui na minha comunidade que a gente é,
como nós somos zona rural, a maioria das pessoas não tem poder
aquisitivo, então assim, passou uma medicação que não tem no CAPS, eles
não compram. Mas, de regra no geral eu acho que a gente tem mais a
fortalecer as facilidades do que esbarrar nas dificuldades.
PROFISSIONALABU 02- A dificuldade, primeiro é ter, não tem carro, que
nós temos aqui muitas visitas, tanto assim com o médico como pra um
psicólogo – NASF - também pra ir até a casa ai a gente tem dificuldade,
mas o paciente vir até a gente graças a deus a gente nunca, mas aqui que o
certo é a gente ir até a casa deles, a gente não tem carro a dificuldade é
carro, a dificuldade que está tendo, a semana passada mesmo era 6 visitas,
nós fizemos por motivo de carro, por coincidência a doutora até vai no carro
dela, mas estava quebrado.
PROFISSIONAL ABZR 11- Na minha visão aqui acho que facilidade a gente
tem bastante, basta a gente saber desenvolver. O processo procurar as
pessoas certas e lutar, porque tudo depende também da gente está lutando
e persistência. A gente tentar sensibilizar e conscientizar e não conscientiza
ninguém, mas tentar sensibilizar a comunidade ou os parentes da família
até com os profissionais mesmo, discutir, conversar. Na conversação, qual
seria o passo melhor? Uma passa a experiência pra outra e a gente bota os
assuntos em dias pra ver quem é que está com mais pendencia pra poder
tentar a chegar numa solução.
Em suma, os profissionais demonstraram disposição e interesse para a
integração da rede conforme identificação e capacitação ao serviço em rede de
atenção psicossocial. Apesar de citadas as dificuldades organizacionais de acesso a
exames e medicamentos solicitados, o transporte para realização de visitas, também
foi enfatizada a importância da conscientização e sensibilização entre a comunidade,
familiares e profissionais para chegar a soluções.
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
(páginas 84-88)