3.3 As Entidades Ecumênicas de Serviço como uma alternativa ecumênica
3.3.2 A fundação do CEDI: por um ecumenismo libertador e uma libertação ecumênica
3.3.2.1 Programa de Assessoria à Pastoral Protestante
O programa de assessoria e apoio à ação pastoral das igrejas protestantes teve sua origem a partir do peso social que os evangélicos começaram a ganhar no Brasil e a partir do desenvolvimento das contradições intrínsecas ao campo religioso protestante, que provocava o “surgimento de igrejas e grupos preocupados com a necessidade de um engajamento sócio- político mais pronunciado através de uma prática pastoral pertinente à realidade brasileira”435. Essa prática pastoral, que constituiu-se em torno à articulação dos grupos protestantes,
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Cf. CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO. Ata número cinco da assembléia
geral ordinária do Centro Ecumênico de Documentação e Informação. Rio de Janeiro: Livro de Atas do
CEDI, 29 de março de 1978, p. 19. Essa mesma ata mencionou a realização de um “plano de Execução de Projetos de Encontros de Agentes de Pastoral Popular” com o CEAS, sob o patrocínio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). A ata também mencionou uma solicitação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para que o CEDI apresentasse comentários sobre o documento-consulta da III CELAM.
433 CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO. O CEDI hoje: os programas de trabalho e assessoria do CEDI, p. 9.
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Jether Pereira RAMALHO; Zwinglio Mota DIAS. CEDI – Uma ousada experiência ecumênica, p. 7. 435
CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO. Pastoral protestante. Programa de assessoria e apoio à ação pastoral das Igrejas. Tempo e Presença, Rio de Janeiro, n. 192, 1984, p. 10.
sobretudo informais e com mútuas afinidades no campo teológico-pastoral e ideológico, tinha por objetivo a troca de experiências e a análise crítica da prática, pleiteando, ao mesmo tempo, a produção de conhecimento e o recrudescimento da perspectiva ecumênica. A proposta do programa destinava-se, prioritariamente, aos segmentos minoritários alocados nas igrejas do protestantismo de missão, o que não excluía, evidentemente, segmentos oriundos de outras denominações. Tais setores minoritários das instituições protestantes eram compostos pelos “agentes” das igrejas, isto é, pastores e pastoras, seminaristas e lideranças leigas, dispostos a sintonizar suas práticas evangélicas com aquilo que teologicamente se denominava os “sinais do reino”436.
Evidentemente, este programa era caudatário da história de engajamento político- social, que levou setores do protestantismo brasileiro à ruptura com suas igrejas, que, por sua vez, passaram a ser lideradas por setores ultraconservadores. Entretanto, à medida que as décadas plúmbeas passavam e os sinais políticos de abertura democrática apareciam, também as estruturas das igrejas protestantes, sensíveis ao poder constituído, começavam a demonstrar algumas alterações. Os protestantes que constituíam o quadro do CEDI sentiram-se desafiados a atuar de maneira mais próxima às igrejas, principalmente entre aquelas que possuíam maior abertura ecumênica através de sua filiação ao CMI. Inicialmente, o Programa de Assessoria à Pastoral Protestante intentou atuar apenas junto a grupos informais, que possuíam uma intenção ecumênica explícita. Diversos grupos eram reunidos em diferentes localidades do país para compartilhar experiências e informações, refletir sobre temas teológicos, discutir o cenário sócio-político do país e realizar celebrações. Por meio do periódico Aconteceu no Mundo Evangélico, foram publicadas diversas notícias que expressavam uma prática e um referencial catalisadores entre todos aqueles que pleiteavam a possibilidade de formação de um protestantismo ecumênico. O periódico, por meio do desenvolvimento da assessoria, aos poucos foi sendo reconhecido, servindo inclusive como veículo da secretaria regional do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI).
