Mapa 2.4: Crescimento absoluto da segunda residência 2000 2010
1 A PRAIA, O SOL E A CASA: POR UMA GEOGRAFIA DA SEGUNDA
3.4 Programa de Desenvolvimento do Turismo em Sergipe – PRODETUR/SE
No Brasil, os anos de 1990 marcam o período dos maiores investimentos públicos no turismo, especificamente no litoral do Nordeste. A partir do governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), a atividade turística começa a ser vista como “engendradora de processos de desenvolvimento regional e, consequentemente, como instrumento minimizador de (históricas) desigualdades regionais” (CRUZ, 2005, p. 30). Nessa perspectiva, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e do Instituto Brasileiro de Turismo (EMBRATUR) elaboraram em 1991 o Programa de Ação para o Desenvolvimento Integrado do Turismo – PRODETUR31. O Programa objetivou transformar a região Nordeste
em um forte destino turístico nacional e internacional por meio da construção de infraestruturas básicas diversas, tais como aeroportos, rodoviárias, rodovias, saneamento
básico, e o fortalecimento do sistema institucional dos estados e municípios para a gestão descentralizada do turismo (FONSECA, 2005).
O PRODETUR Nordeste, na visão de Cruz (2000), se apresenta como um instrumento normativo que as “faz as vezes” de uma política urbana. Polos de Turismo foram formados nos noves Estados nordestinos para executar o PRODETUR/NE, a saber: Polo São Luís (Maranhão), Polo Costa do Delta (Piauí), Polo Ceará Costa do Sol (Ceará), Polo Costa das Dunas (Rio Grande do Norte), Polo Costa das Piscinas (Paraíba), Polo Costa dos Arrecifes (Pernambuco), Polo Costa Dourada (Alagoas), Polo Costa dos Coqueirais (Sergipe) e Polos Salvador e Entorno, Litoral Sul, Costa do Descobrimento e Chapada Diamantina (Bahia). Todos os polos turísticos são de caráter litorâneo, exceto o polo Chapada Diamantina (BA). O planejamento territorial em polos turísticos equivale a proposta de “polos de desenvolvimento” do economista francês François Perroux (CRUZ, 2000).
Segundo o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), o objetivo da polarização foi fragmentar o espaço em “mesorregiões vocacionadas de maneira estruturada e planejada, através da formação de parcerias que permitam a mobilização e integração dos atores locais envolvidos com a gestão e organização da atividade turística” (BNB, 2014). Em uma ótica geográfica, observa-se que a função turística designada pelo poder público para o litoral do Nordeste desenha territórios nesse espaço. Santos (2008) entende que a funcionalização de fragmentos do espaço corresponde a formação do território.
O PRODETUR/NE executa-se em fases, a saber: PRODETUR/NE I, PRODETUR/NE II e PRODETUR NACIONAL. No PRODETUR/NE I (1994-2005) o programa se desenvolveu a partir de quatro componentes: 1) Desenvolvimento Institucional (DI); 2) Obras múltiplas em infraestrutura básica e serviços públicos; 3) Melhoramento de aeroportos; 4) Estudos e Projetos. Os componentes do PRODETUR/NE II (2006-2012) foram: 1) Fortalecimento da Capacidade Municipal de Gestão do Turismo; 2) Planejamento Estratégico, Treinamento e Infraestrutura para o Crescimento; 3) Promoção de Investimentos do Setor Privado. O PRODETUR Nacional entrou em vigor em 2013 com cinco componentes: 1) Estratégia do Produto Turístico; 2) Estratégia de Comercialização; 3) Fortalecimento Institucional; 4) Infraestrutura e Serviços Básicos e 5) Gestão Ambiental (BNB, 201432).
Na primeira fase do PRODETUR foram investidos no Nordeste US$ 625.966.000,00. É válido mencionar que esse investimento refere-se a soma dos recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), 60% do valor total, com a contrapartida do
Governo Federal e Estadual. A Bahia, o Ceará e Sergipe foram os Estados que mais receberam recursos do PRODETUR/NE I (BNB33, 2006) (Tabela 3.1). Mas a importância do
PRODETUR, para usar as reflexões de Cruz (2000), está menos nos números e mais na capacidade de (re)ordenamento territorial dos Estados.
