CAPÍTULO 5. AS QUESTÕES AMBIENTAIS E O DESENVOLVIMENTO DA
5.2 AS QUESTÕES AMBIENTAIS E AS ALTERAÇÕES PROVOCADAS
5.2.2 Programa Agricultura de Baixo Carbono – ABC
Talvez no futuro possa afirmar que a criação do Programa ABC foi um marco, um ponto de bifurcação das políticas públicas para os créditos rurais no Brasil. Conforme a Circular SUP/AGRIS Nº 15 (2012), o programa ABC criado e implementado inicialmente em 2009 e possui uma estratégia diferenciada na forma de analisar as atividades de uma propriedade rural. Diante da normatização do programa ABC, a propriedade rural passa a ser observada de forma abrangente. Cabe ressaltar que praticamente todas as linhas até então instituídas foram destinadas para atividades isoladas. Seja para uma cultura apenas, uma prática como a recuperação química do solo, ou um investimento específico. O programa ABC apresenta a necessidade de pensar e entender toda a propriedade rural e a partir deste diagnóstico, propor através de projeto técnico alterações necessárias.
Um grande avanço talvez ainda não compreendido por grupos de interesse, mas tem em suas premissas a possibilidade de uma abertura dos horizontes da produção rural para pensar o todo da propriedade rural. Analisar potenciais de produção, áreas que devem ser preservadas e ações que podem resultar em aumento da produtividade e contribuição para a sustentabilidade. Conforme a Circular SUP/AGRIS N° 15 (2012), o programa possui grandes atrativos para o agricultor, respeitando as preocupações ambientais. São estes os objetivos do programa ABC:
- Reduzir as emissões de gases de efeito estufa oriundas das atividades agropecuárias;
- Reduzir o desmatamento;
- Aumentar a produção agropecuária em bases sustentáveis;
- Adequar as propriedades rurais à legislação ambiental;
- Ampliar a área de florestas cultivadas;
Diante dos objetivos observa-se que todos possuem uma ligação direta com as questões ambientais. Destaque para o objetivo quarto que visa adequar as propriedades rurais àlegislação ambiental. Fica explícito, independente de qual legislação estiver vigente, a necessidade da adequação para a possibilidade do acesso ao programa de financiamento. Os beneficiários do programa são produtores rurais, tanto pessoa física e ou empresários do setor e as cooperativas destes, podendo repassar os valores a seus associados. Destaque importante para os empreendimentos financiáveis:
- Recuperação de áreas e pastagens degradadas;
- Implantação de sistemas orgânicos de produção agropecuária;
- Implantação e melhoramento de sistemas de plantio direto "na palha";
- Implantação de sistemas de integração lavoura-pecuária, lavoura-floresta, pecuária- floresta ou lavoura-pecuária-floresta;
- Implantação, manutenção e manejo de florestas comerciais, inclusive aquelas destinadas ao uso industrial ou à produção de carvão vegetal;
- Adequação ou regularização das propriedades rurais frente à legislação ambiental, inclusive a recuperação de reserva legal e de áreas de preservação permanente, bem como o tratamento de dejetos e resíduos, entre outros;
- Implantação de planos de manejo florestal sustentável;
- Implantação e manutenção de florestas de dendezeiro, prioritariamente em áreas produtivas degradadas.
