5. AS POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS NA GUINÉ-BISSAU: A POLÍTICA
5.7 PROGRAMA DE CANTINA ESCOLAR:
O Programa cantina escolar é uma das políticas públicas educacionais voltadas para a questão de acesso e permanência das crianças desde o pré-escolar até o 9º ano (Lei de cantina escola, 2019). No momento o programa está atuando só nos dois primeiros ciclos do ensino básico. Além de pensar na retenção das crianças para poderem terminar esses dois ciclos com qualidade ainda tem um foco direcionado à permanência
das meninas (equidade de gênero). Por que a permanência das meninas? Os dados de gabinete de estatística do Ministério da Educação apontam que os meninos têm mais chances em terminar os seus estudos em relação às meninas, isso deve-se por vários fatores como, por exemplo, cultural e social, onde as meninas são vistas como condutoras da vida familiar, sendo elas que preparam almoço e cuidam da casa. Enquanto que os meninos sobre tudo os da cidade/zona urbana praticamente passam maior parte do seu tempo em estudar e nas atividades de lazer como, por exemplo, praticar futebol entre outros. Segundo o plano setorial da educação (2017) no que toca ao acesso e a conclusão entre gêneros entram 80% dos meninos e conseguem terminar 72% enquanto que as meninas entram 75% e só consegue terminar 48%, um diferencial enorme. Como pode se constar no acesso a diferença é de cinco pontos, mas já na conclusão é de 24%. Outro aspeto tem a ver com a oportunidade do serviço escolar, ou seja, de continuidade. Segundo ainda o mesmo documento, no total das escolas a nível nacional só 25% consegue ofertar as classes completas do primeiro e segundo ciclo do ensino básico, quer dizer de primeiro a sexto ano. Os alunos são obrigados a se deslocarem para outras escolas ou até para outra região para poderem dar continuidade aos seus estudos. Esse processo de deslocamento é um dos fatores de abandono escolar que, por outro lado tem mais impacto nas meninas do que em relação aos meninos, pelos motivos já citados acima.
Outros dados importantes são em relação ao acesso e conclusão em função à localidade de residência: as crianças que vivem no meio urbano e as do meio rural. O estudo revela que em relação ao acesso, 91% das crianças na zona urbana conseguem ter acesso e 79% concluem. Enquanto as de zona rural só 66% conseguem ter acesso à escola, e desses só 40% concluem os estudos. A diferença não só existe no que toca ao acesso, mas assim como na conclusão dos estudos. Além desses fatores temos ainda a entra tardia na escola. Segunda a Lei de Base do Sistema Educativo no seu artigo 13º, ponto dois, a idade normal para ingressar ao ensino básico é de 6 anos de idade, só que isso não se verifica por muitos motivos, por exemplo, a não existência das escolas nas proximidades das aldeias. Uma criança de 6 anos não pode caminhar mais que 3km para poder assistir às aulas e por cima sem ter o que comer. (PSE, 2017)
Segundo o diretor geral dos serviços de cantina escolar, entrevistado I, o projeto de alimentação escolar é uma prática que começou logo após a independência do país, com a criação dos internatos (escolas que alojavam os alunos). O programa teve seu início
durou muito os internatos começaram a se extinguir e a gerência dos gêneros alimentícios foi passada para um gabinete que era tutelado pela direção geral de planificação e projetos, mas que acabou por ser extinto em 1997. Após a extinção do gabinete continuou-se outros programas de apoio à alimentação escolar através do Instituto Norte Americano de Parceria Internacional de Desenvolvimento Humano com sigla em inglês (IPHD), que foi um parceiro do Ministério da Educação Nacional logo após a Guerra Civil de 1998. Em 2010 o governo decidiu a retomada do programa cantina escola visando dar uma alimentação saudável às crianças enquanto direito como uma das políticas que visa o aumento de inscrição e permanência das crianças no ensino básico como já vinha expondo.
O programa cantina escolar é tutelado pela Direção Geral dos Assuntos Sociais e de Cantina Escolar (DGASCE), a direção é um órgão técnico operativo do Ministério da Educação Nacional com atribuições de executar e acompanhar a política do Ministério da Educação no que concerne aos assuntos de cantina escolar (Lei de cantina escolar, 2019). Para seu funcionamento o programa cantina escolar conta com a colaboração de uma comissão interministerial. Os ministérios são: Ministério da Educação Nacional, Ministério da Saúde, Ministério da Mulher, Família e Coesão Social, Ministério dos Recursos Naturais, Ministério da Agricultura, Ministério das Finanças, Secretaria do Estado de Plano e Integração Regional e parceiros de desenvolvimento. (Manual da cantina escolar, 2010)
O programa da cantina escolar está assentado em quatro objetivos principais: a) estimular a matrícula e assistência diária dos alunos e sobretudo das raparigas (meninas) nas escolas primárias; b) incentivar assiduidade diária de alunos, combatendo assim o absentismo escolar; C) fortalecer as capacidades físicas e intelectuais dos alunos de forma a torná-los mais atentos ao processo de ensino e aprendizagem; D) incentivar a participação das comunidades em geral e dos pais em particular nas atividades da escola. Com intuito de atingir esses objetivos o governo fez uma cooperação com o Programa Alimentar Mundial (PAM) que ajuda no fornecimento de materiais para o funcionamento do programa. É ofertada uma refeição diária aos alunos no momento de recreio. Além dessa refeição é dado no final de cada mês uma quantia de gêneros alimentícios (sexta básica) para as meninas que atingirem 80% de presença. Essa é uma das formas de estimularem aos pais que deixem as suas filhas irem para escola.