Tabela 3. 1: Investimento em US$ do PRODETUR/NE I
ESTADO INVESTIMENTO 34 (US$ milhões) % Bahia 215,011 34,35 Ceará 141,767 22,65 Sergipe 50,757 8,11 Alagoas 7,017 6,92 Pernambuco 41,975 6,7 Maranhão 40,943 6,57
Rio Grande do Norte 38,240 6,1
Paraíba 32,783 5,24
Piauí 21,123 3,38
TOTAL 625,966 100
Fonte: BNB (2006)
Em Sergipe, a área de planejamento do PRODETUR/NE foi o Polo Costa dos Coqueirais. Os municípios de Aracaju, Barra dos Coqueiros, Santo Amaro das Brotas, Pirambu, Pacatuba, Brejo Grande, Nossa Senhora do Socorro, Laranjeiras, São Cristóvão, Itaporanga d’Ajuda, Estância, Santa Luzia do Itanhy e Indiaroba compõem o Polo Costa dos Coqueirais (Mapa 3.1).
Na primeira fase, os investimentos foram destinados aos municípios litorâneos. Silva (2012, p. 58) analisa alguns fatores que priorizaram os investimentos nesses municípios, são eles:
a concentração e distribuição do fluxo do aeroporto Santa Maria em Aracaju, a entrada do fluxo rodoviário no litoral sul, por Indiaroba e Estância, além da concentração dos principais produtos turísticos ou roteiros explorados desde a década de 1990, como o roteiro praias de Aracaju, roteiro litoral Norte, destacadamente com o atrativo da Foz do Rio São Francisco e o roteiro litoral sul, com a praia do Saco e o acesso à Ilha da Sogra e à praia de Mangue Seco, na Bahia (SILVA, 2012, p. 58).
O componente obras múltiplas em infraestrutura básica e serviços públicos foram responsáveis por 75% dos investimentos do PRODETUR/NE I em Sergipe nos subcomponentes: saneamento básico, transporte e proteção/recuperação do patrimônio
33 https://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/PRODETUR/Prodetur_ne1/gerados/resultados.asp
34 = compreende investimentos nos componentes do Programa, excetuando-se os custos financeiros
histórico. Nas melhorias em aeroportos foram investidos 17% e no componente Desenvolvimento Institucional foram destinados 8% dos recursos (Gráfico 3.135).
Mapa 3.1: Polo Costa dos Coqueirais
35 É imprescindível mencionar que o cálculo percentual dos investimentos estão baseado nos dados do BNB
Gráfico 3.1: Gráfico dos investimentos do PRODETUR/NE I - Sergipe
Fonte: BNB (2001; 2006)
Em Aracaju, o Sistema Ibura II foi reforçado para melhorar o abastecimento de água. Além de Aracaju, os municípios de Nossa Senhora do Socorro e a Barra dos Coqueiros também foram contemplados com as benfeitorias do Sistema Ibura II. A ampliação em 82 km da rede de abastecimento de água e a implantação de esgotamento sanitário foi realizada na Atalaia Velha, no Povoado Mosqueiro, em Aracaju. Na Barra dos Coqueiros, o sistema de abastecimento de água foi ampliado na Atalaia Nova.
A execução das atividades referentes aos transportes foi realizada em Aracaju e no litoral Sul. A rodovia SE-100 Sul foi duplicada em 800 metros na terceira etapa da Orla de Atalaia, em Aracaju. A rodovia SE-100 litoral Sul foi implantada no trecho SE-318/Terra Caída (Indiaroba), trecho entroncamento Terra Caída divisa com a Bahia, ponte sobre o rio Nangola, atracadouros em Terra Caída e em Porto do Cavalo. Segundo o Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável (PDITS, 2002, p. 04) “a implantação da continuidade da Linha Verde, por meio da SE 100 Sul, com recursos do PRODETUR I, criou um interessante eixo turístico, induzindo o desenvolvimento de atividades por toda a Região Sul do litoral sergipano”. No litoral Sul, também foi ampliada a rodovia SE-214 em Itaporanga D´Ajuda no trecho BR-101/Caueira.
No aeroporto de Aracaju foram realizadas obras de melhorias operacionais e um novo terminal de passageiros foi construído. O turismo está diretamente articulado ao deslocamento. Segundo Cruz (2005, p. 31), as melhorias nos aeroportos do Nordeste tem
47% 18% 10% 17% 7% PRODETUR/NE I – SERGIPE (1996-2005) SANEAMENTO TRANSPORTES PROTEÇÃO / RECUPERAÇÃO PATRIMÔNIO HISTÓRICO AEROPORTO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL
como intuito tornar viável “manobras de aeronaves de maior porte e, consequentemente, a operação de voos internacionais”. A infraestrutura básica e turística são elementos indispensáveis para dotar o espaço geográfico de função turística.