Ainda conforme a Circular SUP/AGRIS N° 15 (2012), é possível financiar os seguintes itens:
93
- Elaboração de projeto técnico e georreferenciamento das propriedades rurais, inclusive despesas técnicas e administrativas relacionadas ao processo de regularização ambiental;
- Assistência técnica necessária até a fase de maturação do projeto;
- Realocação de estradas internas das propriedades rurais para fins de adequação ambiental;
- Aquisição de insumos e pagamento de serviços destinados a implantação e manutenção dos projetos financiados;
- Pagamento de serviços destinados à conversão para a produção orgânica e sua certificação;
- Aquisição, transporte, aplicação e incorporação de corretivos agrícolas (calcário e outros);
- Marcação e construção de terraços e implantação de práticas conservacionistas do solo;
- Adubação verde e plantio de cultura de cobertura do solo;
- Aquisição de sementes e mudas para formação de pastagens e florestas;
- Implantação de viveiros de mudas florestais;
- Operações de destoca;
- Implantação e recuperação de cercas; aquisição de energizadores de cerca;
- Aquisição de bovinos, ovinos e caprinos, para reprodução, recria e terminação, e sêmen dessas espécies, limitada a 40% (quarenta por cento) do valor financiado;
- Aquisição de máquinas, implementos e equipamentos novos de fabricação nacional para a agricultura e/ou pecuária, limitada a 40% (quarenta por cento) do valor financiado;
- Construção e modernização de benfeitorias e de instalações, na propriedade rural;
- Serviços de agricultura de precisão, desde o planejamento inicial da amostragem do solo à geração dos mapas de aplicação de fertilizantes e corretivos;
- Despesas relacionadas ao uso de mão de obra própria, desde que compatíveis com estruturas de custos de produção regional (coeficiente técnico, preço e valor), indicadas por instituições oficiais de pesquisa ou de assistência técnica (federal ou estadual), e desde que se refiram a projetos estruturados e assistidos tecnicamente, admitindo-se, nessa hipótese, que a comprovação da aplicação dos recursos seja feita mediante apresentação, ao Agente Financeiro, de laudo de assistência técnica oficial atestando que o serviço, objeto de financiamento, foi realizado de acordo com o preconizado no projeto, devendo o mencionado no laudo ser apresentado pelo menos uma vez a cada semestre civil.
Ainda o programa de financiamento ABC possui características atrativas, como o limite de até um milhão de reais por agricultor com prazo de até 180 meses para pagamento e taxas de juros de 5,5% ao ano, com uma carência de até 24 meses para começar a pagar. Outro importante fator é que o limite é de um milhão de reais por beneficiário por ano safra é concedido independente de outros créditos já tomados pelo agricultor em outras linhas de financiamento.
5.3 O IMPACTO DOS MECANISMOS DE FINANCIAMENTO NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DA AGRICULTURA NO MUNICÍPIO DE INDEPENDÊNCIA/RS
Conforme se observa, a agricultura no município de Independência possui um quadro evolutivo baseado nas interferências humanas resultadas de políticas públicas de
95
mecanização, tecnificação e intensificação da produção em larga escala. Os resquícios daquela agricultura encontrada pelos “novos” agricultores foram rapidamente alterados e incorporados em outras formas de atuação. Rapidamente a produção para a manutenção familiar deixa de ser a prioridade para a produção de grãos destinados à venda. Neste sentido, as políticas públicas vieram e provocaram grandes interferências.
O crédito agrícola foi determinante para as mudanças realizadas a partir de 1950. Com recursos abundantes e os juros negativos,foi possível preparar a terra para o uso de máquinas. A derrubada da mata, retirada das raízes e até o nivelamento foi possível graças a estes recursos subsidiados pelo ente público. As mudanças foram intensificadas até a década de 1970, com o auge de mecanização e o pleno estabelecimento da cultura da soja. Este oleaginosa cultivada no verão e o trigo ainda implantado no inverno fizeram a mudança acontecer rapidamente.
O granjeiro veio cultivar em grandes áreas, locando algumas e comprando outras. Seu acesso facilitado ao crédito pelos negócios e conhecimento das instituições financeiras foi decisivo para as intervenções no campo. Aos agricultores mais destemidos e persistentes conseguiram também o acesso ao crédito rural e provocaram grandes mudanças na produção de alimentos apenas para o consumo, mas também na produção de grãos para a venda.
Quando a soja chega aos campos, viabilizada pela correção da acidez do solo, adubação química e controle de pragas e doenças, o município de Independência entra no ciclo virtuoso de alta receita e apoderamento de capital de seus munícipes. Como um município essencialmente agrícola, este crescimento comercial foi denominado de “o ouro verde”. A mudança no campo havia acontecido, as terras altamente produtivas, foram capazes de levar a compra de bens de consumo como eletrodomésticos, instalação de luz elétrica, compra de automóveis e até ao pagamento de cursos técnicos e universitários aos filhos.
De acordo com entrevistados, nos encontros de finais de semana nas comunidades era interessante observar a quantidade de carros existentes. Agricultores com 20 hectares de lavoura conseguiram comprar tratores, todos os equipamentos, colheitadeiras e ainda carros para a família. Modelos como Brasília, Variant, Corcel e D10 foram chegando ao meio rural.