O programa está dividido em três unidades lectivas: a primeira concebe-se simultaneamente como uma introdução/sensibilização ao tema e como um lançar dos fundamentos hermenêuticos para a abordagem das questões mais específicas tratadas na segunda e na terceira unidades lectivas. Os conteúdos da primeira unidade lectiva são de cariz obrigatório, isto é, leccionados em todas as edições dos Estudos de Género.
Os conteúdos das segunda e terceira unidades lectivas, apresentados sumariamente na primeira aula, são abordados de acordo com a escolha das e dos estudantes, procedendo-se, para tal, nesta mesma aula, a uma selecção dos tópicos dos mesmos que as alunas4 gostariam de ver abordados em aula. Por vezes, os trabalhos destas aprofundam tópicos tratados nas sessões. Outras vezes, abordam tópicos não leccionados, mas incluídos no temário e escolhidos pelas mesmas para os seus trabalhos.
Os conteúdos das segunda e terceira unidades lectivas procuram proceder a uma reflexão sobre a realidade portuguesa baseada nos fundamentos teóricos abordados na primeira unidade. Insistirei, portanto, na segunda e na terceira unidade em referências a estudos sobre a realidade portuguesa.
Dado que a unidade curricular de Estudos de Género se insere num segundo ciclo de estudos, procuro conciliar a perspectiva panorâmica (necessária a uma primeira abordagem sistematizada das temáticas que lhe são próprias) com o trabalho aprofundado sobre textos, mais típico de uma leccionação em que os alunos já estão numa fase de sistematização progressiva de conhecimentos e de análise crítica.
Os textos e ligações com dados quantitativos apresentam a situação conhecida à altura da elaboração do presente relatório. Pretendo sobretudo tornar patente a estrutura programática adoptada em cada sessão. Esta será mantida no futuro. Os dados, obviamente, serão actualizados.
Assim, na primeira unidade lectiva, intitulada Introdução geral aos estudos de
género (à qual correspondem dois créditos), introduzo a temática do curso, nomeadamente,
através da apresentação do conceito fundamental subjacente ao próprio título da unidade
4 No relatório das sessões passarei a utilizar o feminino, visto que, ao longo dos anos de leccionação da unidade
curricular: o conceito de género, distinto do conceito de sexo. Procuro, em seguida, fazer um breve historial dos movimentos de mulheres, traçando o perfil dos principais movimentos feministas posteriores à revolução industrial, bem como das suas causas fundamentais. Assumo a metodologia da investigação histórica feminista, ou da historiografia das mulheres, cujo objectivo é tornar a mulher visível como actora da história. Porque a pertinência e relevância dos movimentos de mulheres se torna mais clara se enquadrada na história das mulheres, em geral, faço um brevíssimo percurso pela história das mulheres e das mentalidades acerca das mulheres no Ocidente. Segue-se uma breve apresentação do percurso hermenêutico-filosófico dos estudos de género, isto é dos estudos que procuram examinar os sistemas de género, construídos socialmente, e evolutivos, ao longo da história, e que distinguem os papéis masculinos dos papéis femininos. Abordo, então, as questões da epistemologia da igualdade e da diferença – as questões de identidade, retomando os debates entre as várias correntes dos feminismos da primeira e da segunda geração, nomeadamente, no que diz respeito ao feminismo da igualdade e ao feminismo da diferença. Por fim, abordo sumariamente as tendências epistemológicas pós-modernas nos estudos de género: as questões do chamado ―feminismo da terceira geração‖, nomeadamente, da multiplicação das diferenças significantes ou da indiferenciação sexual. Afloro ainda brevemente a temática dos ―estudos queer‖. Por fim, equaciono as questões das desigualdades e estereótipos de género à luz da psicologia social e da antropologia.
Na segunda unidade lectiva, intitulada Género em contexto – “impactos privados” (à qual correspondem dois créditos) procuro equacionar temáticas tidas tradicionalmente como sendo do foro privado, mas tomando como ponto de partida a percepção resultante dos estudos feministas de que ―o privado é político‖, isto é, que as relações de género estabelecidas no espaço privado, na família, na intimidade, reproduzem, mas também produzem as relações de género no domínio público, fazendo feedback das mesmas e alimentando velhos e novos comportamentos neste espaço. Assim, inicio a unidade lectiva com as “transformações da intimidade”, isto é, com uma referência às alterações ao ―contrato privado‖ resultantes da mudança dos estilos de vida (na perspectiva de Anthony Giddens). Em seguida, abordo as questões da sexualidade e reprodução, nomeadamente, das alterações resultantes do surgimento de meios de controlo da natalidade, e das associações e dissociações entre a feminilidade e a maternidade. No tópico sobre a família e papéis de género discuto a perpetuação de papéis de género e a alteração de padrões decorrente da
alteração socioeconómica aos estilos de vida. A unidade lectiva termina com a questão da violência contra as mulheres em contexto doméstico. Neste tema, multifacetado, de charneira entre o público e o privado, e a necessitar de um olhar multidisciplinar (antropológica, psicológica e sociológica), procuro proceder a uma análise do plano nacional de luta contra a violência.
Na terceira unidade lectiva, intitulada Género em contexto – “impactos públicos”
(à qual correspondem dois créditos), procuro abordar a dimensão pública das questões de género, nomeadamente, os lugares que as mulheres ocupam nas infraestruturas sociais e culturais, bem como nos discursos e práticas das mesmas. Assim, trato das temáticas do género, democracia e participação política (os direitos de cidadania das mulheres, a lei da paridade, as formas de participação das mulheres); género, economia e globalização (impactos sobre as mulheres); género e trabalho (desigualdades de género no contexto do emprego; conciliação entre a família e o trabalho, desemprego no feminino); género e migrações (as mulheres na migração, as mulheres ―que ficaram‖, novas formas de xenofobia relacionadas com os direitos das mulheres); género e educação (coeducação, desequilíbrios entre habilitações e lugares de topo); género e meios de comunicação social (imagens e papéis veiculados pela comunicação social); género e artes (as mulheres na arte, como objecto e como sujeito) e, por fim, género e religiões (papel emancipador e de submissão das religiões nos movimentos de mulheres).
O presente relatório apresentará de forma mais desenvolvida os temas já tratados em aula, ao longo das várias leccionações da unidade curricular de Estudos de Género, a saber:
- Primeira Unidade lectiva: todos os temas (unidade obrigatória);
- Segunda unidade lectiva: As ―transformações da intimidade‖; Sexualidade e Reprodução; Família e papéis de género; Violência Doméstica;
- Terceira unidade lectiva: Género, democracia e participação política; Género, economia e globalização; Género e trabalho; Género e educação; Género e meios de comunicação; Género e religiões.
Depois de apresentado o relatório das sessões leccionadas, farei uma breve súmula dos temas previstos como possibilidade de escolha, mas que ainda não foram alvo de selecção pelas estudantes que já frequentaram a unidade curricular.
3. Objectivos e competências a desenvolver na unidade curricular