Segundo o diretor de serviços o programa cantina escolar atualmente faz cobertura de quase 100% das regiões com a exceção do setor autônomo, que é a capital do país.
Conta com um total de setecentos e cinquenta e oito escolas (758 escolas) divididas em oito regiões e um total de cento e setenta e três mil e quinhentos e noventa e dois alunos (173.592 alunos), por sua vez divididos por sexo, onde noventa e um mil e novecentos e setenta e oito (91.978) são meninos e oitenta e um mil e seiscentos e catorze (81.614) são meninas como pode ser constatada no quadro abaixo. Esse número é da evolução do programa desde sua reativação até o presente momento.
Figura 2: Regiões e escolas beneficiárias de programa cantina escolar
Fonte: Prestação da cantina escolar (PowerPoint) 2017/2018
No quadro pode se observar que as regiões mais beneficiadas são: Bafatá com 181 escolas e num total de 32.734 alunos, seguida da região de Óio com 155 escola e 36.064 alunos, depois vem a região de Cacheu com total de 119 escolas e 32.850 alunos, a quarta região é Gabú com 108 escolas 23.725 alunos. As escolas nesse caso não são totais por região, mas sim as que participam do programa cantina escolar. No entanto, a admissão da escola no programa de cantina escolar faz-se mediante alguns critérios. Os critérios estipulados no manual da cantina escola são: I) a criação da escola deve ser de iniciativa da comunidade e ter o apoio e participação ativa desta comunidade no
funcionamento da escola; II) a escola deve reunir as condições mínimas no início do programa nomeadamente: armazém para conservação de gêneros alimentícios e outros artigos não alimentares, cozinha, assegurar cozinheiro/a, água potável e casa de banho, e por último III) ter no mínimo 50 crianças.(Manual de cantina escolar, 2010).
O programa cantina escolar passou por momentos que obrigou a direção de então (2003 a 2009) mudar as estratégias de funcionamento, porque estava tendo muito desvio de procedimentos e de gêneros alimentícios. Para o diretor de IPHD, estes problemas obrigaram a criação da associação dos pais e encarregados da educação que passou a ser um forte aliado na criação e implementação das políticas educacionais hoje no país.
Grandes problemas que nós encontramos é que aqui na Guiné-Bissau como sabe tem falta da lei, e no início ouve violação em termos de gestão dos produtos e nós fomos obrigados um bocadinho as nossas estratégias de intervenção, passou se mais a responsabilidade ao ministério da educação, passou se a dar mais formação ao pessoal do terreno quer dizer aos beneficiários aos responsáveis da cantina escolar e em termos de estratégias promovemos a criação de associação dos pais e encarregados da educação, por que? Entendemos por bem se termos mais intervenientes a nível da gestão da escola tem menos possibilidade da corrupção, temos menos possibilidade da autonomia única, uma única direção ter controle de tudo que é da escola e um outro aspecto que a comunidade sentisse que as escolas lhes pertencem que os saberes das crianças dependem de uma parte deles participar da vida escolar delas. A família tem grande impacto não só ajuda na organização da escola, mas também apoia o filho a ter uma participação na escola. Depois da criação da associação dos pais e encarregados da educação criamos comitês de gestão de programa cantina escolar. Os comités eram compostas de pessoal da direção da escola, dos representantes da associação dos pais e encarregados e mais pessoal da comunidade que entendem que as escolas lhes pertencem e deviam participar da construção e promovemos a criação do comitê interministerial de apoio a cantina escolar. (Entrevistado I, 2019)
Os desvios de procedimento podem ser vistos como um dos problemas que o programa enfrentou nesse período. Esse comportamento enquadra-se no que pode ser dito de banalização do Estado, o que é do Estado não precisa ser cuidado. Por outro lado, nota-se que o programa não fez a comunidade se sentir como parte integrante da comunidade escolar. A escola está na comunidade, mas era como algo que não fazia parte do cotidiano dos membros da mesma.
Abaixo, de forma sumária apresento o programa cantina escolar desde os critérios de seleção das escolas e o seu propósito através de uma imagem.
Figura 3: Retrato de programa nacional de cantina escolar
Fonte: Manual de Cantina escolar, p.03
5.8 DADOS ESTATISTICOS SOBRE ACESSO E PERMANÊNCIA NO SISTEMA DE