No componente Desenvolvimento Institucional foram realizadas ações para o Fortalecimento Institucional nos seguintes órgãos: Administração Estadual do Meio Ambiente (ADEMA), Empresa Sergipana de Turismo (EMSETUR) e Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO). Deve-se destacar no componente Desenvolvimento Institucional, a elaboração do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) do litoral Sul, o recadastramento imobiliário no município da Barra dos Coqueiros e o Planejamento Estratégico de Turismo no Polo Costa dos Coqueirais.
Os efeitos do PRODETUR I no (re)ordenamento territorial turístico do litoral sergipano se manifestam basicamente na conjugação do saneamento com o setor de transporte/aeroporto, seja na melhoria das condições sanitárias, seja em função da ampliação do aeroporto de Aracaju e do asfaltamento de rodovias costeiras. Cria-se assim uma nova lógica de ordenamento do território onde o turismo ocupa um lugar de destaque e impulsiona o crescimento da segunda residência.
Silva (2012), baseado no PDITS (2005), destaca que os investimentos significaram no período entre 1995 e 2000 o aumento de 30% de turistas, o crescimento 37% de no fluxo aéreo e o incremento de 47% de estabelecimento ligados a hospedagem. Já entre os anos de 2000 e 2005 os turistas aumentaram em 50%, o fluxo aéreo cresceu 39% e a quantidade de estabelecimentos de hospedagem foi incrementada em 30%. É válido mencionar que entre a década de 1990 e o início do século XXI a segunda residência no litoral sergipano cresceu mais de 50%, em outras palavras, mais que a hotelaria convencional.
A avaliação do PRODETUR/NE I foi publicada no PDTIS Polo Costa dos Coqueirais (2002). O PDTIS além da avaliação do PRODETUR/NE I, apresenta o diagnóstico do Polo Costa dos Coqueirais, as Estratégias de Desenvolvimento Turístico, um Plano de Ação, Quadros Prospectivos e Análise de impactos. As ações a serem completadas e complementadas foram planejadas para o PRODETUR/NE II. No entanto, o PRODETUR/NE II em Sergipe “não foi deflagrado porque ‘o Estado não tinha condições de receber recursos externo, por problemas de certidões e questões fiscais com a União’, segundo afirmação do atual diretor-presidente da EMSETUR” (SANTOS, 2009, p. 143). Ribeiro, Andrade e Pereira (2013, p. 976) reforçam que “problemas de ordem fiscal e o não cumprimento de condições estipuladas no Regulamento Operacional afastaram o estado do PRODETUR NE II”.
Apesar não fazer parte do PRODETUR/NE II (2006-2012), o Estado de Sergipe e as prefeituras dos municípios Polo Costa dos Coqueirais firmaram diversos convênios com o Ministério do Turismo (MTur). Os investimentos realizados abrangeram principalmente a elaboração de planos diretores municipais, PDITS municipais e apoio a infraestrutura turística. Em 2012, a União começa a investir na implantação do PRODETUR Nacional em Sergipe com diversos convênios. Segundo Ribeiro, Andrade e Pereira (2013), no PRODETUR Nacional em Sergipe planeja-se investir aproximadamente US$ 100 milhões em cinco componentes (Tabela 3.2). O contrato entre o BID e o Estado de Sergipe foi assinado em dezembro de 2013 e o início do programa está previsto para 201436.
Tabela 3.2: Investimentos planejado no PRODETUR Nacional por componente
Fonte: Ribeiro, Andrade e Pereira, 2013
O litoral sergipano reestrutura-se a partir desses investimentos no turismo. Observa-se que nesse contexto que o movimento de aluguel, venda e compra de segunda residência se torna cada vez maior. Essa reorganização do território se estabelece em um espaço preexistente e modifica esse espaço com o desenho do território do turismo, da casa de praia tradicional, do imobiliário-turístico, entre outros. A acelerada urbanização dispersa por segunda residência que o litoral sergipano vivencia provoca repercussões territoriais diversas tanto de cooperação entre os moradores permanentes quanto de conflitos de diferentes naturezas.