Também constituía um dos objetivos da Pastoral Protestante do CEDI investir na publicação de devocionários que subsidiassem o estudo da Bíblia, uma vez que o tema da espiritualidade sempre constituiu um dos eixos centrais da religiosidade protestante, sobretudo no Terceiro Mundo. Neste sentido, foram publicados alguns textos de autoria de Rubem Alves, que tiveram várias edições. Uma das ênfases do programa consistia em resgatar a história de militância ecumênica na América Latina e no Brasil, amplamente desconhecida
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José BITTENCOURT FILHO. Documento para a assembléia do CEDI – n. 1. Relatório de atividades. Rio de Janeiro: Arquivo de Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço, mimeografado, janeiro de 1987, p. 7.
entre as igrejas do protestantismo brasileiro, ressaltando a importância da Conferência do Nordeste, do movimento ISAL e do pensamento teológico inovador de Richard Shaull437. Além de colaborar com várias Entidades Ecumênicas de Serviço, o CEDI, por meio do programa de Assessoria à Pastoral Protestante, manteve contato freqüente (e, às vezes, colaboradores comuns) com organizações como o Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER), o Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização Popular (CESEP), o Centro Brasileiro de Estudos Pastorais (CEBEP), além de promover uma aproximação cada vez maior com os órgãos ecumênicos oficiais das igrejas, como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), o CLAI e a CESE. O serviço prestado às igrejas e instituições de educação teológica permitiu que este programa de assessoria, desenvolvido pelo CEDI, funcionasse como elemento de integração entre as diversas experiências pastorais desenvolvidas pelas igrejas. Tal integração, de fato, era significativa, uma vez que a configuração histórica do protestantismo no Brasil ensejou um habitus438 separatista entre as diferentes igrejas, o que tornou, não raras vezes, praticamente impossível uma ação social mais efetiva.
Cabe ressaltar, ademais, que o termo “pastoral” era entendido como uma ação coletiva da igreja, isto é, como o conjunto das ações das igrejas dirigidas a todos os campos em que atuam. Embora, por um lado, o termo “pastoral” fosse uma expressão incomum ao vocabulário do protestantismo brasileiro, sobretudo o de vertente missionária, ele era empregado em sua acepção ecumênica, indicando, além disso, que somente as igrejas possuíam Ação Pastoral, sendo a tarefa do CEDI apenas assessorá-la e apoiá-la439. Por outro lado, deve-se enfatizar que o programa do CEDI, alicerçado sobre o propósito de contribuir
437 CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO. Pastoral protestante. Programa de assessoria e apoio à ação pastoral das Igrejas, p. 11: “O hiato criado após 64 fez com que as novas gerações das igrejas praticamente desconheçam a riqueza do pensamento protestante ecumênico produzido nas décadas de 50, 60 e início dos 70, sob muitos aspectos pioneiro e renovador. Os teólogos e pensadores evangélicos ligados ao movimento e entidades ecumênicas de serviço em toda a América Latina, indubitavelmente, foram os precursores da Teologia da Libertação”.
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O termo habitus deve ser entendido de acordo com a teoria desenvolvida por Pierre Bourdieu, que o define como um “sistema das disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias características de um grupo de agentes” (Pierre BOURDIEU. A economia das trocas simbólicas. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 191).
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CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO. Pastoral protestante. Programa de assessoria e apoio à ação pastoral das Igrejas, p. 12: “O Programa estrutura-se da seguinte forma: há uma Equipe Central, composta por pessoal ligado funcionalmente ao CEDI e alguns companheiros evangélicos cuja vinculação específica ao CEDI situa-se em outros Programas e Setores com funções executiva e coordenadora; há também uma Equipe Nacional, composta por pessoas convidadas que representam denominações, instituições e entidades evangélicas, que funciona como uma espécie de ‘Conselho Consultivo’, informando sobre as ênfases e estratégias dos seus respectivos contextos e fornecendo opiniões acerca do planejamento de trabalho anual. As reuniões dessa Equipe são também oportunidades de reflexão profunda sobre temas previamente escolhidos pelo coletivo. Por fim, há os Núcleos Regionais, equipes de agentes de diversas denominações, cujo propósito é disseminar a proposta, ampliar contatos, distribuir publicações e organizar eventos, segundo as demandas das áreas em que se encontram”.
