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Profissionais transnacionais: elos do capitalismo transnacional

O capitalismo transnacional do setor de mineração apresen- ta características específicas quanto à incorporação de mão de obra qualificada estrangeira. Diferentemente da indústria petrolífera brasileira, onde há uma presença significativa de quadros quali- ficados não brasileiros, a extração e o tratamento de minérios na

região do Alto Paranaíba caracteriza-se pela presença de profissio- nais qualificados de origem brasileira.

No entanto, parte da formação desses profissionais ocorre no exterior, através de cooperações científicas que envolvem uni- versidades brasileiras e estrangeiras. Quando formados, são con- tratados pelas mineradoras e passam a desenvolver ações no Brasil e nas subsidiárias internacionais.

Durante a formação, é exigido o desenvolvimento de com- petências que permitam uma atuação no nível nacional e trans- nacional, buscando reconhecimento entre setores da elite local e internacional.

No trecho de uma reportagem dedicada ao trabalho do ex- -diretor da CBMM, Tadeu Carneiro, percebemos alguns aspectos tidos como fundamentais do perfil do profissional transnacional:

Mais que apresentar números comprovando a solidez fi- nanceira e a reconhecida capacidade técnico-comercial da empresa, Carneiro impressionou a seleta plateia – for- mada em sua maioria por políticos e empresários – ao mostrar uma face mais humana e solidária da mineração, realmente comprometida com o futuro e consciente de

sua responsabilidade ambiental e social. Uma verda-

deira lição de simplicidade e de reverência às riquezas que brotam do nosso solo, em contraponto à arrogância que, infelizmente, ainda impera em muitas minerado- ras Brasil afora. ‘Se a comunidade não se orgulha de ter a sua empresa como parte dela, de nada adianta obter qualquer licença para operar’ – confirmou o empresário (Morais,2017).

Tal trecho exalta as competências do profissional transna- cional: “Carneiro impressionou a seleta plateia”, “Uma verdadeira

lição de simplicidade e de reverência às riquezas que brotam do nosso solo”. Nessas passagens, notamos o apreço pela eficiência e por uma atitude discreta contrária à ostentação, qualidades impor- tantes do profissional transnacional, esse trabalhador contratado pelas grandes empresas e responsável por implantar a cultura em- presarial.

Aqui, chama-se a atenção para a formação desse profissio- nal desde a universidade até o desenvolvimento de seu trabalho na empresa. Essa mão de obra qualificada não é formada apenas por valores ligados à riqueza material nos bons negócios. Numa pers- pectiva bourdieusiana, o capital econômico deve ser legitimado e mesclado por competências que permitam que o profissional tenha habilidades para lidar com contextos culturais diferenciados, com formas de negociar que são diferentes de país para país.

Num estudo realizado entre profissionais transnacionais atuantes em espaço urbano (Clemente, 2016), identificamos uma produção teórica que lhes recomenda que, para entender a outra cultura, precisam ingressar nela. É necessário, outrossim, man- ter contato com o local através de contatos por vezes artificiais e participar de eventos frequentados pelas elites locais, mas com o objetivo de formar uma competência intercultural que seja útil na relação com um outro que, na maioria das vezes, faz parte de um grupo seleto. Assim, os profissionais transnacionais, nas suas re- lações cotidianas de trabalho, devem pensar em interagir com os segmentos sociais nicho dos investimentos empresariais.

Para domínio dessas competências, os profissionais trans- nacionais investem grandes fortunas em cursos que os capacitem e os dotem de habilidades que permitam seu reconhecimento no mercado internacional.

O mercado dos especialistas internacionais é um mercado elitista, protegido por barreiras discretas mais eficazes.

Para acessá-lo, é necessário dispor de competências cultu- rais (Dezalay, 2004, p. 6).

Tanto para aqueles profissionais internacionais que nasce- ram em grandes famílias empresariais quanto para os de origem média, o investimento em uma educação para a globalização cons- titui algo importante.

A empresa transnacional é outro espaço de produção e re- produção desse poder. Nela trabalha e é produzida, isto é, lapidada, a mão de obra internacional. Entendemos que à empresa transna- cional cabe, por intermédio de sua cultura institucional, modelar o profissional, garantindo que ele mantenha uma criatividade eficaz no atendimento dos interesses empresariais que devem ser concre- tizados nos diferentes mercados nacionais.

Em outra passagem da reportagem da Revista Ecológico, Carneiro fala sobre a história da empresa CBMM e suas contribui- ções na formação de seus especialistas:

Temos orgulho do que vem sendo feito em Araxá e va- mos apresentar aqui parte da nossa história e trajetória, mostrando como criamos o nosso Programa Global em Desenvolvimento Tecnológico. Há 40 anos, o nióbio era apenas uma possibilidade teórica, um sonho de laborató- rio. Partimos do sonho de um grupo de garotos da univer- sidade, ao descobrir que podiam mudar as propriedades da liga metálica do aço, usando apenas gramas de nióbio por tonelada. (...) Desde então, demos início ao desenvolvimen- to do processo para aproveitamento econômico do nióbio, com sua aplicação em diferentes segmentos da indústria, de gasodutos a carros, de grandes estruturas metálicas a tur- binas. Um grande esforço de legitimidade tecnológica para mostrar oportunidades de agregação de valor em toda a ca- deia de suprimento (Morais, 2017).