para a consolidação de um protestantismo que privilegiasse a “construção de um novo homem e de uma nova sociedade igualitária e democrática”, indicadora do “domínio da vontade de Deus sobre todas as coisas”, foi intensificado com a criação de uma linha programática denominada “Formação de Quadros” que, além de pleitear a formação propriamente dita, sobretudo nas áreas pertinentes à práxis religiosa protestante, destinava-se também à conversão de cada encontro num “espaço de convivência fraterna, troca de experiências e cultivo de uma espiritualidade condizente com a nova proposta pastoral”440. Fato é que o programa de “Formação de Quadros” articulado pelo CEDI intentava a promoção de “atividades de desenvolvimento de determinadas habilidades técnicas e informações junto aos profissionais da instituição”, objetivando o seu “aprimoramento técnico e político enquanto trabalhador dentro dos objetivos do CEDI”. Para atingir tal objetivo, o grupo voltava sua atenção constantemente ao “aprimoramento e à agilização dos setores de serviços no sentido do estabelecimento de políticas para cada setor e qualificação do seu trabalho”, objetivando alcançar uma “situação de adiantamento sobre as necessidades previstas”441. O grupo também intentava a “ampliação dos quadros de gestão e coordenação política do CEDI”, bem como o “desenvolvimento de uma política de estágios no sentido de absorção de novos quadros” e o “aprimoramento do fluxo de informações”, que pleiteava, por seu turno, uma maior compreensão e participação de todos na vida da instituição. Não obstante, as atividades de formação desenvolvidas pelo CEDI eram concebidas de maneira ampla e não apenas como atividades “escolares”, como cursos, leituras, seminários e palestras. Antes, as atividades de formação compreendiam também os estágios, visitas, oficinas de trabalho e outras formas de serviço442.
Outra linha programática do programa de “Assessoria à Pastoral Protestante” do CEDI era a da “Comunicação”, que incluía o periódico Aconteceu no Mundo Evangélico, selecionando notícias de acordo com o perfil ecumênico que caracterizava a instituição e “servindo como instrumento de contra-informação no meio inflacionado de informações com origem tendenciosa”. Esse informativo do CEDI atendia aos agentes e lideranças em regiões interioranas do país, fornecendo novos subsídios no campo da informação a diferentes grupos, e buscando apoiar aqueles que, distantes dos grandes centros, lutavam por diferentes alternativas de informação. A publicação Aconteceu no Mundo Evangélico, além de oferecer atualizações aos leitores sobre temas conjunturais do cenário sócio-político e religioso
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José BITTENCOURT FILHO. Documento para a assembléia do CEDI – n. 1. Relatório de atividades, p. 7. 441
Sérgio HADDAD. Programa de Formação de Quadros. Rio de Janeiro: Arquivo de Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço, mimeografado, 21 de julho de 1988, p. 1.
nacional, transformou-se também num canal de uma proposta de renovação hinológica, considerada pelo grupo como uma estratégia eficiente para a “renovação do discurso e da mentalidade vigentes nas organizações societárias das Igrejas locais”. A postura peculiar de trabalho do CEDI, sobretudo no tocante à formação de quadros, ampliava seu horizonte à medida que privilegiava um “ecumenismo de base” e apostava também na “autonomia dos movimentos populares”, transformando-se, assim, “num feitor de renovação para Entidades coirmãs”, principalmente aquelas que atuavam em uma “faixa eclesiológica mais restrita”. A linha programática que recebeu o nome de “Documentação”, por sua vez, ocupava uma posição chave na articulação do programa de “Assessoria à Pastoral Protestante”, uma vez que organizava os resultados das atividades desenvolvidas pelo CEDI e municiava as demais linhas programáticas. Neste sentido, pode-se afirmar que a distribuição de atividades segundo os objetivos das linhas programáticas, inclusive no caso de cruzamentos entre as diversas atividades, permitiu que o programa do CEDI acumulasse “conhecimento inédito sobre seu campo político, expandindo seus horizontes de realização a curto, médio e longo prazos”443.
Uma das conseqüências mais importantes advindas do desenvolvimento do programa de “Assessoria à Pastoral Protestante” foi o desenvolvimento de uma análise conjuntural da caracterização institucional protestante no Brasil444. Fato é que um dos desafios mais notórios que o programa enfrentava era a “direitização” das igrejas no país, que provocava um forte movimento de resistência no interior das comunidades. Isso porque a consolidação do movimento de renovação teológica protestante e terceiro -mundista, as conquistas da pastoral popular e o processo de democratização em vários países latino-americanos provocavam uma acentuada polarização no interior das igrejas, católicas e protestantes. De acordo com o relatório de atividades do CEDI, as cúpulas eclesiásticas, no âmbito protestante, permaneciam sob a liderança de grupos acentuadamente anti-ecumênicos, que usavam “todos os artifícios para conter quaisquer avanços” de uma renovação teológica e pastoral. Esse quadro ainda era intensificado em função da influência das chamadas entidades paraeclesiásticas conservadoras, que aumentavam consideravelmente no país. Isso acarretava conflitos também para as igrejas ecumênicas do protestantismo histórico, que eram invadidas por grupos e tendências conservadores, provocando crises em diversos âmbitos, como na catequese, na educação teológica, divisões nas comunidades, fanatismo religioso e proselitismo agressivo. Não obstante, o confronto ideológico entre os grupos conservadores e os setores ecumênicos
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José BITTENCOURT FILHO. Documento para a assembléia do CEDI – n. 1. Relatório de atividades, p. 8. 444
CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO. Programa de assessoria à Pastoral
Protestante. Relatório. Rio de Janeiro: Arquivo de Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço,
não se explicitava de maneira completa, uma vez que a própria dinâmica da sociedade contribuía para um movimento de resistência cada vez mais organizado. Por outro lado, a própria experiência adquirida pelos setores progressistas do protestantismo latino-americano brasileiro através de sua história de militância ecumênica fez com que esses grupos estabelecessem “táticas e estratégias eficazes contra o caudal reacionário”.
O programa desenvolvido pelo CEDI também atentava para a peculiaridade da práxis pastoral protestante, que, absolutamente, não poderia ser compreendida em conformidade com a pastoral em sua acepção e realização no contexto romano-católico, uma vez que as igrejas protestantes sempre foram minoritárias e marcadamente conversionistas, ao passo que a Igreja Romana permaneceu coextensiva à sociedade e cultura brasileiras. Neste sentido, o grupo do CEDI enfatizava que o cometimento de uma pastoral protestante alternativa, de cunho popular, demandava uma “reflexão profunda e prolongada”, além de “espaços de articulação ao lado de experiências-piloto avaliada segundo critérios rigorosos”. Assim, o papel ocupado pelas Entidades Ecumênicas de Serviço tornava-se indispensável, uma vez que a proposta de realização de uma pastoral alternativa não seria admissível no espaço próprio das igrejas do protestantismo histórico. As prioridades do programa de assessoria desenvolvido pelo CEDI deveriam ser estabelecidas em “consonância com os elementos conjunturais apresentados, na razão direta de suas possibilidades e apesar dos seus limites”. Não obstante, a análise crítica desenvolvida pelo CEDI sobre a práxis pastoral protestante, sobretudo em função de inúmeras informações, debates e reflexões entre o próprio grupo, intercâmbios, categorias e instrumentos de avaliação desenvolvidos, permitiu que a equipe se mobilizasse pela oportunidade de ampliar seu horizonte de trabalho através da inclusão da assessoria à prática pastoral popular católica, extrapolando, assim, os limites e as fronteiras do protestantismo ecumênico e desenvolvendo uma “’leitura’ própria da pastoral como um todo”445.