Não é possível analisar a formação educacional desses pro- fissionais de maneira isolada e deixar de entendê-la como uma di- mensão de um poder transnacional. São investimentos que fomen- tam a reprodução do capital e, por consequência, a afirmação da cultura empresarial.

Em outra passagem da entrevista com o ex-diretor da CBMM na Revista Ecológico, fica evidente a ligação entre formação educa- cional e interesses empresariais:

partimos do sonho de um grupo de garotos da universi- dade, ao descobrir que podiam mudar as propriedades da liga metálica do aço, usando apenas gramas de nióbio por tonelada. [...] Desde então, demos início ao desenvolvimen- to do processo para aproveitamento econômico do nióbio (Morais, 2017).

É fundamental entender que pessoas como Tadeu Carneiro são trabalhadores qualificados empregados de empresas transna- cionais. Essa categoria laboral desenvolveu-se no bojo da inter- nacionalização do capitalismo e solidifica-se com a globalização econômica assente no pequeno número de grandes empresas mun- diais (Clemente e Zanon, 2016).

A elite empresarial, os proprietários de grandes empresas, estão ausentes das turbulências dos mercados. Eles têm a seu dis- por equipes de profissionais transnacionais qualificados, experts de áreas técnicas e gerenciais que diagnosticam, planejam e execu- tam transações e serviços nos principais mercados do mundo.

É com esse tipo de dedicação que a família Moreira Salles, proprietária da CBMM, administra seus negócios com nióbio. Numa reportagem da revista Exame, encontramos partes da his- tória dessa família empresarial que realçam a dependência das corporações transnacionais de seus quadros laborais qualifica-

dos. De acordo com a reportagem de Lucchesi e Cuadros na revis- ta Exame de 13/3/2013:

Em 1965, o Almirante Arthur W. Radford, da Marinha americana, convenceu Walther Moreira Salles, banqueiro brasileiro que já havia sido embaixador nos EUA, a colo- car dinheiro em um empreendimento para produção de nióbio.

Na época, não havia mercado nem uso comercial para o metal em pó – somente estudos sugerindo que pequenas quantidades dele poderiam tornar o aço mais resistente e flexível. Radford era membro do conselho da mineradora Molycorp Inc., que havia adquirido direitos sobre depósitos de nióbio em Minas Gerais e precisava de outro investidor para explorar a mina. Moreira Salles decidiu comprar uma participação majoritária na operação e a aposta deu certo. Hoje, o metal é usado em um décimo de toda a produção de aço mundial, em automóveis, oleodutos e turbinas de avião. Após adquirir gradualmente a fatia da Molycorp, a família produz hoje 85 por cento do nióbio no mundo (Lucchesi e Cuadros, 2013).

A reportagem segue expondo a maneira sigilosa como é de- senvolvido o tratamento do nióbio:

as técnicas da CBMM são guardadas a sete chaves, a ponto de as siderúrgicas asiáticas que compraram participação na empresa – grupo que inclui a chinesa Baosteel Group Corp. e a japonesa Nippon Steel & Sumitomo Metal Corp. – nunca terem recebido permissão para fazer avaliações técnicas (idem).

Ainda na mesma reportagem da revista Exame, Tadeu Carneiro afirma:

“Nós criamos o mercado todo” (Lucchesi e Cuadros, 2013). E a revista explica:

O presidente da empresa foi no passado um dos muitos es- tudantes que receberam bolsas de doutorado da companhia para explorar os usos do elemento, que foi descoberto no século 19. Após a formatura, os bolsistas iam trabalhar na CBMM, aplicando o que aprenderam. (Lucchesi e Cuadros, 2013).

É com essa lógica, ou melhor, com esse espírito capitalista, que profissionais transnacionais como Tadeu Carneiro constroem e fomentam as fortunas dos grandes proprietários.

Haveria outros exemplos a serem analisados nesta apresen- tação, porém, tratando-se de uma temática que atravessa certos se- gredos e condutas sigilosas empresariais, resolvi lidar com dados que circulam na imprensa e que já se tornaram de domínio público.

Entretanto, é necessário enfatizar que os profissionais transnacionais não são somente executivos, como é o caso de Tadeu Carneiro. O segmento também se compõe de técnicos qua- lificados em início de carreira, como biólogos, geólogos, hidrogeó- logos, agrônomos, que frequentemente estabelecem contato com as comunidades vizinhas de suas empresas, desenvolvendo traba- lhos de educação ambiental, palestras e atividades de orientação profissional.

Inclusive, algumas das práticas de sustentabilidade e de res- ponsabilidade social desenvolvidas pelas empresas atuantes na Mesorregião do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba parecem susci- tar nas comunidades locais níveis de receptividade e positividade.

Sem dúvida isso é importante e demonstra o reconhecimento das comunidades pelas empresas.

No entanto, é também perceptível uma busca cautelosa de interação por parte das comunidades quilombolas da região e tam- bém de outras comunidades rurais com as mineradoras. É preciso cautela, já que os empreendimentos empresariais são na maioria das vezes vistos pelas comunidades tradicionais em geral como investimentos que geram muitas desordens de vários níveis: ter- ritoriais, econômicas, culturais e simbólicas. São ocupações que se dão sem um planejamento que contemple a visão das comunidades. Muitas populações rurais ou urbanas têm noção de que o mesmo capital que gera empregos, que ergue coisas belas, também as des- trói. Por isso as comunidades também se organizam e buscam for- mas de fazer valer seus interesses.